Templo das Bacantes Vol. 2
48 Os corredores escuros da mente. - Parte 1
Notas iniciais

Centro de Atenas, 3 dias após o funeral de Heitor e Dario no Santuário.
Sobre a mesa ampla de vidro fumê escuro ele dobrava sem pressa com a mão esquerda o jornal antes aberto — o qual fora lido em sua totalidade — para depois dispensa-lo o jogando sobre outros tantos de papéis que estavam ali para serem analisados com igual atenção. Girou a cadeira em meia volta e recostou-se no encosto acolchoado revestido de couro de búfalo. Mantinha as longas pernas estiradas displicentes e os pés cruzados sobre o carpete azul marinho, os olhos cansados pela noite de insônia contemplavam com desânimo os primeiros raios de sol que irrompiam o horizonte com sua luz intensa, os quais se espalhavam pelos milenares montes alvos desabitados até alcançarem a modernidade dos terraços dos arranhas céus atenienses atravessando a imensa vidraça, agressivos como o próprio Apolo, lhe atingindo as íris jades. Por reflexo, desviou o olhar com um movimento sutil de cabeça, enquanto praguejava em silêncio o infortúnio de viver na cidade mais iluminada do globo, e agora sua atenção era toda voltada ao brilho furta cor que refletia no cristal grosso sextavado do copo que tinha em sua mão direita. Passou alguns minutos hipnotizado pelo show de cores que se misturavam com o dourado do líquido que jazia no fundo, até virá-lo em um único gole que desceu garganta a baixo impregnando seu olfato com o cheiro intenso de alcatrão.
Se pegava divagando através da enorme vidraça azulada que tomava toda a extensão da parede atrás de sua mesa. Nunca se ateve a vista da cidade de Atenas proporcionada do alto do 38° andar onde se localizava o seu escritório, principalmente sendo revelada pelos primeiros raios do amanhecer.
E era um tédio...
Assim como todos os outros poucos amanheceres dos quais se recordava.
Simplesmente isso.
Nunca compreendera o fascínio que causava aos poetas e a maioria dos humanos.
“Que merda tediosa!”, resmungava em pensamento.
Com extremo desânimo desviou o olhar para o pulso esquerdo podendo conferir as horas. Era sete da manhã em ponto. Foi quando o toque agudo do telefone de sua mesa quebrou aquele silêncio sublime.
Ergueu uma sobrancelha lançando um olhar de reprovação ao aparelho. Com a mão direita que ainda segurava o copo robusto de cristal, imprimiu o dedo indicador à tecla para atender a ligação e a voz rouca que denunciava uma idade avançada e de consumo excessivo de cigarro se espalhou pelo ambiente.
“Bom dia senhor Saga. A recepção avisou que o senhor Camus, que está agendado a seu pedido para hoje de manhã no primeiro horário, acaba de chegar.”
— Mande-o entrar.
Antes mesmo de ouvir a resposta da secretária o geminiano interrompeu a ligação soltando um suspiro de fastio.
“Não é possível que em toda a porra da Grécia Saga não conseguiu achar uma secretária que fosse competente e jovem. Pelo menos seria um deleite aos meus olhos”, pensou consigo mesmo enquanto girava a cadeira se posicionando de frente para a mesa e pousando o copo sobre tampo de vidro espesso.
Não demorou nem mesmo cinco minutos e a porta era aberta pela secretária naquele escritório que era dedicado ao gerenciamento da máfia grega.
Dona Irene era uma senhora de seus cinquenta e poucos anos, vestido godê esvoaçante, cabelos acima dos ombros tingidos em tom de acaju e modelados com bobes, contava com não mais que 1,65m de altura. Fazia uso de um pó de arroz pálido com o qual tentava disfarçar, em vão, os anos que se liam em forma de rugas pelo seu rosto, este sempre exageradamente corado por meio de um rouge rosa da mesma cor do batom que delineava os lábios finos e murchos.
Enquanto ela seguia até a mesa de Saga, a passos sincronizados como os de uma formiguinha ágil, para depositar uma pilha de arquivos contábeis, o cheiro característico de Cabochard se desprendia de seu vestido florido esvoaçante e se espalhava pelo ambiente. Aquilo para Saga era um soco firme em suas meninges.
Acompanhando a senhora vinha Camus, em sua impecável etiqueta costumeira. Trazia ambas as mãos nos bolsos da calça do terno escuro bem cortado, os cabelos ruivos disciplinadamente escovados e a expressão sisuda tão habitual no rosto. Estranhara ser chamado para uma reunião com Gêmeos tão cedo e principalmente fora do Santuário, mas como seu comportamento nos últimos dias não tinha nada de comum não iria questiona-lo. Por isso estava ali, em trajes civis pronto para descobrir o que ele queria.
Com um aceno sutil o ruivo agradeceu à secretária antes que ela deixasse o recinto fechando a porta atrás de si.
Sem se levantar de seu lugar, com um gesto seco o geminiano apontou para uma das duas cadeiras à frente de sua mesa.
Camus caminhou sem pressa até ele, se sentou e cruzou as pernas de modo elegante.
— E então Saga... — Camus começou a falar, mas rapidamente foi corrigido.
— Não use esse nome, prefiro ser chamado de Gêmeos!
— Ah! Oui, très bien... — o aquariano limpou a garganta e recomeçou — Então, Gêmeos, o que deseja de mim?
— Aquário, primeiramente quero parabeniza-lo... — fez uma pausa — Melhor dizendo, reconhecer o altruísmo impresso em sua brava atitude ao oferecer-se como doador de sangue para o Cavaleiro de Peixes. Apesar da agressão sofrida por ele ter partido da organização a qual você faz parte, eu não esperava menos de você. Posso dizer então que interpretarei sua, digamos, generosidade, como nada além de sua obrigação em resolver a merda que a Vory v Zakone fez no meu empreendimento. — olhou firme para o francês que se mantinha impassível — Evitou que tivéssemos mais uma importante baixa em nosso contingente de elite.
Da cadeira do lado oposto da mesa Camus o encarava de volta com igual firmeza.
Ouvi-lo falar daquele jeito de Afrodite, reduzindo seu gesto a uma mera ação generosa ou dever moral, mesmo que ele não soubesse de seu relacionamento com Peixes, que ainda estava internado, inconsciente no hospital lutando pela vida enquanto passava periodicamente por sessões de desintoxicação do aço lemuriano e transfusões de sangue, lhe deu ganas de socar a cara do grego. Há três dias que fazia muito mais do que apenas doar seu sangue para o pisciano. Queimava seu Cosmo em tempo integral para garantir que suas células sanguíneas resistissem às toxinas circulantes no sangue de Peixes. Era um esforço colossal, já que ainda se recuperava da luta contra Escorpião enquanto se dividia entre Grécia e Rússia fazendo viagens constantes a fim de plantar provas, comprar testemunhas, mídia, polícia, e tudo o mais que fosse preciso para apagar os rastros do atentado ao Templo das Bacantes, e ouvir Saga debochar de seu esforço e tratar Afrodite como um mero soldado era revoltante.
Entretanto, manteve a face fria e inexpressiva, sem deixar escapar nenhum desses sentimentos que tanto o indignavam. Ao contrário, tratou o assunto com ainda mais descaso e com igual ironia.
— Non há o que agradecer. Apesar de meu desprezo pessoal por Peixes, estou apenas cumprindo minhas obrigações como cavaleiro. — disse com falsa indiferença.
— Sim, imagino. E já está sendo mais do que o suficiente no momento para ele. — desdenhou o geminiano, e nessa hora sua mente agitada já organizava novos assuntos.
Inclinando-se para frente Gêmeos alcançou o jornal dobrado e o empurrou com os dedos o deslizando até o aquariano.
— Pegue. — disse antes de voltar a recostar-se em sua suntuosa cadeira soltando um suspiro ruidoso de puro tédio enquanto apoiava os cotovelos nos apoiadores de braços cruzando os dedos ao mesmo tempo em que cruzava as pernas de forma pouco elegante — Não sei se está inteirado das notícias veiculadas hoje.
Camus desviou sua atenção do rosto do grego para rapidamente correr os olhos pelas manchetes do jornal que lhe fora estendido, sem o tocar.
— O ataque terrorista ao posto de combustível a uma quadra do Porto de Pireu, somado ao resgate mal sucedido do parlamentar coríntio, foram os destaques da primeira página do Jornal Ta Nea. — continuou Saga em tom sarcástico — Imagino que tem todos os seus dedos envolvidos nos dois casos. Foram duas grandiosas ações, dado o curto tempo para executa-las... Eu só me pergunto se não tinha como você ter optado por ser mais, digamos... discreto. — concluiu com cinismo na voz.
— Que eu saiba você non me pediu discrição. — disse Camus seco.
— Pelos deuses, não se faça de demente. Não poupou nem a pirotecnia! — disse gesticulando com expressão de desagrado — Agora toda a polícia grega e os serviços de inteligência do país estão alvoraçados feito gafanhotos famintos no meio da plantação... Os meus homens da máfia grega estão tendo que se esconder feito ratos nos esgotos, com receio de serem pegos. Frouxos de merda!
— Você queria que eu fizesse serviço, non? Então está feito. O método que utilizei non importa. — o ruivo comentou com os olhos no jornal, mas logo voltou a encarar o grego jogando o periódico sobre a mesa — Além disso, eram muitos corpos a dar cabo, e de pessoas influentes, para simplesmente desaparecerem todos de uma vez. Em casos assim é muito mais fácil dar um espetáculo. Você atrai a atenção e desvia o foco da questão principal. Agora mesmo tenho certeza de que ninguém se lembra do tiroteio que ocorreu em um bordel de luxo deixando dezenas de feridos. A polícia andará em círculos sem chegar a lugar algum.
— Você está certo disso? — inquiriu o geminiano.
— Absolutamente. Non se preocupe, um dos meus atributos é justamente saber como despistar possíveis investigadores e atuar sem deixar quaisquer rastros, nada além do esperado para um Vor na minha posição. — Camus respondeu ligeiramente aborrecido com o questionamento do outro.
O ruivo então se recostou na cadeira e levou a mão à parte interna do paletó em busca de um cigarro que acendeu sem pedir permissão ou se importar em estarem em um local fechado. Apesar de não ter se esquecido das ameaças que Gêmeos havia lhe feito há três dias cumprira todas as ordens que lhe foram dadas pelo Grande Mestre limpado sua honra perante o Santuário. Havia pago sua conta com juros e dividendos, e agora estavam ali, como meros civis tratando de negócios cujos interesses eram comuns, então não devia respeito algum ou submissão ao chefe da máfia grega à sua frente.
— Non me tome por amador, Gêmeos. — deu uma tragada profunda sentindo a nicotina sendo absorvida pelos pulmões lhe produzindo um frisson e soltou a fumaça devagar — Non assumiria a Vory V ZaKone aos vinte e quatro anos de idade caso fosse inclinado a cometer erros bobos. Se os seus homens non têm culhões para aguentar o tranco o problema non é meu.
— Eu não lhe tomo por tolo, Aquário, tão menos por incompetente... Um exemplo disso é que tenho certeza de que o montante de cinquenta milhões de Dracmas pedido como resgate daquele parlamentar inútil foi boa parte utilizado para o "atentado terrorista". Sujo, porém genial da sua parte. — o grego deu uma risada bem característica, de plena satisfação ao se lembrar da viúva chorosa nos telejornais que suplicava pelo marido, o parlamentar coríntio sequestrado, e implorava aos sequestradores por clemência. Mal sabia ela que no dia do suposto sequestro ele estava na esbórnia no Templo das Bacantes torrando o dinheiro dos contribuintes.
O falso sequestro, o atentado terrorista, os corpos carbonizados, outros desaparecidos, a polícia e mídia comprada... Propinas, ameaças, chantagens... Tudo tinha sido uma manobra articulada por Camus de Aquário para maquiar o atentado engendrado por Dimitri ao Templo das Bacantes. E forjar provas, deturpar a realidade, mentir e intimidar pessoas era a especialidade do aquariano.
Saga ria de satisfação do revés da vida. Felizmente seu empreendimento não perderia o status de melhor casa noturna para entretenimento adulto de toda a Grécia, já que no lugar do atentado uma nota reles no jornal anunciava que a Casa tinha sofrido um assalto a mão armada organizado por uma quadrilha especializada em roubos de carros fortes e joalherias. Esta haveria fugido com o fruto do roubo e não foi pega ainda, mas uma nota do dono do estabelecimento, na mesma matéria, dizia que este logo reabriria as portas com segurança potencializada.
— Você é o diferencial em meio aquele monte de estrume russo que é a Vory v Zakone... Deve ser por vontade divina que aquela máfia chegou no patamar de destaque no submundo do crime. Um desperdício de potencial que é a Vory, isso sim. — com um brilho rubro de puro ódio nos olhos e malícia na voz o geminiano continuou, com retórica impecável — A noção de poder deles é vexatória. Limitar-se apenas ao submundo do crime quando se pode ter todo o resto, Aquário? Por que contentar-se com nada, quando se pode ter tudo? Mas... essa realidade pode ser diferente. E você agora é a nossa principal peça para essa conquista.
Camus bateu o cigarro no cinzeiro que havia em cima da mesa e franziu a testa, preocupado com rumo daquela conversa. Aquele Saga era ardiloso e agora também lhe parecia um tanto megalomaníaco. Um dia queria lhe matar, no outro estava ali lhe rasgando "elogios"?
— Acho que non entendi. O que quer dizer com "a principal peça", Gêmeos?
Um sorriso maléfico, porém discreto, se desenhou nos lábios do grego. Aquário mordera a sua isca. Só precisava usar das palavras certas para fisga-lo.
— Quero dizer que a Vory v ZaKone possui uma força e estrutura incríveis, mas seu verdadeiro potencial ainda não foi bem explorado por conta da péssima administração de Dimitri. Agora, pela primeira vez a organização terá um Vor à altura de sua potencialidade e grandiosidade. Você.
Camus estreitou os olhos, atento e curioso.
— Além de inteligente, você é um homem competente, exímio estrategista, e é um cavaleiro da elite do exército da deusa Atena, que está sob meu comando. Você, meu caro, é a melhor opção para um Vor que os russos jamais sonhariam em ter. — Gêmeos debruçou-se sobre a mesa e olhando fundo nos olhos avelãs quase estagnados de Camus e continuou a incitar a ganância do outro — Entende como isso é perfeito, Aquário? Isso resolve todas as questões morais que limitam o controle do Santuário sobre o mundo aqui fora, o mundo civil. Agora que tenho um dos meus cavaleiros como chefe da maior organização criminosa existente na Europa, o mundo se tornou um lugar pequeno frente ao potencial expansivo de poder e influência que o Santuário terá estando no controle da Vory v Zakone.
Saga discursava com eloquência. E continuaria a falar ainda mais sobre seus planos de dominação se não fosse interrompido abruptamente por Camus, que havia mudado completamente a feição de seu rosto, pois se antes havia um ar de tédio e indiferença, agora o ruivo tinha na cara fechada um semblante nada amistoso com o qual encarava o geminiano enquanto seus olhos avelãs faiscavam.
— Um dos seus Cavaleiros? — Camus apagou imediatamente o cigarro no cinzeiro com um gesto brusco e fechou um pouco as pálpebras intensificando o olhar que dardejava o rosto do geminiano — Nem se dê ao trabalho de prosseguir. Já ouvi tudo o que precisava para entender aonde você quer chegar. Creio que temos um grande mal entendido, Gêmeos, mas irei considerar que sendo novo por aqui, “você” possa estar meio confuso ainda. Por isso, preste bem atenção no que vou te dizer, porque irei te fazer um pequeno favor desfazendo esse seu mal entendido...
Súbito Saga o interrompeu, irritado pelo outro lhe estar apontando o dedo indicador em riste.
— Não há mal entendido algum, Aquário.
— Ah, há sim! — rebateu o ruivo — Eu, como cavaleiro portador da sagrada armadura de Aquário jurei lealdade à deusa Atena, por isso recebo e cumpro ordens do Grande Mestre, o regente do Santuário, o que quer dizer que isso exclui, em absoluto, qualquer influência deste sobre minha vida pessoal e privada, e isso inclui minha liderança na Vory v Zakone. Camus é o Vor, non Aquário... E acho que nem preciso te explicar a diferença, do homem para o cavaleiro, já que sei que entende bem esse tipo de... duplicidade, non é mesmo, Saga? — fez questão de usar o nome — Então non misture as coisas. Aqui e agora, nesse seu escritório no centro de Atenas você non é o Grande Mestre, mas apenas o chefe da jovem e emergente máfia grega, e a este homem eu non sou subordinado.
— Como é que é? — disse o geminiano erguendo a voz grave e já se levantando enfurecido da cadeira enquanto dava um tapa no tampo da mesa fazendo soar um tilintar irritante da sua aliança ao se chocar contra o vidro espesso que trincou — Como ousa me afrontar dessa forma?
Camus também se levantou, e pousando ambas as mãos na mesa encarou firme o geminiano, não demonstrando um único suspiro de medo ou recuo.
— Afronte é me chamar aqui nesse escritório a essa hora da manhã acreditando que é capaz de ludibriar um Vor com esses elogios pífios. O que é o crime organizado grego perto da Vory? Um monte de nada! E você sabe disso, porque há três dias eu era descartável e agora eu sou “a principal peça”. Só que isso non é um jogo de xadrez, e mesmo se fosse eu non sou mais uma peça sua nem de ninguém. Meus dias de cão fiel morreram com Dimitri, e agora que tomei o lugar dele EU sou o Vor! Sou eu quem dita as regras do jogo no submundo do crime.
O grego respirava pesado como um touro raivoso com os olhos tingidos em vermelho injetados na direção do francês.
— Eu sempre consigo tudo o que eu quero, Camus. E não vai ser você a me impedir. — disse entre dentes quase em um rosnado.
— Pois fique sabendo que ninguém toma o que é meu, Saga. Non desperdice o seu nem o meu tempo incluindo a MINHA Vory v Zakone em seus planos megalomaníacos.
Com toda a classe costumeira, como se nada demais tivesse acontecido, Camus afastou o corpo da mesa, ajeitou o paletó e caminhou em direção à porta de saída sem mais trocar qualquer palavra ou olhar com o geminiano, ainda que pudesse sentir forte sobre si o olhar do outro imprimindo puro ódio. Não podia e nem queria mais perder seu tempo ali.
Atrás da mesa de vidro, de pé enquanto olhava furioso o aquariano deixar sua sala até a porta ser fechada, Saga já maquinava uma ação a altura da afronta que sofrera, e sabia que esta deveria se dar em breve, enquanto a Vory v Zakone ainda estava sob período de transição de chefia. Não ia deixar barato. Não aceitava ser contrariado.
O ódio que sentiu de Aquário crescia dentro de si excessivo, corrosivo, minando seu raciocínio já tão perturbado, e assim que se viu sozinho, no ímpeto de extravasar a raiva que o sufocava pegou o copo robusto de cristal e o atirou com força contra a coluna que havia ao fundo da sala. O cristal estilhaçou de tal maneira com a força do impacto seco que se transformou em uma poeira furta cor enquanto um rombo se formara no revestimento de gesso que se desprendeu e caiu logo em seguida no chão.
Ainda furioso e não satisfeito, o geminiano deixou escapar um urro abafado dando um soco potente na mesa que no mesmo instante trincou por completo o tampo de vidro espesso.
— Seu soviético filho da puta! — disse Saga em um rosnado ofegante enquanto segurava a mesa pela borda e a arremessava para o lado, aos cacos esquecida em meio ao carpete azul marinho que revestia o chão de seu escritório.
***
Do lado de fora, já na garagem do edifício sede da máfia grega, Camus caminhava a passos duros em direção ao seu carro na garagem.
O ruivo não era tolo, sabia muito bem o que havia feito. Havia dado um chute direto na caixa de marimbondos e seria burrice achar que não sairia ferroado.
Estava extremamente preocupado pensando no quão grave seriam as intenções de Gêmeos quando mencionou comandar a Vory através de si, especialmente agora que ele não estava em seu juízo perfeito, e como poderia ser ainda mais preocupante tê-lo no comando do Santuário, como Grande Mestre.
A questão é que jamais deixaria alguém tão descontrolado quanto aquela faceta maligna de Saga pôr as mãos em sua Vory.
A relação que tinha com a máfia russa era tão profunda e complexa que podia ser comparado ao que sentia por Afrodite: um relacionamento doentio, de codependência, posse, amor e ódio. E assim como era capaz de dar a própria vida para proteger Afrodite, jamais deixaria, quem quer que fosse, colocar as mãos na sua Vory V Zakone.
Estava irritadíssimo, e chegava a bufar de nervoso quando entrou no automóvel. Sentado no banco de couro, apertou o volante com as duas mãos e encostou a testa neste respirando fundo e contando os segundos a cada inspiração.
Precisava se acalmar.
Seu Cosmo estava muito agitado e oscilante, e isso poderia prejudicar o tratamento de Afrodite, que dependia completamente de si e de seu controle sobre a sua própria cosmo-energia dentro dele.
E era no sueco que pensava afim de conseguir controlar a ira... Minutos depois afastou a testa do volante e deu a partida no carro. A equipe do doutor Hector estava a sua espera para aquela que talvez fosse a última transfusão sanguínea necessária, e enquanto dirigia para o hospital Camus pedia aos deuses que de fato fosse, e que sua belle rose enfim pudesse despertar daquele pesadelo.
***
Nosso grupo no face "Fics trio ternura"
Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic.
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