Templo das Bacantes Vol. 2

41 A luz do cabaré já se apagou em mim.


Notas iniciais
Queridos leitores, hoje temos mais um desfecho desse fatídico ataque ao Templo de Baco. E o capítulo de hoje tem todo um toque especial por coincidentemente ser Dia dos Pais! Então, sigamos e boa leitura a todos. ATENÇÃO - Aviso a pessoas sensíveis: - capítulo contém conteúdo pesado. Arte da capa por Rosenrot (nossa nessa a danada ARRASOU )

Centro de Atenas, 23:10pm

Em um piscar de olhos Gêmeos invadiu afoito o Hospital de Atenas pela porta de entrada da ala de emergência. Olhou em volta tentando buscar qualquer rosto conhecido ou alguém a quem pedir informações sobre o estado de saúde da esposa e de seus bebês, mas tudo que via eram faces assustadas que miravam olhos curiosos para sua figura, afinal não era todo dia que se via um homem de seu porte invadir um local público trajando uma armadura de ouro puro, cujo brilho lhes obrigada a contrair as pálpebras.

Saga buscava pelo Cosmo da amada com o seu, mas não conseguiu senti-la em parte alguma e isso o deixou ainda mais atordoado e temeroso.

— Geisty, cadê você? Geisty! — chamava pelo nome da amazona em um sussurro, enquanto caminhava a passos acelerados e sem rumo certo pelo saguão, fazendo dançar no ar a capa branca carcomida e suja.

Assim que avistou o balcão da recepção correu até ele, se debruçou e falou em voz alta, atraindo a atenção de todos os funcionários que estavam próximos:

— Onde está a amazona grávida que deu entrada agora há pouco?

— Boa noite senhor, queira aguardar um momento, por favor. — respondeu a recepcionista, uma jovem de rosto gentil, cabelos cacheados em tom castanho e olhos cor de mel, que só não estranhou o fato daquele homem estar trajando uma imponente e um tanto esdrúxula armadura dourada porque ele era o terceiro homem que ela vira com trajes parecidos naquela noite.

— Aguardar? Eu não tenho tempo para aguardar! Eu quero notícias da amazona que deu entrada, agora! — disse o geminiano elevando o tom de voz.

— Senhor eu sinto muito, mas não tenho como lhe dar informações sobre o estado de saúde da paciente em questão, e...

Irritado o geminiano interrompeu a jovem.

— Como assim você não tem como me dar informação? Você sabe com quem está falando? Eu quero saber do estado da minha mulher e dos meus filhos, PORRA! — disse quase aos gritos e deu um soco ruidoso no balcão — A equipe do doutor Hermes foi acionada, não foi? Eu quero falar com o médico que o está substituindo, o... — fez um gesto afoito com a mão.

— Por favor senhor, se acalme, isso é um hospital! — pediu a recepcionista — O doutor Hector, o senhor quer dizer.

— Isso, esse mesmo.

— Doutor Hector está no meio de um procedimento, mas eu vou acompanha-lo até a Ala 5, onde ficam as dependências restritas à equipe do Doutor Hermes, e lá vou ver se alguém já pode dar notícias de sua esposa. — disse a atendente já arrastando a cadeira para trás para depois se levantar — Queira me acompanhar, por favor.

Sem mais paciência para ouvir as justificativas da funcionária, e sentindo seu coração ser oprimido pela angustia de não conseguir sentir o Cosmo da amada, Saga tomou o rumo das dependências do hospital acompanhado pela garota que temerosa se agarrava a uma prancheta.

— Onde ela está? Onde está a Geisty? Eu quero vê-la. — perguntava o Cavaleiro que olhava desnorteado para todos os lados enquanto avançava a passos decididos.

— Ela está na Ala 5, senhor. — repetiu a moça.

— E como ela está? — Gêmeos perguntava em voz alta, alterada, chamando a atenção de alguns seguranças que faziam a guarda de um longo corredor.

— Eu não sei lhe informar, senhor. — disse a moça — Por favor, peço que aguarde na sala de espera virando à direita enquanto eu vou chamar alguém da equipe do doutor Hermes.

— Aguardar? Não, eu vou entrar aí. Eu preciso ver minha mulher. Será que é pedir demais? — disse Saga já projetando o corpo para dentro do corredor quando foi interrompido pelos seguranças, que se colocaram em sua frente impedindo a passagem.

— Senhor, mantenha-se calmo por favor, isto é um hospital. Não pode avançar pelas dependências sem autorização. Vou pedir para que aguarde o médico responsável na sala de espera. — disse um dos homenzarrões, apesar de estar totalmente consciente de que tentar segurar aquele homem seria uma tarefa impossível caso fosse necessário.

— Eu não vou manter porra de calma nenhuma! — disse ao se livrar das mãos dos dois seguranças que o espalmavam pelo peito, e agora falava a plenos pulmões — Eu não preciso de calma, e eu também não preciso de autorização para entrar nessa merda, porque eu sou o Grande Mestre! O que eu preciso é de notícias da minha mulher e dos meus filhos, e vocês simplesmente se negam a me fornecer. Como eles estão? É isso que eu preciso saber.

— Por favor senhor, entenda, a equipe está atendendo a dois procedimentos de emergência. Precisa esperar até que eu consiga que alguém venha lhe dar notícias. — a recepcionista tentava amenizar a situação mesmo temerosa da reação do Cavaleiro.

— Caralho! O que está acontecendo afinal de contas nesse pedaço amaldiçoado do Cocito que não podem nem me dizer o que aconteceu com minha mulher? Não podem me dizer se ela está bem? O Que houve com ela e os bebês, afinal? Diga! — Gêmeos dizia descontrolado e gesticulava de forma afoita.

No peito sentia o coração acelerar cada vez mais, e a cabeça lhe latejava incômoda e constante.

Do lado de fora do corredor que dava acesso à Ala 5, uma área restrita do antigo Hospital de Atenas construída há séculos para atender exclusivamente aos cavaleiros de Atena em exclusivas situações de emergência, em um pequeno jardim iluminado pela luz do luar que passava através da claraboia, encostado à parede Máscara da Morte tragava um cigarro quando foi tirado de seu momento de fuga de todo aquele furacão de acontecimentos pela voz potente do geminiano.

— Porca miséria, ma che o chefe chegou... — resmungou o canceriano que rapidamente dispensou o cigarro no chão o apagando com um pisão.

O italiano então caminhou apressado para o corredor da emergência da Ala 5, pois se bem conhecia Gêmeos em momentos como aquele de estresse, especialmente nos quais a amazona de Serpente estivesse envolvida, ele simplesmente perdia o controle da situação e de si próprio, portanto não era prudente deixa-lo sozinho.

Dito e feito.

Quando adentrou o corredor viu ao longe Saga tentando acessar a área restrita enquanto arrastava junto de si os dois seguranças que inutilmente tentavam contê-lo:

— Eu vou ter que pôr essa porra desse hospital abaixo para conseguir ver a minha mulher? Me deixem entrar aí! — vociferava o grego.

Máscara da Morte rapidamente se infiltrou no meio deles e com o seu típico modo exagerado de falar foi logo afastando os seguranças do cavaleiro.

— Solta! Solta o uomo, caspita! — dizia enquanto agarrava de modo nada brando os homens pelas mangas dos ternos e os empurrava para longe — Deixa que eu resolvo isso, va bene!

Temerosos, porém aliviados que outro cavaleiro apareceu ali para conter o grego, os dois seguranças se afastaram, já que era visível que seria inútil tentarem qualquer manobra contra ele.

Assim que o geminiano assimilou a presença do italiano não se conteve, e surpreso em vê-lo ali o agarrou pela parte superior da armadura e com um tranco o sacudiu raivoso trazendo-o para perto de si.

— Máscara da Morte! — disse Saga entredentes, com o rosto contorcido em ira bem próximo ao do outro — O que aconteceu na porra do Templo de Baco?

— Os russos invadiram o puteiro e estouraram tudo por lá. — respondeu em reflexo, no mesmo tom que o chefe o havia perguntado, aos berros.

Gêmeos respirou fundo e ruidosamente pelas narinas, bufando feito um animal raivoso.

— Seu incompetente! — rosnou praticamente as palavras enquanto seu coração apertava dentro do peito. Simplesmente não podia acreditar no que ouvia — Como deixou isso acontecer? Como não conseguiu conter um bando de russos de merda? Por acaso eles vieram com o próprio Hades em pessoa?

Nesse momento Shaka, que fora teleportado por Mu para a entrada do hospital, já havia sentido os Cosmos de Saga e Máscara da Morte, e guiado por eles atravessou correndo o saguão da recepção, já se encaminhando para o corredor de acesso à Ala 5. Um grupo de seguranças, alguns enfermeiros que transitavam pelas imediações e dois recepcionistas vinham a seu encalço gritando, chamando sua atenção e criando um princípio de tumulto, mas eis que Shaka desapareceu diante de seus olhos quando chegou às catracas do controle de segurança, terminando com a perseguição ali mesmo e deixando para trás uma dúzia de rostos confusos e assustados.

No instante seguinte Virgem surgia no mesmo corredor onde estavam Gêmeos e Câncer, atracados um ao outro.

Agarrado aos vãos entre os encaixes do peito e ombreiras da armadura de Câncer, Saga sacudia aos berros seu portador, enquanto Máscara da Morte o encarava firme.

— Foi uma emboscada! — dizia o canceriano — Os farabutti tinham um cazzo de uma estratégia... eram muitos... conheciam nossa rotina, conheciam a casa... tinham armas...

— ARMAS? — esbravejou Saga — Eles são malditos civis, seu imprestável! Seu segurança de merda! — berrou aos perdigotos.

Shaka interveio de imediato, e diante do destempero do geminiano, e em se tratando de Máscara da Morte ali, sabia que de nada adiantaria pedir com educação para que mantivessem a compostura, por isso chegou por trás do italiano e lhe deu uma pancada fraca na parte de trás dos joelhos usando um dos pés. Quando Câncer perdeu o equilíbrio e ameaçou cair, Shaka rapidamente se colocou ao lado de Saga, projetou ambos os braços por debaixo dos dele e também lhe deu uma leve pancada, nos cotovelos, imprimindo força de baixo para cima a fim de obrigar Gêmeos a soltar a armadura de Câncer em virtude da pressão exercida em seus cotovelos.

A ação foi muito rápida, e antes mesmo de o canceriano afastar as pernas impedindo sua queda e o geminiano começar a protestar, Virgem já havia se colocado entre os dois espalmando uma das mãos no peito de cada armadura dourada, os separando.

— Por Buda, agora não é hora para isso! Vocês estão dentro de um hospital! — disse o indiano em tom moderado de voz, ora olhando para Máscara da Morte, ora para Saga — Se não podem conter o ímpeto de se comportarem como dois selvagens, então vão para o lado de fora! — tentou manter o tom, mas ele mesmo estava com os nervos à flor da pele.

Ambos olharam para o virginiano calados, ofegantes de raiva, medo, apreensão... mas, não puderam negar que ele tinha razão, por isso recuaram um passo aceitando a trégua.

Io sei que eram só civis, mas... foi tudo muito rápido. — disse por fim o Cavaleiro de Câncer — Como disse... eles tinham uma estratégia traçada, se infiltraram, nos estudaram muito bem, vai saber desde quando... Conseguiram ferir o Afrodite...

— O quê? — Saga arregalou os olhos jades surpreso, e a seu lado Shaka voltou sua atenção totalmente ao canceriano.

Io ainda não sei como, mas fizeram um belo estrago nele. Por isso estou aqui. Io trouxe Afrodite para cá.

O rosto de Saga de repente ficou lívido de preocupação.

— Afrodite está aqui também? Não é possível que isto esteja acontecendo... Como assim eles o feriram? Civis simplesmente não ferem Cavaleiros de Ouro!

Ma io to dizendo que eles tinham uma estratégia, que nos estudaram, caspita! — repetiu eloquente Máscara da Morte — Abriram um buraco na barriga do Afrodite, va benne? E pelo tanto de sangue que saia dele deve estar todo rasgado por dentro.

— Como é que é? — Gêmeos olhava indignado para o italiano, com o cenho franzido.

Ao lado dele Shaka parecia em choque. Aquilo tudo era tão inacreditável e perturbador que de repente todas as dores de seu corpo, as quais trazia consigo desde que voltara do México, desapareceram. Era sua mente agora a mais castigada.

— A coisa foi séria, chefe. — pontuou o canceriano — O salão do teu puteiro está parecendo a sala de estar do farabutto do Hades, cheio de corpos pelo chão, sangue... Ma te garanto que dos russos não saiu nenhum vivo. Estão tudo lá decorando o assoalho do Templo das Bacantes, os figlio de una cagna sarnenta... Mal posso esperar para pregar as cabeças desses disgraziati na casa mia!

Saga ficou alguns poucos minutos o encarando, ainda incrédulo, enquanto respirava ruidosamente como uma fera raivosa, mas não conseguia afastar a pergunta que martelava em sua mente desde que voltara do México.

— E a Geisty? Por que ela veio parar aqui? O que aconteceu com ela? Ela foi... ela foi ferida também?

Io non sei, chefe. Non posso dizer porque foi Aldebaran quem a trouxe para cá, mas... — dizia Máscara da Morte quando o grego o interrompeu.

— Ah, mas isso não me surpreende, Máscara da Morte. — Saga levantou a voz enquanto esfregava a testa com uma das mãos, incomodado com a dor de cabeça que se intensificava a cada minuto — Você ser capaz de dar uma informação completa seria um verdadeiro milagre de Atena!

Ma vai ficar me interrompendo ou vai me deixar falar? — reclamou o italiano, então foi a vez de Shaka sinalizar para que ele mantivesse a compostura ou os ânimos poderiam se inflamar ainda mais diante do estado de nervos de todos, principalmente o do Grande Mestre — Como io ia dizendo, os russos invadiram a porra toda, subiram para o segundo andar e pelo pouco que vi entraram no quarto dela e mandaram bala lá dentro...

— O QUÊ? — gritou Gêmeos o interrompendo novamente — Seu filho da puta! Como você deixou esses desgraçados chegarem perto da minha mulher grávida? Como? Onde você estava que não impediu isso?

Io non vi eles subirem, porco cane! Essa foi a hora que io deveria estar no estacionamento mandando mais um tanto de corno para o inferno.

Saga tinha o olhar assustado e os olhos fixo a um ponto qualquer na parede branca do corredor. Respirava acelerado, com o rosto rubro e quente de tensão enquanto repetia para si mesmo:

— Ela não foi ferida, não pode... ela é uma amazona, armas de fogo são inúteis contra ela. — esfregava freneticamente uma das têmporas.

— Única coisa que Aldebaran me disse antes de voltar ao Templo de Baco é que parece que ela non foi baleada, mas que tinha algum problema com os bambini. — disse Câncer.

Nessa hora Saga o encarou, e Shaka abriu os olhos em espanto.

— O que disse? Geisty está tendo um problema com os bebês? — perguntou aflito Shaka.

— Os... meus filhos? — perguntou Saga com a voz trêmula.

— Parece que sim... Touro disse que ela estava se queixando de dor, sangrando muito, e que temia pelos bambini.

— Deuses, não! Isso não pode estar acontecendo! — murmurou o geminiano agora pousando ambas as mãos nas têmporas as comprimindo com força — Não pode estar acontecendo... — correu os dedos até a nuca onde os entrelaçou imprimindo força, e de cabeça baixa fechou os olhos apertando as pálpebras. Sua cabeça doía alucinadamente, como se fosse prensada por uma morsa, mas ele lutava para tentar manter a razão como podia. Respirou fundo e ruidosamente soltando o ar pela boca num esforço colossal, já que seu coração batia tão acelerado dentro do peito que sentia como se ele fosse explodir a qualquer momento.

Com aquela confusão entre os três cavaleiros, a recepcionista tinha conseguido adentrar a Ala 5 e de lá voltar com doutor Hector, um dos cirurgiões que compunham a extraordinária equipe de socorristas e cientistas erguida por doutor Hermes, que infelizmente estava afastado há três anos após pedir licença para tratar de um câncer. Hector ficara em seu lugar chefiando a equipe, mas apesar de ser muito recomendado por Hermes poucos cavaleiros o conheciam.

— Boa noite, senhores. — disse o médico acercando-se deles com o rosto visivelmente cansado — Eu sou Hector, chefe da equipe do doutor Hermes e responsável pela equipe médica de cuidados e suporte dos pacientes que residem no Santuário.

Imediatamente Saga voltou-se para ele encarando seu rosto com nítida preocupação.

— Minha mulher! Onde está Geisty? — perguntou o geminiano em desespero.

— Você é o marido da amazona grávida? — o médico perguntou sério.

— Sim. Ela e os bebês estão bem, não estão? Deixe-me vê-los! — pediu Gêmeos.

— E o senhor é o Grande Mestre do Santuário, não é mesmo? Senhor Saga, eu suponho.

— Exato.

— Muito bem, Grande Mestre. Eu sei que está aflito, mas preciso que mantenha a calma.

— Como pode me pedir para manter a calma? — retrucou o geminiano nervoso.

— Saga, por Buda, deixe ele falar. — pediu Shaka ao lado dele, que apesar de igualmente aflito ansiava por saber o que estava acontecendo com Geisty e seus bebês, pois uma angustia crescente assolava seu espírito a cada minuto decorrido ali.

Doutor Hector correu os olhos pelas três figuras a sua frente, respirou fundo e continuou:

— Eu preciso ser breve. Minha equipe está trabalhando para tentar manter os pacientes estáveis, já que a situação de ambos é bem delicada.

— Delicada? — perguntou Gêmeos com a voz trêmula e temeroso pelas notícias que o aguardavam.

— Exato. Estamos com dois casos bem complexos no momento. — o médico tentava passar o máximo de tranquilidade em sua fala mesmo que o momento fosse de imensa preocupação — O primeiro paciente a dar entrada, o Cavaleiro de Peixes, apresenta um ferimento profundo na região abdominal com significativa hemorragia.

— Atena! — exclamou o Patriarca, enquanto Shaka e Máscara da Morte a seu lado prestavam atenção nas palavras do médico.

— Estamos encontrando dificuldade em conter o sangramento e também em manipular o paciente, já que sua toxicidade é muito maior do que esperávamos, e também do que é reportado nos nossos relatórios. Apesar de termos uma sala de cirurgia especialmente equipada para manipulação e contenção de matéria tóxica, e de nossa equipe toda fazer uso de equipamento de segurança, não constava na ficha técnica dele que seu sangue seria venenoso.

— Mas não é! — disse Saga surpreso e confuso — o sangue de Afrodite não é venenoso.

— Bom, não é o quadro que encontramos. O sangue de Afrodite está altamente tóxico. Tanto que os cirurgiões de nossa equipe apresentaram vômito, náuseas e alguns até princípio de asfixia ao manipular o paciente. Como ele perdeu muito sangue tememos que entrasse em choque Hipovolêmico, por isso tentamos uma transfusão sanguínea, mas no mesmo instante a toxina na circulação dele coagulou o sangue do doador. — o médico apertou os lábios apreensivo — Não sabemos exatamente como reverter essa situação tão singular e delicada, por isso por enquanto fizemos suturas emergenciais e aplicamos compressas para tentar abrandar o fluxo da hemorragia. Para manter o volume de líquido circulante e evitar o choque hipovolêmico estamos administrando fluído terapia com coloides. A questão é que essas são medidas paliativas, que não resolvem o problema... Estamos conseguindo mantê-lo vivo e relativamente estável, mas não sabemos dizer por quanto tempo.

— Por... Atena! — exclamou Saga cobrindo a boca com uma das mãos.

— Uma amostra do sangue de Afrodite já foi encaminhada para análise laboratorial, porém um resultado preciso só sai em duas horas. — disse Hector — No momento ele está entubado e em coma profundo. Seu quadro é muito grave. Se não conseguirmos opera-lo para suturar todos os órgãos lesionados de maneira adequada, e também repor todo o sangue que perdeu, infelizmente não posso descartar o risco de morte por choque Hipovolêmico, ou seja perda exacerbada de líquidos circulantes.

Madonna mia! — exclamou Máscara da Morte levando uma das mãos à testa — Ma Afrodite consegue acelerar o processo de regeneração usando o Cosmo! Era para ele fechar sozinho essas feridas aí. Ma che succede?

— Infelizmente ele já chegou aqui inconsciente, e enquanto o encaminhávamos para o centro cirúrgico ele teve uma convulsão. Devido à isso ele pode não ter conseguido ativar seu Cosmo. Seu quadro, que já era delicado, se agravou ainda mais.

— Vocês verificaram se não restou nenhum fragmento do objeto que o perfurou no corpo dele? Por que ele deveria conseguir se recuperar através do Cosmo mesmo que inconsciente, só que mais lentamente. — perguntou Shaka.

— Sim, verificamos. Fizemos até um raio-x do abdômen. Não há nenhum corpo estranho no local da lesão. — disse Hector, que depois fez uma pausa para tomar fôlego e avaliar, de forma rápida, o estado de tensão do Patriarca, já que teria que ter cuidado com as palavras que usaria para lhe dar notícias da esposa — Bem... estamos nos empenhando ao máximo para salvar a vida dele, mas eu precisei deixar o centro cirúrgico para me juntar à outra equipe que está no atendimento da amazona grávida, sua esposa.

Saga engoliu em seco.

— O que aconteceu com a Geisty, doutor? Por Atena, me diga. — perguntou o grego apreensivo.

— Ela chegou aqui com escoriações leves, principalmente nos membros inferiores e em especial nos pés. Não há nenhuma lesão grave aparente, no entanto seu estado inspirou atenção imediata devido ao sangramento vaginal em grande fluxo, perda de líquido aminiótico e às queixas de dor aguda no ventre. — disse o médico.

Nesse momento Saga prendeu a respiração e seu corpo todo se retesou em reflexo àquela notícia nefasta. Seu olhar aflito, que começava a se marejar, fez a pergunta que os lábios não tiveram coragem de pronunciar, e esta prontamente foi respondida pelo médico, que pareceu ler sua fisionomia.

— Depois de um exame clínico rápido confirmamos que ela estava com a pressão muito alta, o que configura um quadro de pré-eclâmpsia, condição extremamente perigosa para uma gestante, por isso os primeiros socorros foram todos voltados para reverter esse quadro.

— Pré-eclâmpsia? — Gêmeos apenas conseguiu repetir com um fio de voz o que para si pareceu ser absurdo e doloroso demais para aceitar, enquanto corria os dedos gelados entre os fios azuis dos cabelos que lhe brotavam da testa suada.

Sabia do que se tratava a condição que a esposa apresentava, já havia lido uma das várias matérias sobre o assunto nas diversas revistas sobre maternidade que comprava frequentemente para Geisty, por isso sabia o quão grave era a situação da esposa. Pressão alta na gravidez era um dos maiores medos tanto das mães quanto dos pais, pois um pico de pressão poderia levar a gestante a um quadro de convulsões que pode evoluir rapidamente para outros acometimentos, como falência de órgãos, insuficiência renal, pneumonia por aspiração, parada cardiorrespiratória, e até derrame cerebral.

A principal medida era a prevenção, por isso mesmo durante toda a gestação de Geisty ambos presaram por hábitos alimentares regrados, rotinas de exercícios leves que faziam juntos pela manhã no Templo de Gêmeos, descansos satisfatórios, além das vitaminas prescritas por doutor Ulisses seguida à risca.

Tanto cuidado para justamente não acontecer nada do que estava acontecendo, no entanto...

— Mas... isso é... absurdo é... digo, ela estava tão bem... Como isso é possível? — disse Saga incrédulo — Será que ela foi envenenada ou drogada por aqueles russos malditos?

— Não tivemos tempo para fazer um exame toxicológico mais preciso, pois como sabe a Ala 5 atende somente emergências. Porém, os exames preliminares feitos pelos nossos socorristas não apontaram indícios de envenenamento ou toxidade. Acredito que foi mesmo o abalo emocional que ela sofreu que tenha desencadeado esse mal súbito. — disse o médico — Os exames pré-natais dela estão normais? Alguma indicação de pressão alta ou outra ocorrência?

— N-Não... Está tudo perfeitamente normal... — disse muito nervoso o geminiano — Pelos deuses... Geisty... Mas, os bebês e ela já estão fora de perigo? Você disse que ela está perdendo líquido amniótico? A bolsa dela então se rompeu?

— Sim. — disse Hector o encarando com firmeza — Grande Mestre, preciso que seja paciente e que mantenha a calma. O cirurgião obstetra de nossa equipe já chegou ao hospital e foi encaminhado para a sala de cirurgia, assim como um pediatra altamente capacitado, doutor Adonis. Nós optamos por sedar a paciente e fazer um parto cesariano emergencial. Eu fui informado agora que eles já estão a postos no centro cirúrgico e preciso ir para lá.

— Não! Ainda está cedo para os bebês nascerem! — disse Saga entrando em desespero.

Oddio! Ma che dici! — quase gritou Máscara da Morte, assustando a recepcionista que estava ao lado do médico.

Shaka a essa altura tinha os dois olhos arregalados e encarava o rosto do cirurgião como quem olha para uma aparição fantasmagórica.

— Doutor, pelos deuses, falta o quê?... Um mês ou um pouco mais para o prazo mínimo recomendado para o parto de gêmeos... Os nossos bebês ainda não podem nascer, são muito prematuros. — disse o geminiano.

— Nós estamos cientes disso, e a nossa conduta nestes casos é de sempre optar por manter o bebê o máximo de tempo possível dentro da mãe... Mas ela entrou em trabalho de parto, que pode ter sido provocado pelo trauma, visto que o estado emocional da paciente contribuiu muito para isso, já que não conseguimos reverter o quadro de pré-eclâmpsia, mas também por alguma outra condição ainda desconhecida. Infelizmente a única opção que nos resta é a cesariana, ou corremos o risco de perder os três.

Desesperado e respirando pesadamente enquanto coçava o couro cabeludo em aflição, Saga andava em círculos diante do médico, que vendo seu estado fez sinal para que a recepcionista chamasse um dos enfermeiros.

— Eu vou pedir para que lhe tragam um calmante fraco, apenas para... — dizia o médico quando foi interrompido por Gêmeos, que interrompeu os passos frenéticos e o encarou aflito.

— Não! Eu não quero porra de calmante nenhum! E por todos os deuses do Olimpo, não diga uma coisa dessas! Eles estão dentro de um hospital bem equipado e com uma equipe qualificada, eu não admito perde-los. Não admito! Você e sua equipe médica têm a obrigação de mantê-los vivos, custe o que custar, está me ouvindo? — encostou o dedo indicador no peito do médico impondo uma leve pressão, e sua mão tremia vigorosamente — Eu não posso, e não vou, perder a minha família! NÃO VOU! Você entendeu bem? — disse o Patriarca do Santuário de Atena visivelmente descontrolado.

Diante daquele cenário Shaka imediatamente agiu novamente.

Devagar levou a mão ao punho do cavaleiro, o segurou com suavidade e olhando fixamente em seus olhos o fez baixar o braço e se afastar do médico recuando alguns passos.

— Saga, controle-se. Não é hora para ameaças. — disse Virgem divisando o rosto aflito do grego, depois seus olhos desviaram para Hector o encarando firmes — Vá fazer o seu trabalho, doutor. E por tudo que considera mais sagrado em sua vida, faça o possível e o impossível para salvar os três, a mãe e também os bebês.

O médico respirou fundo e fez um sinal afirmativo com a cabeça, já se afastando para retomar o corredor que dava acesso à Ala 5.

— Eu vou mantê-los informados. — disse Hector, depois olhou para o Grande Mestre quando este o segurou pelo braço o impedindo de avançar.

— Eu sou o marido dela e pai dos bebês. Não posso assistir ao parto? — perguntou receoso encarando os olhos castanhos do médico, os quais se escondiam por detrás de grossas lentes.

— Se o senhor conseguir manter a calma eu creio que sim, que pode assistir ao parto na sala de cirurgia. Obviamente não poderá entrar trajando sua armadura e terá que vestir um pijama cirúrgico. — ponderou enquanto o geminiano acenava positivamente com a cabeça — Porém o alerto que se trata de um procedimento delicado e de risco, o senhor tem que estar ciente disso e não pode interferir em momento algum. E caso ocorra algum imprevisto precisará se retirar de dentro da sala. De acordo?

— Sim, claro. — disse Saga acenando a cabeça em afirmação, mesmo que um tanto atordoado com a enxurrada de informações que recebia — Então vamos logo, doutor. Não vamos mais perder tempo aqui... Shaka? — chamou olhando para o lado, para o rosto do virginiano que parecia um tanto desatento — Ei, Shaka!

Como se fosse desperto de um transe Virgem piscou os olhos e olhou para Gêmeos, e seu olhar naquele instante era tão profundo e alarmado que chamou a atenção do grego.

— Está tudo bem, Shaka? — perguntou o Patriarca.

— Sim... — o loiro fez uma breve pausa — Está tudo bem, Saga.

— Então anda! Vamos! Nada mais justo o padrinho ser o primeiro a conhecer os afilhados, não é mesmo? — disse o geminiano, que apesar de apreensivo e extremamente aflito agora sentia a euforia dos pais de primeira viagem que estão prestes a pegar os filhos nos braços — Ele pode ir, não pode, doutor?

— Pode, mas terá que aguardar do lado de fora do centro cirúrgico. — respondeu Hector já tomando a frente, encaminhando-se apressado para o corredor.

— Ótimo! E você, Câncer, fique exatamente aqui. — disse Saga antes tomar o rumo do corredor seguindo o médico.

Ma io non pretendia ir a lugar nenhum mesmo. — Máscara da Morte deu de ombros, e depois que os cavaleiros e o médico o deixaram sozinho regressou ao jardim do lado de fora onde acendeu um cigarro. A ele só restava esperar por notícias de Geisty e Afrodite e torcer para que tudo corresse o melhor possível.

***

Depois de atravessarem o extenso corredor chegaram à porta que dava acesso a Ala 5, um setor de uso exclusivo naquele hospital para a equipe montada por doutor Hermes, e agora chefiada por doutor Hector. Não era grande, compreendia seis centros cirúrgicos e doze leitos, porém tinha sido totalmente equipada com tudo de mais moderno em alta tecnologia voltada à medicina que se tinha conhecimento, além de ser perfeitamente adaptada às necessidades peculiares de seus extraordinários pacientes. Contudo, não havia uma maternidade, tampouco uma equipe de ginecologistas ou obstetras, resultado ainda da administração patriarcal e machista que imperava por séculos no Santuário. Por isso, duas incubadoras e todo o aparato necessário para o atendimento dos bebês tinham sido trazidas da maternidade do Hospital de Atenas, da parte civil.

Não muitos passos da porta de entrada Hector e os dois cavaleiros seguiram por outro corredor à esquerda até chegarem a uma antessala branca e fortemente iluminada por luzes embutidas no teto. Esta era totalmente vazia, não fosse por um bebedouro à direita, um grande tambor branco de lixo, um armário embutido na parede e três cadeiras da mesma cor que ficavam debaixo de uma grande janela vedada de vidro.

Ali, Doutor Hector deteve seus passos, foi até o armário onde pegou um Kit cirúrgico contendo pijama, avental, touca, propés estéreis e o entregou a Saga.

— Vista isso, prenda os cabelos por baixo da touca, proteja os sapatos com os propés e coloque a máscara. — entregou uma caixa de máscaras descartáveis a ele que também apanhou do armário, depois olhou para Shaka — Você pode aguardar aqui, enquanto ele seguirá comigo até a próxima sala onde será feita uma higienização. Ali também fica a entrada para o centro cirúrgico.

Shaka concordou com uma leve balançar de cabeça ao modo indiano.

— Certo, certo! Vamos logo com isso! Eu quero ver a minha mulher e conhecer os meus filhos! — disse Saga afoito, e dando alguns passos para trás concentrou sua Cosmo energia ordenando que a armadura de Gêmeos deixasse seu corpo. Esta então se montou ao seu lado, no chão, e em seguida ambos seguiram para a sala de higienização antes de entrarem no centro cirúrgico.

Sozinho ali, Shaka olhou através do vidro vendo uma movimentação frenética dentro do centro cirúrgico. Não conseguia ver Geisty, pois um biombo tampava parte do campo de visão, mas tinha plena consciência do que estava acontecendo, e era justamente isso que o afligia tanto.

— Buda isso não pode estar acontecendo! — disse para si mesmo ao se sentar em uma das cadeiras enfileiradas ali, apoiar os cotovelos nos joelhos e levar ambas as mãos ao rosto ferido. Respirava em haustos enquanto em sua mente as imagens das visões que tivera na noite anterior se repetiam e lhe massacravam — Eu não posso ter me engando tanto...

Enquanto isso, na saleta ao lado os preparativos para entrar na sala de cirurgia pareciam infindáveis para Saga. Nunca alguns poucos minutos se arrastaram tanto como aqueles para o coração sôfrego daquele marido e futuro pai.

Assim que finalmente foi avisado de que estavam prontos para entrar o geminiano acreditou que poderia respirar um pouco mais aliviado, já que finalmente iria ver a sua amada amazona que estava prestes a dar à luz a seus tão aguardados bebês.

Ledo engano.

Ao adentrar a sala tomou o primeiro choque de realidade.

Em meio aos tecidos azuis de demarcação estendidos sobre Geisty na maca cirúrgica, havia uma equipe extensa de médicos, por volta de doze profissionais, todos ansiosos e com suas atenções totalmente voltadas à paciente. Há alguns metros, no canto lateral, duas pequenas mesas iluminadas por grandes hastes com luzes potentes no topo comportavam um grande aparato cirúrgico.

Saga sentiu seu sangue gelar em pavor. O odor do iodo e álcool misturado ao ferroso de sangue invadia seu olfato e espantosamente parecia lhe atordoar ainda mais o emocional já tão desestabilizado.

Não queria acreditar que aquele cheiro de sangue vivo que lhe golpeava os sentidos com tanta força viesse de sua esposa.

Não.

Não podia acreditar que um momento tão aguardado por ambos estivesse se dando daquela maneira.

Angustiado olhou na direção da mesa de cirurgia buscando em meio a todo aquele tecido azul e aglomerado de médicos sua companheira, quando conseguiu ver um braço de pele pálida que era apertado por grossas correias presas a uma mesa de metal gélido e reluzente, então seu olhar afligido se fixou na mão de dedos finos e arroxeados armados de longas garras. Notou que ela tinha o pulso preso com firmeza pela correia. Franziu o cenho receoso.

Dentro de seu peito Gêmeos sentiu o coração temeroso ao ponto de ter refreado as suas batidas, e foi com pavor que correu os olhos traçando o caminho pelo braço estirado em forma de cruz até chegar ao corpo inerte amarrado pelas mesmas correias à mesa de cirurgia.

O rosto que tantas vezes o alegrara com seu sorriso cristalino agora estava parcialmente oculto pelo tubo orotraqueal e exibia uma inexpressão quase de morte.

Ao redor notou também que havia diversos aparelhos, todos conectados à jovem mulher inconsciente, e deles apitavam ruídos diversos, acordes incompreensíveis para si, mas que sabia que entoavam uma melodia de vida e de morte. Junto dos sinais sonoros erguia-se um agitar de vozes e o tilintar do metal dos instrumentos cirúrgicos.

Tudo ali parecia uma sinfonia nefasta, e em meio a ela estava Geisty. A pessoa que mais amava na sua vida amaldiçoada. A sua única luz num mar revolto de escuridão, o calor que lhe aquecia a alma e provia alegria à sua existência miserável, e nada podia fazer por ela, somente assistir e clamar aos deuses que desta vez o atendessem, pois não podia perder sua família. Não agora que a felicidade lhe apareceu tão próxima ao ponto de poder toca-la.

Sentiu vontade de gritar, de chorar, de explodir seu Cosmo ao infinito, mas apenas conseguia manter seu olhar vidrado e marejado na fragilidade da vida de sua amazona, que tinha seu corpo inerte sendo remexido pela ação dos médicos enquanto seguiam com o procedimento cirúrgico.

Mesmo tendo acabado de entrar ali os segundos se fizeram sufocantes, assim como todo aquele ambiente exageradamente iluminado, frio e de odor atordoante. Sentia suas forças, já bem desgastadas pela batalha no México, se esvaírem lentamente, mas lutava para se manter firme, acompanhando a tudo atento e estático próximo à porta onde entrara, enquanto doutor Hector seguia às pressas para juntar-se à equipe, até que de repente um alerta sonoro vindo de um dos aparelhos que monitoravam as funções vitais de Geisty mudou tudo.

Nesse exato momento o cirurgião obstetra ergueu a cabeça e olhou para o anestesista, depois para doutor Hector que acabara de se juntar a eles e finalmente para Saga no fundo da sala, o notando ali de imediato.

— O que ele faz aqui? — disse ele.

— É o marido dela, e pai das crianças. — Hector respondeu com a voz abafada pela máscara.

— Não, não, não! Tire ele daqui! Imediatamente! Ele não pode ficar aqui! — disse o obstetra, que havia parado de operar Geisty enquanto aguardava o anestesista concluir a aplicação de medicamento intravenoso nela.

— Mas eu pensei que... — Hector ia dizer alguma coisa justificando sua atitude de ter permitido que Saga entrasse na sala, mas ele mesmo se interrompeu e junto de mais três enfermeiros correu até o geminiano para retira-lo da sala.

Enquanto sem entender nada Gêmeos os via se aproximando de si também ouvia o ruído frenético do aparelho e já deduzia que aquilo não era bom sinal. Sentiu naquele momento as pernas trêmulas, e em sua cabeça parecia estar sustentando todo o peso do mundo.

O que se deu a seguir sucedeu-se de forma muito rápida.

Doutor Hector e os enfermeiros o pegaram pelos braços e o conduziram até a porta de saída. Saga dava passos confusos para trás enquanto seus olhos vidrados divisavam a agitação da equipe médica em volta de sua amazona inerte. Nem mesmo o Cosmo de Serpente ele conseguia sentir, quando de repente se viu já fora da sala, sozinho.

Súbito um estalido em sua mente o tirou daquela catatonia.

— GEISTY! — Saga gritou a plenos pulmões tomado pelo desespero fechando as mãos e esmurrando a porta que fora trancada pelo lado de dentro.

No entanto, em completo estado de negação, porém já prevendo aquela catástrofe, Shaka correu para a saleta de higienização a tempo de agarrar o geminiano pelas costas e puxá-lo para longe da porta.

— NÃO! ME SOLTE! EU QUERO FICAR COM ELA! — Gêmeos gritou enquanto se debatia nos braços do virginiano tentando se soltar. Nem mesmo conseguia ouvir a própria voz, que saia em um urro rouco e suplicante.

— SAGA! ACALME-SE! — gritou Shaka que usava toda a força física que dispunha naquele momento para tentar impedir o grego de avançar a passos débeis em direção à porta.

— Eu quero vê-la! Vocês não podem me impedir! Eu quero estar ao lado dela, ao lado dos meus filhos... GEISTYYY... Minha Geisty! ME SOLTE! ME SOLTE SHAKA! — ordenou aos berros agarrando os pulsos de Virgem com tanta força que o fez deixar escapar um gemido de dor. Tentava a todo custo livrar-se das mãos dele, que o impediam de avançar.

— Arhg...Você... não pode! — disse Shaka esforçando-se para afastá-lo da porta — Ouça, Saga! Você precisa se acalmar. Precisa deixá-los cuidar dela, lá dentro você só vai atrapalha-los.

— NÃO! Eu não posso deixa-la sozinha. Eu prometi que estaria ao lado dela... Eu prometi! — dizia o geminiano em desespero se entregando as lágrimas — ME SOLTE!

Com um movimento brusco, e usando a vantagem de ser mais alto e mais forte fisicamente, Saga tombou o corpo para trás e deu um golpe no queixo de Shaka com um dos ombros, conseguindo enfim se livrar das mãos dele, depois o empurrou para longe.

Virgem caiu sobre uma das lixeiras, mas no mesmo instante se levantou com um salto e avançou novamente contra o grego lhe dando uma rasteira para impedi-lo de chegar à porta. Gêmeos tombou para o lado apoiando-se na parede para não ir ao chão, e nessa hora o indiano, mais ágil que ele, rapidamente inverteu as posições e se colocou na frente da porta que dava acesso ao centro cirúrgico, impedindo sua passagem.

— Eu não vou deixar você passar. — disse Shaka tremendo e ofegante, lutando para conter a própria apreensão que lhe tomava de assalto naquele momento — Pelo bem de sua esposa e de seus filhos, você precisa manter a razão, Saga. Lá dentro você só vai piorar as coisas. São normas do hospital, você não pode agitar nem atrapalhar a equipe médica. Qualquer interrupção de sua parte pode ser fatal para sua família! — levou a mão à boca e limpou um tanto de sangue e secreção que se acumulava. Com o golpe do outro havia mordido o lábio inferior.

Com os olhos marejados e o rosto contorcido em agonia o Patriarca encarou em silêncio os olhos azuis de Virgem que o miravam com determinação. O fato de seu destempero ter ferido o indiano o deixou momentaneamente consternado. Não podia perder a cabeça, não naquela hora, mas simplesmente não conseguia conter o ímpeto e invadir aquela sala para segurar a mão de sua esposa naquela hora tão difícil.

Ao fundo ambos os cavaleiros podiam ouvir a agitação que vinha do outro lado da parede, as vozes frenéticas dos médicos e o som angustiante do doppler ao qual Geisty estava conectada a emitir alertas sonoros incompreensível para eles.

— Eu preciso saber o que está acontecendo... Eu preciso! — disse Gêmeos quase num sussurro — Os meus filhos vão nascer. Eu preciso vê-los.

Shaka queria lhe dizer que tudo ficaria bem, mas simplesmente não conseguia pôr em palavras o que seu coração angustiado não lhe dava certeza.

Então, de súbito o geminiano se recordou da estrutura daquele ambiente e da janela ampla de vidro que havia na saleta ao lado, que mesmo não dando um ângulo amplo de visão do interior talvez pudesse permitir-lhe ter uma noção do que se passava do lado de dentro, por isso correu para lá sem nada mais dizer.

— EI! SAGA! VOLTA AQUI! — gritou Shaka já partindo atrás dele.

Saga atravessou às pressas a outra porta voltando à antessala onde havia vestido o pijama cirúrgico. Lá se chocou com a janela e a ela se manteve agarrado, com o rosto colado junto ao vidro e as mãos espalmadas neste como se através dele pudesse tocar a esposa, mesmo que não conseguisse vê-la em meio aquele pesadelo real de equipamentos médicos, fios, aparelhagens cirúrgicas e todos aqueles homens e mulheres em volta vestidos de verde. Todos completamente focados e concentrados na paciente e seus bebês, e os olhos alucinados do marido aflito acompanhavam os movimentos de cada um deles, mas sempre tentando encontrar a mulher naquele caos, até que quando um dos instrumentadores correu para uma pia ao lado levando consigo um bolo de gaze suja de sangue ele conseguiu enfim ver uma parte do rosto da amada, parcialmente encoberto pelo tubo orotraqueal.

— Geisty! Minha Geisty... minha amazona... reaja!

Saga suplicou aos prantos, até que viu o mesmo instrumentador voltar, agora trazendo gaze limpa, e quando ela novamente saiu uma das enfermeiras também se afastou da mesa cirúrgica, e com ela um dos médicos.

Gêmeos os acompanhou com os olhos arregalados até um balcão próximo. Sua respiração ofegante embaçava o vidro, o qual ele levou a mão rapidamente para limpar a umidade, e quando focou a visão novamente viu a enfermeira entregar algo ao médico e retornar correndo à mesa cirúrgica.

Quando ela se afastou e seu campo de visão ficou mais nítido ele viu o médico deitar o pequenino bebê sobre o balcão para auscultar o diminuto peito com o estetoscópio.

— Meu... filho. — Gêmeos murmurou.

Agora tinha a certeza do que via.

Era seu filho ali. Seu amado filho, um de seus gêmeos, mas logo um grupo de enfermeiros veio juntar-se ao médico que prestava atendimento ao bebê tampando novamente sua visão, e quando pensou em protestar a enfermeira que os acompanhava surgiu à sua frente do outro lado do vidro como uma aparição fantasmagórica e fechou uma grossa cortina, ocultando a sala novamente.

— NÃO! NÃO! ABRE ESSA PORRA! É MEU FILHO! MEU FILHO! COMO ELE ESTÁ? ME DEIXEM VÊ-LO! — gritou. O pânico tomando conta de seu espírito, e impelido por ele fechou a mão pronto para golpear o vidro, mas eis que quando armava o golpe seu punho foi segurado no ar pela mão do Cavaleiro de Virgem, que o puxou para longe da janela com um tranco forte.

Shaka olhou para ele e em seu íntimo teve vontade de chorar. Na face de Saga estavam estampados todas as razões do desespero, o medo concreto de perder tudo que mais amava, a mulher, os filhos... Medo esse que Shaka tinha imaginado ser ele a sentir naquele dia depois da visão que tivera... estava enganado. Tinha interpretado os sinais errado.

Mesmo com o coração imerso em desalento os olhos do Santo de Virgem continuaram secos. Ofegante levou a outra mão ao ombro do geminiano o tocando suavemente.

— Não faça isso... Não... Não se perca. Não agora. — disse Shaka, perguntando-se o que afinal significava tudo aquilo, se o mau que viu assomar-se sobre todos não tinha sido encerrado definitivamente naquele Templo Mayor no México, mas estava solto e apenas começando.

O grego parou, balançou a cabeça ágil e finalmente se rendeu. O indiano estava certo, não havia mais nada a fazer, pois suas medidas desesperadas eram nocivas para todos ali, e tudo o que podia e devia fazer era manter o controle enquanto o tinha.

Dando alguns passos para trás encostou as costas na parede e escorregou o corpo até sentar-se no chão, apoiou os antebraços nos joelhos e tombou a cabeça para frente sobre eles. Exausto tentava conter a respiração pesada e o coração acelerado.

— Eles vão conseguir salva-los, não vão? — ergueu a cabeça inquirindo com a voz trêmula o virginiano — Pelos deuses, eles vão conseguir! Não tem porque não conseguirem, não é mesmo? Não é, Shaka? Me diga, por favor!

Com imenso empenho Shaka agachou-se à frente de Saga dobrando um dos joelhos, respirou fundo angustiado e balançou a cabeça com um gesto afirmativo.

— Eles vão. — respondeu amofinado, mas sentindo vontade de gritar, tamanha agonia que lhe corroía a alma.

— Você tem razão, tem toda a razão... Isso aqui é um caralho de um hospital, tem médicos especializados, tem recursos... Não tem o porquê não conseguirem... Eles vão conseguir... vai dar tudo certo... vai dar tudo certo... — dizia ofegante para si mesmo afundando a cabeça entre as próprias pernas.

Com uma angustia nefasta que só crescia a cada segundo dentro de seu peito o Santo de Virgem sentiu que precisava fazer algo para ajudar Gêmeos a enfrentar aquele caos, pois era visível que a tristeza e o medo devoravam lhe o espírito minando sua razão, que assim como seu físico já estava exausta.

— Ouça, Saga. O doutor Hector recomendou que tomasse um calmante, talvez seja melhor seguir a recomendação dele. Eu posso chamar uma enfermeira e...

— Eu não quero porra de calmante nenhum. — o Santo de Gêmeos respondeu com zanga empurrando o indiano — Não quero ficar dopado. Preciso estar sóbrio para poder estar com eles. — apontava o dedo para a janela do centro cirúrgico.

Shaka apoiou a mão no chão atrás de si, mas não conseguiu evitar de se desequilibrar e cair sentado, pois seu pulso, já muito castigado, o traiu sofrendo uma torção.

— Arhg! Mas que droga! — reclamou entre gemidos voltando a encarar os olhos do geminiano — Quem disse que é para ficar sedado? Era apenas para se manter calmo... — fez uma pausa, pois simplesmente não conseguia repreendê-lo com maior firmeza, já que a empatia e o afeto que sentia por aquele cavaleiro o fazia sofrer junto dele, pois só de pensar que se algo parecido acontecesse a Mu e Kiki ninguém o impediria de enlouquecer, somado a isso havia acompanhado a gravidez de Geisty de perto, era o padrinho daquelas crianças e já as amava antes mesmo de nascerem, os gêmeos seriam os amiguinhos de seu Kiki. Por isso, apoiou-se nos joelhos e novamente se colocou de frente para o grego — Está certo, mas ouça, Saga, precisa tentar manter a calma, e você... você precisa se manter aqui, você entendeu? Não vá embora! Você está entendendo o que estou dizendo não está, Saga?

Gêmeos balançava a cabeça em afirmação enquanto encarava o chão e mordia os lábios.

— Eu não ouvi o choro... Bebês choram ao nascer. Eu não ouvi o meu filho chorar. — parou de falar, porém seu queixo tremia pelo esforço em não se entregar ao pranto de vez, depois ergueu o olhar e novamente encarou o virginiano — Você o ouviu? Ouviu o meu filho chorar?

Diante do silêncio estático de Shaka, Saga abaixou mais uma vez o rosto voltando a mirar o chão. Levou as mãos à cabeça apertando com força o couro cabeludo com as pontas dos dedos, pois a dor alucinante que sentia cada vez mais intensa o estava enlouquecendo.

Nesse momento ambos foram surpreendidos por doutor Hector, que chegou ali trazendo no rosto um semblante soturno. Acompanhado dele vinha um jovem médico chamado Adonis, pediatra, e ele tinha no rosto bonito e gentil o mesmo véu de melancolia que encobria a face do chefe daquela equipe.

Saga e Shaka levantaram-se na mesma hora do chão, quase num salto, já fixando os olhos assustados e aflitos sobre ambos. Eles ainda vestiam os trajes cirúrgicos que continham algumas manchas de sangue, que não passaram despercebidas pelo geminiano que o inquiriu tenso:

— Doutor Hector, até que enfim. E então, como eles estão? Minha Geisty, meus filhos? Eles nasceram, agora já posso vê-los?

Os dois homens se entreolharam por um breve instante, então Hector tomou a frente e encarou os olhos desconcertantes do grego, munindo-se de coragem.

— Senhor Saga, Geisty chegou ao hospital apresentando sinais de eclampsia, sangramento vaginal e rompimento da membrana amniótica...

— Sim, sim eu já sei disso, você já disse, pelos deuses eu só quero ver minha mulher e meus filhos. — interrompeu o geminiano — Minha mulher está bem?

— Sim. No momento está estabilizada. — respondeu Hector — Dado seu estado inicial nós optamos por fazer a cesariana de emergência, e como ela estava muito agitada e agressiva precisamos seda-la para o procedimento, mas durante a cirurgia a sedação, em conjunto com a anestesia e a perda de sangue, causou uma depressão intensa do sistema cardiorrespiratório, levando a uma bradicardia, que é a queda dos batimentos cardíacos. Revertemos o quadro com estimulação medicamentosa para impedir a parada total, mas a reversão foi muito rápida, o que levou a uma taquicardia reversa e posterior parada cardíaca. — o médico molhou os lábios secos com língua enquanto via Saga arfar e estranhamente contrair as pálpebras, como se sentisse dor — Com muito custo conseguimos estabiliza-la ao mesmo tempo em que prosseguimos com a cesariana, pois dado o quadro grave da mãe os bebês certamente estariam em sofrimento, mas... infelizmente ao retira-los constatamos que eram natimortos... Eu lamento profundamente, senhor Saga. Todo nosso empenho foi dado para salvar os três, mas quando iniciamos a cirurgia os bebês já estavam sem vida e nada poderíamos fazer por eles. Além disso, depois da retirada dos fetos, o quadro da paciente voltou a ficar instável e seu prognóstico é de reservado a mal, pois ela está em um quadro de coma não induzido e inspira atenção constante para atendimento emergencial, caso se mostre necessário, pois ela ainda se encontra em risco de morte. Por isso, iremos encaminha-la para o CTI. Não podendo receber a presença de mais ninguém além da nossa equipe médica especializada. Eu sinto muito Grande Mestre, mas confie, estamos fazendo tudo o que nos é possível no momento para não a perdermos.

A notícia derradeira atingiu o Santo de Gêmeos como um tiro certeiro a lhe atravessar o crânio.

Um dano irreversível direto em sua mente e também em sua alma.

Estático, hirto tal qual uma estátua de mármore de olhar alarmado e congelado através do tempo, Saga encarava a face do médico sem ao menos respirar, enquanto este prosseguia dando detalhes do procedimento funesto, mas a voz de Hector, que antes era absoluta em sua mente, agora se distanciava aos poucos dando lugar a um zumbido impertinente.

Eis que aquele silvo incômodo ganhou a proporção de uma soada troante, e em meio aquele barulho ensurdecedor que só ele podia ouvir sentiu os pés formigarem gelados, então olhou para baixo, e sob a sola dos sapatos recobertos pelo pro pé cirúrgico viu assomar-se poças de águas rasas que brotavam de um chão de pedra escura coberta por lodo.

Levou ambas as mãos aos ouvidos, imprimindo força sobre os tímpanos e contraindo o rosto numa carranca de agonia.

Já não ouvia mais nada, não via mais nada, não sentia mais nada.

Diante de si o mundo mergulhava em uma escuridão de morte, e ele então se permitiu envolver pelo ódio.

Minado totalmente de suas forças Saga desabou de joelhos no solo.

Tombou para frente e apoiou uma das mãos no assoalho emborrachado, porém sentindo seus dedos imersos na mesma água fria a tocar as rochas cobertas por visgo e lodo. Um cheiro fortíssimo de maresia subiu por suas narinas enquanto ele levava a outra mão à cabeça, pensa para baixo, e em silêncio sentiu a dor excruciante ganhar proporções brutais até se tornar absoluta.

Por fim soltou um soluço agonizante.

Com a lentidão de um pesadelo, Shaka, que estava o tempo todo ao seu lado e assim como ele ouvia em choque as palavras do médico, atirou-se de joelhos no chão logo que conseguiu sair de seu estado de transe. A notícia da situação delicada de Geisty e da morte dos bebês havia confirmado sua malfazeja premonição, e agora seu coração e espírito se remoíam em culpa, já que não havia conseguido interpretar os sinais que lhe foram dados.

Munido do mais puro e humano desespero, o Santo de Virgem esticou os braços e agarrou os ombros de Gêmeos, e nessa hora as luzes fortes daquela saleta piscaram frenéticas, como se o prédio sofresse um pico de energia.

O Cosmo de Saga estava descontrolado.

— SAGA! — Shaka gritou a plenos pulmões, chacoalhando o geminiano com toda a força que tinha — SAGA! OLHE PARA MIM! SAGAAA!

Gêmeos ergueu levemente a cabeça, mas os olhos sem brilho que divisavam o vazio lentamente se fecharam, rendidos.

— SAGA! SAGA! ESTÁ ME OUVINDO! SAGAAA! FIQUE COMIGO! OLHE PARA MIM! OLHE PARA MIM! — rogava com o terror estampado em seus olhos azuis — FIQUE AQUI! ESCUTE A MINHA VOZ, SAGA!

Mas não houve resposta.

Dos lábios entreabertos do geminiano uma fina linha de saliva escorreu e o choro de antes cessou, então ele baixou a cabeça tombando o corpo para frente, e nessa hora em completo terror o Cavaleiro de Virgem viu se repetir diante de seus olhos o seu pior pesadelo.

Como um fenômeno fantástico e inexplicável, os cabelos azuis de Saga começaram a ganhar nuances de um negro intenso, a começar pela raiz assomando-se até as pontas.

— Não... — murmurou o virginiano com os lábios trêmulos tintos de sangue — NÃO! NÃO! SAGAAAAA! — gritou enquanto chacoalhava o grego na esperança de trazê-lo de volta à razão.

Em desespero Shaka acendeu seu Cosmo na esperança vã de usar uma de suas técnicas para privar o geminiano de sua consciência, já que a mente dele era sua pior inimiga naquele momento, mas já era tarde.

Uma aura opressora tomou todo o ambiente quando os cabelos do Santo de Gêmeos tornaram-se totalmente negros como a noite mais escura, então, após um suspiro longo e ruidoso uma voz soturna e gutural se elevou congelando o coração de Shaka.

— Ele não pode mais te ouvir.

Aquelas poucas palavras golpearam Virgem tal qual lanças cortantes a lhe atravessarem a carne impiedosamente.

Lentamente o indiano soltou os ombros do grego e ainda de joelhos se afastou hirto, e nessa hora o Cavaleiro de Gêmeos ergueu o rosto e olhou para ele, e em seus olhos um brilho selvagem faiscava.

As íris cor de jade agora estavam envoltas por um grosso arco rubro de orbes secas e avermelhadas, e diante da face incrédula e aterrorizada do Santo de Virgem ele soltou um longo e satisfatório riso de escárnio.

Notas finais
...XABLAUUUUU!