Templo das Bacantes Vol. 2
43 O Poderoso Chefão. - parte 2
Notas iniciais

Nessa hora Mu arregalou os olhos, surpreso, então Gêmeos num movimento inesperado e brusco, e ainda segurando o aquariano pelo pescoço, o arrastou até próximo ao lemuriano sob o olhar desconcertado de Dimitri e a expressão de desdém de Máscara da Morte, depois o soltou e deu um safanão em sua cabeleira ruiva.
— Não é mesmo, Aquário? Você não me é fiel? Não é o que você diz? Agora teremos a prova! — disse o geminiano, que sem ouvir uma pronta resposta do aquariano elevou o tom de voz — LEIA LOGO A MENTE DESSE FILHO DA PUTA, ÁRIES! O QUE ESTÁ ESPERANDO? — bradou, com a respiração ruidosa e o rosto transtornado a direcionar um olhar faiscante a Mu.
A expressão assustada do lemuriano então se tornou séria e introspectiva.
Uma acusação de traição ao Santuário era deveras grave e poderia resultar além da perda da armadura à uma condenação à morte, por isso olhando dentro dos olhos avelãs de Camus, Mu nem precisava usar seus dons para ver o desespero estampado neles, mas havia também algo mais, e Áries sabia o que era. Aliás, ele sabia sobre Aquário mais do que qualquer um ali naquela sala, mesmo o francês vivendo emaranhado por uma rede de segredos e mentiras. O envolvimento de Camus com Afrodite era a prova cabal de que ele jamais estaria de acordo com aquele ataque, ao contrário, se soubesse estava certo de que teria feito de tudo para impedi-lo, mas isso Mu não podia falar a Saga, nem a ninguém.
Como não podia confiar no julgamento daquela versão vil de Saga, Áries adotou uma estratégia para proteger o irmão de armas, uma vez que naquelas circunstâncias era mais seguro confiar em Camus do que no Grande Mestre, que estava completamente descontrolado. Por isso, daria uma oportunidade ao francês de se livrar daquela acusação sem ter que revelar seus segredos íntimos com Afrodite, ainda que esta fosse de fato uma manobra legítima, pois seus olhos muvianos podiam ler a aura das pessoas e não precisaria mentir.
— O meu povo considera a invasão de mentes uma agressão profunda. — disse Mu — Além disso, eu jamais submeteria um irmão de armas a uma desonra dessa magnitude. Me desculpe, mas não farei isso. — encarou Gêmeos decidido — No entanto, eu não preciso invadir a mente de Aquário para saber se ele mente ou não, Grande Mestre! — fez uma pausa assumindo um semblante sério — Existe um modo muito menos agressivo e tão confiável quanto de saber se ele diz a verdade. A aura de uma pessoa me diz muito sobre suas intenções, e a aura de Aquário mostra confusão, assombro, preocupação, mas nenhum traço de engano e mentira. — olhou firmemente nos olhos de Gêmeos, e depois de uma breve pausa desviou os olhos para o rosto de Camus, que o encarava sério, então iniciou uma conversa com o francês — Mas, para ter certeza e não restar nenhuma sombra de dúvida me responda de modo objetivo, Cavaleiro de Aquário: Você tinha conhecimento do ataque que sofremos e colaborou com sua execução?
— Non! — Camus respondeu com firmeza e verdade absoluta.
Mu continuou o encarando por alguns segundos. Havia calculado bem as palavras que usara não exigindo do aquariano maiores detalhes, desse modo sua aura não vacilaria e ele, Mu, não teria que mentir.
— Ele fala a verdade! — Mu sentenciou ao se voltar para Gêmeos, notando a respiração aliviada de Camus à sua frente — Não houve nenhuma nota ou tom de vacilo, mentira ou engodo em sua aura corporal. Só vi certeza, verdade e sinceridade, e eu não tenho motivos para mentir também.
Surpreso o Patriarca ergueu uma sobrancelha e analisou cuidadosamente o semblante do ariano por um momento, então convencido de sua palavra soltou um riso de escárnio, o que fez Dimitri franzir o cenho e grunhir algo incompreensível.
O Vor máximo da Vory v Zakone não era o que se podia chamar de fluente na língua grega, porém dados os tantos anos de convivência com seu irmão Yuri, mestre de Camus e antigo Cavaleiro de Aquário, somado aos anos de “parceria” com o Santuário, firmando negócios e alianças, primeiro com Shion depois com o próprio Saga, fizeram de Dimitri um bom entendedor do idioma, ainda que se negasse a fala-lo por orgulho. Portanto, era capaz de entender cada palavra dita por Gêmeos dentro daquele porão.
— Ora, então você está mesmo falando a verdade, Aquário! — disse o grego encarando os olhos do aquariano — Deveras fiel! — deu dois tapas ruidosos com a mão espalmada no peitoral da armadura de Camus.
— Eu falei que non estava envolvido nessa merde. — disse Camus lançando um olhar cruel para o Vor russo.
— Claro que falou. Eu precisava ter certeza, não é mesmo? — pontuou Gêmeos com um sorriso macabro delineado nos lábios, depois empurrou Camus para o lado e direcionou toda sua atenção a Dimitri.
O Santo de Aquário com o empurrão se desequilibrou e quase foi ao chão, mas Máscara da Morte prontamente o amparou evitando a queda.
— Dessa você escapou, heim Coglione* — sussurrou o italiano auxiliando o outro a se colocar de pé, e só então pode notar o quanto o rosto de Camus estava deveras ferido, todo marcado, já que a penumbra do lugar só lhe possibilitou ver pequenas nuances ao longe — Ma para alguém que estava na Rússia apenas investigando o sumiço desse bastardo figlio di una cagna sem madre... — apontou Dimitri com um sinal de cabeça, mas sem tirar os olhos do rosto do francês — Você me parece que andou bem metido em confusão, non é vero?
Camus engoliu em seco. Obviamente não podia dizer a verdade, que tinha tomado uma verdadeira surra de Afrodite no dia anterior, então assumindo um semblante sereno e com a complacência que só os mentirosos profissionais são capazes de atingir disse calmamente, e totalmente seguro de suas palavras:
— Eu certamente encontrei alguma resistência enquanto procurava por pistas que me levassem até Dimitri... — fez uma pausa, evitando fitar os olhos questionadores do Cavaleiro de Câncer — A Vory v Zakone tem muitos olhos... onde quer que você vá sempre tem alguém à sua espreita.
Máscara da Morte ergueu o queixo e analisou o rosto de Aquário.
— Você saiu na mão com os russos e eles fizeram isso na tua cara? — perguntou.
— Basicamente isso. — Camus respondeu dando de ombros.
— Hum... Civis. Meros civis sovaram tua cara desse jeito. — Câncer estreitou os olhos.
Camus então levantou o olhar e encarou seguro as orbes profundas do italiano.
— É por conta de meros civis que estamos aqui também, non é — fez uma pausa — Além disso, eles tinham ursos!
Confuso e chocado, Máscara da Morte entreabriu os lábios e por alguns segundos não soube o que dizer, ainda que pretendesse e quisesse falar algo, e nessa hora o tilintar da sola da bota da armadura de Gêmeos lhes chamou a atenção e ambos olharam para o Patriarca, que dava pequenos passos em volta da cadeira onde Dimitri estava atado.
— Aquário pode ser inocente, mas certamente alguém daqui de dentro do Santuário me traiu. — dizia o geminiano enquanto ainda espreitava o prisioneiro — Ah sim! Existe um traidor, pois você há de concordar comigo, Dimitri Yurievich Volkov, que um ataque nessa proporção, e com alvos previamente marcados, indubitavelmente tem caráter de retaliação e decerto foi motivado por algo que a seu julgamento lhe era extremamente significativo, logo, informações privadas chegaram até você... Informações estas que obviamente Aquário irá alegar ignorar completamente, mas que você, o Vor daquela organização suja que você comanda, certamente sabe. E é claro que você vai me dizer. Ah, vai! — parou de frente para o russo na cadeira e encarou firmemente seus olhos — Você vai me dizer até o que você não sabe, não é mesmo?
Dimitri estava estático. Os muitos anos à frente de uma organização tão poderosa como a Vory v Zakone fizeram dele um homem de brios, orgulhoso, destemido, bravo... mas nem toda uma vida de crimes, corrupção, assassinatos, mentiras, ódio e toda a forma mais vil de violência o prepararam para enfrentar com hombridade e de forma digna aquela figura demoníaca que se avolumava diante de si. Poucas foram as vezes em que estivera na presença de Saga, podia contar nos dedos, mas em nenhuma delas se recordava de sua figura lhe ser tão assustadora. Até tinha tomado a decisão de matar Geisty sabendo que tinha o geminiano nas mãos, sabendo como manipula-lo, contando com a necessidade dele e do Santuário do auxílio financeiro da Vory, mas aquele ali não era o mesmo homem.
Mesmo lutando para se manter firme, para manter a honradez que seu cargo e história lhe exigia, Dimitri tinha o coração acelerado e seu espírito gritava. A garganta congelada tentava pronunciar algum som, mas eram seus olhos que buscavam suplicantes os de Camus que denunciavam seu pavor.
No coração do Vor russo ainda existia uma chama de esperança, e ele a depositava toda em seu braço direito, seu “filho”. Apesar da dura conversa que tiveram há pouco, da confissão malfadada de Camus e de sua reação extrema, Dimitri não aceitava que de fato o tinha perdido. Alguma fagulha do menino que acolhera no seio de sua família e a quem transformou num homem tinha que ter sobrevivido, e era nisso que ele apostava.
Mas Camus permaneceu calado, devolvendo ao Vor um olhar vazio, oco de sentimentos, e foi nessa hora que o Cavaleiro de Gêmeos percebeu a troca de olhares, então ele se aproximou vitorioso da cadeira, segurou forte no rosto do velho homem o forçando a encara-lo e praticamente cuspiu as palavras:
— Ah... Pela falta de amor de todos os deuses do Olimpo! Você está suplicando pela ajuda de Aquário, Dimitri?
Gêmeos selou a frase com um forte tapa sobre a boca do russo.
A violência do golpe fez o Vor cerrar os lábios e apertar as mandíbulas fortemente, e nesse processo ele mordeu a boca e alguns de seus dentes trincaram. Um grunhido alto foi emitido na mesma hora em que ele cuspiu para fora uma quantidade generosa de sangue.
— Mas que merda de covarde é você? — rosnou o Patriarca ao mesmo tempo em que o segurou com força pelos cabelos grisalhos puxando sua cabeça para trás — Encare como uma pergunta retórica, seu energúmeno!
Dimitri arregalou os olhos divisando em terror a figura sobre si. Arfava, gemia e pela primeira vez desde que decidira retaliar o Santuário e dar uma lição em Camus sentiu arrependimento. Talvez tivesse mesmo sido precipitado e agido por impulso, mas ainda acreditava que o aquariano fosse lhe perdoar e lhe ser fiel.
Ledo engano.
Enquanto novamente buscava a face de Camus com os olhos aflitos viu quando Gêmeos fez um sinal para que Mu e Máscara da Morte se aproximassem, e quando ambos acercaram-se deles então o grego continuou:
— Áries, você será novamente o meu detector de mentiras, enquanto você, Câncer... — olhava profundamente nos olhos de Dimitri — Irá garantir que a alma desse pedaço de excremento continue dentro do corpo. Não o deixe morrer antes que me entregue o nome do traidor.
Dimitri sentiu o corpo todo estremecer, então contorceu o rosto em uma expressão de dor quando o Patriarca torceu seus cabelos puxando ainda mais sua cabeça para trás.
— Vamos lá, seu russo de merda. — disse o geminiano, que depois largou o cabelo do Vor e endireitou a postura — Eu sei que veio atrás da amazona que carregava os meus filhos, pois então, como soube da gravidez dela? Anda, eu só quero saber quem traiu a mim e ao meu Santuário.
O Santo de Gêmeos esfregava as mãos em um gesto nervoso, divisando com ódio contido o homem na cadeira que num misto de raiva, retidão e aflição o encarava com fúria, enquanto se sacudia tentando se soltar das cordas emitindo sons incompreensíveis semelhantes a grunhidos e gemidos roucos.
Sem saber que Dimitri não falava por ter a garganta e as cordas vocais congeladas, o Grande Mestre perdeu a pouca paciência que ainda conservava e desferiu outro potente golpe contra o russo. Um soco que o acertou em cheio no nariz e fez sua cabeça ricochetear para trás e depois pender para frente. A pancada fora tão violenta que foi possível ouvir o som das cartilagens se partindo, mas todos os cavaleiros ali presentes não manifestaram reação alguma, a despeito de Saga, que no instante seguinte agarrou novamente nos cabelos grisalhos, agora do topo da cabeça do Vor, e fez olhar para si mais uma vez.
— Não pense que terá o privilégio da morte, Dimitri, pois você não terá, sabe por quê? — disse o geminiano com os olhos faiscantes de fúria — Porque subestimou o meu poder, o poder do Santuário. Aqui está um homem que tem algum poder sobre a morte. — apontou para Máscara da Morte — Eu posso reduzir seu corpo a mera matéria disforme se eu quiser e ainda assim você continuaria vivo, porque a partir de agora sua alma me pertence! E quando seu corpo perecer sua alma ainda será torturada no inferno sob minhas ordens! Eu também posso saber da verdade apenas lendo sua mente. Está vendo este outro homem? — fez uma pausa e apontou para Mu — Não existe barreiras, físicas ou mentais, para ele. Você ainda acha que a sua máfia ordinária tem mais poder que o meu Santuário? Imbecil!... Mas, eu quero ouvir da sua boca! Quem me traiu. Me diz o nome. FALA SEU MISERÁVEL! QUEM TE FALOU DA AMAZONA E COMO CONSEGIU NEUTRALIZAR MEUS CAVALEIROS?
Dimitri arfava em desespero enquanto Gêmeos berrava. Ao lado Camus mantinha a postura firme, mesmo que sua alma e coração estivessem castigados em apreensão, pois estava ali ainda sem saber notícia alguma de Afrodite, quando tudo que mais queria era correr para o Hospital de Atenas e estar junto dele.
Aquário também tentava conter o nervosismo, pois sabia que Dimitri e a Vory só tinham conseguido chegar tão longe devido ao dossiê redigido por seu mestre, o qual entregava as fraquezas dos cavaleiros de Atena, um documento que Saga desconhecia a existência, e uma possível e irrefutável prova de deslealdade de sua parte para com o Santuário. Era certo que Camus mantinha esse dossiê em segredo dado o acordo que fizera com Dimitri, de que ele só seria usado sob sua supervisão e autorização, mas o Vor descumpriu o pacto, e agora o Patriarca jamais poderia saber da existência desse documento.
Aquele era só mais um segredo que teria que carregar consigo, e pensando nele foi que olhou para Dimitri com desprezo e ódio, retomando a máscara de frieza absoluta com a qual ocultava suas emoções de forma primorosa.
E foi essa expressão fria e apática que Dimitri viu quando novamente, e em desespero, buscou o rosto do aquariano, mas nesse exato momento eis que o Santo de Gêmeos se afastou alguns passos da cadeira e enlouquecido bradou:
— Áries, esse russo desprezível não é seu companheiro e sim nosso inimigo. Portanto, agora você não tem desculpas! Entre na mente desse crápula e me dê a informação que eu quero. É uma ordem! — disse ele — Parece que o gato comeu a língua desse filho de uma ronca e fuça. Ele não vai falar. Ele acha que ainda lhe resta alguma dignidade, pois bem. Não lhe dou o direito de ter nenhuma dignidade, seu desgraçado.
Nessa hora Camus sentiu uma pontada no peito. Estava com medo de ser descoberto, já que não sabia que Mu já conhecia seu maior segredo e este poderia ser revelado pelas memórias de Dimitri, mas usou de toda sua frieza para manter-se firme, não podia perder o controle de si mesmo, e sempre haveria a chance do lemuriano não descobrir nada.
Ainda que relutante, uma vez que usar seus dons raciais para invadir a mente de outra pessoa ia contra todos os seus princípios, Mu avançou alguns passos colocando-se à frente da cadeira, cara a cara com o Vor, então olhou em seu rosto miserável e fez um rápido julgamento. Aquele homem não era uma pessoa comum. Saga mesmo descontrolado estava certo, Dimitri era um inimigo perigoso, uma criatura cruel, sem escrúpulos, que matou seus afilhados e instaurou todo aquele caos.
Sem pensar uma segunda vez o ariano esticou os braços e tocou as têmporas do russo, então fechou os olhos e concentrado tentou encontrar a informação que queriam.
A leitura da mente não era um gesto simples. A primeira coisa que Mu notou ao acessar as memórias de Dimitri foi que sua mente estava de alguma forma fechada, provavelmente lhe fora ensinado alguma técnica de proteção, porém nada muito sofisticado ou eficiente, em se tratando de um civil, até porque seu estado de apavoramento tornava essas barreiras mais frágeis.
O problema foi quando acessou a plenitude dos pensamentos do Vor.
Imediatamente uma torrente de imagens desconexas acertaram Mu o fazendo franzir a testa e se concentrar ainda mais, enquanto o suor escorria por seu rosto. Ao mesmo tempo via tantas coisas, e de forma tão desordenada, que não conseguiu separar o útil do inútil. O ocorrido no bordel e o ataque direto à Geisty pareciam uma constante, e em meio a eles a imagem de Afrodite também se repetia insistente, e nessas horas sentia um ódio profundo emanar da aura daquele homem. Junto dessas memórias recentes brotavam também vivencias do passado, cenas da família de Dimitri, de seus entes queridos, esposa, filho, seus homens de confiança, mas de repente tudo se misturava e em fração de segundos a família era substituída por centenas de imagens de outros interrogatórios, todos acabando em mortes violentas, provavelmente lembranças desencadeadas pelo medo iminente de morrer. Então, eis que viu Camus, em diferentes fases, com diversas idades, criança, adolescente, adulto, e em todas as lembranças do Vor, Aquário aparecia de modo muito íntimo, afetivo, mas junto dessas imagens de súbito surgiram flashes de memória que encheram o coração de Mu de pesar, pois nesses uma voz odiosa gritava, a voz da mente de Dimitri: viado, bicha, sujo, aberração, meu filho, desonra, honra, sangue, doença... cura!
— Aaarrghh! — o Santo de Áries deu um grito castigado no mesmo instante em que abriu os olhos e afastou os dedos das têmporas do russo.
Desde que assumira seu relacionamento com Shaka, Mu havia vivido no Santuário, portanto nunca vivenciou na pele a terrível realidade do preconceito, da homofobia.
Nos instantes finais, antes de sair por completo da mente de Dimitri, o Santo de Áries sentiu o horror da intolerância. Aquele homem marrado à cadeira mostrou uma triste realidade a Mu, uma realidade de ódio puro contra pessoas como Afrodite, Camus e ele mesmo.
Fora um golpe cruel e doloroso que o forçou a desistir da leitura mental, além de entender melhor o motivo do aquariano temer tanto em se aceitar como era.
— E aí? Descobriu quem foi? — imediatamente Mu fora tirado de seus próprios pensamentos por Saga, que o indagou acercando-se.
Áries deu um longo suspiro levando à mão à própria fronte. Massageava a região em busca de alívio, pois sua cabeça doía demasiadamente, visto que recebera uma enxurrada de informações, mas em sua grande maioria inúteis.
— Não. — respondeu simplesmente o ariano — Ele está completamente apavorado e muito agressivo. A mente dele virou uma bagunça. Nem ele consegue mais acompanhar os próprios pensamentos. Para uma boa leitura a pessoa precisa estar calma, mas Dimitri está mergulhado em caos. Eu vi muita coisa, mas era tanta informação fora de contexto que não sou capaz de separar o joio do trigo. — sentenciou, para alívio de Aquário e desespero de Gêmeos.
Possuído pela raiva e com o sangue lhe fervendo nas veias, Saga empurrou Mu para o lado e deu um chute potente nas pernas da cadeira. A força da pancada fez a madeira se partir em pedaços e Dimitri então foi ao chão, sendo chutado diversas vezes pelo geminiano.
— Então você quer dar uma de esperto e dificultar as coisas? — gritava enlouquecido o grego enquanto chutava as costas, costelas, peito, e tudo que conseguisse atingir do russo — Pois bem, você vai me contar de alguma forma, vivo ou morto, quem foi que lhe falou sobre os meus rebentos... Meus preciosos geminianos que herdariam a minha armadura e seriam as minhas armas mais poderosas! Nem que para isso eu tenha que arrancar a alma do seu corpo decrépito para que ela me conte, seu porco velho!
O medo tomou proporções até então inimagináveis no coração de Dimitri, e este agora tentava a todo custo gritar o nome que Saga tanto esperava para ouvir, mas todo o som que conseguia emitir eram apenas grunhidos e arquejos de dor e desespero absoluto. A cada novo chute sentia a vida lhe deixar mais um pouco, porém se lembrava das palavras do geminiano de que a morte não seria seu alívio, já que ele também tinha sua alma em suas mãos. Não iria reencontrar o filho perdido no além-mundo, não iria abraçar o Criador, como acreditava, mas vagaria atormentado eternamente por Saga e aquele cavaleiro de rosto demoníaco que tinha poder sobre a morte. Não. Não lhe restava nenhum tipo de redenção.
Seu corpo tremia convulso e a hombridade que lutou até aquele momento para manter havia caído por terra quando sentiu um líquido quente ensopar suas calças. Havia se urinado de medo.
Aquele foi o ápice de sua humilhação, e na ânsia de acabar logo com seu martírio conseguiu com muito custo livrar uma das mãos das cordas, então rapidamente, e com a mesma esperança eufórica de um andarilho em meio a um deserto que corre para os braços de um oásis em busca de agarrar-se ao último fio de vida que lhe resta, Dimitri espalmou a mão no chão sobre uma poça de seu próprio sangue e em completo desespero, com os dedos nus e trêmulos, tentou riscar com as unhas ensanguentadas algo na pedra.
Alheio ao que o Vor fazia, pois estava cego de ódio, Gêmeos chutou suas costelas com tanta força que fez o som dos ossos se partindo soar arrepiante.
— Achou mesmo que poderia invadir a porra da minha zona, matar meus gêmeos, destruir todo o meu patrimônio e sair ileso? Você fez isso contando com a fraqueza do Saga, não foi? Mas, eu não sou o Saga! — disse o Grande Mestre, que parou de chutá-lo para colocar o pé contra sua cabeça forçando a sola da bota de ouro sobre a têmpora do russo.
Nesse momento o Cavaleiro de Áries esticou o braço e tocou ansioso o ombro do Patriarca.
— ESPERE! PARE! — Mu gritou exacerbado — Ele está... está tentando escrever alguma coisa no chão, olhe!
— Ma o farabutto está usando o sangue como tinta! — disse Máscara da Morte que também tinha notado.
Os quatro cavaleiros então voltaram seus olhos para o chão onde entre gemidos, choro e espasmos convulsos o Vor delineava com esforço extremo e caligrafia precária uma palavra que segundo seu julgamento era sua última esperança de sair vivo dali. O nome que chegara até seus ouvidos trazido pelo espião infiltrado no bordel da Albânia, e que o fez colocar um detetive para investigar o Templo das Bacantes e, por sorte, um Cavaleiro de Ouro, já que Dimitri acreditava ter sido mesmo um ato de traição a informação da gravidez da amazona ter chegado até si depois de ter sido mantida em sigilo até mesmo por Camus, seu braço direito.
Antes mesmo que o Vor terminasse de riscar a última vogal todos ali sentiram-se como golpeados na boca do estômago por aquela revelação.
— Milo?
Quem quebrou o silêncio e falou em total assombro em alto e bom tom foi Camus, que com os olhos arregalados mirava, junto dos irmãos de armas, aquelas quatro letras riscadas na pedra, incrédulo.
No mesmo instante, do lado de fora do porão, um par de ouvidos atentos tinham acompanhado todos os acontecimentos que se deram do lado de dentro desde a chegada do Cavaleiro de Áries ali.
Shina mantinha o rosto encostado na madeira da porta concentrada em cada palavra que era falada, mas quando ouviu o nome do Santo de Escorpião ser dito por Camus e um silêncio repentino se dar em seguida fora como se tivesse sofrido uma descarga elétrica. Em completo horror ela afastou o rosto da porta e levou ambas as mãos ao rosto, cobrindo a boca num gesto de incredulidade. “Não pode ser! Não! Pelo sangue de Atena, não pode ser!”, pensou ela por um momento, temendo que até seu coração, acelerado e batendo frenético dentro do peito, denunciasse sua presença ali.
Prendendo a respiração, com a boca seca, as mãos trêmulas e a musculatura do corpo todo tensa, a amazona encostou mais uma vez o rosto na porta na esperança de ouvir uma palavra redentora de qualquer um dos cavaleiros ali, que desmentisse aquela revelação devastadora.
Foi quando a voz gutural e quase irreconhecível de Saga chegou novamente a seus ouvidos.
Do lado de dentro do porão, Gêmeos arfava e bufava feito um animal em fúria, mal conseguindo respirar, então apontou para o nome riscado da pedra e rosnou encarando o Vor russo que se contorcia arquejante no solo:
— Cavaleiro de Áries confirme essa informação! CONFIRME AGORA! FOI MESMO O PULHA MISERÁVEL DO ESCORPIÃO QUE TRAIU MEU SANTUÁRIO? — gritou a plenos pulmões.
Ainda chocado, com o corpo todo estremecido e aterrorizado com a possibilidade de descobrir que Dimitri estava falando a verdade, apesar de não acreditar no russo, além da consequência terrível que o desfecho daquele interrogatório podia acarretar, Mu acercou-se do Vor às pressas e agachou ao lado dele.
Precisava confirmar a Saga que ele estava mentindo, já que era óbvio que estava, visto que conhecia Milo, sabia de sua lealdade para com o Santuário e tinha certeza que ele jamais cometeria ato tão hediondo, por isso bastaria fazer uma pergunta ao Vor e aquele mal entendido estaria resolvido, e assim como salvou a Camus de uma falsa acusação de traição também salvaria Milo.
Dimitri tinha o rosto pressionado entre o chão de pedra e a sola da bota dourada de Gêmeos, então Áries inclinou-se para baixo e olhou em seus olhos inchados pelos tantos golpes que levara, e mesmo com dificuldade extrema o russo os entreabriu e devolveu o olhar ao ariano, então de repente sua mente fora invadida pela voz melodiosa, porém firme e ameaçadora, do guardião da Primeira Casa.
“Se você estiver mentindo eu mesmo faço questão de te matar. Então fale a verdade.”, disse Mu usando telepatia para só depois verbalizar as palavras que Saga esperava ouvir.
— O traidor do Santuário, o homem que lhe forneceu informações sigilosas a nosso respeito, a respeito da amazona Geisty de Serpente que... estava grávida... Foi Milo de Escorpião? — perguntou o ariano.
Fez-se um momento de silêncio absoluto e tão denso que até o oxigênio parecia ter acabado dentro naquele porão, pois nenhum dos cavaleiros sequer respiravam.
Do lado de fora com o rosto encostado na porta Shina de Ofiúco também prendia a respiração, aterrada em expectativa, enquanto rogava a Atena para que Mu confirmasse logo a mentira.
No porão Dimitri confirmou a informação com um aceno fraco de cabeça, e nessa hora foi com o coração pesado entregue a uma dor que jamais imaginou sentir, e sabendo da gravidade que aquela realidade significava, mas incapaz de mentir, sobretudo diante das consequências trágicas desencadeadas por aquela traição, que Mu ergueu o troco mantendo a cabeça baixa e de olhos fechados falou com um fio de voz:
— Está confirmado! Ele diz a verdade.
A voz do lemuriano apesar de fraca chegou até os ouvidos atentos de Shina, que absorta e chocada não conseguiu segurar um soluço, prenúncio de um choro irrefreável que era misto de descrença, horror, medo e agonia.
Imediatamente, e temendo ser descoberta, Ofiúco engoliu o choro e com os olhos verdes assustados e marejados saltou para trás já se embrenhando nas sombras das ruínas que acercavam a construção. Não sabia como lidar ainda com aquela realidade absurda, não podia acreditar, e de fato não estava convencida de que Milo fosse um traidor, principalmente porque sabia de seus sentimentos por Geisty, ele era apaixonado pela amazona de Serpente e jamais colocaria a vida dela em risco. Havia algo podre naquela história, mas ela não tinha tempo de descobrir. Precisava agir rápido!
***
No porão do Templo das Bacantes o Cavaleiro de Gêmeos tinha a cabeça erguida, o queixo levantado, mas os olhos viperinos baixos fixos ao russo estirado no chão sob seus pés.
Enquanto o Santo de Áries se levantava e se colocava em silêncio ao lado de Câncer e Aquário, o Grande Mestre contorceu os lábios até sua boca formar um arco curvado para baixo. Sentia um misto de raiva e repulsa, asco, e como se fel brotasse de sua garganta levou o dorso da mão à boca e enxugou a saliva que se formava nos cantos dos lábios.
— Apesar de tudo, não me surpreende ter sido ele. — disse o geminiano soltando um riso de falsa indiferença, pois em seu íntimo estava sim chocado, embora soubesse que não era algo impossível, dada toda a confusão ocorrida meses antes na cerimônia de noivado de Saga com Geisty. Depois desta Escorpião deixou o Santuário e desde então apenas se reportava à distância.
Envenenado por dentro pelo ódio que sentia, Gêmeos observava com verdadeiro asco o olhar suplicante que Dimitri agora direcionava a Camus na esperança de um último ato de compaixão e lealdade do aquariano. O Vor não queria morrer, não estava pronto para ir embora, sobretudo de modo tão humilhante, então contava com os anos de afeto e cuidados que dedicara ao francês depositando nele sua última chance de sair dali vivo.
— Aquário, acho que ele espera uma atitude sua. — disse o Patriarca imprimindo mais força ao pé que comprimia a cabeça de Dimitri contra a pedra, como se pisasse em um inseto asqueroso prestes a ser esmagado sob a sola de seu sapato — Pois bem... Essa é a hora de você decidir de uma vez por todas a quem você de fato serve com lealdade e obediência. — sua fala tinha um tom prepotente e autoritário, e logo após dizê-la Gêmeos direcionou um olhar maléfico ao aquariano.
Camus por sua vez, tinha os olhos avelãs cravados na figura decadente do Vor, que no chão grunhia alucinado por socorro contando com os anos que dedicara de sua vida aquele homem, o tratando como a um filho, o acolhendo em sua família, lhe dando um cargo de confiança e liderança na Vory. Não. Dimitri conhecia muito bem Camus e sabia que se ele quisesse conseguiria intervir e impedir sua morte. Poderia usar o Cosmo e em fração de segundos congelar aquele maldito porão junto com o desgraçado do Grande Mestre que o humilhava e fugir com ele dali, mas suas súplicas não tocaram o Cavaleiro de Aquário.
Impassível Camus lhe devolvia um olhar de completo desprezo. Se um dia sentiu qualquer afeto ou respeito por aquele homem agonizante no chão estes sentimentos haviam morrido dentro de si quando o amor por Afrodite o fez enxergar o quão destruída sua vida fora em nome dos caprichos de Dimitri e de uma sociedade preconceituosa. Por isso, levou a mão à parte interna da armadura e de lá apanhou o aparelho celular que sempre mantinha consigo, em seguida, diante do olhar surpreso de todos e sem mover um só músculo da face, ainda que estivesse feliz pelo que faria, encarou Dimitri nos olhos e discou um número.
Todos ali, principalmente o russo, aguardavam em expectativa quando a voz do aquariano foi ouvida finalmente.
— Andreas... sim sou eu. — disse Camus em um russo perfeito que foi entendido por todos, sem desviar nem por um segundo o olhar dardejante que direcionada ao Vor — Ouça o que vou lhe dizer e non faça perguntas... Dimitri está morto. Eu sou o novo Vor. A Vory v Zakone agora é minha... Non fale com ninguém até nova ordem.
O francês então afastou o aparelho do rosto no mesmo instante em que o urro troante que saiu da garganta de Dimitri ecoou pelo recinto.
Em desespero, e com os olhos arregalados a quase lhe saltarem das órbitas cravados no aquariano, o russo grunhia feito um animal, odioso, ensandecido, mas também amedrontado. Não podia crer que Camus tivera a audácia de lhe virar as costas, de assumir seu lugar. Mesmo naquela situação deplorável sentiu ganas de parti-lo ao meio, mas a última percepção que teve do mundo dos vivos foi a gargalhada insana do Grande Mestre que entrava por seus ouvidos feito um hino amaldiçoado, então tudo acabou quando Gêmeos afundou o pé em sua cabeça esmagando seu crânio contra o chão de pedra.
Dimitri morreu como o rato imundo que era. Esmagado feito um inseto insignificante, mas que como toda praga deixou um rastro de destruição por onde passou.
O odor forte e ferroso de sangue logo se ergueu impregnando todo o ambiente, e enquanto Mu olhava com assombro para a cabeça esmagada no chão e Máscara da Morte soltava um suspiro longo e pesaroso, afinal presenciar a destruição de uma cabeça tão robusta como aquela sempre lhe causava extremo pesar, já que achava que ficaria muito melhor em sua parede, Gêmeos raspava a sola da bota suja nas costas do casaco do cadáver para limpa-la. Ao mesmo tempo em que o fazia fitava concentrado o rosto de Camus, analisando cada rusga de sua expressão, mas Aquário mantinha-se indiferente.
Ao término da ação o Patriarca caminhou com passos morosos, porém decididos, até o aquariano parando à sua frente. Trocaram um olhar profundo, silencioso, e após um breve momento assim o grego cruzou os braços e então sua voz transfigurada quebrou o silêncio.
— Muito bem... Então agora você é o Vor absoluto da Vory v ZaKone. — ergueu as sobrancelhas num gesto de desdém — Eu não esperava menos de você. Temos muito a acertar, Aquário, mas antes... agora que já eliminamos esse verme, vamos dar cabo do nosso segundo problema.
O semblante de Camus ficou mais sério, sua respiração mais pesada.
— Do que está falando? — perguntou o francês.
— Cavaleiro de Aquário eu ordeno que mate Escorpião!
*Coglione – culhão; pessoa que causa problemas.
Figlio di una cagna – filho de uma cadela
Madre — mãe
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