Templo das Bacantes Vol. 2
20 Uma lição sobre "anjinhos".
Notas iniciais

Templo de Virgem, 08:20am
O sol aconchegante do outono grego aquecia delicadamente o rosto angelical da criança, que no colo do Santo guardião daquele Templo olhava para seu rosto gentil como se estivesse sob alguma espécie de encantamento.
Shaka estava sentado na rede que ele mesmo havia instalado entre suas árvores gêmeas. Todas as manhãs era ali que Virgem servia ao filho a primeira refeição do dia.
Da cozinha, Mu os observava através de uma grande janela voltada para o jardim de Virgem, enquanto rodeava com as mãos uma caneca de chai quente na intenção de aquecê-las. Era uma cena linda aos olhos do lemuriano.
Envolto em uma manta de lã em tom carmim, Shaka aquecia Kiki com o Cosmo ao mesmo tempo em que conversava com o filho. Provavelmente lhe contava uma das tantas histórias de Siddhartha Gautama, o Buda, e Kiki mamava com os olhos abertos cravados no rosto do virginiano.
Através do elo lemuriano que possuía com o bebê, Mu já havia notado há um tempo que na verdade Kiki era completamente fascinado pela voz de Shaka, pelo tom firme e sereno, pela paz e segurança que ela lhe transmitia. Ouvir o pai indiano falar era como apreciar uma melodia. Somado à voz, os cabelos dourados do cavaleiro e sua aura única, extraordinariamente brilhante, e que irradiava um amor sem limites, aos olhinhos do bebê eram como bálsamo divino.
O Santo de Áries não perdeu tempo. Deixou a caneca sobre a pia e correu para dentro, até onde instalara seu escritório ali, e apanhou a máquina fotográfica. Tinha que registrar aquele momento.
Adentrou o jardim a passos silenciosos e bateu algumas fotos, recebendo um sorriso gentil do virginiano ao final da sessão.
— Você e essa sua câmera. — murmurou Virgem. Achava graça daquele hábito do marido.
— Se eu pudesse pararia o tempo exatamente agora, mas, como não posso ela faz isso por mim. — disse Mu referindo-se à câmera fotográfica.
— Entendo perfeitamente o que sente, mas a beleza da vida é que ela é mutável, e é através das mudanças que vivemos as emoções. — Shaka respondeu arrastando-se um pouco para o lado, cedendo lugar na rede para Mu — Venha, sente-se aqui conosco. Venha ver como nosso filho cresceu de ontem para hoje.
Nessa hora Kiki sentiu a aura do pai lemuriano e voltou os olhos sorridentes para ele. Balançou as perninhas, alegre e agitado, mas não largou a mamadeira nem por um momento.
— Você acha? — disse Mu ao ajeitar-se na rede passando um dos braços por trás dos ombros de Shaka enquanto olhava sorridente para Kiki.
— Sim. Olha como ele está grande! Logo vai falar e andar. — falou o loiro, convicto.
Mu caiu na risada.
— Ai, Sha, ele cresceu sim, mas até ele falar e andar vai levar um bom tempo. — ainda rindo deu um beijo na bochecha do virginiano, e colocando a câmera ao lado acariciou o cabelo do bebê — Não seja apressado, Luz da minha vida. Muvianos crescem mais devagar que os humanos. Você sabe disso, então não se iluda. Tudo tem sua hora certa, não é, filhote?
— Hum... Está duvidando das palavras de Shaka? Se amanhã ele olhar para você e falar, Shaka vai rir. Kiki pode ser um Muviano, mas quantos Muvianos você conhece que são nutridos diariamente pelos Cosmos de dois cavaleiros de Ouro? Hum?
— Bem... Pode ser que nossos Cosmos influenciem sim no desenvolvimento dele, mas antes de Kiki falar ele vai se comunicar naturalmente conosco por telepatia. A mente dele se desenvolverá mais rápido que o corpo. Eu já posso sentir suas emoções facilmente. Por exemplo, eu sei que ele é fascinado pela sua voz, e que adora a cor e o perfume do seu cabelo... assim como eu. — disse Áries encostando seu rosto ao de Virgem, então aspirou fundo o perfume dos fios dourados e lhe deu um beijo no pescoço.
Shaka retribuiu o carinho beijando a fronte do ariano, entre as duas pintinhas lemurianas.
— Sabe que essa ligação mental que desenvolveremos com ele nos será muito útil, né? Para quando não estivermos por perto! — disse Virgem.
— Epa, Shaka de Virgem! Não começa. — Mu o repreendeu.
— O quê? Vai dizer que não te preocupa como vai ser quando ele crescer? As companhias que irá arrumar?... Esse mundo é cheio de gente ruim e maldosa, de dores e de sofrimento...
De repente Shaka se calou, então baixou a cabeça e abrindo os olhos olhou para o bebê em seus braços que terminava de mamar tranquilamente.
Suspirou profundamente quando se deu conta de que com aquele pensamento estava reproduzindo a história de Siddartha Gautama, a mesma que contara tantas vezes a Kiki.
Os pais de Siddhartha criaram o filho literalmente sob uma redoma de proteção e amor. Encerrado em seu próprio castelo, o pequeno Buda fora privado do mundo real. Crescera e se tornara um homem sem ter nunca conhecido a pobreza, a doença, a tristeza e a morte. Porém, um dia, quando deixou o castelo escondido, a verdade lhe foi revelada e Siddhartha Gautama conheceu de uma só vez todas as dores e mazelas que regem o mundo, assim abdicou de todo o conforto e escolheu por compreender as causas do sofrimento e encontrar um caminho para elimina-las. Tornou-se Buda.
Pela primeira vez em sua breve vida na Terra, Shaka teve empatia pelo rei Suddhodana, pai de Siddhartha.
— Esqueça o que eu disse, Mu. — falou o virginiano, que agora acariciava os cabelos ruivos do pequeno lemuriano — Foi um devaneio tolo.
Áries sorriu.
— Não se culpe, Luz da minha vida. Eu entendo o que sente, acredite. Faria o mesmo se pudesse. O protegeria enquanto estivesse vivo, mas a vida de Kiki só a ele pertence... Quando ele estiver maior eu o ensinarei a controlar seu poder mental, a bloquear possíveis invasões de telepatas, da mesma maneira que ensinarei a jamais invadir a mente das pessoas, mas jamais poderemos invadir sua privacidade. Agora ele é bebê, devemos manter o elo sempre ativo, mas logo ele passará a controlar sozinho para poder se preservar também.
— Hum...
— Imagine que um dia ele passe por mim e me flagre pensando em como eu te desejo, ou como você me deixa excitado quando passa por mim exalando esse perfume delicioso de sândalo? Ou me pega pensando que tenho que comprar mais lubrificante?
— Buda! — Shaka encarou Mu com os olhos arregalados e balançou a cabeça de forma agitada.
— Pois é, seria terrível. Esse é um dos cuidados extras de que te falei sobre a educação lemuriana começar tão cedo.
— No que depender de mim, Kiki será a criança mais livre, feliz e amada desse planeta, Mu. Não é, meu anjinho? — Virgem sorriu para o bebê, que havia acabado de mamar — Toma, pega ele, Mu. Agora o resto da manhã ele é todo seu. Eu vou começar a preparar o almoço já que temos uma convidada hoje. Uma não, né. Três convidados!
— Ouviu isso, filhote? Temos a manhã inteira só para nós! — disse Áries pegando o filho no colo para coloca-lo para arrotar — Hum... o que vamos fazer de bom sem o Bába? Já sei! Vamos sair para tomar umas cervejas, comer umas carnes na brasa, usar uns entorpecentes e sair na chuva sem levar guarda-chuva! Vai ser muito irado, não é meu filhote? — Mu dizia balançando o filho que ria em resposta.
— Como você é besta. — disse Shaka aos risos, e antes de se levantar da rede beijou ternamente os lábios do ariano — Mas Shaka te ama mesmo assim.
Enquanto Virgem caminhava para dentro do Templo, Áries o acompanhava com o olhar tendo uma vivencia do passado.
Quando pequeno seu mestre, Shion, lhe dissera que tinha visto seu futuro, e que em suas visões havia alguém destinado a ele, mas nunca, nem em seus mais utópicos sonhos, Mu imaginou que essa pessoa seria Shaka, e que seria tão feliz ao lado dele.
O virginiano, por traz de toda aquela máscara de rabugice e arrogância, era um marido maravilhoso, e agora um pai dedicado e amoroso. Mu não poderia estar mais apaixonado por sua família.
Abraçado ao filho o lemuriano só desejava que realmente o tempo parasse ali, naquela manhã, pois sua vida estava completa e perfeita.
***
Poucas horas mais tarde.
— Ah, estava maravilhoso! Tudo muito gostoso! Nem acredito que coube tudo no meu estômago. — disse Geisty ao jogar as costas para trás recostando no encosto da cadeira de madeira enquanto massageava o estômago visivelmente estufado.
Ao lado da amazona, Mu retirava os pratos e os copos para leva-los até a pia ao mesmo tempo em que balançava o carrinho de bebê onde Kiki permanecia deitado, com o uso de telecinese, já que o único modo de evitar que o pequenino lemuriano abrisse o berreiro era mantê-lo no colo ou em constante movimento.
Naquele dia Shaka havia preparado uma refeição caprichada para receber a ilustre convidada para o almoço. Um saboroso prato vegetariano típico da região de Punjab, na Índia, que levava espinafre, queijo caseiro e arroz cozido com nozes, e um curry de peixe ao molho de óleo de coco, já que a condição da visitante exigia alimentos ricos em proteínas e ômega 3.
— Já encheu? Mas, tão rápido! — respondeu o ariano com um sorriso ao voltar à mesa trazendo três pratos de sobremesa — Você não é de nada mesmo heim, Geisty. Vai perder o melhor do almoço... A sobremesa!
Geisty arregalou os olhos, séria.
— Sobremesa?
— Sim. Hoje é o que mesmo, Luz da minha vida? — perguntou Mu ao puxar a cadeira para voltar a se sentar enquanto esticava o pescoço para olhar para Shaka que voltava da geladeira trazendo a sobremesa.
— Pudim de leite com calda de caramelo. — respondeu o virginiano ao depositar uma bandeja de porcelana inglesa ao centro da mesa com o suculento doce que mais parecia uma obra de arte.
Os olhos violetas da amazona brilharam instantaneamente na presença majestosa do doce.
— Humm! Que delícia! — Mu lambeu os lábios já apanhando um dos pratinhos que trouxera — Minha sobremesa preferida!
— O quê? Pudim! — a amazona se ajeitou na cadeira em sobressalto, sem nem piscar, vidrada na iguaria na bandeja — Pela deusa, Shaka! Pudim é meu doce preferido!
— Ora, então eu acertei! — disse o virginiano também apanhando um prato — Uma pena que você já esteja satisfeita, porque eu caprichei nesse aqui.
— Não... — protestou a amazona, mas antes que pudesse dizer algo Mu tomou novamente a frente.
— Ah, mas não tem problema, Luz da minha vida. Eu como a parte dela, não seja por isso.
— Não... — uma nova tentativa de Geisty, e dessa vez foi Shaka quem a interrompeu.
— Tudo bem, mas considerarei uma desfeita.
— Ma che! Pare com isso vocês dois! — disse Geisty quase aos berros — Não vai dar nada meu, não. Eu vou comer! — apanhou o prato com o doce das mãos de Virgem, que de olhos fechados como de costume sorria de sua afobação — Vou comer sim senhor! Pode dar o meu pudim que ainda tenho espaço. Sem contar que tenho mais dois estômagos reservas aqui comigo... Hum, os bebês me ajudam!
Mu era outro que se fartava da sobremesa caramelada ao mesmo tempo que ria da amiga, a qual comia de olhos fechadas suspirando de satisfação a cada colherada.
— Que delícia! Pela Deusa! Esse é o pudim mais gostoso que já comi na vida! — mais uma colherada generosa — Hummm... Benditas sejam essas mãos, Shaka! Que Buda as conserve!... Que divino!... Humm Eu poderia me alimentar só disso pelo resto da minha vida.
— Epa! — disse Áries — Já não basta afanar os meus lanches que eu levo para o trabalho, você agora quer se esbaldar dos meus pudins? Olha lá, heim. Não era você que dizia que não queria engordar? — o lemuriano jogava com o fraco da amiga por doces.
— Eu não vou engordar. — respondeu a amazona com a boca cheia e um sorriso palerma no rosto — Esse pudim está indo direto para os meus bebês.
— Você é muito bem vinda em minha casa, Geisty. — disse Shaka levantando-se e retirando-se da mesa para ir pegar Kiki no carrinho de bebê que mexia bracinhos e perninhas de forma frenética enquanto emitia pequenos grunhidos — Venha sempre que quiser. Ou quando tiver vontade de comer pudim. — sorriu de forma gentil, porém contida, depois desafivelou o cinto de segurança que mantinha o bebê protegido e o pegou no colo — Agora que já estão devidamente alimentados, é hora de alimentar essa pequena draga aqui. Bába já sabe o que o Kiki quer, não é, meu filho? O Bába vai preparar o seu tetê, mas hoje é a tia Geisty quem vai te alimentar.
Surpresa, e um tanto quanto nervosa, Geisty olhou para o indiano com os olhos arregalados. Enfiou na boca a última colherada de pudim e o engoliu apressadamente para abandonar o pratinho vazio sobre a mesa.
— Olha Mu... Olha bem que perigo essa proposta do senhor seu marido! — a amazona soltou uma risada sonora encarando a face gentil do lemuriano.
— Mas, não é por isso que está aqui? Ou achou que vinha só comer a comida boa do Shaka? — disse o ariano — Está aqui para que possa ir se familiarizando com os cuidados de um bebê.
— Sim, até porque se um só já dá o maior trabalho, imagine dois! — falou Shaka.
— Nem me lembre disso! Já fico toda insegura. — a amazona exclamou enquanto se levantava da cadeira e caminhava até Virgem ansiosa, parando a poucos centímetros para olhar para o rostinho do bebê que se agitava — Essa coisa fofa deve estar doida para mamar, não é?
— Ah, ele está sempre doido para mamar. — Mu respondeu sorridente.
— Exato. Então não vamos mais deixa-lo esperando tanto, não é, meu anjinho? Vai com a tia Geisty que o Bába vai preparar o seu tetê. — disse Shaka ao passar o bebê para a amazona, que surpreendendo a todos estancou com a ação arregalando os olhos em sobressalto.
— É... opa calma! Vamos devagar, Shaka. Uma coisa de cada vez, Dio Santo! Eu nunca peguei um bebê tão novinho assim no colo antes! — disse ela, visivelmente nervosa, enquanto um Kiki todo risonho já olhava para ela percebendo ser o centro das atenções.
— Você nunca pegou um bebê no colo? — perguntou Mu, enquanto Shaka sacudia o pequeno lemuriano agitado em seu colo, pois o ruivinho já esticava desengonçados os bracinhos na direção na amazona.
— É... Não! Não costumam aparecer muitos bebês aqui no Santuário, né Mu. Ainda mais tão pequenininhos assim. Kiki é o primeiro que eu vejo assim de pertinho. — argumentou de pronto a jovem.
— Ora, para tudo nessa vida há uma primeira vez, Geisty. — disse Shaka com voz calma e semblante sereno — Há poucos dias eu também nunca havia pegado um bebê no colo. Hoje ele depende totalmente de mim e não posso me sentir inseguro.
— Estamos aqui para te ajudar, minha amiga. Não precisa ter receio. — falou o lemuriano pousando gentilmente a mão sobre o ombro da amazona.
Geisty respirou fundo, resignada.
— Vocês têm razão. — disse ela, depois prendeu os longos cabelos negros em um coque desengonçado, sentindo as maças do rosto arderem em rubor — Afinal, logo terei que segurar dois de uma vez, não é? Vamos lá.
Percebendo a agitação na aura da amiga, Mu não conseguiu segurar uma risada espontânea.
— Bom, o que não vai faltar para você até os seus nascerem é treino, já que temos uma ótima cobaia aqui, não é mesmo, minha luzinha? — disse Áries enquanto fazia um carinho nos cabelinhos ruivos do filho, que desde que Geisty chegara em Virgem havia ficado todo animado devido à aura agitada e presença alegre da amazona, bem diferente das auras serenas dos pais.
— Toma. — Shaka acercou-se mais dela lhe estendendo o filho enquanto a instruía — Com essa mão você apoia a cabeça dele, assim, e com a outra o bumbum.
— Zeus! — Geisty resmungou, num misto de nervosismo e alegria, enquanto Kiki dava risinhos e agitava as perninhas — Assim?
— Isso. Assim mesmo... Estranho. Ele não costuma ser tão agitado assim... Segure firme. — salientou Shaka.
— Ele está reagindo à aura dela, Shaka. — disse Mu, tão admirado quanto surpreso.
Kiki imediatamente voltou os olhões lilases para a amazona, concentrado, então abriu um sorriso banguela e soltou outro gritinho alegre.
Já vendo a amiga segurar o filho, sorridente o pai lemuriano comemorava.
— Viu! Não falei que é fácil!
— Pela deusa! Ele... ele é mole! Madonna mia, pega ele de volta, Shaka. Ele vai escorregar, ele é molinho. Que nervoso, eu vou deixar ele cair! — exasperada e com os olhos arregalados, Geisty sentia o rosto arder mais ainda em nervosismo tendo como resposta a gargalhada descontraída de Mu.
— Pelos deuses, Geisty! Você não vai deixa-lo cair. Fique calma, mulher! — tranquilizou Mu.
— Você sabe dominar o Cosmo. É uma amazona poderosa, e não vai conseguir segurar um bebê? — falou Shaka — Onde está sua confiança, amazona?
— Hera... me ajude! É mais fácil quebrar pedras com as unhas do que segurar esse neném... Mu, segura ele de volta, ele está se mexendo... Ele vai cair... — Geisty falava aflita, e percebendo sua agitação Kiki se divertia balançando os bracinhos de forma enérgica, até que, de repente, e instintivamente, enfiou o rostinho no colo da amazona, entre os seios fartos, indicando que queria mamar. Talvez o sutil traço de leite materno despertou no pequeno essa antiga lembrança.
— Eu vou fazer a mamadeira. — disse Shaka percebendo a tentativa do filho, então imediatamente deu as costas a eles e foi preparar o leite.
— Pode respirar, Geisty. — disse entre risadas o lemuriano — Ele adorou você.
Sem perder o receio nos olhos, porém mais calma, a amazona sorriu.
— Eu não, vai que ele escorrega?
— Deixa de ser boba.
— Ele é... tão lindo, Mu. — ela disse dando uma risada divertida, a qual não passou despercebida pelo pequeno lemuriano que se remexeu em seu colo em resposta — Está vendo? Não posso dar bobeira, ele está se mexendo muito, quer pular do meu colo!
— Ele está sentindo sua aura, que é muito diferente da minha e da de Shaka. Parece que Kiki encontrou alguém tão expansivo quanto ele. — Mu riu da constatação, pois era a primeira vez que via o filho reagir de forma tão energica a alguém.
Logo Shaka voltou com a mamadeira e os quatro caminharam até a sala.
Agora sentada confortavelmente no sofá, apoiada por almofadas e supervisionada pelos dois papais corujas, Geisty alimentava Kiki sem conseguir tirar os olhos daquele pequenino ser que sorvia ávido o leite da mamadeira enquanto delineava o rosto da amazona com os olhões lilases analíticos que captavam muito mais do que apenas a expressão admirada a qual lhe era devolvida.
Kiki podia sentir emanar da jovem italiana a emoção de vivenciar pela primeira vez aquele momento tão sublime e delicado, um momento que calava todos os problemas do mundo ao seu redor e fazia seu coração bater calmo, em um ritmo quase melodioso, enquanto recebia de volta o sorriso satisfeito do bebê quando este vez ou outra soltava o bico da mamadeira.
Geisty nunca imaginara em toda a vida ser tocada por aquele sentimento de paz, justo ela, uma ariana agitada, encontrar a calmaria por meio da fragilidade de um bebê.
E como era gostoso experimentar aquele sentimento! Se pegou pensando em como seria bom quando estivesse com seus bebês nos braços compartilhando daquele mesmo sentimento tão puro.
Esquecendo-se totalmente do medo anterior de ter o corpinho frágil do pequeno lemuriano em seus braços ainda amadores, Geisty o aconchegou junto a si e lhe deu um beijinho na testa branquinha, aspirando fundo o cheirinho gostoso que só a pele de um bebê exalava.
Foi o toque gentil de Mu que a trouxe de volta à realidade.
— Geisty, ele agora precisa arrotar.
— Ah, Sim! Sim! Me distraí... É tão gostosinho o cheirinho de bebê... — falou com voz e semblante alegres.
— Sim, é muito bom. Em breve você vai sentir o cheirinho dos seus também e vai ver o quão bom é ter esses pedacinhos de gente o tempo todo junto de você. Não vai mais querer saber de desgrudar deles. — falou o lemuriano.
A amazona respondeu apenas com um sorriso sonhador, para depois se voltar meio que confusa para o bebê em seus braços que se remexia e ria agitado.
— Mu, eu não sei direito como coloca-lo para arrotar. Me dá um ajudinha aqui.
— Claro! Esse passo te exige calma, porque depois que ele mama o leite aí dentro passa a ser um material delicado. — brincou o Santo de Áries enquanto se acercava da amazona sentando-se no sofá a seu lado — Não pode sacudir muito o bebê, ou vai tomar um banho indesejado.
— Ai, pela deusa, Mu, me ajuda!
— Coloque ele de pé no seu colo, apoie a cabeça dele aqui no seu ombro... — dizia Áries enquanto a auxiliava no posicionamento do bebê.
— Ahhh, assim?
— Isso. Ai você dá uns tapinhas de leve em suas costas até ele arrotar.
— Assim? — ela executava conforme as instruções do amigo.
— Isso mesmo. É só esperar que às vezes demora um pouco.
O ariano nem bem conseguiu concluir a frase que logo Kiki o interrompia com um sonoro arroto.
— Caramba! Isso é normal? — disse a amazona envergando-se toda para olhar para o rosto do bebê que se agitava mexendo as perninhas, animado — Que arrotão para um pedacinho de gente, heim! — exclamou aos risos.
— Que tetê bom, heim Kiki! — Mu ria acompanhando a amiga — Tia Geisty não perde por esperar. Está pronta para a próxima lição? — perguntou o ariano com uma risada gostosa, enquanto a amazona já o encarava preocupada.
— Próxima lição? — ela perguntou preocupada.
De pé ao lado deles Shaka observava a tudo calado, mas ao ouvir aquilo não pôde conter um riso tímido que se formara nos cantos de seus lábios.
— Sim, a próxima lição, já que tudo que entra sai! — falou Mu, divertindo-se com a cara de espanto da amiga — Não está percebendo nada não?
Ao olhar para o bebê, Geisty notou que ele franzia testa e abria a boquinha em um claro sinal de que fazia esforço.
— Oh, não me diga que... — começou Geisty a dizer.
Mas Shaka a interrompeu.
— Buda como eu detesto essa parte! — murmurou o virginiano.
— Ele precisa trocar a fralda. Na verdade, se tem uma coisa que Kiki faz bem é sujar fraldas. — Mu respondeu franzindo o nariz pelo cheiro ruim que já impregnava o ambiente — Quando é apenas xixi e a fralda não está muito cheia até dá pra adiar a troca, mas nesses casos de tragédia ambiental... Bem, é melhor trocar logo ou ele ficará assado.
Geisty franziu o nariz só de imaginar o estrago que ocorria dentro daquela fralda, ao mesmo tempo fazia um malabarismo para segurar o bebê sem apertar a área agora recheada de perigo.
— Já que não tem jeito, vamos logo com isso, né? É para que lado o banheiro? — disse a amazona já se levantando do sofá.
— Não, banheiro não, Geisty, vamos para o quartinho dele. Banho é só em casos de grandes catástrofes da natureza. — brincou o ariano já conduzindo a amiga pela casa até o quarto de Kiki.
Shaka vinha logo atrás tapando o nariz com uma das mãos. No caminho acendeu um incenso no corredor, entre a sala e os quartos.
***
Já no quarto do bebê, Mu posicionava Kiki, que se mexia alegre e nem um pouco disposto a colaborar, sobre o trocador.
— Então vamos lá. Primeiro você precisa tirar a roupinha com cuidado. — disse o lemuriano começando a desabotoar o macacãozinho do filho — Shii, calma filhote... O que você tem hoje, heim?
Um tanto quanto surpreso Shaka acompanhava a dificuldade do ariano em executar uma manobra que ele fazia com facilidade todos os dias. Kiki mexia as perninhas e os bracinhos, dava risada, gritinhos, completamente eufórico.
— Filhote, deixa o papai abrir os botões! — dizia Mu tentando acalma-lo.
— Bem, ele não costuma ser tão... inquieto... Kiki é um anjinho. — Shaka franziu a testa e coçou levemente o queixo, enquanto observava Mu agora todo atrapalhado para retirar o macacão e começar a lidar com a fralda.
Geisty, que podia até ser amadora quando o assunto era maternidade, já havia percebido que de anjinho aquele pequeno lemuriano não tinha era nada. Toda a disciplina e candura que Shaka se gabava estava presente somente a seus olhos. A amazona sabia muito bem distinguir uma criança arteira de uma criança calma, e estava mais que óbvio que Kiki pertencia ao time dos pestinhas. O pequeno ruivinho enganara aos pais direitinho.
— Hum... Sei. É um anjinho! — comentou a morena em uma constatação irônica.
Assim que a fralda foi aberta uma clara visão da situação desastrosa pode ser vista e sentida no ar.
— Argh! – Geisty fez uma careta que era um misto de nojo com susto.
— Minha nossa, ele caprichou! — Mu disse fazendo uma careta enquanto segurava as duas pernas do bebê no ar com uma das mãos — Geisty, em casos assim você usa a própria fralda para retirar o excesso, e mantendo as perninhas no ar você limpa o bumbum com o lenço. — narrava conforme executava a ação, o que não estava sendo nada fácil, dada a agitação da criança — Ei, ei filhote, calma! Não rola não! O papai já vai pôr a fralda nova.
Ainda que assustada com o estrago que o bebê fizera na fralda Geisty não podia evitar rir do sufoco que Mu passava para resolver a situação.
Com muito custo Áries conseguiu limpar o filho e colocar uma fralda limpa em baixo dele antes que novamente rolasse para o lado fazendo gracinhas.
— Agora vai! — disse o ariano cantando vitória.
— Está vendo, Geisty? Mesmo que a criança esteja um pouco inquieta, lembre-se de que quem tem o controle da situação é sempre você e...
Novamente o cavaleiro de Virgem interrompeu-se. Porém, dessa vez porque sua voz ficara muda diante do que seus olhos, bem abertos, viam.
Súbito o rostinho traquinas de Kiki corou e ele abriu um largo sorriso enquanto, pegando o pai lemuriano desprevenido, o atingia em cheio no peito com um jato certeiro, forte e generoso, de xixi.
— EPA! Eeeeei! — Mu gritou apressado em subir a fralda para estancar aquele ataque surpresa, enquanto Kiki soltava grunhidos alegres batendo as pernas e os bracinhos no trocador.
— Por Buda! — exclamou um Shaka completamente atônito, que agindo por instinto correu até o companheiro para ajuda-lo — Não acredito que ele fez isso de novo! O que deu nesse menino? Shaka percebeu que ele estava inquieto!
Geisty assistia à cena aos risos, ao mesmo tempo divertida com a traquinagem do ruivinho e inconformada com a cegueira do virginiano – “Pela sabedoria da deusa, não é possível que o Shaka ache esse menino só um pouco inquieto!” — pensava ela rindo.
Risonho o pequeno Kiki dava gritinhos travessos, estimulado pelas auras agitadas dos pais e da amazona.
— Filhotinho! Não pode fazer xixi no pai! — Mu falava com certa indignação, mas ainda assim com um riso nos lábios, afinal ele sabia o quanto o filho era travesso, ao contrário de Shaka, que se mantinha iludido.
— Foi um acidente, Mu. — disse o indiano ajudando o companheiro a se limpar — Acontece, mesmo com bebês angelicais como o meu Kiki. Não deu para segurar, né filho?
“Ah-hãm. Angelical... Pobre alma ingênua!” — ironizou mentalmente Geisty, não deixando de desejar também para si aquela alegria que em breve chegaria.
Sem mais delongas, mas ainda com dificuldades, Mu rapidamente terminou a troca de fraldas e sentenciou a amazona. Ela estava incumbida de fazer a próxima troca, sozinha, que não demorou nada.
Poucas horas depois lá estavam eles novamente no trocador. Bebê risonho, amazona atrapalhada, pais observadores.
Geisty até que se saiu bem, mas enquanto aplicava o talco no bebê este a surpreendeu com uma nuvem de talco direta em seu rosto ao soltar um pum certeiro.
Para a amazona e o lemuriano estava mais que claro que Kiki troçava deles, mas para o Santo de Virgem o pequeno continuava sendo um anjinho, só agindo conforme os adultos o incitavam.
Kiki estava radiante naquele dia. Sua natureza agitada casara perfeitamente com a da amazona, igualmente intensa.
Percebendo a chance de criar um vínculo entre eles e também de descansar um pouco, Mu deixou o filho a encargo da amiga e junto com Shaka aproveitou para tirar o atraso dos afazeres domésticos.
Assim a tarde correu tranquila e ligeira.
Quando o relógio marcou por volta das cinco da tarde, Saga de Gêmeos desceu até o Sexto Templo atrás da noiva que havia ficado a tarde toda fora. Anunciou-se na entrada e ao ter a permissão do guardião adentrou o recinto caminhando a passos ágeis até a parte residencial.
Assim que chegou à sala Saga se deparou com um cenário no mínimo inusitado.
Shaka e Mu tomavam um chai tranquilamente sentados em duas cadeiras de madeira entalhada com arabescos próximas à janela, enquanto Geisty dormia no sofá abraçada a Kiki, que ressoava ruidosamente.
— Boa tarde, cavaleiros. — disse o geminiano em baixo tom para não acordar a noiva e o bebê.
— Boa tarde, Saga. Nos acompanha no chai? — respondeu gentilmente Mu abrindo um sorriso.
— Devo avisar que não contêm álcool. — disse Shaka, que não podia deixar de alfinetar ao Patriarca.
— Shaka! — cochichou Mu, repreendendo o marido.
— Eu não bebo mais, Virgem. — Gêmeos encarou o indiano com um olhar debochado.
Antes que começassem a se alfinetar deveras, Mu levantou-se da cadeira e andou até o grego, no percurso olhou para a amazona dormindo no sofá com o filho e sorriu.
— Ela passou o dia muito bem. Brincou tanto com Kiki que os dois não aguentaram e apagaram, exaustos. Fiquei com pena de acorda-la. Parece estar tão feliz com ele no colo que optamos por deixa-los curtirem esse momento. — falou o ariano.
— É, pelo visto brincaram bastante mesmo. A tarde então foi bem proveitosa, para ambos. — Saga sorriu amistosamente, admirando a expressão serena dos dois adormecidos.
— Sim, foi sim. — disse Shaka aproximando-se dos dois cavaleiros — Será bom para ela vir mais vezes. Se familiarizar com a rotina de um bebê, passar horas tranquilas, sair um pouco daquele círculo corrupto e de depravação no qual você a inseriu. Na condição dela ela precisa de paz e tranquilidade.
Mu soltou um suspiro longo e fechou os olhos. Parecia que era impossível para seu marido esquecer as mágoas do passado e ficar um único dia sem provocar o cavaleiro de Gêmeos. Se continuassem assim, a convivência se tornaria insuportável. Aqueles dois precisavam resolver urgentemente as pendências que ainda carregavam.
— Já entendi, Virgem. — Saga estreitou os olhos — Obrigado por receber minha noiva aqui. Fará bem para ela se distrair com Kiki, assim ela fica mais alegre e não pensa tanto nos nossos problemas. Entendeu, Virgem? Nossos problemas.
— Hum. — fez Shaka ao dar de ombros.
— Não precisa agradecer, Saga. — disse Mu — Geisty é minha amiga. Farei tudo que tiver ao meu alcance por ela.
— Eu sei, Mu. — respondeu o geminiano com um sorriso ameno no rosto abatido pelo cansaço de um dia agitado — Bem, infelizmente vou precisar interromper o sono da futura mamãe. Nosso dia ainda não terminou. Temos mais um expediente a cumprir. — concluiu com leve pesar, referindo-se à obrigação com o bordel. Teria que descer ao Templo das Bacantes junto de Geisty e passar boa parte da madrugada circulando pelo salão, mantendo o disfarce.
— Eu ajudo você.
O ariano tomou a dianteira e foi apanhar o bebê em sono profundo do colo da amiga com o cuidado de não acordar a ambos. Enquanto o fazia o Santo de Gêmeos acompanhava toda a ação com uma sensação de alegria e augúrio, e sem que percebesse Saga já se aproximava de Kiki para observa-lo, encantado, dormir nos braços do pai.
— Ele é lindo, não é mesmo? — disse Mu todo orgulhoso.
— Sim. Ele é muito lindo. — respondeu Saga em voz baixa — E em breve terá companhia. Vocês foram muito abençoados, e essa criança também. Que ela cresça feliz e saudável... E que seja bem arteira para que se cumpra o Karma. — virou ligeiramente a cabeça na direção de Shaka para encara-lo no rosto, que agora exprimia um semblante de surpresa.
— Como é que é? — disse o Santo de Virgem, indignado.
Saga então caiu na risada.
— Ora, o Karma! Você entende disso muito mais que eu, Virgem. Você me deu muito trabalho quando criança, agora é sua vez de ter o juízo também abalado. — descaradamente deu dois tapinhas no ombro do indiano, arrancando um riso de Mu — Agora vocês me deem licença que preciso levar essa amazona aspirante à babá comigo.
— Sacripanta! — ralhou o cavaleiro de Virgem, mas nem rebateu o que dissera o geminiano, pois ele melhor que ninguém tinha que reconhecer razão em suas palavras. Sabia que não tinha sido uma criança fácil, mas Kiki estava longe de ser a peste que fora em infância.
Gêmeos se inclinou ao lado da amada e depositou um beijo em seus lábios na intenção de despertá-la, porém Geisty estava em sono profundo, exausta pelo dia cheio que tivera.
Compadecido, Saga com cuidado a tomou, em seus braços, despediu-se dos irmãos de armas e deixou o Templo de Virgem seguindo para a Casa de Gêmeos onde descansaria um pouco até dar a hora de descer ao Templo de Baco.
Em breve o expediente no Templo das Bacantes se iniciaria, mas antes iria usufruir de um merecido cochilo ao lado da amada, que quando acordasse iria soterrá-lo de novidades a cerca de seu dia mágico na companhia do agitado Kiki.
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