Templo das Bacantes Vol. 2

49 Os corredores escuros da mente. - Parte 2


Notas iniciais
Queridos leitores, e voltamos com mais um capítulo e esse é continuação do anterior, porque o Grande Louco Mestre do Santuário, vulgo Coiso, não tem limites para as suas maluquices e planos diabólicos. Agora ele meteu as duas mãos no vespeiro, porque ele não veio nessa vida pra ser suave não. Então aproveitem o capítulo que como diz Saguinha "Tá do caralho do Hades".

Santuário de Atena – Casa de Virgem, 14:39pm

O Cavaleiro de Virgem, no átrio onde estava alocada a enorme estátua de Buda que naquele Templo residia através das Eras, prendia uma capa branca, recém tirada do armário embutido na parede de pedra, nas alças internas da armadura sagrada a qual trajava mesmo estando severamente avariada. Sentia uma peça ou outra cujo encaixe estava comprometido, mas seu Cosmo poderoso, em perfeita fusão com o dela, garantiam a solidez de sua estrutura.

Shaka tinha os olhos fechados como de costume, mas seu semblante muito mais sério e circunspecto que o habitual denunciavam o pesar que ainda pairava em seu coração e sufocava seu espírito, e pelo que tudo indicava as coisas só tendiam a piorar.

Pronto apanhou o elmo também avariado que estava sobre a Caixa de Pandora e o segurando respeitosamente nas mãos ditou algumas palavras em hindi rogando à Buda que lhe desse lucidez e compreensão, então virou-se em direção ao corredor que levava à saída daquele átrio e para sua surpresa deu de cara com Mu, que estava ali há alguns poucos minutos e o olhava fixamente, imóvel e em completo silêncio.

— Marido! — disse em sobressalto — Não percebi sua presença... Foi rápido no hospital dessa vez. Como está Afrodite? E Geisty?

Mu continuou a olhá-lo, sério, quase o analisando, só depois de um momento respondeu.

— Sim foi rápido. Afrodite continua em coma e sem previsão para acordar. As transfusões sanguíneas estão me ajudando na remoção do aço lemuriano, mas ainda é um trabalho minucioso que vai levar mais algum tempo... Geisty está estável, mas também não podem precisar quando acordará... Por que está usando a armadura?

Durante um instante Shaka ficou calado, depois baixou ligeiramente a cabeça e caminhou devagar em direção ao lemuriano.

— Que Atena, a verdadeira, tenha piedade deles. — parou quando ficou de frente para Mu.

— Por que diz isso? Afirma então que há mesmo uma impostora? — inquiriu Áries.

— Não... apenas... sinto que Atena desviou de seu caminho, mas nem isso posso precisar, já que ultimamente não tenho prestado nem para interpretar corretamente minhas próprias visões.

— Não diga isso. — Mu falou com voz mansa — Não tinha como saber. O que houve no Templo de Baco não se deu por desígnios dos deuses, mas pela maldade do homem... E você não respondeu a minha pergunta.

— Estou indo me apresentar ao nosso digníssimo Grande Mestre. — arqueou as sobrancelhas quando proferiu com certo ar de deboche aquele nome — Uma convocação de caráter urgente, extraordinário e sigiloso, portanto você não deve saber dela, certo? Kiki já mamou e acabei de colocá-lo para dormir. Mesmo assim fique de olho nele... Ele anda agitado esses dias. — segurou no queixo de Mu e lhe deu um beijo rápido nos lábios antes de seguir andando pelo corredor sendo acompanhado pelos olhos desconfiados e curiosos do marido.

***

Já do lado de fora Shaka galgava os degraus das Doze Casas a passos duros, e apesar do caráter urgente impresso na convocação do Patriarca ele não tinha nenhuma pressa. Na verdade, tudo que menos desejava era ter que estar na presença de Saga de Gêmeos tão cedo. Ainda não se sentia minimamente preparado para estar cara a cara com ele depois de tê-lo presenciado sucumbir pela segunda vez ao mal que habitava o mais profundo de sua alma, este que ninguém, nem mesmo o próprio geminiano, conhecia a essência, de onde viera, o que o criara, como enfrenta-lo... e principalmente como derrota-lo.

A mente de Virgem até agora estava agitada demais, seu espírito ainda clamava por expiação e seu coração não estava pronto para ter compaixão. Para o guardião da Sexta Casa, Saga mais uma vez tinha sido fraco e egoísta ao deixar-se engolir pela dor e anular-se perante o Caos deixando sozinha a amazona que tanto jurou proteger e amar.

Não.

De fato ele não estava pronto para perdoar Saga mais uma vez.

E mais alguém parecia saber disso.

Quando chegou aos primeiros degraus da Casa de Aquário Shaka parou, então soltou um longo suspiro resignado e baixou a cabeça.

“Eu posso saber o que você pensa que está fazendo? Eu disse que era uma convocação de caráter sigiloso.”, falou usando telepatia diretamente à mente da pessoa que vinha subindo as escadas alguns lances abaixo. Esperou que chegasse até ali e assim que o viu também trajando a armadura sagrada de ouro e trazendo nas mãos um imenso calhamaço de folhas e arquivos de almoxarifado franziu as sobrancelhas em desaprovação.

— Mu de Áries, por Buda! O que significa isso?

— Isso? — Mu sinalizou com os papéis se fazendo de desentendido — Isso são relatórios dos danos e prejuízos causados pelo atentado ao Templo das Bacantes. Terminei agora a pouco e estou levando para Saga conferir.

A resposta não era uma mentira, mas também não era uma verdade. No entanto, conhecendo bem o esposo, e a considerar o seu atual estado de humor nada agradável nos últimos dias, Áries achou por bem manter-se por perto inventando aquela desculpa, e mesmo sabendo que Shaka dificilmente cairia nela seguiu em frente com seu intento e subiu as escadas apressado passando direto pelo loiro.

— Alto lá, Mu de Áries. Pode ir parando aí. — disse Shaka elevando o tom de voz enquanto já subia os degraus apressado indo até ele, e esticando-se todo tocou seu ombro e o puxou um degrau de volta — Que papagaiada é essa agora? Até parece que eu não te conheço. Desde quando precisa subir até o Décimo Terceiro Templo trajando sua armadura para resolver os assuntos daquele alcoice profano? Você está indo assuntar, isso sim!

— Eu assuntar? Me solta, Sha! — ralhou, com falsa indignação, enquanto já puxava o ombro livrando-se do outro — Realmente, eu não costumo misturar os assuntos das minhas diferentes funções nesse Santuário, mas... quis aproveitar que já estava indo relatar o incidente ocorrido em Jamiel, mais as informações acerca do nascimento do nosso filho, para entregar essa papelada toda de uma vez... Estou, sabe, só aproveitando a viagem. — sorriu disfarçadamente — Agora anda que ainda tem muita escada para subir. — disse voltando a subir os degraus decidido, mas novamente Shaka o segurou, dessa vez pela ponta do chifre da armadura.

— Aproveitando que viagem? A minha? — disse o virginiano já meio alterado fazendo o outro descer o que já havia subido — Ora não se faça, Mu de Áries. Você não pode entrar naquela porcaria de Templo comigo! — apontou para cima como dedo em riste.

— E por que não posso?

— Porque... porque fazendo isso você me desmoraliza na frente daquele... daquele espírito obsessor pervertido dos seis infernos! É isso que você quer? Derrubar o teto da casa de Shaka direto na cabeça dele, é isso? — falou eloquente gesticulando com uma das mãos erguidas acima da cabeça como se tentasse segurar o teto imaginário a desmoronar sobre si.

Mu deixou escapar um suspiro enfastiado e fechou os olhos.

Estava farto daquele bate boca.

— Preste atenção, Luz da minha vida! — disse o ariano quando voltou a abrir os olhos para encarar firme o rosto do marido, depois soltou o calhamaço de papéis que carregava os mantendo flutuando ao seu lado com sua telecinese — O Santuário está um caos. Você ainda não se recuperou totalmente da batalha contra o deus asteca...

— Que exagero o seu, eu já estou ótimo! Do jeito que você fala é como se Shaka estivesse moribundo. — ralhou o loiro interrompendo o lemuriano, que na mesma hora esticou os braços e agarrou as peças frontais em forma de triangulo da armadura de Virgem trazendo Shaka o mais próximo de si que os grandes chifres de carneiro de sua própria armadura lhe permitiam.

— Não é exagero, Shaka. Você foi negligente, assuma! — Mu fez uma pausa para cravar ainda mais fundo as gemas verdes de seus olhos sobre as pálpebras fechadas do marido — Você não admite a gravidade da loucura que cometeu se atirando em uma dimensão que somente deuses são capazes de passar.

— Eu não me atirei, apenas o puxei para fora, Mu, por Buda! Por quê me toma? Um inconsequente desvairado?

— Claro que não! Mas, tem que admitir que é um milagre estar vivo... Depois, sua armadura está muito avariada, e com tudo o que aconteceu nos últimos dias eu sequer tive tempo de avaliar os estragos nela, quanto muito restaura-la. Agora o Grande Mestre te convoca, assim, do nada, para uma reunião sigilosa mesmo sabendo do seu estado. Não acha estranho?

— Ora essa, mas é claro que acho estranho! O que não é estranho vindo daquele ébrio possuído? E acha que ele se importa comigo ou com minha armadura? Não se importa nem com a própria esposa, vai se importar conosco? Muito me admira você esperar alguma consideração vinda daquele excomungado.

— Não espero justamente por isso. Do homem que está naquele Templo não espero nada de bom. — apontou para a construção no cume da montanha — Aquele Grande Mestre é o mesmo que no passado matou o meu mestre Shion. O mesmo que agora no presente abandonou a esposa no hospital, que tentou me obrigar a invadir a mente do Camus, e que ordenou a morte do Milo sem ao menos fazer uma investigação mais profunda.

Com um tranco Mu soltou Shaka o empurrando de leve para trás, depois recolheu os papéis flutuantes com as mãos e continuou a falar:

— Pouco me importa se o teto de Virgem ou esse Santuário todo caiam sobre sua cabeça, Shaka, mas eu não vou deixar o meu marido ferido e com uma armadura totalmente danificada sozinho com aquele homem... Principalmente quando o citado marido tem um histórico de infindáveis discussões e desentendimentos com o Grande Mestre em questão.

Shaka deu uma bufada.

— Isso é um despautério! Você perdeu totalmente o juízo. — reclamou zangado — Desde quando Shaka precisa de guarda costas? Por Buda! E isso quer dizer que não confia mais nele, Mu?

— Obvio que não confio mais em Saga. — disse Mu.

— Não em Saga, em Shaka! Não confia em Shaka? Acha que ele vai afrontar o Grande Mestre ébrio? É isso? — proferiu nervoso.

Mu levou os dedos à testa os apertando contra as pintinhas lemurianas enquanto suspirava exausto de cabeça baixa.

— Deuses... você ainda vai me deixar louco. — reclamou antes de erguer a cabeça e novamente olhar para o marido — Nesse caso em especifico, não. Não confio em você.

— Mu de Áries! — exclamou o loiro balançando a cabeça ao modo indiano que indicava indignação.

— Shaka de Virgem! — retrucou o ariano dando um passo à frente — Você está querendo enganar a quem? A mim? Justo a mim? Eu não conheço aquele Saga, mas eu conheço muito bem você!

— Isso é um absurdo! — bronqueou o indiano que nem mais ficou ali. Apressado e respirando ruidosamente seguiu subindo injuriado os degraus pisando duro — Pois eu deveria mesmo era colocar aquele proxeneta ébrio possuído no lugar dele.

— Está vendo só! Eu estava certo! — disse Mu vindo logo atrás, apertando o passo para acompanha-lo — Eu vou junto e isso não é negociável.

Súbito Shaka parou mais uma vez e colocou-se na frente de Mu o forçando a parar também.

— Em vez de se preocupar comigo, que sei muito bem me defender, e com o pulha do Gêmeos, você deveria era ficar em casa com nosso filho. Lá é o seu lugar, não aqui me escoltando. Kiki pode chorar... ele pode se engasgar dormindo, pode acordar de repente e achar que foi abandonado... Buda, não há coisa mais triste para uma criança que ela perceber que foi abandonada. Não viu no capítulo de ontem da novela? Não viu como Anushka chorou de tristeza ao ser abandonada na porta do orfanato pelo desalmado do Ravi Hari? — meneou a cabeça em negação de forma incisiva — Como você deixa nosso bebê sozinho em casa, Mu?

— Quem disse que eu deixei? Agora é você quem está me subestimando. — Áries desviou do marido e voltou a subir sendo seguido por ele — Eu jamais deixaria nosso filhotinho desprotegido ou sozinho. Ele está com o padrinho dele, com o Aldebaran.

— O quê? — Virgem falou a plenos pulmões saltitando pelos grandes degraus para alcançar Mu. Já haviam passado por Aquário e chegavam à escadaria de Peixes — Não! Você não levou o meu anjinho para aquele matadouro, Mu de Áries!

— Levei. E ele deu um lindo sorriso banguela quando viu o padrinho, e Aldebaran o adora. Não gosto de deixá-lo com as servas, e mesmo assim não havia tempo, você já estava subindo.

— Sim, já estava subindo porque era para EU subir, assim como era para você ficar em casa com nosso bebê, e não vir atrás de mim. — disse Shaka que percebendo que nada faria com que o ariano mudasse de ideia colocou-se novamente na frente dele o fazendo parar.

— Shakaaa... — Mu esbravejou, então com uma expressão severa no rosto Virgem suspirou resignado pousando a mão no peito da armadura de Áries.

— Você quando enfia uma coisa nessa sua cabeça dura de carneiro invocado ninguém tira!... — fez uma pausa respirando ruidosamente — Está bem... Você sobe, mas não vai entrar comigo, nem adianta insistir. Seja lá o que for que aquele prevaricador ébrio queira comigo, é assunto meu e dele. Você não deve interferir, marido. Eu sou um cavaleiro e vou responder aos assuntos do Santuário como um, ora essa... Onde já se viu Shaka ter escolta.

Mu inclinou o corpo para frente e esticou ao máximo o pescoço para roubar um beijo ligeiro daquele indiano turrão.

— Combinado! — disse sorridente o lemuriano — Eu vou ficar do lado de fora, mas como você mesmo disse, eu sou um carneiro cabeça-dura. Então, se eu sentir qualquer coisa diferente lá dentro eu entro e te tiro de lá, não importa quantos tetos caiam sobre as nossas cabeças.

Dito isso Mu avançou subindo para o próximo degrau, mas logo em seguida sentiu Shaka mais uma vez puxar-lhe pelo chifre da armadura.

Revirou os olhos enfastiado virando-se para trás.

— Shaka eu já disse que...

Na mesma hora Mu foi calado com um beijo. E não com qualquer beijo, mas um digno de cinema e de selar as pazes entre eles. Demorado, dedicado, intenso e apaixonado. Surpreendeu-se de início, mas poucos segundos depois já fechava os olhos para sentir com maior furor a língua macia e hábil do indiano tocar a sua. Só quando Shaka afastou-se com os lábios ainda úmidos e inchados foi que abriu os olhos e olhou novamente para ele.

— Eu vou na frente. — disse o loiro já tomando a dianteira e apertando o passo.

Mu suspirou recobrando o folego que o marido havia lhe tirado quase que completamente e o seguiu escadaria acima.

***

Contra a própria vontade Mu separou-se de Shaka assim que ambos cruzaram as colunas da entrada do Décimo Terceiro Templo pegando o corredor oposto que levava ao escritório do Patriarca. Iria deixar com Gigars toda a papelada que trazia consigo e pedir que ele agendasse uma conferência com o Grande Mestre para discutirem os levantamentos que fizera a respeito do atentado no Templo das Bacantes, uma mera desculpa para estar ali monitorando o Cavaleiro de Virgem de perto enquanto estivesse com Saga.

No outro setor da suntuosa construção milenar, após percorrer um alongado corredor de pedra minuciosamente polida, Shaka chegou até a grande porta de madeira e bronze que selava o salão do trono, já estranhando o fato de esta estar fechada e muito bem vigiada por dois soldados do Santuário que trajavam grossas armaduras de couro e metal e portavam longuíssimas lanças, as quais foram apontadas prontamente para si quando parou a poucos passos.

“Buda, já começa aqui a palhaçada.”, pensou o indiano erguendo uma sobrancelha, já que aquelas portas além de estarem sempre abertas nunca precisaram ser guardadas, não daquela forma. No entanto, aquela falsa ideia de soberania era bem a cara dele.

— Cavaleiro de Virgem? — perguntou um dos guardas.

O teor estúpido da pergunta irritou de tal forma o virginiano — já estava ali a muito contra gosto — que nem se dignou a responder. Permaneceu imóvel, em silêncio, de olhos fechados e semblante tão grave que não demorou mais que alguns segundos para os soldados baixarem as lanças e abrirem a porta para que entrasse.

Já dentro Shaka seguiu andando pelo salão de piso de mármore encerado a passos firmes e apressados, e instantaneamente notou o quão mudado estava aquele ambiente. Escuro como jamais presenciara antes, janelas fechadas cobertas por grossas cortinas de veludo carmim e iluminado apenas pelo luxuoso lustre de cristal no centro do salão. O ar parecia carregado e viciado, e para alguém cujos sentidos eram extraordinariamente apurados um cheiro forte de álcool fazia arder suas narinas.

Vinho.

“Ébrio! Já se embriagando a essa hora.”, pensou indignado e deveras incomodado, e quando a textura sob seus pés mudou e passou a caminhar pelo grande tapete vermelho logo avistou o suntuoso trono e nele o Grande Mestre “Humpf... era de se esperar que estivesse prevaricando enquanto o teto da casa dele está todo sobre sua cabeça. Rufião!”, concluiu o pensamento com uma bufada impaciente.

A medida que avançava Shaka conseguia perceber a soturna figura sentada ao trono com maior nitidez, e apesar daquele rosto lhe ser tão familiar era como se estivesse diante de um completo estranho que trajava as vestes do Patriarca, porém não o habitual manto escuro, mas um longuíssimo e imponente manto branco que lhe cobria todo o corpo. Nos ombros trazia um faustoso par de ombreiras de metal escarlate com desconcertantes espinhos longos e afiados com aparência de lâminas, e cobrindo sua cabeça e parte dos longos cabelos negros como piche um elmo do mesmo material trazia esculpido na fronte a carranca de um demônio que ostentava longas asas de couro com garras. Uma armadura tão sombria e hedionda que certamente causaria inveja ao próprio Hades. Tinha uma máscara em tom de azul escuro sobre seu colo, e a seu lado uma serva trajando apenas uma finíssima túnica grega de seda tão transparente que deixava à mostra seu corpo jovem e perfeito lhe servia vinho, o qual brotava de um jarro de prata ornado com rubis, diretamente em uma taça de cristal finíssimo com adornos em ouro.

Ao chegar a poucos passos do trono o Santo de Virgem parou.

A visão daquela jovem mulher ali, visivelmente amedrontada, e do próprio geminiano lhe causou profundo mal-estar.

Mesmo de olhos fechados podia perceber o olhar nefasto dele e o peso de seu espírito sórdido sobre si.

Não.

Aquele de fato não era Saga.

Todavia, onde estava Gêmeos naquela hora que não exatamente ali?

Uma imobilidade asfixiante tomou o Cavaleiro de Virgem. Não foi capaz de curvar-se em reverência como sabia que deveria fazer como subalterno que era. Não perante aquele homem.

E o Patriarca certamente não deixaria barato aquela insubordinação.

Do alto de sua já conhecida prepotência o Grande Mestre estreitou os olhos viperinos que mantinha cravados no Santo de pé à frente de seu trono e fez um sinal com a mão à jovem serva lhe ordenando que se retirasse, ordem esta que fora prontamente atendida por ela com alívio.

Sustentando o olhar hostil e severo sobre o cavaleiro esperou que a jovem atravessasse o salão às pressas carregando o jarro enquanto degustava o vinho em sua taça morosamente, aproveitando cada nota da bebida finíssima, e quando ela enfim deixou o salão passando pelo pórtico na lateral, desencostou o cristal dos lábios passando a língua displicentemente nesses antes de ditar com voz troante:

— Não vai se curvar perante seu Patriarca, Virgem? — fez uma breve pausa erguendo altivo a cabeça, enquanto seus olhos faiscavam um brilho rubro. Sabia que aquele cavaleiro, assim como Aquário, era outro que lhe traria problemas, e era justamente pensando em saná-los que o chamara ali, por mais que sua presença lhe causasse profunda irritação, tal como agora, com aquela sua atitude insubordinada — Respeite a hierarquia, ou acaso o senil do Shion, ou mesmo o frouxo do Saga não lhe ensinaram que deve se curvar na presença do seu superior?

Com uma expressão agastada e impassível Shaka comprimiu as pálpebras cerradas fazendo tremelicar seus cílios longos.

— Não tenho problema algum em respeitar uma hierarquia quando esta é legítima, o que não é o seu caso, já que é um usurpador. — respondeu Shaka com frívola rispidez — Já a respeito do Saga, eu devo concordar. Não passa de um frouxo, caso contrário você não estaria aqui.

O Patriarca contraiu os músculos da face em um claro sinal de irritação, e esta culminou em um soco ruidoso que desferiu contra o braço de metal do trono dourado.

— Saiba que se continuar se recusando a seguir arbitrariamente os protocolos deste Santuário isso lhe custará bem caro, cavaleiro! — grunhiu as palavras sustentando o olhar demoníaco sobre o outro, trincando os dentes e quase sem respirar — Eu não tolerarei sua petulância e indisciplina... Quanto à sua opinião, guarde-a para si mesmo e só fale quando eu o autorizar.

Virgem revirou os olhos por debaixo das pálpebras e soltou o ar ruidosamente pelas narinas. Não era nada fácil conter seu ímpeto, mas garantira a Mu que se controlaria e estava disposto a cumprir, ainda que sua vontade fosse deixar aquele homem falando sozinho e voltar para casa, preferencialmente esquecendo a existência dele como fizera no passado.

O Patriarca por sua vez, do suntuoso trono correu os olhos ominosos pela figura altiva à sua frente de cima abaixo, como se a analisasse minuciosamente. Quase deixou transparecer em seu rosto transfigurado um sorriso de deleite, o qual abafou levando a taça aos lábios e sorvendo mais um gole do vinho.

Seu plano estava saindo exatamente como engendrara. Nada daria errado, e logo se livraria de duas peças inoportunas em seu tabuleiro de ascensão ao poder com uma só jogada.

— Muito bem, Cavaleiro de Virgem, eu o convoquei para lhe delegar uma missão. — disse seco, preciso e sem rodeios.

Shaka de imediato se surpreendeu. Não esperava por uma ordem de missão tão cedo, nem que teria de se ausentar do Santuário quando este ainda estava praticamente mergulhado no Caos. Respirou fundo procurando manter-se racional, afinal podia ter todos os motivos do mundo para não se submeter àquela versão nefasta de Saga, mas ainda era um cavaleiro e não podia se negar a cumprir suas obrigações.

— Uma missão... — disse o virginiano calmamente, porém visivelmente incomodado — Decerto que esta então não exija que eu use minha armadura sagrada, presumo, já que como certamente pode notar ela se encontra em grave estado de avaria.

Os olhos do Grande Mestre brilharam. Era bem verdade que a armadura avariada de Shaka não era seu maior problema, na verdade era a solução, era sua carta na manga para o que tinha em mente, porém não contava que aquele cavaleiro petulante contestaria sua ordem colocando em xeque seu plano.

Ficou furioso, e sua mente atormentada logo se armou em defesa.

— É claro que eu notei, mas isso certamente não é problema meu, não acha? — disse ácido inclinando o corpo para frente e dardejando o indiano com seus olhos — Nós temos um ferreiro neste Santuário, não temos? Se eu já não tivesse conhecimento, pediria explicações a você do motivo pelo qual nosso ferreiro não tem exercido seu ofício como deveria, mas eu, e todos aqui já sabemos o motivo. — recostou-se em seu trono para fitar de mais alto o virginiano, reafirmando assim sua postura altiva — Pois ele não está na Forja de Áries, que é o lugar dele, porque está no SEU templo, na Sexta Casa, brincando de casinha com o senhor.

— O... quê? — indignado Shaka franziu as sobrancelhas e sua respiração tornou-se mais acelerada.

— Isso mesmo, Virgem. O senhor é um exemplo ridículo de insubordinação e rebeldia que envenena e desvirtua aos demais. Postura que eu não tolero em meu Santuário. O senhor é o responsável pelo Cavaleiro de Áries negligenciar completamente seu posto e seu ofício para com nossa Ordem, isso porque o convenceu a deliberadamente se mudar para o Sexto Templo, que por si só é uma absurdidade sem precedentes. — quase cuspiu as últimas palavras tamanha fúria que as dissera.

Shaka quase abriu os olhos.

Não por precaução ou destempero, não por querer incitar um embate mais ferrenho usando seu Cosmo, mas pelo choque que aquelas palavras lhe causaram.

— Como ousa dizer que... — o virginiano tentou rebater, mas fora prontamente impedido pelo Patriarca.

— Cale-se! Só fale quando solicitado, Virgem! — berrou o grego — Eu estou farto da sua petulância! Saga lhe deu guarita a vida inteira, mas eu não sou como o Saga! Você sabe que interferiu diretamente nas normas de organização desse Santuário quando persuadiu Áries a largar a Primeira Casa à própria sorte para ir enfiar-se na sua cama em Virgem! Abominável!

Igualmente furioso, além de indignado, Shaka deu um passo à frente pronto para rebater as acusações, mas o Patriarca prontamente levantou-se do trono colocando-se também de pé à sua frente e lhe apontando o dedo indicador.

— Não se atreva a me responder! Eu mandei ficar calado! — disse com voz firme e opressora enquanto gesticulava enfático — Você sabe que está errado, Virgem! O dever dos Cavaleiros de Ouro neste Santuário é a permanente vigilância das Doze Casas para a proteção do Monte Zodiacal e do Templo de Atena, e justamente a Primeira Casa, aquela que deveria ser nossa primeira frente de batalha, portanto a mais bem guardada, está completamente desprotegida, vazia! Vocês estão na porra de uma base militar, não em uma colônia pederasta de férias, e isso eu não vou tolerar! Saga governava este Santuário com rédeas frouxas, a irresponsabilidade e insubordinação brotam de todos os lados e o resultado disso só poderia ser libertinagem e sodomia. Mas eu não sou o Saga! Portanto o senhor vai me obedecer e vai cumprir a missão que o delegarei usando armadura ou não! — concluiu furioso.

Shaka cerrou o punho da mão que tinha livre, já que a outra segurava firmemente o elmo da armadura. Sentia seu corpo todo tremer, de indignação, repulsa, mas principalmente de raiva.

— Não. Não é o Saga, mas é um usurpador feito ele. — disse Virgem quase num ranger de dentes — Usurpou o trono e cargo de Shion, a vida de Sagitário, de Escorpião e quiçá da própria Atena!... E agora usurpou a mente e o corpo de Gêmeos.

— Eu não lhe dei permissão para falar, Virgem! — rosnou o Grande Mestre sentido o corpo todo fremir.

— Diga-me, demônio ébrio, por acaso é capaz de conquistar algo sem que tivesse que toma-lo à força? Essa é sua diferença para mim e também para Saga.

— Cale-se!

— Você não é capaz de conquistar nada por mérito. Diferente do que me acusa, eu não incitei o Cavaleiro de Áries a nada, ele se casou comigo e veio morar em meu Templo por livre vontade, e por que nos amamos, e que eu saiba as demonstrações de amor nunca foram proibidas aqui, sejam elas quais forem. E se você fosse um pouco esperto e um tanto menos néscio, além de grato, reconheceria que Mu há dias está resolvendo problemas e tomando para si deveres que competiam a VOCÊ, como tentar colocar uma mínima ordem no caos que se instaurou naquele seu alcoice mundano... Até o funeral dos seus filhos foi ele quem organizou. Isso para não citar que tem sido ele a acompanhar a recuperação da sua esposa no hospital, a qual você abandonou à própria sorte!

— CHEGA VIRGEM! — gritou o Patriarca lançando a taça de cristal ao chão, que se espatifou em centenas estilhaços, depois apontou o dedo novamente para Shaka — Não fale dos meus filhos, tampouco da minha mulher! A amazona está sob os cuidados de quem lhe compete, os médicos, não do pau mandado do seu... marido. — contraiu a face numa expressão de puro asco — E minha mulher é assunto meu tão somente. — sentia o sangue ferver e lhe subir à face tamanha sua ira, e o gosto do vinho que antes era doce e agradável em sua língua agora parecia o mais puro e indigesto fel. Estranhamente a simples menção da amazona na discussão o deixara profundamente perturbado — Eu não o chamei aqui para bater boca, mas para te delegar uma missão, e não tolerarei mais sua petulância. Aqui eu falo e você obedece, eu delego a função e cabe a você executa-la sem questionamentos, ou será punido como qualquer outro insubordinado.

Shaka respirou fundo. Sabia que se tratando daquele monstro boa coisa não era, e já começava até a ficar curioso.

— Pois bem. Diga, digníssimo Patriarca. Dê sua ordem. Vamos ver qual é o despautério da vez.

— Despautério talvez seja eu ter justamente convocado você para executar essa missão, mas apesar de ser um sujeitinho intragável, eu exijo que seja você a cumpri-la. As necessidades do Santuário urgem sobre quaisquer outros assuntos, então, com armadura avariada ou não, porque pouco me importa você, Virgem, eu lhe ordeno uma missão de execução. — disparou ríspido e a quase atropelar as palavras pela forma afoita como foram pronunciadas.

O rosto de Shaka ficou lívido, e ele engoliu em seco, aturdido.

— Uma missão de... execução?... E a quem deveria executar? — perguntou já temendo a resposta.

— Camus de Aquário. — respondeu firme o Grande Mestre, que tinha um interesse particular e oportuno na morte do defensor da Décima Primeira Casa, já que queria tomar a frente dos assuntos da Vory v Zakone e Camus lhe negara isso veemente.

— O quê? — Virgem questionou em sobressalto, atônito com o que acabara de ouvir.

— Você me ouviu, Virgem. Você vai executar Camus sob minha ordem, sabendo que desobedecê-la imediatamente configura rebelião e lhe coloca sob pena de morte ou exoneração. — disse com as carnes do rosto trêmulas e os olhos faiscantes — E não me importa se você voltará vivo ou morto, porque para ser sincero seria perfeito se os dois saíssem do meu caminho. Agora desapareça da minha frente e obedeça. Cumpra minha ordem. — tinha cravados no indiano os olhos demoníacos.

Um sentimento abjeto tomou o Santo de Virgem naquele momento.

Se ainda tinha alguma esperança de que Saga porventura se manifestasse ali frente a todos aqueles desaforos e ódios lançados contra si e também à memória de tantos, inclusive de Geisty, a quem sabia que o geminiano amava com dedicação e enlevo, esta caiu por terra.

Sentiu raiva, desprezo, nojo.

Mesmo conseguindo compreender a dor de Gêmeos não aceitava o fato de ele não ter força suficiente para enfrenta-la sozinho.

— Não. — disse firme o virginiano, ainda que certo de que seria imediatamente punido.

— Como disse? — O Patriarca o fuzilou com os olhos contorcendo o rosto todo numa carranca odiosa.

— Eu disse não. — repetiu com a mesma frieza de antes — Não irei cumprir essa ordem disparatada e delegada por pura vaidade, já que é nítido que ela parte de âmbito pessoal e nada tem a ver com os interesses do Santuário.

— Pois um cavaleiro que não obedece ao Grande Mestre não tem direito de trajar sua armadura. — rosnou o geminiano em fúria, já completamente perturbado, caminhando no limiar torpe entre a lucidez e a completa insanidade — Por sua insubordinação eu lhe destituo de seu cargo e ordeno que deixe hoje mesmo o Templo de Virgem!

— Não irei a lugar algum! E não será um usurpador ébrio possuído e proxeneta que tirará minha armadura e meu cargo de cavaleiro. — disse Shaka colocando o elmo na cabeça — Sempre lutei por Atena, pela justiça e a favor do bem, e não vejo bem nenhum em suas ações, somente o mal... Se quer minha armadura então venha pegar.

— Virgem... — vociferou o Patriarca.

— Já que chegamos a essa situação, vou fazer algo que deveria ter feito a muito tempo. — disse o virginiano acendendo seu Cosmo.

— Ora, isso é uma ameaça? — indagou o Patriarca em tom jocoso, já também acendendo seu Cosmo.

— Não. É uma afirmação!

— E quem é você para me ameaçar, Cavaleiro de Virgem? — rosnou o Grande Mestre avançando um passo.

— Eu sou o último rosto que você verá antes de ir para o Inferno, demônio ébrio da cobiça! Ommmmmmmm! — bradou o virginiano colocando-se em posição de ataque.

Notas finais
Só digo isso: FODEU.