Templo das Bacantes Vol. 2
19 Meu melhor remédio é você.
Notas iniciais

Casa de Aquário, 23:04 pm
Afrodite tinha nos olhos uma expressão de puro terror.
Parado de pé ao lado da cama, praticamente todos os músculos de seu corpo fremiam enquanto o rosto pasmado parecia ter sido congelado pelo tempo.
Em sua frente, o vulto fantasmagórico agora ganhava forma à medida que se aproximava, revelando uma figura conhecida.
— Eu creio que nós precisamos conversar. — sussurrou o visitante com um intrigado franzir na fronte alva, já que não esperava ver o Santo de Peixes, e seu melhor amigo, vestido em trajes totalmente femininos.
— Mu... — o sueco sussurrou de volta, quase engasgando-se tamanho o nervosismo.
— Venha. — disse o Santo de Áries, em seguida curvou ligeiramente o tronco para frente e com a mão firme agarrou o pulso do pisciano, fazendo uma leve pressão — Eu lhe dei um medicamento leve para relaxar, ele estava muito agitado, dormiu há pouco, não quero acordá-lo. Vamos até a sala. — referiu-se a Camus que ressoava baixinho na cama.
Deixaram o quarto a passos leves, encostando a porta com o cuidado de não fazer barulho, então Mu conduziu Afrodite até a sala o puxando pelo pulso.
— Sente-se. — disse o ariano indicando uma das poltronas.
O Santo de Peixes olhou para ele como quem faz uma pergunta muda. Sua respiração era acelerada, o coração parecia em frenesi alucinado, porém sua mente, apesar da inércia do susto, tentava trabalhar ligeira procurando um meio de escapar daquela situação.
— Me... sentar? — disse com um risinho cínico na face — No sofá do cano de chuveiro enferrujado? Tá maluca, santa? Ele me mata! Aloca!... Eu... eu só estava de passagem... eu... Não ia entrar, eu só... estava descendo para o Templo de Baco e... resolvi dar uma... Não!... Eu vim...
Afrodite tentava achar uma desculpa, que não existia, para ele estar ali, na casa de Aquário, àquela hora e vestido de mulher.
— Afrodite, chega! Para! — Mu lhe chamou a atenção elevando o tom de voz — Eu sei que veio aqui ver o homem que você ama! O seu namorado misterioso. O Batman. Eu sei que Camus é o Batman, Dido, pare de fingir.
Estupefato, Peixes levou ambas as mãos ao rosto pressionando as bochechas. Abriu a boca em espanto e quase que imediatamente seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Você tem sido meu melhor amigo desde que voltei de Jamiel, e eu estou muito preocupado com você, e também com Camus. — continuou Áries, agora falando de forma mais branda — Não quero que nada de ruim aconteça a nenhum dos dois, então chegou a hora de colocar as cartas na mesa. Sente-se, por favor.
Nem foi preciso um segundo pedido, pois Afrodite sentia os joelhos falharem e as pernas não darem conta do peso de seu corpo, deixando-se cair sentado na poltrona em frente à mesa de centro, na qual Mu com cuidado se sentou à beirada para ficar bem perto do sueco, cara a cara.
— Como... como você... descobriu? — o pisciano perguntou num murmúrio choroso — A gente... a gente deu alguma bandeira? Alguém mais sabe?
— Bandeira você dá toda hora, né Dido. — respondeu o ariano em tom firme — Mas, acredito que não, ninguém mais sabe... Por enquanto! — encarou o amigo de forma repreendedora — Na verdade, eu sei do romance de vocês dois desde aquela confusão em que Camus te deu uma surra no seu quarto do bordel... Esses anos todos eu tenho fingido, por respeito a você, à sua escolha de não me contar, e também a ele. Sei que Camus não pode, e não quer, se assumir gay... Eu respeito e entendo a situação de vocês, e lhe asseguro que comigo seu segredo está a salvo. Nem mesmo ao Shaka eu contei, e eu não tenho segredos nenhum com meu marido... Para te ser sincero, nem a você eu revelaria isso... não fosse pelo que presenciei hoje.
Afrodite estava em choque.
Agora duas pessoas sabiam de seu segredo e de Camus, Misty e Mu.
Com Lagarto, apesar de ter os dois pés atrás, Peixes pouco se importava, uma vez que sabia que para Misty manter o segredo era vantajoso, já que essa era a maneira que o francesinho encontrava de mantê-los em suas mãos, mas Mu lhe preocupava. Sentia calafrios só de imaginar que o lemuriano corria perigo por saber desse relacionamento.
Contudo, não podia negar que em seu coração, apesar do medo também sentia certo alívio. Seu melhor amigo sabia de seu segredo. Teria com quem conversar, desabafar, chorar, sentir, já que aguentava sozinho toda a alegria e tristeza de amar e ser amado.
Num rompante de emoção e aflição, Afrodite inclinou-se para frente e puxou Mu para um abraço apertado, enquanto seu peito ardia em um misto de angustia e alegria.
— Mu! Pelo báculo de Atena e as contas de Dadá, Mu! Você não! — disse entregando-se ao choro — Você não! Não podia ter descoberto esse truque*! Você não sabe o risco que está correndo... Você, sua família... Não, Mu!
— Dido... se acalma. — pedia Áries tentando confortar o amigo.
— Eu amo você e nunca me perdoarei se alguma coisa ruim acontecer.
— Dido. — Mu abraçou o amigo com carinho — Não vai acontecer nada comigo. Se acalme... Mas, com o Camus pode acontecer sim. Não quero nem imaginar o que a Vory v Zakone faria com o Camus caso descobrisse que ele é gay... E é sobre isso que quero falar.
Apartando o abraço, Mu segurou firme nas mãos do sueco o fazendo encarar seus olhos.
— Dido, o Camus teme muito a Vory. Só ele sabe do que aqueles malditos russos são capazes. Só ele conhece verdadeiramente seu potencial de destruição, e conhecendo Camus como conheço, ele não teme tanto a Vory por ele, mas por Hyoga, e também por você. — Mu examinou o rosto do amigo que parecia em agonia.
— Eu... eu sei disso, Mu. — murmurou Peixes.
— Não. Você não sabe. — retrucou Áries para espanto do sueco que arregalou os olhos — Ou se sabe não dá a mínima!
— O... o que?
— Que ideia mais estúpida foi aquela de mandar uma calcinha para ele dentro de um envelope? E não mente para mim, eu sei que foi você quem mandou, sabe por que, Dido? Porque se tivesse sido qualquer mulher desse mundo que tivesse mandado aquela calcinha para ele não teria lhe causado um princípio de infarto!
Afrodite nem respirava.
Fazia um esforço enérgico e desesperado para conter os nervos, a vontade de gritar, de chorar, e agora também o pânico que sentia querer tomar conta de si.
— Está... está dizendo que o Camy ele... ele teve... um... — o pisciano gaguejava aflito.
— Não. Ele não chegou a ter um ataque cardíaco, mas ele apresentou todos os sintomas. E sabe por que? Porque ele sentiu tanto medo que entrou em colapso. — repreendeu o ariano — A aura do Camus irradiava medo, pânico! Já pensou em tudo que passou pela cabeça dele naqueles poucos minutos em que abriu aquele envelope e viu Máscara da Morte afanar a calcinha e depois ela passar de mão em mão? Ele deve ter pensado que perderia você, e que perderia Hyoga, como perdeu Natássia.
— Não! Eu não queria que...
— Afrodite. — Mu o interrompeu segurando suas mãos com mais força — Não pode continuar se comportando de maneira tão inconsequente. Há dois anos que você vem colocando o segredo de vocês em risco por conta de bobagens... Como fez anos atrás quando chamou os russos para o seu quarto e fez Camus mata-los. Dessa vez você quase matou o Camus.
Afrodite olhava para Mu e sabia que ele tinha toda a razão.
— Dadá, coitadinho do meu Camy... Você tem toda razão, Mu. — encarava aos prantos os olhos de Mu — E agora, como ele está?
— Ele chegou aqui muito mal, mas eu o ajudei e ele foi melhorando, mas, assim que puder, o aconselhe a procurar um médico. Não é comum cavaleiros desenvolverem alguma patologia grave, mas não custa fazer uns exames de rotina. Não há de ser nada.
— Não queria tê-lo colocado em risco, Mu. Eu só queria pedir desculpas para ele por ter deixado o Hyoga se sujar porque... porque me distraí com aquela malassombrada da Lagartixa... Como eu ia imaginar que o Mask ia pegar aquela bendita daquela calcinha, e que o Touro Chifrudo ia cheirar... Ah, Atena! — baixou a cabeça, derrotado, culpado e remoendo um remorso amargo — Talvez eu devesse me afastar dele... deles... Não quero coloca-los em risco.
Mu sorriu melancólico e puxou o amigo para um abraço.
— Não seja bobo. Acha mesmo que Camus quer você longe dele? Eu sinto as pessoas, a aura delas, você sabe. A aura do Camus quando está perto de você vibra intensa e plena de felicidade. Por que acha que ele se sujeita a correr os riscos que corre para ficar com você? — afastou-se e acariciou o rosto do pisciano sorrindo ternamente — Camus ama você, Dido, mas não é um homem de nervos de aço. Cuide dele... Já até veio vestido para isso, não foi? — referiu-se aos trajes femininos que o sueco usava, imaginando que era mais uma de suas travessuras.
— Ah... sim... eu vim...— Afrodite confirmou com um sorriso sem graça.
— Então faça isso. Cuide dele. O seu segredo está seguro comigo como sempre esteve. Eu vou para casa que Shaka deve estar maluco lá com duas crianças para dar conta. Estou aqui desde às cinco da tarde! Ele ainda está bem atrapalhado nos cuidados com o bebê. — riu divertido já se levantando — Eu já avisei ao Camus que amanhã de manhã trarei Hyoga para ele depois do café.
Afrodite levantou a vista e olhou, acabrunhado, para Mu.
— Não diga ao Camy que você sabe. — pediu também se levantando.
— Não direi. Nem sequer me passou isso pela cabeça, fique tranquilo. — tranquilizou Mu.
— Obrigado, Mu, meu amigo. — sorriu tímido — Eu vou... eu vou cuidar dele e... ser mais cuidadoso.
Peixes acompanhou Áries até a porta de saída e ao se despedir lhe deu um beijo estalado na bochecha.
Ao se ver sozinho, Afrodite caminhou entre suspiros e arquejos sôfregos de volta ao quarto do guardião daquele Templo. Entrou, retirou os sapatos, ficou alguns minutos somente a observar o aquariano dormindo enquanto repassava em sua mente tudo que Mu havia lhe dito. Contornou a cama a passos leves, sentou-se na beirada e arrastando-se até o meio deitou ao lado de Camus, aninhando-se em seu corpo com a cabeça sobre o peito que subia e descia num movimento cadenciado.
Não sabia qual seria a reação de Camus ao acordar e vê-lo ali, então aproveitaria sua companhia o quanto pudesse.
Algumas poucas horas se passaram quando Aquário, sentindo o braço dormente, tentou remexer-se na cama para mudar de posição, porém foi incapaz de se mover. Havia um peso em seu peito o impedindo, imobilizando o braço.
Sonolento e ainda meio grogue devido ao calmante que Mu lhe dera horas antes, levou a mão que sentia livre até o rosto e esfregou de leve os olhos soltando um gemido. Fazendo um esforço mínimo ergueu o pescoço e olhou para baixo, então viu em meio à penumbra o que lhe impedia de se mover, uma cabeleira azul pisciana reluzia sobre seu peito refletindo os raios prateados do luar que entravam pela janela entreaberta.
Camus correu os olhos semicerrados pelo contorno do corpo esguio sobre o seu, parando no detalhe de um pequeno chapéu de enfermeira preso na cabeça do pisciano com grampos.
Com um suspiro alto e resignado Aquário deixou a cabeça cair de volta sobre o travesseiro enquanto com olhos arregalados encarou um ponto qualquer no teto de seu quarto.
— Eu non posso acreditar. — balançou a cabeça negativamente para si próprio.
Após um breve momento voltou a levantar o pescoço para olhar para Afrodite adormecido sobre seu peito, então delicadamente o empurrou para o lado livrando-se do peso, mas no processo o pisciano despertou, e assim que se dera conta de onde estava sentou-se na cama a encarar o aquariano nos olhos.
— O que faz aqui? — inquiriu o Santo de Aquário com voz grave e severa — Depois do que você me fez ainda tem coragem de vir aqui?... E usando um... chapeuzinho de enfermeira!... Dieu, Afrodite! Dieu!... Você quer me enlouquecer?
Peixes, após o flagrante de Mu e o teor da conversa que tiveram, tinha esquecido completamente do chapéu preso em seus cabelos. Rapidamente levou a mão até ele o arrancando num só puxão para escondê-lo entre suas mãos unidas sobre o colo.
— Eu só queria... ver como você estava e... cuidar de você. — baixou a cabeça desviando as vistas dos olhos desconcertantes de Aquário.
— Já viu. Pode ir embora. — o francês respondeu ríspido, depois deu as costas ao pisciano virando-se na cama e cobrindo-se totalmente com o lençol até a cabeça, de modo a ficar somente o rosto consternado de fora.
Afrodite entendeu aquele gesto claramente, mas não iria desistir fácil.
Quando o assunto era Camus nada era fácil.
Movendo-se bem devagar voltou a se deitar, e arrastando-se entre os lençóis encostou seu corpo ao de Camus. Mandou às favas a vergonha na cara, que ele não tinha mesmo, e encaixou seu quadril ao do francês, coxa com coxa, abdome com costas, e mergulhando o rosto entre as madeixas ruivas beijou a nuca do aquariano delicadamente.
— O que pensa que está fazendo? — Camus resmungou ao erguer ligeiramente o tronco e olhar para trás por cima dos ombros.
— Me perdoa, Camy... Eu errei, mas foi na intenção de acertar. — sussurrou o sueco olhando nos olhos avelãs flamejantes do namorado.
— Non... você non está fazendo isso. — repreendeu o francês — Afrodite eu passei mal de verdade!
— Eu sei. — lamentou.
— E por sua culpa!... Pensa que vai ser sempre assim? Você faz merda e vem pedir desculpa? Pois non vai. Já me basta tudo que ouvi naquele maldito churrasco... Dessa vez você ultrapassou todos os limites.
Peixes ouviu a tudo calado.
Se era um desastre com atitudes, com palavras era ainda pior.
Corajosamente correu a mão pelo braço forte do aquariano e segurou na mão dele, entrelaçando os dedos de forma firme.
— Você non me ouviu? Saia da minha cama, saia da minha casa. — disse Camus, mas as palavras que saiam de sua boca não condiziam com a linguagem de seu corpo.
Camus apertava com força a mão de Afrodite contra a sua, e só por isso o sueco não desistiu. Conhecia o aquariano, sabia que ele era duro, firme, mesmo precisando ser cuidado e protegido.
— Eu só vou sair quando você me perdoar, ou... Ou se olhar nos meus olhos e me disser que não me quer mais... Caso contrário é aqui que eu vou ficar, e vou ficar para cuidar de você. — disse Peixes.
Um breve silêncio se fez entre eles, até que, abruptamente, num impulso de raiva e nervosismo Camus soltou a mão de Afrodite com força selvagem.
— Então saio eu. — disse quase num ronco, e então se arrastou para a beirada da cama e levantou-se trazendo o lençol e o travesseiro consigo.
Afrodite sentou-se sobre o colchão enquanto via o aquariano deixar o quarto apressado. Inspirou profundamente e esfregou o rosto com as mãos num gesto enfadonho. Sabia que não seria fácil convencer o namorado a perdoá-lo, nunca fora, mas agora algo havia mudado em si. A conversa com Mu o fez ter consciência de que teria que ser mais cuidadoso com Camus, mais responsável, e precisava fazer o aquariano saber disso.
Não iria desistir.
Assim, saltou da cama e munido de novo entusiasmo e coragem foi atrás do francês o encontrando na sala, deitado de bruços no sofá e coberto pelo lençol até o topo da cabeça.
Ficou alguns minutos a olhar para a aquela silhueta, em especial para determinada parte do corpo do francês que era seu ponto fraco.
As nádegas de Camus pareciam ainda maiores e mais robustas quando delineadas por aquele fino tecido de seda do lençol.
Em outra ocasião já teria corrido até aquele sofá e pulado em cima do aquariano arrancando sua roupa em poucos segundos, mas conteve-se como nunca antes. Iria respeitar a saúde do amado, mas respeitar sua vontade já era outra história.
Caminhou até o sofá e lentamente se deitou sobre o corpo de Camus apoiando os joelhos no acento acolchoado para não fazer peso sobre as costas do francês.
— Afrodite, sai de cima de mim. — murmurou Aquário, na testa enfiada no travesseiro pulsava uma veia saliente. Estava de fato muito nervoso, porém, assim como acontecia em todas as vezes que Peixes tentava dobrá-lo, não conseguia reagir como desejava.
Aliás, o desejo era o fraco do Santo de Aquário.
Camus sentia o corpo quente de Afrodite sobre o seu e desejava tocá-lo. O odor único do sueco já entrava em suas narinas fazendo seu corpo reagir.
Era confortável ter Afrodite junto a si. Seu calor o abraçava, seu perfume o alentava, sua presença extremamente intensa e sensual o tirava totalmente do eixo.
Peixes por sua vez, seguia com seu intento. Apoiando ambas as mãos no acento do sofá debruçou-se totalmente sobre o aquariano até encostar seu rosto à lateral do rosto dele. Acariciava a pele pálida e meio fria com seus lábios quentes e a pontinha do nariz.
— Camy... eu errei, eu reconheço. Fui inconsequente, irresponsável, mas não vou errar mais. — sussurrou o sueco, agora pressionando a pelves contra as nádegas redondas do francês, fazendo movimentos circulares, ora mais fracos, ora mais intensos.
— Você vem me dizendo isso há dois anos... — resmungou Aquário soltando um suspiro que foi abafado pelo travesseiro — Disse exatamente a mesma coisa dois meses atrás quando me fez aquela palhaçada em Moscou de ir ao meu escritório vestido de vendedora de enciclopédia.
— Eu sei... Mas, eu estava com tanta saudade que precisava te ver. — Peixes respondeu com voz manhosa suprimindo um gemido.
— Sabe, mas continua fazendo merda, Afrodite. — o francês remexeu-se sutilmente debaixo do sueco — Você tem noção do que fez hoje? Você colocou todos nós em risco... colocou Hyoga em risco... Non estamos mais sozinhos, Afrodite... Agora temos uma criança precisando de nossa proteção.
Súbito, Peixes interrompeu os movimentos ficando imóvel em cima de Aquário.
Pensar que poderia colocar Hyoga em risco quando prometeu a Camus que o ajudaria a protegê-lo esmagou seu coração e lhe deixou os olhos rasos de água.
— Eu sei que eu caguei no maiô*, mon amour, e eu estou tão arrependido se você soubesse... — beijou ternamente a lateral do rosto do aquariano enquanto afagava os cabelos ruivos com as pontas dos dedos — Mas, é tão difícil para mim nessas reuniões ter de fingir que te odeio, ou que sou totalmente indiferente a você, e agora também a Hyoga, quando tudo que quero é estar junto de vocês e dizer a todo mundo que somos uma família... Me perdoe, Camy. Eu prometo que serei mais cuidadoso.
— Non prometa, Afrodite, seja! — resmungou Aquário, abismado — Chega de promessas. Non posso e non vou arriscar a vida do meu filho, você entendeu?
— Entendi. — disse baixinho, e como se temesse perder aquele cavaleiro deitado embaixo de si para sempre, afundou o rosto nas madeixas ruivas e o abraçou com tanta força a ponto de fazê-lo deixar escapar um gemido — Eu te amo tanto, Camus... E eu amo o Hyoguinha... Não sou mais capaz de viver sem vocês dois, por favor, me perdoe. Acredite em mim. Eu vou melhorar.
As mãos de Afrodite agora corriam lentas pela lateral do corpo forte de Camus até escorregarem para baixo do lençol fino de seda e invadirem o tecido nobre do pijama que ele usava, tocando a pele quente já eriçada do torso e quadril.
— Hum... e o que mais me resta... se non acreditar em você? — sussurrou o francês mordendo o lábio inferior — Dieu, Afrodite... Eu também non sou mais capaz de viver sem você. — confessou entre gemidos e arquejos enquanto sentia o sueco lhe beijar docemente a nuca — Você é minha salvação e minha condenação, seu sueco maluco.
Naquela altura, Camus já sentia seu corpo desperto completamente.
Era certo que em sua cabeça uma confusão de sentimentos ainda imperava, assim como era certo que era completamente incapaz de resistir aos jogos de sedução do Santo de Peixes.
Estava com raiva ainda, e magoado, mas entre orgulho e prazer dessa vez escolheu o prazer.
Subjugado suspirou, remexeu-se entre comichões e desistiu de lutar contra seus desejos. Estava saudoso dos toques, dos beijos, do corpo e do fogo de Afrodite, que o punha louco.
— Não, sou só sua salvação, mon amour, e você é a minha. — o pisciano gemeu enquanto lambia o lóbulo da orelha de Camus e arranhava a pele quente por baixo do pijama — Me deixa te amar. Me deixa cuidar de você.
— Ahh... foi para isso que... veio vestido de enfermeira, seu safado? — murmurou o francês, que tinha o coração tão acelerado batendo forte dentro do peito que tinha a impressão de poder ouvi-lo produzindo ecos dentro de si.
— Foi. — respondeu o sueco respirando fundo, excitadíssimo, pressionando seu quadril e seu pênis já muito rijo contra as nádegas do namorado — Foi para cuidar do meu doentinho. — enfiou as mãos dentro da calça do pijama de Camus e lentamente a puxou para baixo junto da cueca.
— Dieu, você nunca vai mudar, Afrodite. — sussurrou Camus com voz rouca de tesão, fechando os olhos devido ao êxtase de sentir suas nádegas sendo expostas, ainda que cobertas pelo lençol.
— Você me conheceu assim... desde que éramos crianças... — com beijos doces e ternos distribuídos pela nuca e lateral do rosto do aquariano, Afrodite ergueu ligeiramente o quadril apenas para poder puxar o lençol para lado e lança-lo ao chão —... Você se apaixonou por mim assim... Você não quer que eu mude, mon amour. — ainda com o quadril levantado usou uma das mãos para puxar a barra do vestido branco para cima e descer a cueca até a metade das próprias coxas, só então voltou a encaixar seu quadril entre as nádegas do aquariano posicionando o pênis bem ao centro delas, de modo a poder masturbar-se conforme executava os movimentos cadenciados de vai e vem.
— Ahhh... Non... non quero que mude... — Camus afundou o rosto no travesseiro gemendo excitado — Mas, pelo menos uma vez por dia sinto vontade legítima de te matar, Afrodite... uhmmm... — empinou o quadril levemente para cima para intensificar o contado entre os corpos.
— Me mata, meu amor, meu mafioso malvado... mas me mata de tesão, Camus... me mata de prazer... — disse Peixes ao puxar a camisa do pijama de Aquário para cima até os ombros, relevando as costas largas onde mergulhou o rosto e distribuiu vários beijos e leves mordidas.
— Uhnn... Afrodite... — gemia o aquariano se contorcendo todo. O pênis duro e úmido do outro entre suas nádegas, aquele perfume forte, inebriante e único que lhe tirava a razão, a audácia e empáfia daquele homem a subjuga-lo sem nenhum receio ou temor lhe desarmavam completamente.
Acima de tudo o amor, o imenso e irrefreável amor que sentia por Afrodite lhe tornava incapaz de rejeitá-lo.
A respiração ofegante e o coração acelerado de Camus intensificaram-se quando sentiu o pisciano escorregar o corpo para baixo, traçando um caminho de beijos que partiu do meio de suas costas indo terminar no final da coluna. Então Aquário sentiu Peixes tocar firme suas nádegas com ambas as mãos as afastando, e fechou os dedos com força no travesseiro quando a língua quente de Afrodite invadiu sua intimidade.
Gemeu novamente em alto e bom tom, fechando os olhos e se contorcendo a cada novo estímulo que o sueco lhe fazia com a língua habilidosa.
— Uhmmm... Não faz isso comigo... seu viado safado*. — choramingou o ruivo após longos minutos de puro êxtase, já que Afrodite literalmente o fodia com a língua.
Ao sentir o amado tremer e se remexer sob si, Peixes voltou à posição anterior, debruçado sobre ele, e enquanto roçava seu pênis turgido no meio das nádegas de Aquário, encostou seu rosto na lateral do rosto dele lhe beijando com ternura.
— Que delícia de bunda, Camus... — sussurrou rente ao ouvido do francês —Não há nada nesse mundo que me instigue mais que a sua bunda gostosa e o seu gosto, sabia, seu mafioso malvado? — com uma das mãos posicionava seu membro muito rijo na intimidade do namorado, já forçando a invasão.
— Aaah! — Aquário gemeu trincando os dentes e prendendo o ar dentro dos pulmões enquanto sentia o pisciano empurrar o pênis todo para dentro de si de forma lenta e cuidadosa — Afrodite...
— Shiii... Não faça esforço... Você está doente, e eu vim aqui para cuidar de você. — disse malicioso, depois recuou o quadril para trás quase saindo todo de dentro do corpo do companheiro para em seguida penetra-lo com um tranco forte, arrancando um gemido languido de Camus — Humm... Está com sorte... Eu sou um enfermeiro muito bom! — lambeu as costas do aquariano sentindo a pele se arrepiar instantaneamente sob sua língua.
— Aaah... eu non estou doente... — grunhiu Aquário empinando o quadril para cima, tanto para amenizar a pressão em seu próprio pênis muito excitado quando para rebolar se insinuando. Estava completamente entregue àquele momento, ao êxtase e à luxuria que o dominavam por completo.
— Hum... então estou lidando com um paciente arredio? — murmurou Peixes iniciando movimentos lentos, deliciando-se com a sensação extasiante de ter o membro estrangulado pelo corpo do outro — Não tem problema, porque eu sou um enfermeiro especialista em lidar com pacientes complicados... desses que resistem ao tratamento.
Correndo as mãos pela lateral do corpo do namorado, Afrodite as levou até seus dois pulsos e os segurando com força trouxe os braços de Camus para trás das costas. Agora o mantinha imobilizado enquanto acelerava o ritmo da penetração, o estocando firme e forte.
— Aaaah... Afrodite, por Dieu!
Camus sufocou um gemido mais alto no travesseiro. Seus braços já começavam a doer divido à posição, assim como os punhos presos pelas mãos firmes do pisciano, porém as estocadas cada vez mais fortes que chacoalhavam todo seu corpo sem piedade, somada à sensação de estar sendo subjugado pelo amante o levavam à loucura e o faziam desejar mais.
Afrodite era sem dúvida sua perdição.
— Pacientes bravos e arredios precisam ser amarrados... — sussurrou o sueco, e mantendo os punhos do aquariano presos com apenas uma das mãos, levou a outra até a cintura do vestido que usava e puxou o cinto de seda bordada que o adornava. Num processo ligeiro, atou os punhos de Camus com o cinto, e agora com ambas as mãos livres as mergulhou nos cabelos ruivos para puxá-los suavemente para trás, atacando o pescoço do amado com beijos e leves mordidas ao se debruçar novamente sobre ele — Aaaah... que delícia de rabo tem esse meu paciente... tão apertado... do jeitinho que eu gosto. — sussurrou voltando a estoca-lo rápido e forte.
— Uhmmm... aaahhh... então mete nele, vai... seu viado gostoso. — pediu sôfrego o francês sentindo um calor dentro de si que não era mais capaz de suportar.
Camus ansiava por sentir o sueco o possuindo com força, o tomando com autoridade e vigor. Os jogos de Afrodite sempre o faziam se sentir humilhado ou tímido, mas isso só aumentava sua libido.
Ao ouvir aquele pedido Afrodite sofreu até um espasmo, tamanho o tesão que sentira. Seu membro latejou mais forte e ele arremeteu-se no corpo abaixo de si sem trégua, num vai e vem em ritmo constante, cadenciado e acelerado.
Camus arfava e gemia entre suspiro delirantes sem sequer se preocupar em abafa-los. Não queria reprimir nada naquela hora, mas sentir! Sentir toda a volúpia que dominava seu ser por completo. Sentir o êxtase único de ser possuído por um homem, ainda mais esse homem sendo o grande amor de sua vida.
— Aaah... Camus... — Peixes grunhia enlouquecido, esfregando seu rosto ora nas costas, ora na lateral da face quente e já úmida de Aquário, enquanto seus corpos se chocavam ruidosamente — Aperta vai, aperta.
Obedecendo, Camus contraiu os músculos da pélvis e glúteos tornando a penetração mais dificultosa, e assim mais intensa, realizando os anseios voluptuosos do Santo de Peixes, que sentia um frenesi tresloucado lhe estremecer todo o corpo.
— Me fode Afrodite... aaah... — suplicou à beira de um colapso, e teve seu pedido atendido de pronto pelo pisciano que não lhe dava trégua.
Peixes distribuía mordidas e beijos pelas costas do francês, falava obscenidades, ouvia Camus dizer tantas outras, e prendia o ar concentrando-se para não sucumbir ao gozo ainda, pois queria mais, muito mais.
Queria aproveitar mais daquele corpo quente, daquela entrega plena do amado, daquele sexo magnifico e único com o homem que amava.
Em dado momento sentiu Camus contrair a musculatura das costas e fechar com força os dedos da mão, então seu pênis foi deliciosamente estrangulado com violência pelo corpo do aquariano, a ponto de não ser mais capaz de suportar.
Peixes entrou em êxtase ao se dar conta de que havia feito Aquário gozar sem nem ao menos ter tocado em seu pênis. Louco, segurou com força na cintura do companheiro e ergueu ligeiramente o tronco para poder estoca-lo com ainda mais força e velocidade, e enquanto Camus ainda experimentava os delirantes espasmos do gozo, aos urros e gemidos roucos Afrodite também se entregava ao prazer maior, ejaculando em abundância no interior do amado.
Trêmulo e febril o pisciano desabou novamente sobre as costas suadas do aquariano entre espasmos, suspiros e gemidos. O clímax intenso de ambos ainda os dominando completamente, ditando suas respirações ofegantes.
Após um tempo, Afrodite levou uma das mãos ao rosto do namorado e afastou os cabelos que lhe cobriam a face molhada em suor, revelando os olhos fechados e a boca entreaberta que arfava, agora em ritmo mais ameno. Beijou com ternura a bochecha de Camus, dando um sorriso genuíno de satisfação.
— Pronto. Você está curado. — disse o sueco quase num sussurro.
Ainda com as mãos atadas pelo cinto de seda e rendas, Aquário sorriu arquejante.
— Você ainda vai me causar um ataque cardíaco, Peixinho safado. — disse macilento, depois desamarrou ele mesmo as mãos com extrema facilidade, apenas as movendo — Meu coração non vai aguentar tanta...
— Emoção! Amor! Sexo! — interrompeu Peixes, e depois de outro beijo carinhoso, e de sair de dentro do amado com cuidado, levantou-se do sofá para ajuda-lo a se recompor.
— Também. — respondeu o aquariano, que com o auxílio do sueco levantava a calça e a cueca para se sentar no sofá. Não pode evitar uma careta ao fazê-lo — Argh... Para quem sempre achou que teria uma vida íntima e pessoal morna e sem fortes emoções, você tem sido uma bela experiência para eu ver que preciso procurar meu médico particular o quanto antes, ou non vou sobreviver ao fenômeno Afrodite de Peixes.
— Ah, que exagero, mon amour. — disse o sueco ajeitando a saia do vestido para depois sentar-se ao lado do francês e segurar em seu rosto com ambas as mãos — Amor demais não faz mal a ninguém, nem sexo demais. — beijou com paixão e volúpia os lábios do aquariano, que correspondeu com a mesma paixão e intensidade.
Após um tempo, e enquanto apartavam momentaneamente o beijo apenas para recuperar o fôlego, Afrodite olhou fixamente nos olhos de Camus chamando sua atenção.
— Mas, se quer um conselho, pare de fumar, Camy. — disse em tom sério — Um homem tão lindo, tão pai de família, e com um hábito tão horrível. É isso que está te fazendo mal... Larga já esse ebó*.
Camus ergueu uma das sobrancelhas e encarou Afrodite de volta.
— Antes fosse o cigarro, né Afrodite. Antes fosse. — resmungou assumindo um semblante sério e repreendedor — A nicotina me acalma. Tenho uma vida muito estressante, uma rotina tensa... e parte de toda essa tensão é culpa sua.
— Eu sei. — o sueco respondeu cabisbaixo, mas logo voltou a olhar para o namorado — E eu já disse que vou mudar.
— Quero só ver.
— Mas considere meu pedido. Larga esse chanã*, Camy. Mesmo sendo cavaleiros estamos suscetíveis a males bem humanos, e o que você teve hoje foi um piripaque bem humano. Não quero você doente por causa dessa bosta de chanã*! — disse. Pensava no que Mu havia lhe falado, sobre Camus correr o risco real de sofrer algum mal do coração — Depois, há diversas outras maneiras de relaxar.
— Hum... Vindo de você já imagino quais sejam. — disse Aquário puxando o pisciano para seus braços para encher o pescoço perfumado de beijos.
— Quer relaxar na banheira, Camy? Ainda temos algumas horas antes do Mu trazer o Hyoguinha de manhã. — gemeu remexendo-se todo nos braços do aquariano, mas súbito Camus parou os beijos e afastou-se para olhar no rosto do companheiro.
— Como sabe que Mu está com Hyoga e que vai trazê-lo de manhã? — perguntou surpreso o Santo de Aquário.
Afrodite arregalou os olhos assustado. Tinha falado mais do que deveria.
— Como eu... sei? — disse nervoso.
— É. Eu combinei isso com Mu antes de ele descer para Virgem horas atrás. Que ele traria Hyoga de manhã para mim. Como você sabe?
— Camy!... — disse tentando ganhar tempo até pensar numa saída para aquele ato falho — Dadá, não é óbvio? Eu... eu vi quando Mu pediu ao loirudo que ficasse com Hyoguinha e depois desceu com você para cá. Quando vim aqui te ver fui procurar Hyoga no quarto dele, por isso até estou vestido assim... Não o vendo aqui deduzi que ele ficou em Virgem... Depois, eles estão lá com um bebê, Camy. O loirudo é esperto, mas não entende nada de criança, então é de se supor que não vão dar conta de cuidar de duas crianças sozinhos por um dia inteiro. Depois, eu conheço o Mu, né. Sei que ele deve ter te prometido cuidar do Hyoga hoje para que você pudesse dormir tranquilo e que te traria ele amanhã bem cedo para que você não morra de saudades.
— Ah bom! Sim, é óbvio. Até porque non sei mais viver sem meu filho perto de mim. — disse Camus, depois voltou a beijar o pescoço do pisciano que suspirava de excitação e de alívio — E também sem meu Peixinho.
— Hum... E eu não sei viver sem vocês dois. — o sueco sorriu apaixonado, em seguida sentou-se no colo do francês e tomou novamente seus lábios num beijo tórrido —... Uhmm... Eu te quero, Camus... Eu te amo... Te amo... Vamos para a banheira?
— Oui... vamos para a banheira... mon amour... ma vie... ma belle rose! — respondeu entre beijos e arquejos o francês.
Levantaram unidos, corpos e bocas, e caminharam trôpegos entre beijos e carícias ousadas até o banheiro do Templo de Gelo.
Desfizeram-se das roupas na ânsia afã de se amarem outra vez, e assim o fizeram na banheira.
Antes do amanhecer Afrodite deixou a Décima Primeira Casa e regressou a seu Templo.
No fim tudo havia acabado bem, mas as palavras de Mu não saiam de sua cabeça.
Está certo que havia contribuído para o mal que Camus havia sofrido, e estava verdadeiramente preocupado com o amado.
Será que sua preocupação tinha, de fato, fundamento?
* traduzido do francês
Dicionário Afroditesco
Cagar no maiô— fazer uma grande besteira.
Ebó— coisa ruim; persona non grata; indesejável.
Truque— mentira, enganação; enrolação.
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