Templo das Bacantes Vol. 2
18 Alô, polícia! Eu tô usando um Exocet - Calcinha!
Notas iniciais

Santuário de Atena, Templo do Grande Mestre.
Era pouco mais de 4 da tarde quando o pátio do Décimo Terceiro Templo virou uma grande pista de dança.
Já embriagados, pela bebida e também pela alegria do que representava aquela comemoração — uma festa de noivado e anúncio de gravidez — a maioria dos cavaleiros e amazonas dançavam animados ao som do pagode e do samba de raiz brasileiros.
Depois da saída de Milo e do anúncio do noivado ter tido uma recepção positiva e calorosa, fazendo uso de seu posto de Grande Mestre, Saga pediu a todos ali que zelassem pela segurança de sua futura esposa e filhos, mesmo não sendo necessário tal pedido formal, já que o casal era querido por todos e, portanto, a fidelidade era certa.
Nada mais parecia poder dar errado naquele dia, e Saga e Geisty finalmente puderam aproveitar a festa como sempre desejaram. Juntos, assumidos, e livres, ou parcialmente livres.
Não precisar mais fingir perante os amigos já era de grande valia para o casal, que no meio do pátio junto de Shina, Marin, Aiolia e Máscara da Morte saracoteavam os corpos de mãos dadas, tentando acompanhar Aldebaran que pelejava para lhes ensinar um passinho de samba.
Mais ao lado, em uma das mesas, estavam sentados Camus, Mu com Kiki em seu colo, e Shaka. O indiano, mesmo com os olhos fechados, acompanhava Hyoga que corria entre as mesas aos gritinhos e risos alegres, possivelmente vivendo uma aventura solitária que se dava em sua fértil imaginação infantil.
— Obrigado por vir até aqui e sentar-se conosco, Camus. — declarou o Santo de Áries com um sorriso gentil no rosto — O Shaka tem algo importante a lhe dizer.
O virginiano voltou o rosto para o aquariano, impassível.
— Ah, oui! Pois diga, Shaka. — respondeu o francês dando um gole na caipirinha que Aldebaran havia lhe preparado minutos antes.
Virgem, em silêncio, girou o corpo ligeiramente para o lado e apanhou do braço da cadeira a bolsa maternidade que havia trazido consigo onde guardava as coisas de Kiki. De dentro dela retirou um pequeno embrulho de tecido fino de cor branca, o qual colocou sobre a mesa, próximo a Camus.
— Eu quero te devolver isso. — disse o indiano desembrulhando o pequeno pacote que revelou por fim o chinelinho de Hyoga que havia ficado consigo desde o dia em que Camus deixara o filho na Sexta Casa aos seus cuidados — E também quero lhe agradecer.
Ao olhar para o chinelinho sobre a mesa, Camus ergueu uma das sobrancelhas num gesto curioso e confuso.
— Estava com você! — o aquariano falou surpreso — Eu achei que o tivesse perdido, porque naquele dia eu saí com tanta pressa de casa e tão atribulado que nem me lembro o que havia pego ou vestido em Hyoga... — fez uma pausa, pois percebeu que estava dando explicações demais do que nem deveria ser dito —... Ah bon!... — balançou levemente a cabeça e esboçou um sorriso para disfarçar — Mas, me agradecer pelo que, Shaka?
— Por abrir meus olhos. — respondeu Virgem de modo firme.
— Pardon? — o aquariano franziu a testa confuso.
Shaka virou o rosto para o lado e sua face bela e jovem se iluminou no momento em que ele olhou, mesmo de olhos fechados, para Kiki no colo de Mu. Erguendo o braço Virgem acariciou os cabelos ralos do bebê e sorriu ternamente, então voltou seu rosto para Camus, que acompanhava atento cada gesto seu.
— Às vezes procuramos respostas para as nossas aflições nas mais complexas estruturas. Filosofia, Ciência, Religião... E quando menos esperamos as respostas surgem no mais puro e simples gesto. A minha veio na forma de um riso de criança. O riso do seu filho, Hyoga. — disse Shaka com voz serena e moderada — Eu não tinha o desejo de ter um filho, Camus. Não tinha o anseio de ser pai, até você deixar Hyoga em meu Templo naquele dia. O riso, os passos leves pela casa, o olhar doce e curioso, os sonhos que ainda ganharão forma... Eu finalmente pude entender o que Mu sentia, e então pude desejar com toda minha vontade fazer do sonho dele o meu também e assim torna-lo real.
Camus sentiu-se comovido. Não imaginava que seu gesto de desespero pudesse influenciar a vida do casal que mais admirava. Deixou o copo de caipirinha sobre a mesa e apanhou o chinelinho em suas mãos.
— Foi graças a Hyoga que esse cabeça dura aqui descobriu que adora crianças, e que também queria ser pai. — disse Mu sorrindo — E por isso eu também lhe sou muito grato, Camus.
— Eu sei que você deve estar nos repreendendo nesse exato momento, aí, dentro dessa sua cabeça pré-histórica e tendenciosa, Aquário, mas apesar do seu primitivismo eu achei que você deveria saber que foi responsável por minha mudança de opinião quanto a ser pai. — disse Virgem.
— Epa! Shaka! — Mu interveio elevando o tom de voz — Isso é jeito de falar, luz da minha vida? Só deixei você vir falar com ele porque me prometeu que não ia dar sermão. Olha lá, heim! Olha lá!
— Ora, eu estou errado? Eu sei que ele não aprova nossa união, tampouco que criemos um filho juntos como qualquer outro casal heterossexual. — continuou Shaka — Mas, eu achei justo que ele soubesse que...
— Ei! — interrompeu Aquário com um ar grave — Vocês querem parar de falar como se eu non estivesse aqui ouvindo? E, Shaka, eu non tenho nada contra você e seu... seu...
— Marido. — disse Virgem assumindo uma expressão severa.
— Você e o Mu adotarem uma criança. Non tenho nada contra.
— Ah, não? — perguntou Shaka numa curiosidade repentina — E quando foi que você mudou a sua opinião? Sim, porque é sabido que você não aprova, nem nunca aprovou, a união de dois homens.
Mu engoliu em seco.
Era incrível como Shaka conseguia distorcer um assunto, e justo aquele assunto... A conversa ganhava rumos perigosos.
— Exato. Eu non aprovo, Virgem, mas vocês dois salvaram esse bebê da morte. E ele nem é humano! Então, quem melhor do que Mu para cuidar dos seus? Non é como se esse pobre infeliz tivesse alguma escolha entre a morte certa e ter dois pais viados. Acho que foi melhor mesmo vocês o salvarem. — disse o francês com tranquilidade.
— Pobre infeliz, Aquário, é essa sua mente hostil e sua postura estulta. Até quando você vai se comportar como um beócio? — esbravejou Virgem assumindo uma expressão severa.
— Shaka, pelos deuses! — Mu sussurrou aflito.
— Vocês vão deixar de ser viados por minha causa, Shaka? Non. Non vão. — disse Aquário, que a única escolha que tinha era manter o papel de homofóbico irredutível perante os colegas para preservar sua relação com Afrodite — O que você e seu... marido... fazem de suas vidas non é da minha conta, non é mesmo? Além disso, vocês dois sabem se portar, non me incomodam em nada. Non são como essas gazelas espalhafatosas que querem esfregar na cara de todo mundo a viadagem deles. Sabendo se comportar, non sendo umas bichas oferecidas como o cavaleiro de Peixes, non mancharão a honra da elite do exército de Atena. Sejam discretos como sempre foram, e espero que eduquem essa criança sem enfiar na cabeça dela essas asneiras homossexuais que hoje nos forçam goela abaixo.
— Mas é muito desplante! Eu não estou acreditando nisso! — Shaka franziu a testa irritado.
— Ei, não vão começar outra discussão, né? — disse Mu, que esticando o braço segurou firme na mão do indiano — Sha, menos! Você disse que queria agradecer ao Camus, queria falar do dia que Hyoga ficou lá em Virgem com você. Falar das mudinhas que ele plantou no seu jardim... Por que é tão difícil você manter o foco?
— Mu, você não está ouvindo o que esse néscio está dizendo? — ralhou o virginiano.
— Sim, eu estou, mas já teve muita confusão hoje, não é? Anda, beba o drink que eu pedi para o Deba preparar para você. É bem fraquinho. — indicou o copo que havia colocado sobre a mesa à frente do indiano — Hyoga plantou Sempre Vivas no nosso jardim, Camus. Ele disse que queria vê-las quando brotassem. Precisa leva-lo lá.
Enquanto Mu se esforçava para apaziguar os ânimos entre Virgem e Aquário, aproveitando que o francês estava distraído Afrodite brincava com Hyoga despreocupado.
Peixes aproveitou-se que Shura e Misty também corriam atrás do pequeno russo para diverti-lo e juntou-se aos três, mesmo que um tanto contrariado pela presença de Lagarto.
Correram os quatro um bom tanto, até que já entediado Shura parou quando passaram pelo balcão que servia de bar para servir-se de uma bebida, deixando Misty e Afrodite sozinhos na brincadeira com Hyoga.
Ziguezaguearam os três pelo local entre risos e gritos, e quando o sueco percebeu que o garotinho estava ficando cansado o pegou no colo lhe dando um beijinho na ponta do nariz.
— Peguei! — disse em tom baixo, quase num murmúrio — O bicho lambão agora vai lamber esse seu nariz de batatinha e roubar ele de você! — sussurrou dando um beijinho na ponta do nariz de Hyoga, que ria enquanto tentava proteger o rostinho com ambas as mãos.
— Nãoooo! Meu naliz não! Eu preciso deli, Diii! — protestava o pequeno.
— Di? Quem é essa Di? Eu sou o bicho lambão! — disse o sueco enquanto já caminhava para uma das mesas mais afastadas. Não podia dar bandeira de ficar com o menino no colo tanto tempo, pois alguém podia desconfiar da cumplicidade que havia, e era notória, entre eles.
— Aaah! Nãooo! Sai lambão! — dizia Hyoga às gargalhadas.
Quando finalmente Afrodite sentou Hyoga em uma das cadeiras de uma mesa que ficava mais afastada, Misty na mesma hora se aproximou puxando a cadeira ao lado do garotinho para se sentar.
— Mas o que é isso, aleijo* de ventosa? — disse o pisciano lançando um olhar de pura indignação para o cavaleiro de Prata — Anda, desaquenda daqui. Vai pousar em outro lugar, varejeira oxigenada.
— Eu, heim, Peixosa. Que insegurança é essa? — respondeu o Lagarto cruzando as pernas enquanto se inclinava para Hyoga — Hyoguinha é meu amigo também. Ele é o Batman, e eu sou o Robin. Somos uma dupla inseparável, não é, meu amor?
— Siiim! Somos a dupa dinâmica! — respondeu o garotinho todo empolgado.
— É isso ai! Toca aqui, parceiro! — falou Lagarto erguendo a mão no ar, e Hyoga logo correspondeu ao gesto batendo palma com palma, para completo desgosto de Afrodite, que de pé assistia a tudo sem poder fazer nada.
— Você não se cansa não, malassombrada*? — disse o pisciano que havia puxado uma cadeira do outro lado para se sentar, deixando Hyoga no meio dos dois, que mais interessado nos docinhos que haviam sido deixados sobre a mesa mal prestava atenção na discussão, somado ao fato de que ainda não entendia perfeitamente o idioma grego.
— Me cansar de quê? — perguntou Misty com um sorrisinho debochado no rosto.
— De viver chafurdando o chão feito uma porca de ventosa na tentativa de catar alguma migalha que eu venha a deixar cair. — respondeu o pisciano lançando um olhar severo ao francesinho — Eu vou falar só mais uma vez, alma sebosa*. Não se aproxime do Camus, não se aproxime do Hyoga. Você não sente nada por eles, seu único intuito em conquista-los é me atingir. Fica longe da minha família! — quase rosnou em voz baixa a última frase.
Misty arregalou os olhos e começou a rir. Um riso de deboche e puro escárnio. A seu lado, Hyoga enchia a boca com docinhos, lambuzava-se com calda de gelatina e a cobertura do bolo, e fazendo um gesto com as mãozinhas no ar pedia a Afrodite que lhe servisse um copo de suco de melancia da jarra de cristal que havia sido colocada sobre a mesa junto dos doces.
— Sua família? — zombou o Lagarto ainda aos risos histéricos — Ai, Afrodite, só você e essa sua ingenuidade mesmo para me fazerem rir desse jeito. Se enxerga, viado. Que família, ô iludida?
Sentindo ganas em furar os dois olhos daquele cavaleiro de Prata debochado, Afrodite tentava controlar a raiva enquanto atendia ao pedido do garotinho russo. Pegou a jarra de suco, apanhou um dos copos e enquanto despejava um tanto dentro encarou os olhos de Misty com uma expressão nada amistosa.
— Fala para a Lagartixa, Hyoga. Fala para ela que a gente dorme juntinho todas as noites, e que eu canto musiquinhas para você até você pegar no sono. Que passeamos de mãos dadas, assistimos desenhos, fazemos bolinhos de chocolate com linguiça defumada... Fala para essa Cascuda que somos uma família muito feliz, e que não tem espaço para ela na nossa felicidade! — disse imprimindo um tom mais fino na voz.
— Siiim! A Di canta toda noite pa mim. E a gente faz bolinho de liguiça com chocolate, mas o papai não come não. — disse Hyoga na pura inocência, que de tanto comer docinhos já tinha o rosto, as mãos e boa parte da roupa todos sujos.
Misty arregalou os olhos e sem quebrar o contato visual com o pisciano apanhou um brigadeiro dos que havia sobre a mesa e o jogou dentro da boca.
— É mesmo! Puxa! E vocês também tomam banho juntos? — perguntou o Lagarto dardejando Peixes com o olhar.
— Não... — Hyoga fez uma pausa pensativa. Apesar de já ter pedido várias vezes para a Di tomar banho consigo, “ela” sempre se negava, e ele não entendia o motivo, mas também não contestava — Eu só tomo banho com o papai, e ele faz cair gelinho do chuvelo. Di, poque você não toma banho com a gente?
De tão nervoso Afrodite segurava o copo cheio de suco de melancia com a mão trêmula, derrubando um tanto pelas bordas. Os músculos do rosto belíssimo do pisciano fremiam. Sentia a face queimar e o coração palpitar descontrolado dentro do peito. A voz havia desaparecido, engolida por uma incredulidade muda que o acometeu instantaneamente. Só conseguia olhar para o rosto sorridente e dissimulado de Lagarto sem reação.
— É, Di. — Misty estreitou os olhos divisando vitorioso a aflição do pisciano — Fala para ele. Fala para esse doce menininho por que você não toma banho com ele, já que são uma família, não é mesmo? Diz para ele o que você esconde dele... Aproveita e diz também que você é uma bicha iludida que acha que vai ter um destino igual o da vadia da Geisty, que o mafioso francês vai te tirar da vida. — riu alto — Seu viado estúpido. Vai morrer sendo puto e fingindo ser o que não é.
Aquilo foi a gota d´água para Afrodite.
Até agora o Santo de Peixes tinha conseguido se conter, controlar a raiva que lhe tomava toda vez que Misty o provocava, mas Lagarto sabia jogar baixo como ninguém, e o ver manipulando Hyoga daquela forma o fez perder novamente o controle.
Num rompante de cólera Peixes levantou-se com um tranco tão brusco que a cadeira em que estava sentado voou longe, então, num só movimento rápido atirou no rosto de Misty todo o suco que havia colocado no copo.
Um tanto da melancia batida espirrou na roupa de Hyoga, só completando toda a sujeira que cobria o menininho.
— Sua... SUA LOUCA! — gritou o Lagarto na mesma hora em que levantava-se da cadeira levando ambas as mãos ao rosto, chamando a atenção de todos como queria desde o início — SUA BICHA DESEQUILIBRDA! OLHA O QUE VOCÊ FEZ COMIGO E COM O FILHO DO AQUÁRIO! — o líquido gelado ia escorrendo pelos fios dourados dos cabelos do cavaleiro molhando toda a roupa.
Afrodite engoliu em seco ao olhar para Hyoga todo sujo de doce e agora também molhado, que olhava para si assustado e confuso com os olhões azuis arregalados.
Não demorou nada para que logo um novo tumulto se formasse, agora em torno da mesa em que estava o garotinho russo, Lagarto e Peixes.
Entre as gargalhadas estrepitas de Shina e Máscara da Morte, que riam da imagem caótica de Misty todo molhado de suco de melancia soltando fogo pelas ventas, Saga, muito sério, já se colocava no meio dos dois cavaleiros pegando Peixes pelo braço para afastá-lo de Hyoga antes que Camus chegasse ao cenário.
— Mas será a porra do Cocito, Afrodite? Nem aqui você toma jeito? O que foi que você fez? — disse o geminiano em tom ríspido.
— A culpa é sua, miolo mole! — retrucou o pisciano se livrando do agarrão do grego — Tinha nada que convidar essa semente do mal, essa cria mal parida do Aqueronte!
— Posso saber o que está acontecendo aqui?
Quem perguntava em voz grave e ameaçadora era Camus, que ao ouvir o grito de Misty virou-se para trás e viu Hyoga sentado à mesa junto de Lagarto e Peixes. Seu coração deu um salto dentro do peito na mesma hora, e sem pensar em nada levantou-se num pulo e correu até o cenário, sendo seguido por Shaka e Mu que vinham logo atrás.
— Não foi nada, Camus, apenas um mal entendido, mas eu já... — dizia Saga quando foi bruscamente interrompido pelo aquariano.
— MON DIEU! HYOGA! — Camus exclamou estarrecido ao ver o estado lamentável do filho, depois foi até a mesa e o pegou no colo com todo cuidado para que não sujasse a si mesmo — O que fizeram com você, mon petit?
— Foi um acidente, Camus... — insistia Saga, tentando colocar panos quentes.
— Acidente? Esse acidente por acaso se chama Afrodite de Peixes? — rosnou o aquariano, que estava de fato muito bravo com o pisciano por ele ter mais uma vez envolvido Hyoga nas brigas sem sentido, pelo menos para si, com Misty de Lagarto, o que o ajudava a encenar um falso ódio por Afrodite perante os amigos cavaleiros e amazonas — Por que você jogou suco no meu filho, Peixes?
— Eu não joguei suco no seu filho, joguei na Lagartixa. — respondeu Afrodite, que não encenava, e sim tentava se explicar de verdade a Camus — Me desculpa, não era para ter pegado em Hyoga.
— E por que ele está parecendo um biscoito de Natal todo confeitado? — os olhos do ruivo faiscavam de revolta, porque quando se tratava de Misty, Afrodite parecia perder a razão e isso o irritava extremamente — Você deixou meu filho se sujar todo desse jeito enquanto discutia com seu amigo bicha? Você é mesmo um viado inútil! Non era nem para estar perto dele.
— Aquário, não admito que fale nesses termos com Peixes. Já conversamos sobre isso. — disse Saga se aproximando do francês — Vamos manter o respeito e a calma, por favor. Já disse que foi um acidente. E você, Afrodite, já mandei ficar longe do Lagarto. Anda, vai sentar em outra mesa. E você também, Misty, vá se limpar e fique longe do Afrodite.
Mu interveio na situação, tanto para acalmar o aquariano, quanto para limpar a barra do amigo sueco.
— Camus, venha, eu te ajudo a limpa-lo. — disse o ariano — Tenho muitos produtos de higiene infantil nas bolsas do Kiki. Não foi nada. Crianças se lambuzam mesmo, não foi culpa de ninguém.
— Eu posso ajudar também. — disse Marin se acercando dos dois cavaleiros — Eu levo muito jeito com crianças.
— Eu aceito, Marin, merci. — respondeu o francês continuando com a encenação, mas de fato querendo apertar o pescoço do pisciano, que parecia nunca entender o que significava a palavra ”discreto”.
— Me empresta a bolsa, Mu? — disse a japonesa com um sorriso.
— Claro. Vou pegar para vocês. — o ariano falou já indo até o carrinho de bebê para apanhar a bolsa e entregar a Marin. No caminho arregalava os olhos, espantado com a cara de pau de Aquário e de toda aquela encenação entre ele e Peixes. Era incrível como podia falar aquelas palavras rudes à pessoa amada sem se abalar. Achava triste mas respeitava sua posição acima de tudo.
Assim, Marin, Camus e Hyoga seguiram até o banheiro da parte externa do Décimo Terceiro Templo. Durante o percurso curto, ao passar por Afrodite Camus lhe lançou um olhar severo e repreendedor. Isso bastou para que Peixes soubesse de cara que o ruivo estava irritado de verdade consigo, pois mais uma vez havia perdido a cabeça e quebrado a promessa de não cair mais nas provocações de Misty.
— Mas que merda! — o pisciano murmurou deixando escapar um suspiro cansado, depois olhou para o fundo do pátio e viu Lagarto retirando a camisa e sendo auxiliado por Shina que o ajudava a se limpar. Saga havia voltado para Geisty, Aldebaran para a churrasqueira e tudo parecia voltar ao normal, porém sabia que teria que se entender com Camus, teria que se explicar, e nunca conseguiam fazer isso sem uma boa briga — Mas que bela de uma merda!
— Está falando sozinho, Dido? — disse Mu, pegando o sueco de surpresa.
— Ah... sim e não. Estava falando com o meu coágulo. — respondeu Peixes que era a pura face do desânimo — Cadê o Kiki?
— Ele finalmente dormiu e eu o deixei com Shaka, porque estou sentindo o cheiro de coraçãozinho de frango! Hum! Venha, vamos lá bater um papo com o Deba que eu tenho um convite a fazer a ele e quero você junto. Assim você se distrai.
Áries praticamente arrastou Peixes consigo até a churrasqueira na intenção de distrai-lo, mas também porque o que tinha a dizer a Aldebaran envolvia Afrodite.
— Fala, Deba! — disse Mu ao encostar-se no balcão ao lado do taurino.
— Fala, Mu! Já sei. Veio atraído pelo cheiro dos coraçãozin, né? Já coloco para você. Quer mais uma caipirinha também? — disse o brasileiro sorridente.
— Quero, mas só uma. Hoje não posso beber demais. Ser pai era meu sonho, e está sendo incrível, mas não é nada fácil. Estou há noites sem dormir direito, sem comer direito, e se fecho os olhos eu ouço choro de bebê. — sorriu — Mas, eu vim te fazer um convite.
— Um convite! — exclamou Touro enquanto enchia um prato com a iguaria de frango — Toma, come para melhorar essa tua cara abatida ai. Isso ai levanta até defunto.
Afrodite arregalou os olhos e riu do brasileiro.
— Hum, hoje então o loirudo vai ganhar umas boas sacudidas! — falou o pisciano.
— Dido! — Mu quase engasgou com o coraçãozinho que tinha colocado na boca, depois começou a rir — Quem me dera! Desde que Kiki chegou eu e o Shaka... bem... Quem é que consegue namorar tendo um bebê recém-nascido em casa? Ontem até que a gente tentou, mas... tanto ele quanto eu estávamos tão cansados que acabamos só nos beijinhos mesmo. No fim cochilamos no sofá.
— E para que beijo, mermão? No desespero tem que ir direto ao ponto. — disse Aldebaran entregando um copo com caipirinha para Mu e outro para Afrodite — Mas, cara, é assim mesmo no começo! Minha mãe teve 11 filhos. Acredite, o corcunda sabe como se deita! Logo vocês dão um jeito, e também logo o moleque vai estar maiorzinho e vai chorar menos. Mas... e o convite que tu falou que ia fazer? Do que se trata?
— Se trata disso, do moleque. — Mu sorriu olhando para Touro — Deba, eu quero te convidar para ser padrinho do meu filho, junto com o Dido, a quem eu já convidei. Vocês dois são meus melhores amigos, já que o Shaka, como eu disse, subiu de cargo e hoje é meu marido. Além disso, eu os admiro muito e sei que têm seus corações plenos de amor e bondade. Você aceita?
Aldebaran abriu um sorriso de orelha a orelha e pousou ambas as mãos sobre o peito.
— Ser padrinho do teu moleque? Eu? — disse o taurino comovido e surpreso — Poxa, Mu, é... é uma honra! Poxa! Kiki, meu afilhado! Claro que aceito!
— Nosso afilhado, Touro Chifrudo. — disse Peixes erguendo a mão que segurava o copo de caipirinha, insinuando um brinde — Ao Kikizinho.
Brindaram sorridentes e alegres, e enquanto jogavam conversa fora os minutos iam passando ligeiros.
Camus havia voltado do banheiro, onde com a ajuda de Marin limpou Hyoga. Aquela reunião já tinha dado o que tinha que dar para o aquariano, mas para não parecer que estava aborrecido, e também para permitir que Hyoga se divertisse mais, já que o menino passava praticamente o dia todo trancado no Templo de Aquário, o ruivo resolveu ficar um pouco mais. O pequeno russo agora corria até Shaka que embalava Kiki no carrinho de bebê, e sabendo que sob a tutela do virginiano o filho não corria perigo algum o francês foi até o bar se servir de uma dose de vodca pura.
Lá parou ao lado de Shura e Máscara da Morte e ficou a papear trivialidades para esfriar a cabeça. Não queria brigar com Afrodite, não naquele dia que havia traçado tantos planos para passarem a noite juntos, mas a inconsequência do pisciano sempre lhe irritava profundamente.
Peixes por sua vez, disfarçadamente olhava para Aquário o percebendo visivelmente irritado consigo. Lamentou sua sorte um milhão de vezes em pensamento. Não podia chama-lo para conversar, tampouco podia chegar ali e pedir desculpas, se explicar. Tinha que sentir aquele olhar de desprezo e reprovação de Camus calado.
Poderia esperar até a noite para se explicar com o aquariano? Sim, logicamente que poderia, mas nada em Afrodite de Peixes fazia sentido. Nenhuma partícula de seu ser era capaz de agir racionalmente e ponderadamente quando o assunto era Camus de Aquário.
Precisava dizer ao francês que o amava, que tudo que fazia era pensando nele, e que só vivia por ele, para vê-lo feliz e realizado, ainda que não pudesse assumir ao mundo quem era de fato. E precisava se desculpar antes de voltar para casa, ou teriam uma discussão interminável quando finalmente estivessem sozinhos.
Assim, foi que brotou uma ideia na cabeça do Santo de Peixes. Uma ideia ousada, mas que, segundo seu raciocínio peculiar, evitaria uma briga mais tarde e os colocaria direto na cama.
— Eu estou muito feliz de dividir o Kikizinho com você, Touro Chifrudo. — disse o pisciano dando um gole farto na bebida para depois deixar o copo vazio sobre o balcão — Sei que seremos ótimos dindos! Agora, me deem licença que preciso ir até o banheiro. Já volto.
Dito isso, Peixes se afastou sem olhar para ninguém e seguiu até o banheiro externo daquele Templo. Antes desviou o caminho e entrou por um corredor estreito que levava até a parte interna da construção, chegando até um dos tantos escritórios que haviam ali. Ao encontrar o que queria escondeu debaixo da roupa e regressou ao banheiro, saindo de lá poucos minutos depois.
Discretamente, e atento a tudo a sua volta, caminhou até Shaka que estava com Hyoga e Kiki no carrinho de bebê. O pequeno lemuriano havia acordado e choramingava um pouco, e Virgem pelejava para decifrar o que o filho queria.
— Deve estar com sede. — disse Afrodite, que parado ao lado de Shaka sorria para o bebezinho. Hyoga estava de pé, pendurado no carrinho enquanto observada Kiki aos prantos.
— E o que te faz crer que seja isso? — perguntou Virgem curioso.
— Ora, porque... porque ele estava dormindo não estava? — deu de ombros.
— Sim, estava... — o indiano confirmou atento.
— A gente sempre acorda com sede no meio da noite, ou de manhã... Não vê nos filmes de terror? Sempre tem alguém indo de madrugada, no escuro, pegar um copo de água. Por que isso não aconteceria com bebês? Vai por mim, deve estar com sede. Dê um pouco de leite para ele, mas misture o leite em pó com água fresquinha. Essa aí na sua bolsa deve estar matim*, velha já, pode dar piriri* nele. — falou com propriedade o sueco — Se quiser eu vou buscar para você.
— Não. Eu mesmo vou. Você é todo atrapalhado. Fique aqui e não tire os olhos desses dois. — disse Shaka já apanhando a mamadeira.
— Está bem, vai lá! — Afrodite sorriu, pois seu plano havia dado certo.
Assim que Shaka se afastou, Peixes agachou ficando atrás do carrinho de Kiki, e vendo que ninguém o observava retirou de debaixo da roupa um envelope pardo. Dentro dele havia algo macio e maleável, e no papel estava escrito: “Para Camus, com amor. Abra quando estiver sozinho”.
— Hyoguinha, você me perdoa por ter jogado suco em você? — disse num sussurro — Na verdade eu não joguei em você, joguei na Lagartixa.
— Po que você jogo suco no Lobin, Di? — Hyoga perguntou sincero.
Afrodite piscou algumas vezes, pensativo.
— Porque... porque ele me disse que estava com muito calor, sabe? Muito, muito calor. E o suco estava geladinho. E aqui na Grécia, nesse país... Você sabe que este é um país diferente do que você nasceu, não sabe?
— Sim. — Hyoga respondeu rindo.
— Então, aqui nesse país as pessoas quando estão com muito calor tomam banho de suco. É... normal. Eu só quis ajudar.
— Eca! Banho de suco! — o menininho franziu o nariz e caiu na risada.
— Sim é meio nojento. — Peixes ria do próprio absurdo que dizia — Mas, você me desculpa?
— Eu desculpo, Di. Eu nem tava com flio.
— Ai que bom! Obrigada, meu amor. Agora, será que você poderia fazer um grande favor para mim?
— O quê?
— Tá vendo esse envelope? Será que você conseguiria entrega-lo para o seu pai? Mas, presta atenção! Tem que entregar só para o seu pai, na mão dele. Não pode deixar que ninguém o veja e muito menos o pegue antes dele.
— Eu consigo! — disse o menininho esticando a mão para apanhar o envelope — Eu entlego po papai. Ele tá ali ó. — apontou para Camus que estava próximo à churrasqueira papeando com Mu, Aldebaran, Shura, Máscara da Morte e Marin.
— E não pode falar, em hipótese alguma, que fui eu quem te mandou entregar. Que fui eu quem te dei esse envelope. Você entendeu, meu amor? É nosso segredo.
— Entendi, Di.
— Ótimo! Você é o garoto do nariz de batatinha mais inteligente que eu já conheci! Agora vai. Vai antes que o loirão volte. Eu vou ficar aqui. De noite, em casa, eu ajudo você a pintar o seu livro de colorir.
— Tá bom, Di. — sorriu animadíssimo.
— Então vai, meu amor. Vai.
Enquanto Hyoga cruzava o pátio aos pulinhos, todo orgulhoso de sua missão, além de concentradíssimo, escondendo o envelope debaixo da própria blusinha, Afrodite o acompanhava com olhos atentos e aflitos.
Teria extrapolado os limites? Talvez sim, mas o que poderia dar errado? Camus receberia o envelope, olharia o conteúdo, ficaria instigado, guardaria o envelope e pronto. Nada podia dar errado, e a noite em vez de discutirem a relação se amariam torridamente madrugada adentro.
— Onde ele foi?
A pergunta de Shaka, que chegava ali com a mamadeira cheia com leite morninho recém preparado, tirou Afrodite da divagação.
— Ah... não sei. Disse que ia ficar com o pai dele. — Peixes respondeu tentando disfarçar — Vai, dá o leite para o Kiki. Vamos ver se é só sede.
Camus fumava um cigarro tranquilamente ao lado da churrasqueira. Máscara da Morte o acompanhava acendendo outro.
Entre uma tragada e outra, o aquariano pensava que teria que ser mais firme com Afrodite, mais severo. Não podia amolecer com ele e permitir que Peixes fosse tão irresponsável ao ponto de envolver Hyoga nas brigas que tinha com Misty, afinal ele só saiu sujo, mas poderia ter se machucado de verdade.
Quando menos esperava sentiu um puxão na barra da bermuda que usava e ao olhar para baixo viu Hyoga com a cabeça erguida lhe sorrindo travesso.
— Oi filho. — disse, depois viu que ele tinha um envelope pardo na mão — O que é isso ai?
— É pá você, papai. — o menino falou esticando o bracinho para lhe entregar a encomenda.
— Para mim? — disse apanhando o pacote das mãos do filho.
— Sim, papai.
— Quem te deu isso? — perguntou enquanto analisava o envelope. Os escritos estavam na parte de trás, por isso o aquariano não leu a recomendação de abrir o embrulho sozinho.
— É seguedo. Não posso fala. — Hyoga deu um risinho infantil, de quem acabou de fazer arte, e saiu correndo aos risos. Não voltou para onde estava Afrodite, com Shaka e Kiki. Foi até a mesa do bolo, pois estava de olho nos confeitos dourados em forma de flores e queria pedir um à serva que estava ali à disposição dos convidados.
Camus franziu a testa, curioso.
Quem teria entregado aquilo ao filho, e o que tinha ali dentro?
A seu lado, os cavaleiros já cresciam os olhos no envelope misterioso que tinha chegado para o francês.
— Que parada é essa ai, Camus? — perguntou Máscara da Morte, que de cara era o mais curioso.
— Será que é um correio elegante? — falou Aldebaran já se acercando do francês, que agora sentia o coração palpitar acelerado.
Camus não sabia bem o porquê, mas estava com medo de abrir aquele envelope. Como se um pressentimento ruim lhe tomasse de assalto.
Dito e feito.
Dando um passo para frente, buscando o mínimo de privacidade possível, Aquário jogou o cigarro fora, abriu o envelope e olhou o que tinha dentro. Imediatamente seu corpo foi tomado por uma corrente elétrica lépida que lhe comprimiu o peito dolorosamente. Seu rosto erubesceu como num passe de mágica, ficando da cor de um pimentão maduro. As mãos e a fronte começaram a suar, a boca secou e o coração disparou de forma alucinante.
“Dieu! Ele non fez isso!” — pensou em desespero, ainda olhando para o conteúdo dentro do envelope, o qual reconheceu de imediato, de olhos arregalados.
O susto do Santo de Aquário foi tamanho que não foi capaz de perceber que Máscara da Morte se aproximava, e quando menos se deu conta teve o envelope arrancado de sua mão pelo cavaleiro de Câncer.
Todos ali perceberam que o francês havia ficado alterado assim que abriu o pacote, e curiosos não se contiveram, juntaram-se ao canceriano para ver o que Camus havia recebido que o deixou tão perturbado.
Todos, menos Mu.
O lemuriano, que podia ver a aura das pessoas, estava preocupado com o Santo de Aquário, o qual repentinamente exibia uma aura caótica, bem diferente da que o emoldurava anteriormente.
Com o envelope em mãos, Máscara da Morte o abriu dando uma gargalhada.
— Ma guarda! — bradou o canceriano metendo a mão no pacote e puxando para fora uma calcinha de rendas fio dental, tão luxuosa quanto ousada, a qual segurou entre os dedos e balançou no ar — Ma olha só! É um correio elegante sim, mas de calcinha! — gargalhou puxando um coro de risadas junto consigo.
Era a calcinha que Afrodite estava usando, e que havia mostrado rapidamente para Camus quando abaixou o cós da calça horas antes.
— Rapaz! Está arrasando corações das cheirosas por ai, heim garanhão! — disse Aldebaran eufórico, dando um tapa no ombro do aquariano.
— Isso que é deixar la donna perdida de amore! Ela até mandou a calcinha de presente! Esse sabe satisfazer uma mulher na cama! — disse o canceriano, agora entregando a calcinha a Shura, que ria de forma discreta.
— Ensina a nosotros, Camus. Como faz para ganhar calcinha das vadias? — disse o capricorniano aos risos.
No outro canto, Geisty olhava com uma expressão enojada na face para aquele fuzuê todo envolvendo o francês. A amazona tinha verdadeiro horror dele, asco profundo e não podia sequer imaginar que ele fosse capaz de conquistar o coração de qualquer mulher que fosse.
— Hum... Essa mulher deve ser louca. Só pode. Esse homem é um porco. Deve ser louca ou estar interessada no dinheiro dele. — resmungou a italiana.
— Eu só queria saber como isso veio parar aqui, no meu Templo? Se eu descobrir que meus servos, ou mesmo os cavaleiros, estão fazendo “favores” para civis dando acesso a eles ao Santuário a coisa vai ficar bem feia! Ah, se vai! Vou ter que falar com Camus sobre isso. — disse Saga, que apenas observava aquele escarcéu todo de longe, intrigado com o fato.
— Será que é uma das servas? Ou uma das bacantes? Eu vou falar com elas! Esse porco é perigoso. — ralhou a amazona balançando negativamente a cabeça.
Enquanto a calcinha de Afrodite passava de mão em mão, este ao lado de Shaka que tinha Kiki no colo enquanto lhe servia leite na mamadeira, havia sido tomado por uma paralisia total.
Peixes não podia crer no que via. Os olhos aquamarines estatelados eram fixos na peça de renda que girava no ar passando de mão em mão. A boca aberta estática estava seca. Nem respirava.
— Bando de mundanos depravados. — Shaka resmungou ao olhar para a cena — “Mu, venha já para cá.” — chamou o lemuriano por telepatia.
“Eu já vou, luz da minha vida... Só um instante.” — Áries respondeu da mesma forma. Estava verdadeiramente preocupado com Camus, e não iria sair de seu lado antes daquela bagunça se acalmar.
“Saia do meio desses libertinos degenerados.” — insistiu Shaka — “O Santuário é um solo sagrado, essa era para ser uma reunião entre Santos consagrados por Atena para celebrar a vinda de duas crianças abençoadas ao mundo, e tudo que fazem é perverter o significado de tudo... Para mim essa reunião já deu o que tinha que dar. Vou pegar o meu filho e voltar para casa.” — disse ao ariano.
“Sim, Sha, vamos para casa, mas... O Camus não me parece nada bem. Vou ver o que há com ele antes.”
Aquário estava estático, rijo e imóvel feito uma escultura de gelo.
Ali, no meio daquela balburdia toda, o aquariano sentiu que fosse morrer.
Aquilo só podia ser um pesadelo!
Não piscava, não falava e não se mexia.
Foi com os olhos arregalados e sentindo os braços formigando que Camus viu Aldebaran pegar a calcinha das mãos de Máscara da Morte e leva-la até o rosto para cheirar.
— Cara, e é cheirosa! Pequenininha, bem safada e perfumada! Se tu não ficar com essa mulher dá meu telefone para ela, porque essa safada é das minhas! Gosto das bem cheirosas! — disse o taurino dando uma de suas gargalhadas.
Aterrorizado, Camus não podia acreditar no que estava vendo.
E se Touro reconhecesse o perfume natural de rosas de Afrodite?
Aquela maldita peça deveria estar impregnada com o cheiro do sueco.
— Quem diria, heim! O Mago do Gelo derretendo corações! — disse Shina que se aproximou curiosa enquanto ria da situação como quase todos ali — Como que eu não percebi todo esse seu potencial, heim Camus?
— Ma que Mago do Gelo que nada. Ele põe é fogo no meio das pernas das ragazzas tutti! A dona dessa calcinha deve estar ardendo em chamas até agora. Conta per noi, Camus, qual é o segredo para deixar as mulheres loucas de tesão e ganhar calcinha de regalo?
Mais risadas.
— Toma ai o teu agrado, garanhão! — disse Aldebaran colocando a calcinha sobre o ombro do aquariano, arrancando mais gargalhadas sonoras de todos ali.
Sem saber o que fazer, nem como agir, Camus apanhou a peça de cima de seu ombro fazendo uma careta de dor. Sentia uma forte pontada bem no centro do peito, uma dor lancinante que irradiava pelo braço esquerdo e fazia seus dedos formigarem.
Em desespero só conseguia pensar no desastre que seria se alguém desconfiasse que aquela calcinha era de Afrodite, se reconhecessem seu perfume.
Precisava fazer alguma coisa, sumir dali, sumir com aquela calcinha infame da face da Terra, dar início a uma nova Era glacial e congelar o planeta, mas não conseguia fazer nada, não era capaz de reagir. Estava em choque.
Com a peça na mão, Camus sentiu o ar lhe faltar. Olhou a sua volta os rostos risonhos que o encaravam. Sentiu os lábios também formigarem e começou a hiperventilar.
— Gente, afasta, afasta! — falou Mu acercando-se do aquariano, enquanto com os braços afastava os cavaleiros que estavam em torno dele — Ele não tá bem... Camus? Camus fala comigo.
A voz de Mu parecia longe, fraca, fantasmagórica.
Camus tentou olhar para o ariano, mas sua visão estava turva.
Cada vez mais ofegante sentiu as pernas fraquejarem e uma forte tontura o lançar para frente.
— CAMUS! — Mu gritou o amparando pelos ombros — Camus o que está sentindo? Fale para mim!
— Eu non... non...
Se estivesse em seu estado normal já teria congelado todo mundo, começando por Afrodite, mas a vergonha e o terror de ser descoberto eram muito maiores que a raiva.
A raiva!
Como estava com raiva do Santo de Peixes...
Só mesmo Afrodite para lhe fazer entrar em colapso daquela forma, acabar com todas as suas defesas, o impossibilitar de reagir.
A dor em seu peito atingiu um patamar insuportável, e sem mais conseguir ficar de pé desabou nos braços de Mu.
— GENTE ELE DESMAIOU! ACODE AQUI! — gritou o lemuriano amparando o ruivo.
Surpreendidos, todos pararam de rir quase que imediatamente, então, como faísca que corre ligeira, Aldebaran correu até Mu e o ajudou a segurar Camus que nem cor mais tinha. Estava pálido, com os lábios e as pontas dos dedos arroxeados.
No fundo do pátio, ao ver a cena Afrodite num impulso instintivo saltou de onde estava pronto para correr até o namorado, mas Shaka o segurou pelo braço lhe impedindo.
— Onde pensa que vai? Você fique aqui, Peixes.
— Mas loirudo...
— Aquário está passando mal e você lá só vai piorar seu estado. Vá ver onde está o filho dele e traga a criança aqui para mim. O menino vai ficar assustado. — disse o virginiano, e Afrodite achou melhor obedecer.
— Está bem eu... eu vou pegar o Hyoga. — disse entre soluços assustados o sueco — “Dadá misericordioso, o que foi que eu fiz? Será que matei o Camy de susto? É muito ebó para uma alma só, Dadá! Me acode! Acode o meu Camy.”
Entre pensamentos desesperados e soluços aflitos, Peixes encontrou Hyoga no meio daquela bagunça de gente amontoada em torno do francês e o puxou pela mãozinha. O menininho olhava assustado para o pai com os olhinhos já marejados de lágrimas que anunciavam o choro.
— Hyoga vem. Deixa o tio gigante cuidar do papai. Vem! — disse baixinho levando o pequeno russo para onde estava Shaka com Kiki.
Afrodite deixou o garotinho aos cuidados de Virgem e desobedecendo ao indiano voltou correndo para o bolo de gente em torno de Camus. Precisava saber como estava seu amado.
Aldebaran e Mu haviam colocado o francês sentado em uma cadeira, e munidos de duas bandejas de prata redondas o abanavam freneticamente.
Para não levantar suspeitas, Peixes se enfiou no meio de Shura e Máscara da Morte, e tentando conter a aflição que sentia observou o rosto de Camus, que lentamente voltava a ganhar cor.
— O que vocês fizeram com o picolé azedo, gente? — disse o pisciano com os lábios trêmulos. Estava devastado por dentro, querendo varrer todo mundo dali, pegar Camus no colo e correr com ele até o hospital, mas conteve-se — Tinha arsênico nessa calcinha? Ou ele desmaiou com o cheiro de bacalhau da amapo*?
— Eu acho que ele morreu. — falou Misty, encarando o rosto aflito de Peixes — Deve ser a calcinha da viúva negra.
Enquanto Peixes e Lagarto se fuzilavam com o olhar, Aldebaran apanhava um pano embebido em água gelada e colocava sobre a testa do aquariano.
— Olha, melhor levar o cara para o Templo dele, porque se chegar um sutiã piriga ele capotar de vez aqui. — disse o taurino.
— Ele parece estar recobrando a consciência! — alertou Saga — Ei, Camus?
— Ahhh... mon... coeur... — resmungou o francês levando a mão direita ao peito, comprimindo o tórax como conseguia.
— O que está sentindo, Camus? — perguntou Gêmeos preocupado, pois para o cavaleiro de Aquário reagir daquela forma significava que aquela calcinha era muito mais que uma mera peça íntima de mulher. Seria uma ameaça da máfia? Um aviso? Um recado de algum inimigo dos russos?
— Mon... coeur... Oh, mon coeur! — murmurou parecendo exausto.
— Ele está tendo um infarto? — perguntou Geisty indiferente.
— Melhor leva-lo para o Hospital, gente! — disse Afrodite, aterrorizado diante do que a amazona de Serpente havia dito.
— NON! — ralhou o aquariano se exaltando novamente, e nesse momento encarou o rosto de Peixes como se pudesse estrangula-lo apenas com a força do olhar — Eu sou um... Vor... da máfia mais... poderosa desse planeta, seu... seu viado burro!... Eu non... non posso ir para nenhum hospital, por Dieu!... Ahh... me levem para minha casa, por favor... para minha casa... Argh!... Mon... mon coeur!... Hyoga! Cadê meu filho? Dieu! Mon coeur!
— Eu levo você, Camus. Posso teleportá-lo direto para lá, é mais seguro. — disse Mu colocando no chão a bandeja com a qual abanava o cavaleiro — Não se preocupe com Hyoga, ele está com o Shaka. Você precisa descansar.
— Faça isso, Mu. — disse Saga — Leve ele para Aquário.
— Seria mesmo melhor leva-lo até um médico... — alfinetou Geisty, que detestava o aquariano.
— Non... non preciso de médico... preciso de paz! — murmurou, devastado.
Camus, melhor que qualquer um ali, sabia que precisava de um médico, mas era um criminoso procurado, um dos líderes da Vory v Zakone, e assim que lhe retirassem a camisa suas tatuagens o denunciariam e o mandariam direto para a prisão. Não havia de fato grades que pudessem segura-lo, mas não poderia arriscar ter seu nome fichado e prejudicar os negócios de Dimitri. Além disso, tinha Hyoga. Não podia ficar longe do menino, já que era sua única garantia de vida.
Resignado Camus suspirou fundo tentando se acalmar. Tentava se convencer de que era apenas um susto, afinal era um cavaleiro de Ouro, forte e saudável, e não era possível que seu coração fosse lhe dar uma rasteira justamente agora.
Não.
Afrodite não tinha todo esse poder devastador sobre si, mas, por via das dúvidas, assim que regressasse a Moscou procuraria o médico da Vory, e seu homem de confiança, Dr. Fredek Kamenev.
— Venha, vou te levar para sua casa. — Áries disse aproximando-se do francês para ampará-lo pelos ombros — “Sha, pegue as coisas do Kiki e leve Hyoga com você para Virgem. Distraia-o lá um pouco, eu desço assim que Camus melhorar. Tudo bem?” — falou por telepatia com o marido.
“Está bem. Se precisar de algo é só me chamar. Estarei com as crianças. Eu te falei que essas reuniões do Gêmeos sempre acabam com alguém ferido, ameaçado, jurado de morte ou escorraçado... Você nunca me escuta.” — Virgem respondeu, depois colocou o sling e ajeitou Kiki em seu colo. Não via mesmo a hora de sair daquele pandemônio. Tranquilizou e segurou Hyoga pela mãozinha, despediu-se de Geisty rapidamente, se colocando a disposição da amazona para o que ela precisasse, e desceu para Virgem.
Após Mu se teleportar para Aquário levando Camus consigo, o clima da festa tinha ido embora de vez.
Cansado e visivelmente aborrecido, Saga deixou Geisty sentada em uma das mesas juntos com Marin e Aiolia e foi até o bar pegar uma bebida, a saideira, porque até para o anfitrião aquela reunião já tinha dado o que tinha que dar.
Felizmente, entre trancos e barrancos, conseguira realizar seu intento. Estava noivo de Geisty e agora era só organizar o casamento, o qual planejava ser o mais breve possível.
Enquanto caminhava até o balcão, cruzou com Shina no caminho.
— Shina, quero falar com você. — disse em tom bem baixo de voz ao passar por ela, então se colocou à sua frente olhando firme em seus olhos — Serei breve.
Por instantes, Shina ficou com o olhar parado, fixo ao rosto vigoroso e sério do geminiano, depois ensaiou um sorriso amistoso.
— Diga, chefe. — respondeu a amazona.
Certificando-se de que ninguém os ouvia, Saga prosseguiu.
— Shina, eu sei que você e o Escorpião são bem... digamos que, próximos.
— Amigos, você quer dizer. — interrompeu a amazona assumindo um semblante sério — Sim, Milo é meu amigo.
— Exato. E como amiga eu presumo que você irá procura-lo quando sair daqui. Certo?
— Certíssimo, Grande Mestre. — Shina estreitou os olhos verdes — Inclusive era para onde eu estava indo exatamente agora, para a Oitava Casa. Não apoio o que aquele desmiolado da cabeça quente fez. Não sou conivente com a opinião dele, mas Milo é meu amigo, e não vou deixa-lo lá passando raiva sozinho. Já me despedi de Geisty, já me coloquei à disposição dela e, como amazona, também me coloco à sua disposição, Patriarca, mas não vou virar as costas para o Escorpião.
— E nem estou te mandando fazer isso. — respondeu Saga — Eu só quero que lhe dê um recado. Diga aquele cretino que a gravidez de Geisty exige sigilo absoluto, que ela continuará frequentando o Templo das Bacantes para não levantar suspeitas com a Vory v Zakone, mas que se ele se atrever a se aproximar dela eu o mato. Melhor! Diga a ele que nem se atreva a aparecer por lá. Ele não é bem vindo no meu bordel.
— Eu acho que, depois do barraco de hoje, isso já ficou bem claro para ele, Grande Mestre, mas não custa reforçar a ideia, não é mesmo? Eu direi a ele. — Shina respondeu com um sorriso enfadonho — Era só isso?
— Sim, era só isso. Pode ir. — respondeu Saga aborrecido.
— Obrigada. — falou Shina já dando um passo ao lado para seguir caminho, mas parou por um instante e deu dois tapinhas no ombro do geminiano — Apesar de tudo, foi uma bela churrascada. A comida estava ótima!
Gêmeos acompanhou com o olhar a amazona de Ofiúco cruzar o pátio e deixar o local. Suspirou resignado.
Seguiu até o balcão, apanhou uma bebida e foi se juntar à noiva, Aiolia e Marin na mesa.
***
Enquanto isso, do lado de fora do Décimo Terceiro Templo, Shina descia as escadas das Doze Casas com o coração aos pulos e a cabeça fervendo.
Ofiúco conhecia como ninguém a personalidade explosiva do cavaleiro de Escorpião e sabia que o encontraria em estado de fúria.
A cada degrau que vencia matutava em sua mente não apenas a melhor forma de transmitir para Milo o recado de Saga, mas também como faria para convencer o amigo de vez a esquecer a amazona de Serpente, que Geisty gostava do geminiano, e que nem tudo era o que parecia ser, como acreditava o Escorpião.
Quando chegou à entrada da Oitava Casa, Shina sentiu o Cosmo agitado e agressivo do cavaleiro e, com cautela, se anunciou ativando seu Cosmo antes de adentrar o Templo.
Ao chegar à sala, a amazona tomou um susto. Havia uma mala feita ao lado do sofá negro de couro. Ela franziu a testa, receosa e curiosa, mas nem teve tempo de adivinhar o que significava aquilo, pois logo Milo chegava ali soltando fogo pelas ventas enquanto parecia discutir com alguém no celular.
— É para isso que eu te pago a porra do dobro, seu merda. Para me colocar dentro do avião a hora que eu quiser. — esbravejou o escorpiano e depois desligou o aparelho.
— Vai viajar? De novo? — perguntou a amazona chamando a atenção do loiro — Você mal chegou...
— O que está fazendo aqui? — disse Milo guardando o celular no bolso da jaqueta de couro que usava.
— Ei, baixa a guarda. Vim ver como você está. Preciso falar com você.
Milo parou o que fazia e com uma expressão de fúria encarou o rosto da amazona.
— Falar o que? Não tem nada para ser dito. Você estava lá até agora sendo conivente com aquele absurdo. — rosnou irritado — Você é igual a eles.
— Eu? — Shina disse em alta voz, surpresa — Você é quem não entendeu nada. Olha, Milo... se acalme, vamos conversar.
— Eu entendi sim! Entendi muito bem! — bramiu o escorpiano, depois deu as costas à amazona e apanhou a mala.
— Milo, espera! Me escuta! — Shina andava atrás dele quando o grego parou e virou-se novamente para ela a encarando nos olhos.
— Eu achei que você era diferente, mas não é. Lembrou de mim só agora que já festou? — bradejou, os músculos do rosto tremiam de raiva, e o rancor lhe comprimia o coração.
— Eu só pude descer agora... aconteceu tanta coisa que...
— Você é como eles. Concorda com aquela baixaria, com aquele absurdo que Gêmeos está fazendo com a Geisty.
— Não! Me deixa falar!
— Que tinha rolo ali, entre ele e ela, eu já sabia, mas ele engravidar ela para tirar vantagem, para mantê-la presa a ele porque ela rende muita grana é muita canalhice, e eu não aceito todos sendo coniventes com isso. Eu estou muito magoado com a Geisty, mas que escolha ela tem a não ser aceitar essa merda toda? — voltou a dar as costas para a amiga e seguiu apressado até a porta.
— Por Atena, seu cabeça dura, não é nada disso! — dizia Shina correndo atrás dele — Milo, volta aqui! Eu preciso falar com você. Saga também me pediu para...
— AH, EU SABIA! — bradou o escorpiano parado na porta, depois voltou somente o rosto machucado para a amazona, que assustada parou onde estava — Aquele covarde, Grande Mestre de merda mandou um recadinho? Me deixa adivinhar... Ele me mandou ficar longe dela. Claro, porque ele sabe que eu tiro ela dele num piscar de olhos.
Shina se calou, e diante do silêncio da amazona, Milo abriu a porta e de costas para ela, encarando o horizonte e o Sol que se punha entre as montanhas, disse em tom firme.
— Pois eu também tenho um recado para o cretino do Saga. Diga a ele que eu vou voltar em breve, e que vou voltar montado na grana. Eu vou quitar a dívida da Geisty e tirar ela daquele bordel. — com um chute fechou a porta, deixando Shina estarrecida e sem palavras do lado de dentro da sala da Oitava Casa.
***
Casa de Aquário, 22:45pm
Afrodite havia descido para Peixes alguns minutos depois de Mu ter teleportado Camus para Aquário, porém não poderia descer até o Templo de Gelo até que todos os cavaleiros e amazonas tivessem regressado a seus respectivos Templos, já que teriam que passar pela casa de Peixes e seria arriscado demais não estar ali.
Assim, o sueco esperou até que todos descessem as escadarias para ir ver como Camus estava passando, e pelos deuses, aquela espera parecia sem fim!
Peixes já havia roído todas as unhas, mordido os cantinhos da boca e quase aberto um buraco no meio do chão de seu quarto de tanto andar de um lado para outro esperando as horas passarem. Estava preocupadíssimo com o francês, e também com Hyoga. O que lhe confortava era saber que o menino estava em Virgem com Shaka e Mu, e lugar mais seguro na Terra para uma criança não havia.
Sentia também o Cosmo de Camus em Aquário, e este estava tranquilo e sereno, o que lhe deu certo alívio momentâneo, mas precisava ver o amado o quanto antes com seus próprios olhos.
Era quase onze da noite quando finalmente Aldebaran e Máscara da Morte desceram para suas respectivas casas. Eles eram os últimos e finalmente Afrodite pode se arrumar para descer até Aquário.
Por segurança, e também para não aborrecer ainda mais o aquariano, Peixes vestiu-se com uma das roupas compradas na loja grã-fina, uma que o próprio francês escolhera, um vestido todo branco de saia rodada até os joelhos e mangas longas bordadas.
Não sabia se Shaka tinha entregado Hyoga quando Camus se sentiu melhor, ou se ainda estava na Sexta Casa, então achou melhor não arriscar e foi caracterizado como mulher.
Colocou um par de sandálias sem saltos, e pensando em fazer uma brincadeira para descontrair pai e filho, caso Hyoga estivesse lá, como também para se desculpar por aquela péssima ideia que tivera no churrasco, prendeu os cabelos com um rabo de cavalo alto e colocou um pequeno chapeuzinho de enfermeira na cabeça. Sorte que tinha um enfiado dentro do closet. Fazia parte de uma das tantas fantasias que lhe pediam para usar no bordel e que, vez ou outra, trazia para casa.
Afrodite estava indo a Aquário para pedir perdão a Camus, mas também para cuidar do namorado, mostrar que se preocupava consigo e que estava arrependido do que fez, para lhe dar toda assistência que precisasse e merecia.
Certificando-se de que tudo estava silencioso nas Doze Casas, ativou o Cosmo de sua armadura e desceu até a casa vizinha pela passagem dos fundos.
Chegou à sala de Aquário notando que as luzes da casa toda estavam apagadas.
Como já conhecia perfeitamente cada canto daquele lugar, caminhou pé ante pé até o quarto do francês, e vendo uma fresta da porta aberta espalmou a mão na madeira e a empurrou bem devagar.
— Camy? — sussurrou, mas não houve resposta.
— Camy, estou entrando. — outro sussurro, então Peixes adentrou o quarto em meio à penumbra vendo a silhueta do francês sobre a cama, que coberta por um fino lençol azul marinho de seda ressoava baixinho.
Camus parecia dormir tranquilo. Era como se nada tivesse acontecido, como se horas antes o amado aquariano nem tivesse sofrido um início de ataque cardíaco.
Peixes encostou a porta e andou até a cama, devagar e em silêncio.
Sentou-se na beirada do colchão e inclinou-se delicadamente para frente.
Observou por algum momento o rosto belo e tranquilo de Camus enquanto este dormia, depois, delicadamente, curvou-se mais e beijou a testa e os lábios do francês com carinho.
Com as pontas dos dedos fez uma carícia afetuosa nas madeixas ruivas espalhadas pelo lençol, enquanto delineava com os olhos aquamarines cada traço das feições do aquariano.
Sorriu, apaixonado e aliviado.
— Você me deu um puta susto hoje, mafioso malvado. — sussurrou encostando seu rosto ao de Camus — Quase me mata do coração.
— Não, Afrodite.
A voz grave, porém suave e serena, surgiu troante em meio à escuridão, pegando Afrodite de surpresa, que arregalou os olhos e saltou da cama em verdadeiro pânico.
— O QUE? — disse o pisciano, confuso e desesperado, enquanto corria os olhos pelo recinto sem nada poder enxergar naquela penumbra.
— Não foi você quem quase morreu do coração hoje, Afrodite. Foi ele.
Novamente a voz surgiu na escuridão.
— Quem está ai? — perguntou o pisciano em completa aflição.
— Você quase matou o Camus.
Uma silhueta se desenhou entre as sombras que engoliam o quarto, e no auge do desespero Afrodite não pode de imediato reconhece-la.
Tudo em que Peixes pensava era que seu mundo tinha ruído. Havia condenado a ele, a Camus e a Hyoga, pois seu maior medo ganhou forma naquela hora.
Ele e Camus foram pegos em flagrante!
Negrito = traduzido do francês
Dicionário Afroditesco
Aleijo— 1 porcaria; de má qualidade; 2 situação embaraçosa, delicada ou conflitante; 3 coisa que não deu certo; 4 pessoa ruim, maldosa, de má índole.
Alma sebosa— pessoa chata e escrota; pessoa do além; malassombrada.
Amapô— mulher
Malassombrada— pessoa estranha, que causa medo, que tem energia ruim
Matim— ruim
Piriri— diarreia
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