Templo das Bacantes Vol. 2
17 Não me subestime, meu amor.
Notas iniciais

Enquanto o escorpiano dava as costas a todos e se retirava da festa, Geisty sentia o peito apertar em angustia por tudo que Milo dissera. Cada palavra proferida por Escorpião doeu profundamente na amazona de Serpente, mas o mais angustiante para ela era saber que estas haviam sido muito mais corrosivas para Saga, ao ponto de ele não conseguir suportá-las com resignação e se deixou levar, mais uma vez, pela raiva e descontrole.
Geisty sentia um aperto incômodo na garganta, a voz insistia em sair rouca por conta dos gritos, mas, mesmo angustiada pelo pesar de ver o homem que amava prestes a sucumbir ao mal que o habitava, não desistia de chama-lo de volta a si.
Sem medo de qualquer reação agressiva por parte do geminiano, a amazona tomou-lhe o rosto entre as mãos trêmulas e chamou por ele com a voz tensa, porém ainda assim confiante.
— Saga! Saga, por favor, precisa se concentrar... Ele já foi. — disse afastando uma mecha do cabelo azul do rosto afogueado do namorado — Acalme-se! Preciso que você mantenha a calma. Eu estou aqui com você... — o divisava firme, esperando que o cavaleiro tomasse as rédeas de si por completo.
Saga então olhou para ela e aprumou a postura, o peito ainda se movimentando em um ritmo respiratório ofegante e acelerado, com o ar quente saindo pela boca que sangrava devido ao golpe que havia recebido de Milo, porém agora com o semblante mais sereno.
Havia sido demais para Gêmeos ouvir todas aquelas acusações feitas por Milo e proferidas de forma tão dura, direta e firme, sem que ao menos pudesse defender-se. Escorpião enxergava toda a situação de um ângulo bem divergente do que era de fato para o casal. Por aquela perspectiva ele, Saga, não passava de um aproveitador barato que explorava de forma vil a mulher que dizia amar, a sujeitando a uma situação degradante, quando na verdade o casal vivia do jeito que podiam, enganando a máfia, aos clientes, aos amigos...
Contudo, a verdade era um luxo ao qual Gêmeos ainda não poderia se dar. Abrira mão de seu direito de defesa, já que para se defender teria de colocar em risco o segredo que assegurava a vida de sua amada amazona, a sua própria e de muito mais gente. Desse modo, naquele momento só cabia ao geminiano aceitar, à duras penas, o fardo de ser humilhado, julgado por Milo, também por todos ou outros ali presentes, e aceitar a alcunha de cafajeste, pelo bem de sua amada e de seus filhos.
Era nesse cenário nefasto que Saga se via mergulhado quando Geisty surgiu para puxá-lo de volta à superfície.
— Não se preocupe. Eu estou bem... — disse o grego ao tocar nos ombros da amazona — Só preciso... sair daqui um pouco... respirar... jogar uma água no rosto... — sussurrou ainda angustiado, já sentindo o peso de alguns olhares sobre si.
A amazona, um pouco mais aliviada e disposta a por um fim àquele circo, segurou Gêmeos pelo braço já lhe dando um comando.
— Certo. Venha. Vamos lá para dentro. — disse num sussurro, e antes de seguirem caminho virou ligeiramente o rosto para o lado e fez um sinal sutil com a cabeça para Mu, que imediatamente desfez o golpe retirando a Muralha de Cristal que separava o pátio em duas alas.
Com o caminho livre, de cabeça baixa e sem dizer nada a ninguém, ambos cruzaram o espaço entre as mesas e logo chegaram no suntuoso portão que dava acesso ao interior do Templo do Grande Mestre, então foi a vez de Aldebaran agir.
Esfregando a barra do avental de churrasqueiro na testa suada, o brasileiro soltou um suspiro de alívio para em seguida erguer a cabeça e bater palmas ruidosas na intenção de chamar a atenção de todos para si, depois, com as mãos imensas estendidas no ar, abriu um sorriso e soltou o vozeirão:
— Calma meu povo, calma! Não aconteceu nada de mais, né não? Foi só Jesus que passou por aqui e deixou a paz e o silêncio... Como de costume! — rindo olhou para Shaka que levitando voltava ao solo embalando Kiki nos braços que chorava copiosamente — Vamos seguir com a churrascada, porque o melhor ainda tá por vir! Tem picanha no ponto, mal passada, bem passada, do gosto do freguês! Bora comer, rapaziada!
Aos poucos os presentes foram acalmando os ânimos, e enquanto o brasileiro voltava para a churrasqueira, preocupado Mu fez menção em correr até o marido com o filho no colo, mas Shaka lhe fez um sinal assegurando que tinha tudo sob controle.
“Deixe ele comigo, Mu. Está tudo bem. Ajude Aiolia e Marin a recolher essa bagunça toda.” — Virgem falou por telepatia a Áries.
“Tem certeza? Kiki está bem agitado!” — Mu respondeu da mesma forma.
“E quem não está? Tenho certeza sim. Não vamos deixar que essa catástrofe abale Geisty mais do que já deve ter abalado. Uma mãe não deveria passar por um estresse desse... Depois você me pergunta por que Shaka não gosta de sair de casa, não gosta dessas festas mundanas.” — Virgem falou por telepatia a Áries.
“Tudo bem. Acalma ele ai então que eu não demoro.” — disse Mu.
“Se posso acalmar dois Cavaleiros de Ouro poderosos tenho que poder dar conta de um bebezinho.” — Shaka respondeu enquanto balançava o pequeno pacote ruivo em seus braços — Não é, meu filho? Shiii... Já passou. O Bába já mandou aqueles gênios ruins embora... Shiii...
Um pouco mais tranquilo, porém ainda não muito convencido, tampouco conformado, Mu foi ajudar Marin, Aiolia, Camus e Shura a erguer as mesas e cadeiras jogadas ao chão, também a recolher as tantas coisas lançadas ao longe durante a briga para deixar o ambiente o mínimo confortável para que a festa pudesse seguir sem tantos percalços.
Mais ao fundo do pátio, quase que escondido das vistas de todos, Afrodite tentava acalmar Hyoga que ainda choramingava assustado. Ver o pai segurar um dos brigões em fúria tinha deixado o pequeno russo apreensivo e temeroso.
— Calma, meu amor, a Di está aqui. — dizia o pisciano enxugando as lágrimas do rostinho do menino em seu colo com as pontas dos dedos — Já passou... O cafuçu do Milo já até foi embora.
— E o papai? — perguntou o loirinho.
— Seu pai está ali ajudando a recolher as casqueiras do chão. Já, já ele vem aqui. Tá tudo bem... E vou te contar um segredo. — diminuiu o volume da voz para parecer bem convincente — Foi tudo de mentirinha essa briga ai.
— A biga foi de mentilinha, Di? — Hyoga fungou arregalando os olhos.
— Claro que foi!
— Mas... po que?
— Por que?... Bem... — revirou os olhos procurando uma boa desculpa — Ora, porque gente grande faz coisa idiota o tempo todo. O seu pai me falou que ia brincar de brigar com o tio Milo, e o tio gigante ia brincar com o tio Saga... Até o homem das pintinhas foi junto!
— E o tio Shaka também! — Hyoga sorriu animado acreditando na mentira.
— Pois é, até ele! Que danado, não é mesmo? — Afrodite sorriu — Não foi super maneiro?
— Não. — Hyoga fez um biquinho, e sua negativa desmanchou o sorriso vitorioso no rosto do pisciano na mesma hora.
— É, tem razão, não foi nada maneiro. Brincadeira besta, né?
— É.
— Tão besta que deu dor de barriga no tio Saga, por isso ele foi lá para dentro com a tia Geisty.
— Ele foi no banheilo, Di?
— Foi, mas já já eles voltam.
— Doi de baliga? Coitado! — disse o garotinho enxugando as lágrimas.
Afrodite, vendo que tudo se acalmava, colocou Hyoga no chão antes que percebessem a intimidade entre os dois.
— Vamos ver por que o Kikizinho ainda está chorando? — disse apontando para Shaka mais ao lado que todo atrapalhado tentava acalmar o filho.
Hyoga não acreditou muito na história da amiga do papai, pois mesmo pequeno era muito esperto e percebeu os gritos raivosos de Saga e Milo. Contudo, uma coisa que aprendera desde muito cedo com Camus era nunca contestar os adultos, afinal, a máfia sempre cria suas crianças com extremo rigor e disciplina.
— Sim... mas, Di. Quelo meu papai. — choramingou.
Afrodite olhou naqueles olhões azuis e deu um suspiro resignado, então erguendo a cabeça procurou por Camus no pátio, o vendo recolher as últimas cadeiras caídas no chão. Ao lado do francês, solícito e sorridente feito um bravio recepcionista de porta de loja de departamento, Misty de Lagarto recolhia alguns talheres e aproveitava a deixa para puxar assunto com o ruivo. Foi o bastante para fazer o sangue de Afrodite ferver dentro das veias.
— Você está certo, meu amor. — esticou o braço e pegou na mão do menininho — Vem, vamos atrás do seu pai antes que as Lagartixas Cascudas do Tejo coloquem as ventosas peçonhentas em cima dele! — saiu pisando duro em direção ao aquariano no meio do pátio.
Hyoga o seguia determinado, mesmo sem entender o que a “amazona” tinha dito por último.
Enquanto isso, Shaka chegava ao seu limite. Em seu colo Kiki berrava tremelicando as mãozinhas de dedinhos ora abertos, ora fechados e firmes. O Santo de Virgem de tudo fizera para tentar acalmar o filho, mas parecia que nada adiantava. Nem os mantras entoados em voz baixa e vibratória, nem o balançar cadenciado, tampouco os beijinhos distribuídos na fronte avermelhada. Nada. Nada parecia ser possível se fazer para que aquele pequeno ser em seu colo parasse de chorar.
— Buda! Shaka vai ficar surdo! — murmurou enquanto chacoalhava o bebê e lhe dava tapinhas leves sobre o acolchoado da fralda — Shiii... calma Kiki! Você quer enlouquecer o seu Bába? Sempre foi tão calmo e bonzinho... Ah, mas eu te entendo perfeitamente, meu filho. São esses mundanos e toda sua balbúrdia...
Aflito, Virgem não sabia mais o que fazer para conter o choro do bebê, então, como se Buda atendesse suas preces virou-se para o pátio e viu Mu andando apressado em sua direção.
— Mu! — avançou de encontro ao lemuriano — Retiro o que disse. Me acode aqui. Pega seu filho.
— Achei que tinha dito que tinha tudo sob controle. — o lemuriano riu do desajeito do indiano.
— Shaka achou que tinha, mas ele não sabe mais o que fazer para Kiki parar de chorar. Deve estar assustado, ou com fome, ou com sono, ou com tudo isso ao mesmo tempo. Kiki nunca chorou assim. Será que está com alguma dor? Será que ele não está bem?
— Ele está ótimo, Sha. Ele só sentiu as auras agressivas no ambiente e está assustado. — Mu respondeu já se prontificando em pegar o filho nos braços — Ele é um Muviano, não se esqueça. É capaz de ver e sentir as emoções e as auras das pessoas, e o choro é seu meio de comunicação... Pobre filhotinho, deve ter se assustado muito com o que sentiu.
Agora com o filho nos braços, Mu embalava o pequeno com os olhos vidrados, enquanto outro par de olhos atentos os acompanhava de perto, ainda meio aflitos.
— Eu acho que ainda não me acostumei com esse fato. — disse Virgem com um leve balançar de cabeça — No entanto nem é preciso ser Muviano para sentir que nesse lugar o que não falta são energias negativas. Depois você me pergunta por que eu não gosto dessas confraternizações...
— Acontece, luz da minha vida. Pessoas se desentendem... Mas, não tem problema, não é minha luzinha? O papai está aqui e está tudo bem. Meu elo racial irá mostrar ao nosso pequeno que ele está seguro e que o amamos. — o Lemuriano dizia com voz doce — "Calma meu filhotinho, meu filho tão amado, seus pais estão aqui. Está seguro, nada lhe fará mal. Sinta o amor que flui em mim direto para você, luzinha da minha vida!" — Mu agora falava através de telepatia diretamente à mente do filho, enquanto uma pequena luz muito discreta saia dos pontos lemurianos dos dois, brilhando em sintonia.
Aos poucos o pequeno foi parando de chorar e ficou encarando o pai com os olhos lilases arregalados.
— Pronto amor. — disse Mu ao olhar para Shaka e lhe sorrir ternamente — Eu te falei que bebês muvianos eram diferentes, mais sensíveis. Agora já está tudo bem.
— Hum... será? Bem até quando? Até o próximo descontrole do Gêmeos? — murmurou Shaka — Você sabe que tudo que Milo disse tem fundamento, não sabe, Mu? Escorpião, como todo mundo aqui, pode não ser um exemplo de boa conduta, moral e decência, mas injusto e dissimulado todos sabemos que ele não é.
— Menos, Sha. — Aries então deu um beijo na testa do filho e outro no rosto do marido, finalmente se sentando para descansar.
— Vai dizer que ele está errado? — insistiu Shaka.
— Não, mas o modo como ele fez foi sim errado.
— E quem aqui é que faz as coisas no modo certo, me fala, Mu? Essa confraternização pagã, por exemplo. Gêmeos queria reunir a todos para dar a notícia de que vai ser pai armando uma barafunda regada a álcool e esbórnia?... Que belo começo, não?
— Para de implicar com o Saga.
— Seria melhor ter ficado em casa. Eu te disse, Mu!... A maionese está boa, a salada também, mas o ambiente não é nada saudável para crianças e gente de bem.
— Para de reclamar, amor. Você também não se comportou como devia.
— Eu? — Virgem exclamou surpreso, quase abrindo os olhos.
— Sim, você. Me deu um susto danado!
— Do que está falando?
— Estou falando que você não tinha nada que se meter no meio de uma briga ente dois Cavaleiros de Ouro furiosos, e ainda carregando um bebê no colo. Nosso bebê. Quase me mata de preocupação. — suspirou.
— Shaka também é um Cavaleiro de Ouro, ora essa! Mu parece que se esquece disso às vezes. — cruzou os braços — E eu ia ficar olhando aqueles dois brutalhões energúmenos colocarem em risco os bebês de Geisty, e também Hyoga e Kiki? Mas é nunca!
— Mu não esquece nada. Mu só ficou preocupado. — o ariano riu puxando o marido para perto de si — Shaka é quem parece que se esquece que além de cavaleiro de Ouro ele é meu marido. — sorriu ternamente enquanto erguia uma das mãos para acariciar a franja do cabelo dourado do virginiano — Eu me preocupo com vocês dois, independente de qual seja sua patente e do quão poderoso você é. Mas, você mandou bem. Quase me causa um ataque de pânico, mas mandou muito bem.
Enquanto Virgem e Áries se acertavam, Afrodite finalmente encontrava Camus, que depois de ter ajudado a recolher a bagunça espalhada pelo chão tinha se afastado dos colegas para fumar um cigarro.
O francês estava alocado atrás de uma das colunas e foi para lá que Peixes e Hyoga rumaram rapidamente.
— Papai! — Hyoga disse correndo até o pai enquanto puxava Afrodite pela mão.
— Ola, mes amours! — disse o aquariano ao vê-los, soltando a fumaça pelos lábios finos entreabertos.
Camus apagou o cigarro e pegou o filho no colo o abraçando com carinho, e valendo-se do fato de que estavam praticamente escondidos, também aproveitou para segurar discretamente a mão de Afrodite.
— Está lindíssimo, mon amour.
— Você também está... Uma pena não poder... bem... — Peixes baixou a cabeça soltando um suspiro, mas como não era de se deixar abater facilmente, logo voltou a olhar nos olhos avelãs do namorado —... Não posso te tocar aqui, mas assim que a festa acabar me aguarde, princesse du papa. Tenho um presente para você... para logo mais. — certificando-se de que ninguém os via, já que rodeavam Aldebaran em torno da churrasqueira, e que Hyoga olhava para o lado oposto, Afrodite, num gesto tão rápido quando um piscar de olhos baixou ligeiramente o cós da calça somente para poder mostrar a borda do elástico rendado da calcinha que estava usando naquele dia.
— DIEU! — de tão surpreso Camus gritou, chamando a atenção de Hyoga, mas felizmente Afrodite foi mais rápido e disfarçou com um sorriso, já voltando a se recompor.
— Que foi papai?
— Ah... nada não, filho. — disse o francês, que tinha o rosto corado e os olhos arregalados — Então você estava assustado?
— Sim, você tava bigando, mas a Di me contou o seguedo.
— Segredo? — olhou para Afrodite curioso — Que segredo?
— Que ela tudo biga de mentilinha.
— Ah! Sim! Exatamente. Era tudo de mentirinha. — sorriu para o pisciano balançando a cabeça negativamente — Obrigado, minha querida, por cuidar do nosso menino... — fez uma breve pausa, depois abaixou o tom de voz e voltou a usar o idioma grego — Eu non acredito que você está usando calcinha, Afrodite!
— Hum... Você também queria estar usando uma, não é? Confessa, seu francês sujo. — Peixes sorriu com malícia. Seus olhos cintilavam uma libido há muito contida, e essa não passava despercebida aos olhos ávidos de Camus.
— Seu maluco gostoso. — Aquário sussurrou rouco, correndo os olhos faiscantes de cima abaixo na figura exuberante de pé em sua frente.
— E essa está bem apertadinha. Fica atolada na bunda... Do jeito que você gosta! — Peixes mordeu os lábios insinuante.
— Quem disse que eu gosto, seu maluco safado? — semicerrou os olhos avelãs, sentindo o peito arder perigosamente. Não podia ficar excitado. Não ali. Não naquela hora.
— Você inteirinho me diz que gosta, Camy. — respondeu recuando um passo e puxando o ar com força para dentro dos pulmões. Também não podia ficar excitado ali, então achou melhor se afastar o quanto antes — Bom, eu vou pegar uma bebida. Fica quietinho com papai, tá Hyoguinha! Depois a gente brinca um pouco quando terminar a festa.
Com uma piscadinha matreira para o garotinho loiro, o Santo de Peixes se afastou e logo regressou ao pátio indo direto para onde estavam os cavaleiros e amazonas reunidos. Esses cochichavam entre si, e o assunto não poderia ser outro. A briga entre Saga e Milo, e todos os desaforos verídicos que Escorpião despejara sobre Gêmeos havia retirado de vez o foco da gravidez de Geisty daquele almoço entre amigos.
Enquanto isso, na parte interna do Décimo Terceiro Templo, a amazona de Serpente aguardava o cavaleiro de Gêmeos do lado de fora do banheiro da suíte principal, os aposentos do Patriarca.
Ambos haviam permanecido em silêncio durante todo o pequeno percurso do pátio até ali. Cada um com seus pensamentos eles remoíam suas dores depois daquele episódio dantesco. Desfizeram o meio abraço quando adentraram o quarto, então a amazona acompanhou com um olhar tristonho o cavaleiro, que seguiu cabisbaixo até o banheiro onde entrou e fechou a porta atrás de si com suavidade. Não olhou para trás. Não olhou para ela.
Resignada, e compreendendo a necessidade do amado em ter seu momento de privacidade, Geisty seguiu até a cama ampla e se sentou na beirada, soltou um suspiro melancólico enquanto fitava os próprios pés remontando em seus pensamentos as cenas que vivenciara minutos atrás. Fora tudo tão chocante para si que nem mesmo conseguiu contornar a situação de forma racional.
Geisty jamais imaginou que Milo iria um dia expor a todos o que viveram nas noites em que passaram juntos. Ficou indignada, sentiu-se traída, perdida... Não podia negar a si mesma que havia, sim, um clima de sedução, luxúria, mas também de cumplicidade e companheirismo toda vez que Escorpião subia até seu quarto no bordel e ela era “obrigada” a se deitar com ele. Não. Não podia negar. Talvez, se não amasse Saga como amava, se não sonhasse com ele desde a tenra adolescência se entregaria a uma paixão por Milo com extrema facilidade, mesmo que sua parte racional jamais acreditasse que Escorpião pudesse, de fato, se apaixonar por quem quer que fosse.
— Minha deusa! Será? Como isso foi acontecer? — murmurou para si mesma esfregando o rosto com ambas as mãos.
Não podia acreditar que Milo estivesse tão apaixonado ao ponto de lhe defender, de lutar por si comprando uma briga com Saga por acreditar que ele a explorava. Não! Jamais imaginou que o mulherengo escorpiano, famoso por sua fama de sedutor, cairia em suas graças. Sentia-se extremamente constrangida em ver os dois cavaleiros brigando por seu amor.
Angustiada, aflita e temerosa, Geisty olhou para a porta do banheiro rogando a todo panteão Olímpico para que tudo que Milo dissera naquele pátio não interferisse em sua relação com Saga, já tão difícil e conturbada. Demorou tanto para finalmente criar coragem e assumir o amor que sempre sentiu pelo geminiano, e agora, novamente, parecia que a cada dia algo novo surgia para atrapalhar a ínfima paz que ela e Saga tanto lutavam para conquistar.
Enquanto isso, no banheiro de luzes ainda apagadas, Saga seguiu cabisbaixo até o lavatório de mármore acinzentado onde apoiou ambas as mãos e deixou a cabeça pender para frente. Agora sozinho podia se dar o direito de entregar-se à tristeza que lhe abatia. Sentia o coração bater doloroso no peito e o ar lhe invadir os pulmões de forma incômoda, enquanto os olhos se aqueciam por lágrimas de puro ódio.
Como era frustrante apanhar seguidas vezes da vida e não poder revidar a altura, mesmo tendo todas as armas para isso. Tinha que se deixar golpear submisso e ainda não se dar por derrotado, não se deixar abater, já que tanta coisa era sustentada por suas costas já tão calejadas de carregar tão pesado fardo. Santuário, cavaleiros, soldos, dívidas... Dívidas de todos os tipos, dinheiro, honra, promessas...
Não. Definitivamente não podia se deixar abater, muito menos agora.
No entanto, a mente do geminiano era poderosa e cruel o suficiente para sabotar a si mesmo e não lhe deixar esquecer a visão de Escorpião, com o rosto contorcido em raiva e indignação, lhe cuspir verdades dolorosas de forma tão inflamada. A cada nova acusação de Milo que sua mente repetia em loopings, uma pontada de dor mais e mais forte lhe parecia consumir o cérebro.
“Será mesmo que você não é esse canalha apontado pelo Escorpião, Saga?” — sua própria voz ressoava em ecos dentro de sua cabeça “Será mesmo que você é inocente de tudo o que fora acusado?”
Com as mãos trêmulas abriu a torneira aflito, já mergulhando as palmas suadas em forma de conchas debaixo do jato de água gelada. Jogou um tanto no rosto, uma, duas vezes. Era como se rogasse àquela água que levasse embora aqueles pensamentos funestos.
Não podia se defender contando a verdade a todos, tão pouco podia controlar o ódio que crescia dentro de si e lhe engolia o raciocínio.
O ódio.
O alimento primordial do mau que habitava dentro dele.
— Aquele maldito Escorpião, Saga... Quanto tempo mais você vai suportá-lo?
A voz que antes era trêmula e suave agora saía de sua boca como ronco sigiloso de fera.
— Quanto tempo mais vai aceitar a presença dele aqui? Ele te humilhou, e você permitiu, não fez nada... Seu covarde! — com a cabeça ainda pensa para baixo um fio de saliva pendeu de seus lábios misturando-se à água corrente —Você é um covarde, sabia? Frouxo!
Ofegante e suado, como se tivesse corrido uma maratona em poucos minutos, Saga fixou o olhar no ralo da pia. Não ouvia o som da água, não ouvia nada. A voz fantasmagórica era todo seu universo ali. Era plena e absoluta.
Num gesto de completo desespero, Gêmeos mergulhou novamente as mãos no jato que saia potente da torneira e jogou outro tanto de água no rosto.
— Todos devem estar rindo de você lá fora... Sim! Já que, aos olhos deles você é um fraco... Viu o que ele falou sobre a amazona?
Apoiando novamente as mãos na pia de mármore, Saga evitava a todo custo erguer a cabeça e olhar no espelho à sua frente. Lutava, como podia, o quanto podia, contra o ódio que alimentava o mal, contra a revolta, contra o sentimento de impotência, de culpa, de desamparo...
— Eu te avisei! Não foi? Eu te alertei! Ela é uma vadia!... Mate ele! Mate o Escorpião, e junto se livre do fardo que é essa mulher! — novamente a voz saia de sua boca sem que ele pudesse impedir.
Sentia tontura, dor, angustia. Os olhos ardiam, o peito queimava, a garganta lhe sufocava, então, num rompante de fúria e desespero esmurrou o mármore do lavatório o partindo em dois.
— CALE-SE! CHEGA! DEIXE-ME EM PAZ! — gritou, e agora era novamente sua voz vigorosa e firme que ecoava pelo recinto.
Fechou os olhos e soltou um suspiro longo enquanto corria as mãos trêmulas pelos cabelos puxando a franja repicada para trás.
Do outro lado da porta, ainda com o olhar perdido fixo a um ponto qualquer no chão, Geisty foi tirada de imediato de suas divagações quando ouviu o grito, um pedido desesperado, do namorado vindo do outro lado da porta. Levantou-se no ato e correu até ela já dando vários toques nervosos na madeira enquanto chamava por ele.
— Saga! Saga, o que houve? — disse Geisty com os olhos assustados e o coração acelerado — Saga está me ouvindo, amore mio? — segurou na maçaneta forçando a alavanca — Saga abra a porta! O que houve?
No mesmo instante em que a voz da amazona invadia o banheiro entrando diretamente pelos ouvidos do geminiano, este olhou atordoado para a porta com expressão sobressaltada sem conseguir responder de pronto, e diante do silêncio que se fazia agora do outro lado, Geisty se escorou na madeira e baixando o tom de voz falou rente a fenda das dobradiças.
— Saga, está me ouvindo? Por favor, fale comigo! Abra a porta, me deixe entrar! — disse extremamente preocupada.
Gêmeos piscou algumas vezes como que para voltar razão. Ainda sentia tonturas e uma dor considerável na fronte, porém parecia ter conseguido recuperar a razão e afastar a voz nefasta em sua mente. Estando certo de que não ofereceria perigo à amazona, aspirou o ar profunda e pausadamente e respondeu.
— Eu estou bem, não foi nada... não se preocupe. — disse pesaroso, tanto pela circunstância quanto pela preocupação que causava à namorada.
— Saga, eu sei que você não está bem. Por favor, abra a porta. — pediu a italiana.
— Eu... eu já estou saindo, Geisty. Um momento, por favor. — disse o cavaleiro pondo fim ao diálogo.
Mirando novamente a cuba do lavatório, voltou a jogar água no rosto algumas vezes. Agora podia ouvir o som da água corrente novamente, podia sentir o cheiro forte do sabonete de erva doce e hortelã ao lado. Tudo parecia ter voltado ao normal. Ou quase.
Em seus pensamentos as palavras de Milo ainda tinham força. Foi pensando nelas que fechou a torneira e finalmente encarou seu reflexo no espelho logo à frente. Seu rosto estava ferido, o lábio inferior levemente cortado. Sentiu raiva. A água que escorria pelas têmporas delineava seu maxilar e pingava do queixo sobre o mármore molhado. Estava abatido, físico e emocionalmente. Sentia-se a própria visão da derrota.
Esticou o braço e apanhou uma das toalhas de rosto dispostas ao lado para se enxugar. Depois de feito a jogou no cesto de roupa suja e deixou escapar um suspiro desanimado. Só então abriu a porta.
Deparou-se com Geisty de pé logo em frente. A expressão da amazona era de pura aflição, enquanto inspecionava o cavaleiro da cabeça aos pés na busca de um resquício que fosse do mal que vez ou outra o consumia.
— Você está bem? — perguntou por fim a morena, atenta a cada movimento do grego.
— Sim, na medida do possível. — Saga respondeu em voz baixa, depois caminhou em direção à cama. Ao se sentar fez uma expressão de dor levando a mão às costelas do lado esquerdo.
— O que houve lá dentro, Saga? — Geisty veio logo atrás ainda o interrogando, já que não estava nada convencida da resposta rasa que o grego lhe dera.
— Nada de novo... Só o de sempre. — o cavaleiro respondeu com a cabeça baixa — Mas não se preocupe. Eu estou aqui, não estou?
Um silêncio breve se fez enquanto ambos, cada qual à sua forma, tentava lidar com a realidade daquele grande problema, até que Geisty, que acabava de sentar ao lado do namorado, levou uma das mãos à sua coxa fazendo uma carícia leve.
— Saga... Por favor, quando isso acontecer chame por mim. Eu estou aqui com você.
— Chamar você para quê? Me diz? Para lhe por em perigo? — respondeu o geminiano agastado, gesticulando as mãos no ar, para em seguida se calar e menear a cabeça — Talvez eu nunca devesse ter metido você nessa merda toda mesmo... Talvez o pulha do Escorpião não esteja tão errado assim, não é mesmo?
— Não! — Geisty retrucou de imediato — Não diga isso! Só você e eu é que sabemos o que vivemos na realidade e o que escondemos de todos por necessidade. Não caia nessa armadilha, Saga... Eu te fiz uma promessa, não foi? Eu disse que ficaria a seu lado, que seria o seu farol nos momentos em que a tempestade te arrastasse para longe de mim.
— Essa... tempestade pode te arrastar para o fundo também, Geisty...
— Mas ela não vai. Ela não vai! Eu sou uma amazona, Saga, não me subestime! Eu fui criada e treinada para sobreviver em meio ao Caos. As vezes me parece que você se esquece disso.
Mais uma vez ficaram calados, e em um gesto mudo de apoio a italiana alcançou uma das mãos do cavaleiro trançando seus dedos.
Aquele ato tão singelo da amada, somado às palavras tão firmes e decididas que saiam daqueles lábios tintos em batom vermelho só fizeram Gêmeos reforçar a ideia de que estaria de fato sendo prejudicial à Geisty. O amor insano que nutria por ela desde a adolescência não podia resultar em boa coisa. Ou podia? Teriam filhos, seriam pais, estariam juntos... mas a que preço, e até quando? Submeter a amazona a uma vida turbulenta e arriscada nunca fora sua intenção, mesmo assim não conseguiu evitar. E agora ainda havia aquela insinuação de Milo... A maldita insinuação de que entre sua amada amazona e o cavaleiro de Escorpião houve muito mais que apenas encontros casuais, programas profissionais. Teria havido sentimento! Que sentimento? E, ainda que houvesse, a culpa não era de Geisty, nem de Milo. A culpa era exclusivamente sua.
Saga encarou que não poderia seguir com aquela dúvida e, se provendo de coragem, mesmo que fosse melhor não saber a verdade, apertou a mão da amada e finalmente a encarou nos olhos violetas.
— Geisty, precisamos conversar... — disse ponderado, mas seu coração retumbava aflito no peito.
Para Geisty o pedido também causou aflição, tanto que parou de acariciar a mão do namorado e já imaginando a natureza do que seria discutido respondeu de modo firme.
— Diga.
— Geisty... Eu não posso deixar de pensar no que o Milo disse.
— Eu imagino. — a amazona baixou a cabeça voltando a fitar o chão.
— Ele insinuou existir... sentimentos... Sentimentos entre você e ele. Você há de convir que não dá para ignorar isso. — Gêmeos fez uma pausa breve, que para a amazona parecia mais uma eternidade — É verdade? É verdade que existiu algum tipo de... de ligação sentimental entre vocês?
A amazona engoliu em seco.
Geisty já cogitava, depois de ouvir atônita a toda aquela enxurrada proferida por Milo, que Saga certamente iria lhe questionar e, de antemão, já havia decidido a postura que tomaria. Sendo assim a resposta veio breve.
— Não! — disse firme o encarando nos olhos — Nunca existiu qualquer tipo de sentimento entre Milo e eu. Ao menos não de minha parte... Sempre foi... Foi tudo muito profissional... — engoliu em seco novamente — Saga, se o Milo acreditou que poderia existir algo entre mim e ele, ele chegou a essa conclusão sozinho.
Mentiu seca e direta, afinal que outra escolha lhe restava?
Reconhecia para si mesma que todos os encontros que tivera com Milo foram sempre intensos e marcantes. Que existia uma química e um entrosamento sexual entre eles imenso, que o escorpiano a tratava muito diferente, e que ela gostava!
Mesmo que usasse ilusões com os outros clientes, nada podia ser comparado a Milo e seu dedicado empenho em fazê-la sentir-se a mulher mais bela, amada e desejada do mundo. Escorpião era absurdamente carinhoso consigo, e além do carinho demonstrava preocupação. Repetira por várias vezes que ia tirá-la do bordel, que ia leva-la para longe e lhe dar uma vida de rainha. Sentia sim que Milo se importava consigo, com sua pessoa, com seus anseios e medos, e não apenas com seu prazer sexual.
Esses indícios óbvios de que a relação entre eles havia ultrapassado a barreira do profissional e Milo havia se apaixonado por si, Geisty julgou ser melhor ignorar, afinal ela podia ser apenas mais uma das tantas mulheres que imaginava que Escorpião tinha em alto conceito. Mesmo assim, tomou o cuidado de nunca corresponder a essas investidas, mesmo sentindo-se tentada por diversas vezes, e nunca alimentar o empenho que Milo demonstrava em querer tirá-la do bordel. Seu coração pertencia a Saga, desde muito jovem, e mesmo diante de tanta adversidade sabia que era com Gêmeos que queria estar. Então, por respeito e amor ao namorado, ela o poupou dessa verdade dolorosa e escolheu mentir, assim o preservaria.
Já Saga ficou em silêncio após a resposta.
Não ousou questionar a namorada, uma vez que ele mesmo queria se convencer de que ela falava a verdade. Em seu íntimo sabia que seu espírito, já tão agastado, precisava daquela resposta, então a aceitou como verdadeira sem titubear. Sabia que tinha, em grande parte, culpa nisso, visto que fora ele, mesmo que influenciado por seu lado maligno, quem servira Geisty em uma bandeja de prata a Milo, em todas as vezes.
O silêncio foi quebrado depois de mais de um minuto pela reação de inconformismo do cavaleiro.
— Queria ter respondido a altura... — o grego murmurou — Queria ter deixado bem claro o quanto aquele filho de uma cadela me era inconveniente cada vez que ia à porra do meu bordel...
— Saga...
— Queria esfregar na cara dele a verdade.
— Não podemos... sabe que ainda não podemos.
— Queria ter conseguido impedir. — baixou a cabeça e esfregou o rosto com a mão que estava livre — Deuses, como eu queria ter conseguido impedir.
— Saga... Não adianta agora ficarmos remoendo o que já passou. Temos ainda tantos obstáculos pela frente... — Geisty diminuiu o tom de voz agora que falava olhando nos olhos do geminiano — Como explicar a todos que vivemos um disfarce desde o começo? Como dizer que você criou um bordel na tentativa de me salvar de ser morta pela Vory por conta de uma dívida que Kanon colocou sobre minhas costas? Como explicar para Camus que ele foi enganado por você? Como explicar para Marin, Shina, Misty e Afrodite que eles se prostituiram para que eu me salvasse? Como explicaria para Shura, Mu, Máscara da Morte e Aldebaran que eles trabalham em escala dobrada para a máfia só para ter como eu pagar os russos? Como você explicaria a toda essa gente que você fodeu com a vida deles para salvar a vida da mulher que você sempre amou abrindo um bordel, mas que ela mesma não se deita com os clientes porque usa de ilusões para engana-los? — disse Geisty com a voz agastada e com seu espírito em frangalhos.
— Não... Eu não tenho como explicar... Jamais poderei dizer a verdade... Mesmo que a criação do Templo das Bacantes fosse a única alternativa que encontrei para nos livrar da influência da Vory gradativamente, ainda assim só considerariam que eu os enganei quando coloquei você lá dentro sabendo que usaria ilusões. As chances de perder o apoio de todos e criar uma rebelião contra mim são enormes.
— Sim, Saga, são enormes. Mesmo alguns não te apoiando...
— Só o rebelde do Shaka não me apoia, Geisty. — Gêmeos interrompeu nervoso.
— Tudo bem, mas os outros te apoiam, ou ao menos te toleram, porém diante da verdade não temos como saber a reação deles. E apoio é tudo que precisamos agora. — disse melancólica, e em seguida levou a mão do cavaleiro até seu ventre — Há muito em jogo. Muito além de nós mesmos. Agora temos que pensar neles, nos nossos filhos. Cada vez que você sentir suas forças ou sua razão vacilarem, pense neles, e no futuro que poderemos oferecer a eles.
Gêmeos acariciou o ventre da amazona sobre o tecido fino do vestido que ela usava, ponderando tudo que haviam conversado, então a olhou, sorriu ternamente e a puxou para um abraço forte e emocionado.
Por maior que fossem as adversidades, os dois sempre as passavam juntos, um apoiando ao outro. Era nos braços um do outro que buscavam ânimo e coragem para seguir em frente.
Beijaram-se demoradamente e ao fim do beijo o geminiano ergueu a cabeça e encheu-se de novo ânimo. Não deixaria que fantasmas do passado, culpas amarguradas e medos futuros lhe impedissem de cumprir o desígnio ao qual se dera naquele dia. Ainda tinha algo importante a fazer.
— Temos uma festa lá fora nos esperando. — disse ele levantando-se da cama puxando a amazona consigo — Quer apostar quanto que Aldebaran tenha jogado mais carne na churrasqueira e mais gelo nas caipirinhas?
Geisty sorriu timidamente, porém mais aliviada.
— Sim. Vamos para a festa. — ela disse também enchendo-se de ânimo — Ficar aqui trancado não vai mudar nada, nem resolver nossos problemas. Vamos cumprir os nossos papeis de Grande Mestre e Amazona de Serpente e ser fortes como sempre fomos. Precisamos encarar mais essa, amore mio.
— Sim, precisamos. Eu vou trocar de camisa e já podemos voltar ao pátio. — disse Saga depositando um beijo na testa coberta pela franja da amada.
***
Ao voltarem para a festa, muitos dos convidados desviaram suas atenções para o casal, e mesmo que o tentassem fazer de forma discreta os olhares sobre Saga e Geisty denunciavam a curiosidade que partilhavam. Era algo incômodo para os dois, mas eles se mantinham firmes, decididos a virarem mais aquela página.
Com uma comunicação muda se separaram no percurso, indo Geisty em direção à mesa em que estavam Marin, Aiolia e Shina, e Saga na direção oposta onde estava Aldebaran, que mexia apetitosas peças de picanha na churrasqueira enquanto dava pitacos na conversa entre Shura e Máscara da Morte, o qual tagarelava soltando fumaça de nicotina pelas narinas e boca enquanto gesticulava com um cigarro preso entre os dedos.
Ao passar pelos três cavaleiros, Gêmeos apenas meneou a cabeça e seguiu calado em direção ao freezer sendo seguido pelo olhar do canceriano, que não se aguentou e puxou Shura pela camisa para cochichar em seu ouvido.
— O uomo está azedo! Né para menos, capisce? Em vez de me ganhar charuto porque vai ser pai, me ganha uns belo de uns colpi na cara! — disse o canceriano segurando uma risada sarcástica.
— Para de prestar atenção nos outros senão acaba sobrando para você. Continua con la história que é o melhor que você faz. — retrucou Shura com sua peculiar indiferença — E agiliza, porque não estou a fim de ficar aqui até amanhã.
Do outro lado, assim que Geisty se aproximou da mesa, Aiolia a cumprimentou a parabenizando pela gravidez, e percebendo que ela ainda estava bastante desconfortável com tudo que havia acontecido, afastou-se a deixando a sós com Marin e Shina. Foi a deixa que Ofiúco esperava para puxar assunto com Serpente de forma bem humorada.
— Que dia agitado hoje, heim! Cheio de novidades! — disse Shina apoiando um dos braços no ombro de Geisty — E é claro que haveria de ter uma confusão, afinal reuniões que envolvam a patente dourada pedem uma desavença que seja, caso contrário nem são dignas de serem lembradas. — com a mão que tinha livre deu um gole generoso em sua caipirinha.
Ao lado de Shina, Marin direcionou um olhar de reprovação à amiga, e em seguida se voltou para Serpente usando um tom bem mais afável.
— Você está bem, Geisty? Parecia bem agitada. — divisava a outra discretamente de cima a baixo.
— Sim, Marin, estou bem. Nada que um copo de água fresca e uns minutos de silêncio não pudessem resolver. Obrigada pela ajuda de vocês duas. Se não tivessem me segurado a confusão talvez seria ainda pior.
— Ah, pois seria mesmo! — disse Shina pousando ruidoso na mesa o copo que segurava — E convenhamos que isso tudo, essa confusão toda, poderia ter sido evitada há bastante tempo, não é mesmo, Dona Geisty? — encarou Serpente com firmeza — Você poderia ter evitado. Quantas vezes eu te disse para não se envolver? Que homem existe para a gente se divertir, não se comprometer. Você nunca ouve meus conselhos.
— Se conselho fosse bom não se dava Shina, se vendia. Depois, o que é certo para você pode não ser para mim. Eu gosto do Saga, sempre gostei... e você sabe bem disso.
— Ai... Mas é uma égua de grossa mesmo, heim. — Shina riu dos modos da amiga.
— Ei, sosseguem as duas. — interveio Marin, depois sorriu para Serpente de modo amistoso — Meus parabéns pela gravidez, Geisty.
— Obrigada, Marin. — a morena lhe sorriu de volta.
— E como foi se descobrir grávida, e de gêmeos ainda? — perguntou a Águia.
— É, conta pra gente! — disse Shina — Quando foi que você descobriu? E por que não dividiu a informação com a sua amiga aqui, posso saber? — disse Shina, que estava chateada por Geisty não ter lhe contado da gravidez de antemão.
— Shina, pelos deuses, eu descobri um dias desses. Ainda estou me acostumando com a ideia. Você sabe que temos diversos motivos que não nos favorecem, como amazonas, a ter filhos, não é mesmo?
Shina ensaiou uma fala, mas foi interrompida de pronto por Marin.
— Sim Geisty, nossa dedicação é para com Atena. E ainda somados outros empecilhos no momento...
— Sim! É, tem o bordel... Não vamos nos esquecer dele, porque ele ainda faz parte da vida de nós duas. E nem é preciso dizer que os porcos russos não podem saber desse seu estado especial, não é mesmo¿ — falou Shina franzindo as sobrancelhas, preocupada.
— Exato. — Geisty suspirou.
— Bom, o que importa é que toda vida deve ser bem recebida, apesar das dificuldades. E dois bebês não vão ser nada fáceis. Caso precise de ajuda, mesmo que seja para trocar as fraldas... — dizia a jovem japonesa quando foi interrompida por Shina.
— Se precisar de ajuda peça para o Mu. Ele agora tem um filho pequeno. Depois, Mu é mais confiável em assuntos familiares que qualquer uma de nós. — riu sonoramente, acompanhada pela amiga grávida.
— Bem, eu ia dizer que pode contar comigo para o que precisar. — disse Marin as acompanhando no coro de risadas.
Com uma expressão de ternura no belo rosto, e bem mais animada do que antes, Geisty tombou o corpo para frente pegando nas mãos das duas amigas e apertando em um gesto carinhoso de uma amizade que levava anos já sendo cultivada.
— Obrigada pelo apoio. Por enquanto está tudo bem, mas daqui alguns meses toda a ajuda será muito bem vinda.
O clima amistoso entre as três amazonas continuava, com as amigas emendando em outros assuntos, enquanto do outro lado do pátio ao lado do freezer Saga juntava alguns cubos de gelo para improvisar uma compressa para colocar sobre o inchaço no queixo, foi quando Camus se aproximou sorrateiro.
O francês havia deixado Hyoga sentadinho em uma mesa enquanto comia uns pedacinhos de carne minuciosamente partidos em cubinhos, então caminhou ligeiro até Gêmeos, pois o que tinha a lhe falar seria breve.
— Saga. — disse o aquariano em tom baixo e sigiloso — Tem um minuto?
Gêmeos girou o corpo e encarou os olhos avelãs que o fitavam resolutos. Fez um gesto de assentimento e esperou que Camus continuasse. O francês não se demorou.
— Peço pardon se parecerei demasiadamente enfático pelo que vou falar, mas... A Vory vai matar a amazona assim que souber da gravidez. — disse, e para Gêmeos as palavras do cavaleiro tinham o mesmo efeito que ser perfurado por milhares de estilhaços afiados de gelo.
— O que... o que disse? — Saga gaguejou arregalando os olhos jades.
Camus precisava dar um choque de realidade no geminiano.
A vida de um homem inserido na máfia não pertencia a ele, pertencia à família, e parecia que Saga ainda não estava suficientemente convencido disso. Só Camus é quem sabia os sacrifícios e apuros aos quais se submetia para poder viver sua relação com Afrodite, e Gêmeos parecia subestimar a inteligência e alcance da Vory v Zakone.
— Eu disse que irão mata-la, e eu non poderei fazer nada para evitar.
Saga cravou os olhos na face do aquariano. Camus devolvia o olhar dardejante sem ao menos piscar.
— Se eles descobrirem, ou sequer desconfiarem, os dias da amazona estão contados. — sentenciou o francês.
— Por que está dizendo isso agora, Aquário? Pensei que tudo havia sido deixado às claras na conversa que tivemos em meu escritório semanas atrás. A menos que tenha mudado de ideia. Ai o seu problema passa a ser comigo, não com minha mulher. — rosnou o geminiano.
— Eu non mudei de ideia. Disse que manteria segredo e que non me importo com o que vocês fazem ou deixam de fazer, non me importo com ela, mas... Vocês serão pais, e é como pai que estou aqui para te alertar.
— Alertar sobre o que?
— Um filho muda tudo, Saga. Vê Hyoga ali sentado acenando para cá? — girou o corpo ligeiramente para o lado para indicar o filho na mesa onde o havia deixado e acenou de volta sorrindo, depois voltou-se a Gêmeos — Para Hyoga eu sou apenas um cavaleiro de Atena, sou o herói dele, seu exemplo, sua figura máxima, mas somente para ele... Por ele eu sou capaz de tudo!... Proteja seus filhos. Mantenha a gravidez da sua mulher em sigilo absoluto de todos, e exija dos seus cavaleiros e amazonas que aqui estão proteção e salvaguarda. Compre as horas dela no bordel, todas. Assim a Vory não desconfiará, porque o dinheiro dos programas continuará entrando. Deve deixa-la às vistas de todos, pois a ausência dela pode levantar suspeitas. Mande-a usar suas ilusões para esconder a barriga ou mesmo alguma roupa mais folgada que venha a usar. Ela deve circular pelo bordel como de costume. Dimitri é imprevisível, e mesmo com meus relatórios ele pode querer mandar um espião de sua confiança para dar uma sondada. Non confie em ninguém... Essa amazona carrega no ventre o que virá a ser a razão de sua existência. Consegue compreender o que estou dizendo? Pare de brincar de casinha, Saga... Você é o Grande Mestre, o chefe do submundo grego, e a mãe de seus filhos é uma prostituta com a cabeça no topo da lista negra da máfia russa. Essa gravidez é a desculpa perfeita para a Vory. Geisty só tem valor para eles enquanto estiver dando lucro com os programas.
— Eu... compreendo, Camus. — Gêmeos disse em tom moderado. Sentia todos os pelos de seu corpo arrepiados só de pensar no perigo que Geisty e seus filhos corriam.
— Tem dias que... tenho vontade de mandar todos vocês, russos, gregos, cavaleiros, “família”, para o inferno... dias em que tudo que queria era ter uma vida normal, simples, pacata... Mas, non faço isso porque a minha vida é essa, e acima de mim e de minhas vontades está meu filho, a segurança e a felicidade de Hyoga... Comece a fazer o mesmo a partir de hoje, pois você parece ainda non ter se dado conta do quão grave é sua situação e da amazona, e o quanto você non está sabendo lidar com ela. Milo... Milo foi apenas a prova disso. Colocou ela e seus filhos em risco. — disse num tom surdo de voz. O tempo todo pensava em Afrodite.
Saga engoliu em seco. Girando a cabeça ligeiramente para o lado levantou lentamente o olhar e olhou para Geisty ao longe que conversava animada com as amazonas. Camus enxergou temor nos olhos do geminiano.
— Eu... agradeço o seu precioso conselho, Camus. — disse Gêmeos ao voltar os olhos para o francês — E também à sua devota lealdade. — esticou o braço e pousou a mão no ombro do ruivo fazendo uma leve pressão — Mas, esteja certo de que não estou tão alienado assim quanto aos riscos que eu e minha mulher corremos, mas suas palavras me foram de grande valia.
— Oui. Que bom! — disse o aquariano, e recuando um passo fez um sinal discreto com a cabeça e se retirou, deixando Saga a sós com seus pensamentos para retornar à mesa onde havia deixado Hyoga.
Sozinho novamente Saga divagava pensando em tudo que Camus havia lhe dito. Já tinha em mente algumas medidas traçadas para acercar a segurança de Geisty e os bebês, mas Aquário de fato lhe dera um choque de realidade, e todo cuidado ainda era pouco. Teria que pensar em um meio de levantar mais dinheiro para comprar as noites de Geisty, e teria que conversar com os cavaleiros, todos que estavam ali, talvez um por um, para pedir, ou até exigir, sua colaboração e lealdade. Isso não seria difícil, visto que muitos ali já lhe eram leais desde quando se tornara Patriarca. Aiolia talvez fosse um pouco relutante, mas o leonino era um homem honrado e justo, e certamente jamais entregaria ele ou Geisty para a máfia. Shura e Máscara da Morte não seriam problema, tampouco as amazonas, Misty também não, já que sempre lhe fora fiel e obediente, Shaka... Apesar de Virgem ser um cavaleiro declaradamente rebelde, Gêmeos sabia que ele jamais seria capaz de prejudicar a si ou a Geisty, então só restava mesmo Milo.
Milo sim era um problema. Escorpião havia reagido muito mal à noticia da união e da gravidez da amazona, e isso preocupava Saga. Contudo, mesmo lhe fervendo o sangue de raiva, Milo havia deixado explícito o seu interesse por Geisty. Um afeto que Saga jamais imaginara existir, e que talvez fosse sua salvação.
— Merda. — resmungou quando pensou nisso. Se Milo gostava mesmo de Geisty como dissera horas antes naquela explosão de fúria, talvez ele não tivesse mesmo coragem de entrega-los à Vory. Era com isso que contaria, por mais que o fato lhe causasse repulsa.
Quando se deu conta Saga tinha passado longos minutos ali, divagando sobre tudo que deveria ser feito, e nem percebeu o que acontecia no pátio, que agora chamava a atenção de todos novamente.
Três dos servos de sua maior confiança, os mesmo que havia solicitado para ajudar no churrasco, adentravam o pátio empurrando carrinhos enfeitados com bandejas de sobremesas e docinhos confeitados. Em uma das bandejas, na maior havia um bolo todo chamativo, tanto pelo tamanho como pela delicadeza e confecção apurada. Outro um carrinho trazia baldes de gelo com garrafas de champanhe e taças de cristal elegantes.
Saga suspirou pesadamente, observando com um semblante melancólico os carrinhos sendo estacionados um ao lado do outro. Havia sonhado por tanto tempo com aquele momento... Mas, Milo em poucos minutos conseguiu destruir o encanto daquele dia que havia planejado com todo o carinho.
O melhor a fazer era desistir do restante dos planos que havia feito para aquela reunião comemorativa, que por sinal seria a chave de ouro a fechar aquele dia tão importante para si, e ir direto ao ponto. Havia acontecido tanta coisa, e sua cabeça estava tão imersa em aborrecimentos que tinha se esquecido completamente de cancelar a entrada do bolo e do champanhe. Melhor assim!
Havia organizado tudo aquilo com um único intento, e iria até o fim.
Todos os convidados já olhavam curiosos para aquele bolo charmoso em tons de creme caprichosamente decorado com confeitos finos e flores douradas; Saga então respirou fundo, lamentando como a vida sempre fazia questão de lhe passar uma rasteira, mas, como era atrevido, sempre se erguia para desafia-la.
Olhou a sua volta buscando a razão que o fazia ainda sorrir todos os dias, e ao olhar para Geisty do lado oposto do pátio esboçou um sorriso fraco, que beirava o melancólico, e seguiu até ela. Ao chegar pediu licença às amazonas e pegou na mão da namorada com delicadeza.
— Venha. — disse quase num sussurro olhando para os olhos violetas que o fitavam com curiosidade.
— Saga, o que... — Geisty sorriu para ele.
— Apenas venha. — o grego sorriu de volta.
Gêmeos conduziu Serpente pela mão até parar diante do carrinho que trazia o bolo. Sentia sobre si a expressão interrogativa da amada, enquanto seu coração dava pulos ansiosos dentro do peito.
Havia esperado tanto por aquele momento, repassado mentalmente tantas vezes as palavras que ensaiara dizer, porém, diante do ocorrido todas haviam lhe escapado deixando no lugar a boca seca e a garganta muda.
Por um breve instante não soube o que fazer, pois tinha planejado ser tudo diferente. Percebia os cavaleiros e amazonas se aproximarem curiosos e Geisty entrelaçar os dedos das mãos junto aos seus, então abriu mão do discurso ensaiado e deu voz a seu coração.
— Geisty. — disse em tom baixo e pausado, quase em um sussurro, para que sua amazona pudesse ouvir. Não se importava mais com os outros. Agora, ali, era só ele e o amor de sua vida — Eu sei que a vida não é, talvez nunca foi, gentil conosco, maleável... As coisas nunca foram fáceis, nem para mim nem para você, e pelo visto nunca serão... Daqui para frente então talvez seja ainda mais difícil, mas...
Mesmo que falasse em tom baixo, os presentes em torno do casal podiam ouvi-lo, ou se esforçavam para ouvi-lo se aproximando ainda mais.
— Mas eu gostaria de passar cada dia dessa minha vida atribulada, e enfrentar cada obstáculo que nos aguarda, ao seu lado. — continuou Saga, agora segurando com mais força as mãos da amada — Não como seu namorado. Quero ser muito mais que isso. Quero ser seu ombro amigo, seu protetor... Quero ser o seu marido.
Gêmeos soltou uma das mãos da amazona para enfia-la no bolso da calça e retirar uma pequena caixa de veludo verde água ornada por uma fita branca. Ao abri-la, diante dos olhos incrédulos e marejados de Geisty, um lindo anel de noivado feito em ouro branco e diamantes reluzentes saltou aos olhos de todos ali. Era de uma beleza única e singela.
Um burburinho logo tomou forma em torno do casal, e sem esperar mais Saga fez a pergunta decisiva:
— Geisty, você aceita se casar comigo? — falou com os olhos marejados de emoção.
Ao lado de Marin e Aiolia, Shina, sempre muito atenta, arregalou os olhos e abriu a boca em surpresa. Na mesma hora, afoita ergueu a mão ao ar e acenou para Mu e Shaka, que eram os únicos mais afastados do grupo.
O ariano logo atendeu ao chamado correndo até os amigos que rodeavam o casal, levando consigo Kiki no colo e puxando Shaka pela mão. Ao se aproximar do casal o lemuriano pode ver a emoção desmedida que emanava das auras de ambos.
— O que está acontecendo? — Mu cochichou para Shina.
— Ele está pedindo ela em casamento! — Ofiúco respondeu aos sorrisos.
— Finalmente! — disse Shaka voltando o rosto para o casal e deixando escapar um sorriso sutil — Achei que Gêmeos ia continuar a viver no pecado mesmo sabendo que vai ser pai. Até que enfim tomou vergonha na cara.
— Shii, Shaka. Vamos ver o que ela vai responder. — murmurou Mu com um sorriso genuíno no rosto.
— Pelo tapete vermelho matrimonial de Dadá! Só faltava essa mosca varejeira de franja dizer não, né! Aquilo ali é um Tiffany! Eu diria sim só pelo anel. — brincou Afrodite que estava ao lado de Shina e Mu.
— Você, né Escamosa! Nem todo mundo é interesseiro e fútil como você. — ralhou Misty em provocação, que acabava de se colocar ao lado do pisciano.
— Eu heim! Credo! — disse Afrodite medindo Lagarto da cabeça os pés — Não chamei exú nenhum, e não é que me apareceu um bem Cascudo aqui do lado? Avoa Lagartixa! Vai ver se eu tô lá nas ruínas acendendo o relógio de fogo.
— Shiiiu, vocês também. Ela vai responder! — repreendeu Mu.
Geisty fora pega mais uma vez de surpresa naquele dia.
Sentia o coração bater agitado e o corpo todo tremer de emoção, e mesmo fazendo um esforço tremendo para tentar conter as lágrimas, estas lhe escaparam pelos olhos violáceos contornando o rosto quente até escorrer pelos cantos do sorriso largo e pleno de felicidade que se formava em seu rosto.
— Aceito! — disse ela em exaltado entusiasmo — É claro que eu aceito! Amore mio. Eu aceito!
Diante da alegria da amada, Saga finalmente se permitiu sorrir. Um sorriso de alívio, felicidade. Com as mãos ligeiramente trêmulas apanhou o anel da caixinha, segurou na mão da amazona e deslizou a joia lentamente em seu dedo anelar, como num ritual minucioso e dedicado. Por fim, encarou o seu belíssimo rosto mais uma vez, e a trazendo para um abraço terno acariciou a face sorridente e sussurrou em seu ouvido.
— Eu te amo tanto... Geisty.
— Eu também te amo, Saga... amo muito! — ela sussurrou cúmplice.
Beijaram-se apaixonadamente, sem pressa, sem receio, sem medo, enquanto ouviam ao fundo um coro animado de vozes sorridentes e assovios animados louvando a felicidade e saudando os noivos.
Entre os mais animados estavam Mu, Shina e Aldebaran, que já fazia sua voz potente se sobrepor ao barulho feito pela torcida.
— Mas o que é isso, rapaziada? Eu não sabia que a festa era de noivado! — bradou Aldebaran aos risos entusiasmados.
— Ninguém sabia, Touro Chifrudo. — disse Afrodite, que estava surpreendentemente feliz pelo casal.
— Ma o que mais falta acontecer nesse almoço? — riu Máscara da Morte.
— Falta acontecer aqueles coraçõezinhos de frango e aquela peça bem passada de panceta. Isso que falta! Cadê o prato principal, heim Debão? — disse Mu, que mal se cabia em alegria pelos amigos.
— Tem toda razão, Mu! — disse Aldebaran pousando a mão imensa no ombro do ariano — Bóra colocar uns coraçãozin de frango e a panceta nessa brasa para assar. E ó, galera, quero todo mundo indo molhar o bico num brinde aos noivos. Hoje o dia pede! E quero um pedação desse bolo grã-fino ai! Dizem que bolo de noivos da sorte, e eu tô é precisando de muita sorte nessa minha vida!
— Que isso, Debão. Está querendo casar também? — disse o lemuriano soltando uma risada sonora.
— Sai fora, Mu... Tu tá louco? — respondeu Touro simulando um semblante severo, e logo depois caiu na risada.
— Louco por que? Casar foi a melhor coisa que fiz na minha vida! — disse Mu abraçando Shaka pelos ombros.
— Ah, eu dispenso o bolo e o marido que viria com ele. Estou ótima solteira e pretendo permanecer assim. — falou Shina tirando risos de todos.
Ainda presos em um abraço aconchegante, o casal apartava devagar o beijo regado pela emoção do momento.
Saga deu um selinho nos lábios carmins da amada, e em seguida outro na testa, enquanto a amazona mantinha seus olhos fechados e tinha o rosto iluminado por um largo sorriso. Quando os abriu Geisty encarou o rosto apaixonado do geminiano, que ostentava um sorriso feliz.
Gêmeos desfez o abraço somente para apanhar uma das garradas de champanhe de dentro do balde com gelo e duas taças. Estourou o champanhe em meio às vivas e saudações dos amigos que os rodeavam animados e serviu uma taça para Geisty e outra para si mesmo.
— A nós, minha amazona! — disse o grego levantando ligeiramente a taça no ar.
— A nossa felicidade, meu cavaleiro! — Geisty encostou sua taça na dele produzindo um leve tilintar.
— VIVA OS NOIVOS! — bradou Aldebaran em alto e bom tom, e quando todos ergueram suas taças ao ar, por um momento todo o aborrecimento fora varrido para longe, e tudo que ficou foram sinceros desejos de felicidade e paz que emanava dos corações da maioria reunida ali.
Tumblr da Ju:
https://rosenrotstuff.tumblr.com/
Grupo " fics trio ternura" no face (imagens e conteúdo extra)
https://www.facebook.com/groups/1522231508090735/
Fale com o autor