Templo das Bacantes Vol. 2
47 Lágrimas de despedida.
Notas iniciais

Rússia, Moscou – 04:00pm — Cemitério Vagankovskoie
A cinco minutos de metrô do centro ficava um dos mais imponentes cemitérios da capital russa. Fundado em 1770, aos poucos foi se tornando um local proeminente para o repouso final de renomados artistas russos, atores e também boêmios. Muitas lápides que estavam ali eram obras de arte primorosas, sendo que mais de 250 listadas como patrimônio cultural. Enterrados naquele solo precioso estavam as lápides da tradicionalíssima família Levenson, também os túmulos do conceituado arquiteto Fiódr Chekhtel e sua família, do pintor Vassíli Surikov, do bardo Vladímir Visótski e do poeta Serguêi Iessiênin.
Não à toa que nos dias atuais um pedaço de terra ali custava tanto quanto um apartamento inteiro na capital. Por isso mesmo aquele fora o local escolhido, ainda em vida, por Dimitri Yurievich Volkov, o pai da Vory v ZaKone, como sua derradeira morada e também de sua família mais íntima. Ali já estavam seu amado irmão, Yuri Yurievich Volkov, seu único filho e agora seria sua vez.
A suntuosa lápide de Dimitri fora encomendada a seu pedido há muitos anos, já que como criminoso e líder de uma máfia que ostentava o mesmo número de aliados quanto de inimigos, seu futuro era inserto. Nos melhores moldes da máfia russa, que gostava de ostentar na morte todo poderio que tinham em vida, seu local de descanso final exibia uma escultura em tamanho real de si mesmo feita em mármore puro. Nela ele estava sentado em um trono suntuoso apoiando sua bengala com cabeça de urso no chão.
Ao redor do majestoso jazigo uma pequena multidão trajando negro da cabeça aos pés ouvia as palavras finais do sacerdote ortodoxo que realizava o funeral. Estavam presentes várias pessoas da alta sociedade russa, empresários e políticos ligados à máfia, mas principalmente toda a elite da Vory v ZaKone, entre eles os membros mais fiéis e poderosos do mundo do crime russo. Todos prestando luto ao que fora o pai de todos eles.
Até por conta da importância dos membros presentes naquele funeral, um intenso sistema de segurança fora armado, e este incluía até alguns membros corruptos da polícia que faziam ronda e garantiam a segurança dos presentes.
E, sem dúvida alguma, o homem mais protegido por essa força tarefa era Camus, mesmo que muitos ali ignorassem completamente o fato de que o francês não precisava de segurança civil alguma, já que Aquário prezava por manter o fato de ser cavaleiro e possuir dons especiais sob sigilo. Somente seus homens mais fiéis e próximos a si sabiam desse detalhe. Detalhe este que Dimitri também ocultava da organização por medo de represália de outras células da máfia, principalmente as que sempre discordaram de Camus, sendo estrangeiro, ser aceito na “família” por Dimitri e ocupar um cargo de alta confiança.
Trajado com um terno todo preto, com direito a óculos escuros, sobretudo e luvas de couro, o ruivo segurava em seu colo o filho pequeno, que também usava um terninho preto todo sóbrio e que, agarrado a seu pescoço, soltava alguns soluços entristecido.
Hyoga não entendia bem o que acontecia ali, apenas sabia que seu padrinho havia falecido e isso o deixava muito triste, sobretudo porque o funeral lhe fazia lembrar do da própria mãe. O pequeno sofria sem saber ao certo se chorava pelo falecido padrinho ou de saudades de Natássia.
Ao redor dos dois, estrategicamente posicionados e também trajando ternos pretos, estavam os cinco homens de maior confiança de Camus. Andreas, seu braço direito, Josef, Victor, Miroslav e Chesla, que armados faziam a proteção pessoal do agora novo pai da Vory V ZaKone, o novo Vor e líder soberano dos criminosos da mãe Rússia.
Aquele era um acontecimento como poucos, portanto todo o cuidado era pouco. Estavam enterrando o antigo Vor e o atual não estava totalmente seguro, já que a transição se dera de forma abrupta e Camus ainda não possuía o apoio nem a aprovação de todos os membros.
A troca de líderes dentro da Vory v Zakone nunca fora algo descomplicado, por isso um Vor costumava ficar no poder até morrer de velhice, caso contrário somente deixaria o posto se fosse assassinado ou sofresse algum golpe. Um Vor não se fazia somente por herança de sangue ou indicações, mas por poder e merecimento. No entanto um fator colocava a todos no mesmo nível de merecimento: um Vor deveria ser sempre um filho legítimo da Rússia! Por esse motivo, muitos desaprovavam a ascensão de Camus, um estrangeiro, um francês, como Vor máximo, ainda que esta fosse a vontade de Dimitri quando ele mesmo tatuou as rosas dos ventos no peito do aquariano, o aclamando seu sucessor.
Quando Camus chegou à Rússia ainda pela manhã carregando o corpo de Dimitri nos braços, foi um choque terrível para os membros da Vory.
O aquariano então havia convocado uma reunião de extrema urgência com a elite da máfia: os principais figurões de todas as células, alguns chefes de outras facções aliadas e políticos e empresários corruptos ligados diretamente a Dimitri. Foi com uma interpretação digna de Oscar, com direito a olhos marejados e voz embargada, dissimulando o mais puro pesar, que o ruivo lhes deu a notícia de que seu amado pai, líder e Vor, Dimitri Yurievich Volkov, estava morto.
Diante dos olhares ainda perplexos, tanto devido à informação quanto pela visão do próprio Camus a derramar lágrimas copiosas, afinal o francês era conhecido por sua extrema frieza e crueldade, o aquariano com as mãos trêmulas revelou o corpo sem vida do idolatrado Vor.
Uma cena grotesca e estarrecedora mesmo para aqueles que tanto estavam acostumados com a violência a permear suas vidas, pois o defunto estava praticamente decapitado. Com a voz embargada e carregada de falsa revolta e ira, o ruivo culpou a covardia dos albaneses, arqui-inimigos da Vory, que haviam emboscado Dimitri, o torturado e por fim matado a golpes violentos na cabeça até não sobrar quase nada. O álibi perfeito.
O Caos foi instaurado. Os ânimos se elevaram e a revolta tomou os presentes que clamaram por justiça, mas com pulso firme e o apoio dos membros mais fiéis Camus controlou a situação e conseguiu acalmar os ânimos mais exaltados, então finalmente anunciou que diante da morte trágica de seu amado pai, agora ele, por direto e desejo de Dimitri que abertamente o tratava como a um filho e inúmeras vezes declara publicamente o desejo de que ele fosse seu sucessor, era o novo líder da Vory V ZaKone, a maior e mais poderosa organização criminosa do mundo, a soberana da Rússia.
A notícia não agradou em nada os membros mais enraizados e conservadores, como o ruivo já esperava. Porém, naquele momento nada puderam fazer.
Além disso, Camus tinha conquistado a confiança e a lealdade dos membros mais jovens, e se os veteranos se opusessem a ele e tentassem impedi-lo de tomar o lugar de Vor ou mesmo tirá-lo do poder, tal ato poderia gerar desconfianças e até ser interpretado como traição e levante, resultando em uma guerra interna. Somado a isso, em seu discurso inflamado de posse Camus jurou vingar a morte de Dimitri tornando ainda mais rigorosa as relações com a máfia albanesa.
Mesmo depois e juras e mais juras da parte do aquariano, o clima ainda era tenso e perigoso. A estabilidade da máfia estava por um fio, e o momento extremamente propenso a possíveis ataques inimigos ou rebeliões internas.
Era justamente por isso que o funeral de Dimitri Yurievich Volkov mais parecia uma operação militar, uma movimentação digna da proteção de um chefe de nação, devido ao inúmero contingente armado que cercava e protegia Camus, Hyoga e Svetlana, a viúva chorosa que ao lado do novo Vor tinha o rosto cansado coberto por um véu negro. Era papel do ruivo como herdeiro e “filho” do falecido dar apoio e ficar ao lado da esposa de Dimitri, por isso o aquariano permanecia firme como uma estátua ao lado dela, e enquanto segurando o filho firmemente em um braço a consolava com o outro.
A viúva, que tinha muitos anos a menos que o falecido, mas que ainda era bem mais velha do que o ruivo, chorava ruidosamente murmurando palavras incompreensíveis, enquanto vez ou outra Camus a tranquilizava lhe assegurando que tudo ficaria bem, que ele cuidaria dela e vingaria seu marido.
Logo o sacerdote encerrou a cerimônia fúnebre, as últimas homenagens foram prestadas e o corpo foi baixado ao túmulo.
No momento de maior comoção e despedida, enquanto a terra era jogada sobre o caixão, novamente lágrimas puderam ser vistas escorrendo discretamente por debaixo dos óculos escuros do aquariano. No entanto, nenhuma gota que escorrida dos olhos de Camus era por Dimitri, pelo menos não por luto ou tristeza.
O Santo de Aquário chorava sim, mas suas lágrimas eram feitas do mais puro ódio.
O ódio de Dimitri, pelo que havia feito a Afrodite, ódio pela força que fazia para estar ali prestando honras para aquele desgraçado, tendo que representar um papel como sempre fora forçado a fazer em toda sua amaldiçoada vida. O ódio que Camus sentia naquele momento era tão intenso que lhe causava tremores pelo corpo todo e fazia seus olhos arderem. Não tentou conter nenhuma lágrima, era melhor assim. Elas o ajudariam a reforçar a mentira da vez.
Finalmente o corpo fora sepultado, o enterro havia chego ao fim e as pessoas começavam a ir embora. Primeiro os conhecidos, depois os amigos, os familiares e por fim a viúva. Mas o novo Vor permaneceu ali.
Permaneceram também Fyódr, o mordomo de Camus, e alguns dos membros da elite da Vory v ZaKone, entre eles Alyosha Olegich Volkov, primo de Dimitri, que foi cercado pelos homens de confiança do novo Vor, Andreas, Josef, Victor, Miroslav e Chesla, que o impediram discretamente de se retirar do local junto das outras pessoas que saiam.
Alyosha reagiu de imediato buscando o rosto do aquariano num questionamento mudo, mas este o ignorou lhe dando as costas para entregar Hyoga aos cuidados do mordomo.
— Fyódr, vá com Hyoga até o carro e me espere do lado de dentro e com os vidros fechados... Há uma última homenagem a prestar ao morto. — disse Camus.
— Sim, mestre Camus. — o mordomo respondeu apanhando a criança em seu colo e já se retirando do local.
Quando teve certeza que o filho estava seguro e distante o aquariano acendeu um cigarro, respirou fundo e deu início ao ato final daquele grande espetáculo.
Após fazer um sinal com a cabeça para seus homens, de maneira lenta e torturante o ruivo caminhou entre os suntuosos mausoléus daquele cemitério ilustre até uma parte menos visitada, sendo seguido pela massa de criminosos. Alyosha vinha atrás escoltado pelos cinco homens que tinha as armas em punho sem entender o que acontecia. O primo de Dimitri era bancário, dirigia um dos maiores bancos de Moscou, e já temendo pelo pior tentou sacar sua arma para fugir dali, mas prontamente fora detido por Chesla que lhe passou um dos braços pelo pescoço lhe dando um meio mata leão e o arrastou consigo até o local demarcado.
Em uma das alas mais reclusas e ermas do cemitério, junto à sepulturas mais humildes, sem todo aquele requinte do setor ilustre onde Dimitri fora sepultado, o aquariano parou de frente para uma cova aberta.
— Quando eu descobri a carcaça carbonizada do Lexus preto blindado de Dimitri, eu soube na hora que algo terrível havia acontecido. Nosso Vor havia sido covardemente atacado e ninguém sabia coisa alguma. — Camus finalmente se pronunciou, e sua voz, agora desprovida de qualquer emoção, tinha a frieza e crueldade já tão conhecidas por todos ali — Decerto o autor de tal atrocidade agiu de modo a non deixar rastros, mas mesmo assim eu me enfiei em uma caçada atrás do nosso amado pai, e qual não foi o meu choque ao descobrir que Dimitri, nosso poderoso mentor, havia sido facilmente emboscado, torturado e assassinado de maneira baixa pelos albaneses.
Camus se calou por um instante, depois ficou de frente para seus homens e fez um pequeno aceno para Chesla com os dedos que seguravam o cigarro. O capanga na mesma hora arrastou Alyosha até ele, que oferecia resistência.
O bancário a essa altura já percebera que algo de muito errado estava acontecendo. Só havia homens da máfia ali, e seu coração se encheu de pavor. Foi aos tropeços, suando frio e aterrorizado que fora colocado diante de Camus, o assassino mais cruel, frio e perigoso da Vory v ZaKone, e agora o Vor máximo daqueles criminosos.
— O que está acontecendo? — Alyosha perguntou atordoado — Senhor Camus?
Através dos óculos escuros o aquariano encarou o homem à sua frente. Ele seria seu bode expiatório e sua garantia de respeito frente aqueles que pudessem questioná-lo, já que não sabia se Dimitri tinha colocado a par da Operação Terra Queimada, como garantia, algum daqueles homens que ali estavam presentes e, se tivesse colocado, certamente este pensaria duas vezes antes de trazer a verdade à tona. Mas, mesmo para esses, Camus tinha o álibi perfeito.
Assim, Aquário deu uma última tragada em seu cigarro, jogou a bituca no chão e a apagou com a sola dos sapatos de couro negro brilhante.
— Se existe um tipo de homem do qual eu tenho total desprezo é dos covardes. — a voz do ruivo saiu ácida — Quando Dimitri descobriu que você estava desviando dinheiro de seus sócios gregos e sujando a reputação da Vory através de taxas bancarias indevidas, você se desesperou, non é mesmo, Alyosha? Você sabia que ele cobraria o preço por seus roubos, então você entregou a viagem de Dimitri à Grécia para os albaneses, que fizeram o serviço sujo em seu lugar.
Camus usou a descoberta que fizera sobre a TTGR — Taxa de Transferência entre Grécia e Rússia — para culpar o primo de Dimitri por sua morte e confundir possíveis membros da máfia que porventura pudessem saber da Operação Terra Queimada. Horas antes do funeral havia mostrados as “provas” da suposta traição de Alyosha a estes os convencendo de sua culpa, e agora estavam ali, reunidos para fazer justiça em nome do pai que haviam perdido.
— O QUE? NÃO! EU NÃO FIZ ISSO... — Alyosha gritou desesperado diante das acusações, mas a voz do bancário foi calada com um sonoro tapa desferido em seu rosto pelo próprio Camus.
— NON SE ATREVA A NEGAR E COLOCAR EM DÚVIDA A PALAVRA DO SEU VOR! ELES TE ENTREGARAM E EU TENHO PROVAS! — Camus bradou de volta e no instante seguinte retirou alguns documentos que trazia na parte interna do sobretudo, as cópias que comprovavam os desvios de dinheiro do Templo das Bacantes, os atirando sobre o homem à sua frente — Além de covarde você é um mentiroso! Vocês, “bandidos do colarinho branco” são a escória!
— Não! Pela Virgem Santíssima! — Alyosha começou a chorar em desespero. Com as mãos unidas a implorar olhou para todos os homens que estavam a seu redor tentando obter ajuda de qualquer um que fosse — Não fui eu, eu juro! Eu nem conheço nenhum albanês!... Dimitri sabia da taxa! Foi ele mesmo quem me pediu para cria-la... Ele...
— CALE A BOCA SEU VERME! — exaltado Josef tentou avançar sobre o bancário, mas foi segurado por Victor — Filho da puta! Você fez merda, traiu a família e ainda tenta macular a honra do falecido!
— Não!... Pela Virgem! — Alyosha ainda mais desesperado ignorou Josef e se voltou para Camus, mas para seu completo terror o francês havia sacado sua arma do coldre, uma Serdyukov CP-1 cromada, presente do próprio fabricante, o engenheiro armamentista russo Pyotr Serdyukov, e a apontava para sua cabeça.
Diante da eminência da morte o bancário caiu de joelhos no chão unindo as mãos numa suplica por sua vida.
— Pelo amor de Deus! Eu sou inocente! Eu não traí a Vory! Meu Vor... não faça isso! Certamente há alguém o enganando e me atribuindo a culpa! Eu jamais trairia a Vory!... Dimitri era meu primo! Eu tenho família!
De repente o disparo.
O ruído ecoou alto entre as lápides e aquele campo aberto dando fim às suplicas de Alyosha Olegich Volkov.
Os braços penderam para baixo, os olhos arregalados fixavam o rosto de Camus enquanto o corpo trêmulo que permaneceu hirto na mesma posição em que estava, de joelhos, sofria pequenos espasmos, reflexo do dano cerebral. Do buraco entre os olhos, aberto pelo projétil com precisão cirúrgica, um filete de sangue escorreu tingindo de vermelho a pele do rosto alvo.
— A única família é a Vory V ZaKone! — Camus sentenciou com voz grave e funesta na mesma hora em que erguia uma das penas para apoiar o pé no ombro de Alyosha.
A fumaça quente com cheiro de pólvora ainda saia do silenciador acoplado à pistola quando com a sola do sapato envernizado e a mesma frieza cruel do assassino profissional que dera o tiro, Camus chutou o corpo do russo para dentro da cova aberta.
Momentos depois o sepulcro estava coberto de terra, os homens haviam se dispersado e a verdade silenciada.
Ao caminhar de volta para o carro, agora completamente sozinho depois de ter dispensado seus homens, Camus foi até o porta malas e lá pegou uma pasta preta. De posse dela retornou ao mausoléu de Dimitri, mas parou diante de outro jazigo, bem mais singelo. Nesse havia somente uma fotografia gasta pelo tempo, alguns dizeres em russo e também em grego, e lado a lado, tendo o mesmo peso de importância, dois nomes se destacavam: Vory v ZaKone e Atena. Era túmulo de Yuri Yurievich Volkov, seu mestre e mentor.
Tudo o que era e tudo o que tinha na vida devia aquele homem que o salvara de uma vida miserável e o condenara a outra nas mesmas proporções.
Por isso, diante da lápide de mármore negro abriu a pasta e tirou de dentro dela a herança amaldiçoada de Yuri, o dossiê sobre os cavaleiros de Athena que Dimitri usara para engendrar ataque ao Templo das Bacantes.
Encarou a fotografia gasta na lápide mais uma vez, então tirou um isqueiro do bolso e com lentidão ímpar guiou a chama de encontro aos papéis em sua mão.
Quando o fogo se espalhou e o calor ameaçou lhe queimar os dedos enluvados, Camus atirou o documento aos pés da lápide de Yuri Yurievich Volkov e ficou o observando ser consumido até virar cinzas.
Um ciclo havia se findado. Todas as provas haviam sido eliminadas, até mesmo aquelas que podiam pôr em xeque sua lealdade para com Atena e o Santuário.
Camus agora era oficialmente o novo Rei dos ladrões.
***
Enquanto o funeral de Dimitri Yurievich Volkov ocorria na Rússia, a muitos quilômetros dali, na Grécia, outra cerimônia de adeus acontecia. Ambos os eventos ligados pela mão trágica do destino.
No cemitério dentro das dependências do Santuário de Atena, o Sol baixo no horizonte iluminava o amplo campo irregular de pequenos montes cobertos por uma vegetação rasteira de relva verde clara e pequeninas flores brancas de chá do Olimpo que eram balançadas pela brisa fria primaveril.
O funeral modesto era realizado em frente a uma pequena lápide simples de calcário com os nomes Dario e Heitor gravados na pedra. Ao lado dela havia um minúsculo caixão branco enfeitado com crisântemos amarelos e que continham o entalhe de dois anjos abraçados na tampa, ironicamente muito semelhantes aos anjos esculpidos na caixa de pandora da sagrada armadura de Gêmeos.
Apesar de não conter o luxo e a pompa do evento similar que ocorria na Rússia, o funeral dos filhos gêmeos de Saga e Geisty era muito mais carregado de emoção, dor e pesar.
Estavam presentes apenas os membros do Santuário que trabalhavam no Templo de Baco ou que eram amigos do casal. Diante do caixão, Mu tinha um dos braços enlaçando os ombros de Shaka enquanto com o outro segurava Kiki em seu colo. Logo atrás estavam Marin e Aiolia, de mãos dadas, que apoiados um no outro tentavam conter a emoção. Quem não se preocupava nada em esconder a tristeza era Shina, que extremamente abalada não fazia questão nenhuma de conter as lágrimas, enquanto era amparada em um meio abraço por Aldebaran. Este tentava segurar a emoção como podia, ainda que por vezes chorou junto da amazona. Um pouco mais atrás estavam Máscara da Morte, Shura e Misty. O canceriano fumava um cigarro sem nenhum entusiasmo, visivelmente triste apesar do costumeiro semblante de zanga, enquanto Capricórnio e Lagarto tinham ambos um olhar vago.
Havia mais alguns poucos servos e amazonas conhecidos de Geisty e Saga um pouco mais afastados. Estes tinham ajudado Mu com os preparativos do funeral, embora o ariano tivesse feito quase tudo sozinho.
Após ter voltado para casa e descansado por algumas poucas horas, Mu organizou o funeral e uma singela, porém bela e atenciosa, cerimônia de despedida para as bacantes mortas na invasão, que foram cremadas e na praia, ao sul das colinas fronteiriças do Santuário, tiveram suas cinzas lançadas ao vento.
Agora ali, diante de um silêncio incômodo, o lemuriano reunia ânimo para dizer algumas palavras, já que com a ausência da mãe e do pai das crianças, o Grande Mestre, havia caído sobre seus ombros, ainda que de forma indireta, o dever de discursar e confortar o coração de todos, mesmo que o seu estivesse em frangalhos.
Por isso, com cuidado Mu entregou Kiki a Shaka, que excepcionalmente naquela ocasião tinha os olhos abertos e olhou para si completamente inconsolável. Áries sustentou o olhar por um momento no rosto melancólico do virginiano. Raras vezes havia presenciado as belas feições do homem que amava cobertas por aquele véu fúnebre de tristeza, e seu coração ficou pesado. Sabia que Shaka se culpava pelo que havia acontecido, e que nem toda a sabedoria e esclarecimento milenares de seu espírito eram capazes de lhe trazer alguma redenção e aplacar sua dor. Fez um carinho sutil no rosto do virginiano, respirou fundo e então voltou a vista para o pequeno caixão à sua frente.
— Hoje, o dia para todos nós é negro e de muito pesar. — Áries começou a falar em tom ponderado, chamando a atenção dos presentes — Hoje os deuses deram um golpe dolorido no nosso orgulho de Cavaleiros Sagrados nos lembrando que, apesar de Santos abençoados por Atena e detentores do poder de rasgar os céus, não temos poder contra a morte, também não somos indestrutíveis, e que a maldade dos homens não tem limites... Vidas inocentes foram ceifadas, vidas que juramos proteger, mas que escorreram por entre os nossos dedos...
A voz de Mu falhou, embargada pelo nó em sua garganta que lhe sufocava, enquanto comprimia o punho tentando manter-se firme.
Marin sufocou um soluço levando a mão à boca, e Aldebaran abaixou a cabeça sufocando um suspiro.
Culpa.
Todos ali se sentiam de alguma forma culpados também, e era difícil lidar com a culpa que corroía suas almas.
— O preço que nos foi cobrado pela nossa frágil certeza de invulnerabilidade, já que somos cavaleiros, foi caro demais... A vida de um dos nossos... um irmão de armas, para expiar pelas vidas daqueles que fomos incapazes de proteger. — o lemuriano sentiu o coração apertar dentro do peito e sufocado deixou que as palavras escapassem por sua boca. Falar de Milo tinha se tornado quase um tabu, mas não conseguia simplesmente ignorar a morte do companheiro e as circunstâncias na qual ela se deu — E ainda assim, mesmo após tão alto preço a ser pago, nossos corações não encontraram nenhum alento... apenas mais dor e sofrimento.
A fala de Mu foi interrompida por um soluço alto e sofrido.
Era Shina.
A amazona, que não acreditava na culpa de Milo, ao ouvir as palavras de Áries foi incapaz de conter o pranto. Ela amava Escorpião profundamente, não com um amor romântico, mas mais que isso, ele era seu melhor amigo, parceiro, irmão de armas, amante... e sua morte ainda lhe parecia um terrível pesadelo.
O pranto sofrido da amazona comoveu Aldebaran, que lhe apertou ainda mais forte junto ao peito para conter o seu corpo trêmulo atraindo os olhares repreensivos de Shura e Máscara da Morte, que não viam com bons olhos o choro derramada para um traidor.
— Como Cavaleiros e Amazonas infelizmente temos que aprender a lidar com a morte, com a perda e o luto, porém nada em minha vida de guerreiro da justiça, nenhum treinamento ou instrução que tive, me preparou para o que eu estou sentindo nesse momento, aqui, diante desse pequeno caixão. — a voz de Mu se embargou de vez, e numa luta constante para evitar as lágrimas ele levantou uma das mãos e a colocou sobre a madeira branca do caixão, e nessa hora Shaka pousou também sua mão sobre a do ariano, lhe dando o conforto e o apoio que precisava — Fui eu que senti a primeira chama da vida de Heitor e de Dario ainda no ventre da mãe... almas puras cheias de amor e aconchego... Eu também dei a notícia aos pais, e festejei junto deles tamanha benção... Mal consigo acreditar que sou eu mesmo, aqui nesse momento, sepultando os corpos sem vida dos meus afilhados. — Mu perdeu a batalha contra a tristeza e a emoção e se permitiu chorar. Tocar naquele caixão frio e não sentir vida alguma fluir de dentro dele era terrível — Não é certo que os filhos morram antes dos pais. Não é natural. E eu sinto muito pequenos que a mãe de vocês não possa estar presente aqui... Mas eu tenho certeza que se ela estivesse ela lhes diria que os ama muito, e que assim o será para todo o sempre... e que agora ela não é apenas mãe de Heitor e de Dario, mas mãe de anjos.
— Ela está com eles, Mu, pois agora os leva em seu coração e em seu pensamento. — disse Shaka apertando levemente a mão trêmula do amado — O amor é um sentimento eterno, atemporal.
Mu olhou para Shaka e se afastou do caixão, em seguida o abraçou junto a Kiki com força, desolado. Virgem beijou seu rosto o acolhendo naquele abraço. Ao menos tinham um ao outro, mas não conseguiram deixar de pensar em Geisty e Saga e em como seria dali para frente.
Logo uma presença funesta e uma aura pesada foi sentida pelo lemuriano, que na mesma hora se colocou em alerta. Recuando um passo Mu olhou para trás e se surpreendeu ao ver ao longe, camuflado entre os tantos pés de oliveira que permeavam aquele cemitério particular, a figura soturna de Saga, trajado com o manto escuro do Patriarca e paramentado com todas as pompas que exigiam o cargo do líder máximo do Santuário na ausência de Atena, elmo e ombreiras vermelhas, máscara e colares diversos.
O destino parecia brincar com suas vidas, e em algumas circunstancias ele se fazia irônico e de uma crueldade ímpar, como agora, no momento em que fizera Gêmeos testemunhar o funeral dos próprios filhos de longe, oculto, assim como ele, Mu, testemunhara o de Shion no passado, escondido de todos e tendo que sofrer sozinho e em silêncio.
Os papéis se invertiam e mais uma vez os ligava, pois se Saga no passado enterrara seu “pai” e mestre, ele agora enterrava seus filhos.
Dando um passo para o lado a fim de proporcionar ao Grande Mestre e pai das crianças uma visão melhor do pequeno caixão, Mu ordenou com um gesto ao servo-coveiro que descesse o pequeno caixão.
— Que Atena interceda por suas almas puras até o descanso eterno nos Elísios. — disse por fim, depois pegou na mão de Shaka para juntos esperar a sepultura ser fechada e então poderem acender incensos e fazer suas preces.
Ao longe, com o corpo ainda debilitado pela exaustão da batalha e acontecimentos recentes, Gêmeos acompanhou o pequeno caixão que guardava seus filhos descer à cova e ser coberto lentamente pela terra, enquanto um a um os companheiros do Santuário se despediam com pesar e saiam pela lateral para deixar o cemitério. Virgem e Áries foram os últimos a sair, e então, finalmente sozinho, Gêmeos tirou a máscara e com os olhos hirtos olhava fixo na direção da sepultura experimentando um misto de sensações que nunca havia vivenciado antes em sua vida. Sua mente trabalhava de forma confusa e agitada, enquanto seu coração batia descompassado, apertado, doloroso, quase insuportável, tal qual o ar estacionado em seus pulmões que pesavam toneladas.
Com um medo que sabia que não era seu, ao mesmo tempo que munido de uma coragem que não lhe cabia, galgou o caminho a passos lentos até o túmulo parando a poucos passos da terra úmida e fofa. Manteve o olhar vago na pequena lápide de rocha alva sem conseguir parar de ler os dois nomes nela entalhados.
Eram ali seus dois filhos.
Uma constatação opressora que sua mente repetia incessante.
Sentiu a garganta sufocar e seus olhos subitamente se aquecerem o pegando de surpresa e de assalto. Estava chorando!
Seu o rosto transtornado se contorceu numa irritabilidade feroz.
Não!
Não podia ser seu aquele sentimento, aquela rendição. Deveria ser de seu outro lado. Aquela dor era de Saga. Não era sua.
Nunca fora fraco. Saga que o era.
Respirou fundo finalmente soltando o ar que tinha preso no peito e voluntariamente contendo as lagrimas que se secaram em suas orbes viperinas, então aproximou-se mais da lápide, pousou a mão sobre a pedra e pressionando firme os dedos trocou o pranto por uma promessa muda: A morte de seus herdeiros gêmeos não teria sido em vão. A Vory v ZaKone, e quem mais que estivesse por trás de tal feito, pagaria o preço.
Com a alma seca olhou para o horizonte vendo o último raio de luz solar desaparecer atrás das montanhas.
Não tinha mais nada a fazer ali. Sua realidade agora seria assumir seu lugar de direito e ocupar o cargo ao qual sempre aspirara, por isso deu as costas ao túmulo e aos filhos mortos, cobriu o rosto com a máscara e seguiu para seu novo lar, o Décimo Terceiro Templo do Santuário de Atena.
Seu governo estava apenas começando.
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