Notas iniciais
Finalmente um cap longe do maldito hospital ufa. estamos tentando postar toda semana pra acabar esse volume logo meu deusss uahuhahah então ora não perder tempo. ps: imagem fofíssima por Rosenrot

Santuário de Atena. Quatro dias após a volta de Afrodite.

Arena principal, 9:11am

Sob o Sol intenso que aquecia o solo arenoso uma poeira insistente era levantada pelo vento que soprava naquele meio de manhã. Ali estavam, enfileirados lado a lado em posição de descanso os membros da patente prateada. Atrás deles, organizados em fileiras paralelas, cerca de 40 jovens aspirantes a cavaleiros. Em sua maioria estropiados olhavam com receio para a figura altiva no topo das ruinas da Arena, que mesmo com a face coberta pela máscara azul inexpressiva causava-lhes medo. Já alguns deles estavam tão convictos de suas aspirações que a figura autoritária do Patriarca era um exemplo para perseverarem em seus treinos.

Em silêncio todos se mantinham em formação e aguardavam ordens, enquanto junto do Grande Mestre, Gigars lia um relatório lhe pondo a par da primeira semana de treinamento dos aspirantes sob os novos moldes vigentes impostos.

— Nessa semana obtivemos um avanço considerável no desempenho dos aprendizes em comparação às turmas anteriores. É inegável a eficiência dos novos módulos, meu senhor. Porém... — o homenzinho corcunda pigarreou para prosseguir — Tivemos alguns problemas. Dois dos novos aprendizes se envolveram em um acidente durante os treinos e um deles veio a óbito.

Gêmeos, que acompanhava com ligeiro desinteresse ao relatório passado por seu assessor, — sua dor de cabeça, uma fiel companheira nos últimos dias, parecia não querer lhe dar trégua — ouvia a voz rouca e fastigiosa quando de súbito teve sua atenção roubada por um Cosmo conhecido que sentiu marcar presença na entrada do Santuário, e este, sem ainda entender o motivo, e surpreso deveras, aqueceu algo dentro de si.

Sua Cosmo energia aprisionada há dias no mais profundo de seu âmago de repente lhe pareceu agitada, e isso se dava em resposta àquela presença discreta.

Curioso, e ainda sem entender ao certo — ou sem aceitar — o porquê daquele reboliço interno, o Patriarca se voltou na direção de onde sentia aquele Cosmo, a base no Monte Zodiacal.

Dando as costas a Gigars, que continuava a falar sem ser ouvido, Gêmeos deu alguns passos em direção ao pé do monte que ficava há muitos metros dali, tencionando seguir até lá, mas foi impedido pela voz que lhe cobrava atenção.

— Grande Mestre! Por favor! — dizia Gigars vindo atrás dele, e vendo que suas súplicas surtiram efeito e o geminiano deteve seus passos se virando para ele com nítida indiferença prosseguiu: — Precisamos de vosso parecer sobre essa questão, meu senhor. Sobre a morte e as baixas em tão pouco tempo.

Já enfastiado com aquela manhã tediosa, e pouco se importando com o destino de reles aspirantes, o Patriarca disparou, ácido, sem dar espaços para argumentações:

— O aspirante que morreu vocês enterrem na área dos soldados anônimos. Quanto ao que está ainda vivo, veja se está em condições plenas de prosseguir com o treinamento. Caso não tenha se aleijado ou adquirido algum dano permanente e ficado inválido, que ele retome o treinamento o mais rápido possível, e que demonstre maior firmeza e disciplina... Caso contrário o ponha para fora do meu Santuário. Isto é uma base militar, da mais alta elite bélica e berço dos maiores guerreiros que já existiram nesse planeta. Não um lar caridoso de acolhimento de jovens carentes.

Se voltando para o assessor, e dando um passo em sua direção até ficarem frente à frente, o que obrigou Gigars a olhar para o alto com seu olho bom devido à baixa estatura e corcunda proeminente, o Patriarca continuou:

— Espero que as minhas ordens tenham sido claras e que sejam seguidas sem questionamentos. Não quero ter o meu tempo desperdiçado uma vez mais por questões tão simplórias como as baixas dos aprendizes.

— S-sim, Grande Mestre. — disse o assessor se curvando em uma ligeira mesura.

O geminiano se afastou seguindo para o Templo de Baco. Iria resolver alguns assuntos sobre a reabertura do bordel e depois tinha um almoço de negócios marcado para aquela tarde, mas sabia que seus pensamentos estariam o dia todo voltados para o Cosmo que sentira no pé do Monte Zodiacal.

Gigars então, ao se ver sozinho, voltou-se para o pelotão e ditou em voz alta:

— Retome os treinamentos, Cavaleiros e Amazonas de Prata. Algethi, você ficará responsável pelo sepultamento de seu aprendiz e também pela recuperação do que está sob cuidados médicos, a qual o Patriarca exige que seja rápida.

Enquanto o cavaleiro de prata trocava algumas palavras com o assessor do Grande Mestre, mais ao fundo Marin e Shina se viravam de costas para os dois e discretamente cochichavam entre si.

— Marin, reparou que ele de repente se desconcentrou da conversa que tinha com o caolho? — disse Shina.

— Sim. Se voltou em direção ao Monte Zodiacal... E eu acho que não era por pressa de retornar ao seu trono no Décimo Terceiro Templo... Você sentiu o Cosmo dela bem discreto? — disse a jovem japonesa que fingia ajustar a ombreira que usava.

Ma é claro que senti, né! Eu percebi o Cosmo dela assim que cruzou os portões do Santuário. — disse Shina indignada arrancando um sorriso encoberto pela máscara de Marin.

— Eficiente e astuta você, heim!

— Obrigada, a gente faz o que pode! Agora vamos logo com esse treino porque pelo que tudo indica o dia promete!

***

Santuário de Atena. Escadarias da Casa de Touro.

— Mu. Que vergonha! — Geisty exclamou ao passar os braços pelo pescoço do ariano que a carregava no colo.

— Vergonha do quê? Do Debão que fez piada falando que roubei a esposa do patrão? — o ariano sorriu tirando um riso tímido da amazona, mas logo o clima alegre se tornou sério quando chegaram às portas do Terceiro Templo.

Mu então parou diante da entrada, e nessa hora pôde sentir os braços de Serpente se estreitarem mais em torno de seu pescoço em busca de apoio. Mesmo não olhando diretamente no rosto dela sentiu a aflição que emanava de sua aura, por isso a apertou mais junto do corpo para lhe transmitir segurança e elevou seu Cosmo pedindo autorização ao guardião daquele Templo para sua passagem, mesmo que ele não estivesse ali — sabia que monitorava aquela Casa à distância — e que aquele também era o lar de Geisty.

E como era doloroso para ela estar ali depois de tudo...

A casa que era a edificação de um futuro promissor regado à felicidade e paz, onde viveria acordada os sonhos que traçara em segredo com seu grande amor.

Saga... Este agora estava tão distante...

Sentia a presença do seu amado cavaleiro em cada coluna erguida daquela passagem, e a saudade era tão sufocante quanto a penumbra densa que tomava todo o corredor de trânsito.

Melancólica e até então calada, quando estavam na metade do caminho Geisty falou com voz pesarosa:

— Mu, pode me deixar aqui mesmo. Meu quarto com Saga fica logo seguindo por esse corredor lateral. — disse tencionando descer do colo do amigo, mas súbito encontrou resistência. Confusa olhou para o ariano e inquiriu: — Mu? Está me ouvindo? Pode me deixar aqui mesmo, meu quarto é logo ali.

— Estou te ouvindo, mas você não vai ficar aqui. A Casa de Gêmeos não é mais um local seguro, principalmente para você. — Áries respondeu sério ao apertar o passo, com pressa de sair dali — No dia em que você acordou Shaka e eu conversamos sobre o risco de deixa-la sozinha com o Patriarca na condição que ele se encontra. Por isso, decidimos que o lugar mais seguro para você agora é na Casa de Virgem! — o ariano então sorriu discretamente tentando amenizar a tensão — Já até preparamos o seu quarto.

— O-o quê? — a italiana arregalou as orbes violetas, surpresa — Não, Mu! Não posso ir para Virgem.

— Por que não?

— Atena! Eu... eu vou ser um estorvo para vocês. Justo você que tem tanto trabalho no Templo de Baco, e na Forja, e... e Shaka tem que cuidar de Kiki... Eu não posso chegar lá de mala e cuia... — olhou em volta de si e notou que não tinha nenhuma bagagem consigo e corrigiu enquanto ainda era carregada no colo, agora já saindo da Casa de Gêmeos — Bom, sem mala e sem cuia... Não. Eu não posso aceitar. Agradeço o carinho, mas... Mu pela deusa, eu estou falando com você, homem! Me ponha no chão, a minha casa já passou.

A amazona olhava para trás, para a saída dos fundos do Templo de Gêmeos.

— Agora já foi. Se quiser ficar em Gêmeos vai ter que tomar um chá em Virgem e depois descer andando. — o ariano respondeu rindo, pois já estava quase no meio das escadarias para Câncer — Shaka está te esperando, e se eu não chegar com você eu que vou levar uns cascudos. Além disso, não se preocupe com a mala e as cuias. Tinha o suficiente no seu quarto no Templo das Bacantes para passar um ano lá em casa.

Depois de tantos dias penosos finalmente um sorriso cristalino se desenhou no rosto da italiana, fruto de um sentimento de gratidão. Abraçando forte o pescoço do cavaleiro e depois dando um beijo estalado na bochecha rosada dele ela completou:

— Vocês dois não existem, sabia? Obrigada por tudo, por todo esse carinho.

— Ah... De nada! — disse com um sorriso imenso e o rosto corado — Vai ser muito bom ter você na nossa casa.

Um breve momento de silêncio se fez entre os dois até que ela deixou seus medos escaparem da boca em forma de palavras um tanto melancólicas.

— Mu, e se ele voltar? Eu não vou estar lá junto dele.

— Quando ele voltar eu tenho certeza que você será a primeira pessoa a saber.

— Você... — ela respirou fundo e prosseguiu com uma dúvida que nem mesmo ela tinha coragem de assumir que tinha — Você acha que um dia ele volta? Que ele volta pra nós... Que ele volta pra mim?

— Eu tenho certeza que sim, Geisty. — o ariano passava convicção em suas palavras — Saga te ama muito. Você é a família dele. Você e a missão como cavaleiro agora é tudo que ele tem, tudo que ele honra, e pelo o que conheço daquele homem ele não vai abandonar o que mais ama sem lutar muito antes... Vamos ter paciência. Agora... que tal abrir um sorriso? Estamos quase chegando, e se Shaka te vir chorando vai dizer que fui um péssimo elevador.

Em resposta Geisty deu um sorriso e apoiou a cabeça no ombro do amigo. As palavras de Mu lhe trouxeram certo alívio para encarar o martírio emocional em que vivia desde que acordara do coma.

A Casa de Virgem já apontava no alto, imponente e com seu guardião na entrada os aguardando entre as duas gigantescas estátuas budistas que velavam a construção através das Eras.

Ao vê-los ainda ao longe Shaka suspirou fundo lentamente. Apesar da aparência serena seu coração batia forte, acelerado.

Desde que tomaram a decisão de acolher a amazona em Virgem já vinha se preparando para os conflitos que viriam junto com ela, especialmente aqueles criados com o Grande Mestre que certamente existiriam. Contudo, estava resoluto. Meio perdido, totalmente atrapalhado, mas resoluto.

— Veja, meu anjinho, eles chegaram! — disse baixinho para Kiki que estava em seu colo completamente eufórico por sentir a aura do pai lemuriano próxima, então o segurou de modo a deixa-lo de frente para as escadarias para que pudesse vê-los subindo — Oh Buda... Shaka vai perder todas as novelas dele... mas é por uma boa causa. Ele tem certeza que vai ser muito bom ter a tia Geisty aqui conosco, não acha, filho?

Como se entendesse o indiano Kiki deu um gritinho seguido de várias risadinhas.

— Sim, eu sei que você só está pensando na bagunça, mas vá com calma, está bem?... Não sei se ter um bebê em casa fará bem ou... fará mal para ela... Será que fizemos a escolha certa? — sussurrava mais para si mesmo.

Assim que viu o bebê no colo de Virgem, Geisty instantaneamente sentiu seu coração acelerar e abriu um largo sorriso, ainda que seu rosto e sua aura fossem manchadas por uma melancolia perceptível.

— Chegamos! — disse Mu parando em frente ao marido e saudando o filho com um sorriso — E sãos e salvos, apesar de todos esses degraus.

— Bom dia, Shaka. Obrigada pela hospitalidade, mas eu não queria dar trabalho a vocês.

A amazona, muito desconsertada, tentava se explicar ao virginiano que todo atabalhoado lutava para controlar o bebê em seu colo que agitado esticava-se todo para tocar em Geisty. Esta facilitou seu trabalho lhe oferecendo a mão, que foi agarrada pelos dedos gorduchinhos do ruivinho sorridente. Aquele toque gostoso tirou um sorriso largo da amazona, mas ela não conseguiu deixar de sentir seu peito apertado.

— Não será trabalho nenhum tê-la aqui conosco. Será um prazer. Seja muito bem-vinda em minha casa, Geisty. Venham. — disse o virginiano — Solte o dedo da tia, Kiki, não põe na boca! Terão todo o tempo do mundo para ficarem juntos. — disse pegando na mãozinha do pequeno lemuriano para desgruda-la do dedo que tentava abocanhar.

No instante seguinte a amazona pensou que Mu a colocaria no chão, mas este a surpreendeu novamente seguindo para o interior do Templo ao lado de Shaka ainda a carregando no colo.

— Mu?

— Espera aí, espera aí! Da licença, Luz da minha vida. — disse Áries desviando do virginiano — Já que eu roubei a esposa do patrão, vamos entrar com o pé direito para dar sorte.

— Hãn? — Geisty exclamou.

Seguiram aos risos modestos até a sala, então ali Mu colocou a amazona no chão finalmente. Trocaram meia dúzia de palavras e devido à agitação de Kiki no colo do pai indiano Geisty aproximou-se dele beijando sua testinha e fazendo uma festinha com ele. Depois ela ergueu os olhos para o loiro e disse sincera:

— Obrigada por tudo que vocês têm feito por mim, pela minha família. Eu sei que são muito ocupados, você tem um bebê em casa para cuidar, Shaka, e Mu tem os compromissos com a Forja de Áries e com a tesouraria do Templo de Baco...

— Não se preocupe, você também é da família. E como te disse, o bordel deu férias coletivas aos seus funcionários. — disse Mu.

De repente um pigarrear pronunciado vindo do virginiano chamou a atenção dos dois.

— Não fale essa palavra vulgar na frente do nosso filho, Mu. — ralhou tapando uma orelha de Kiki com uma das mãos — Por enquanto aquele alcoice mundano ficará fechado até segundas ordens do nosso ilustre Grande Mestre ébrio.

— E as meninas, onde estão? — Geisty perguntou.

— Estão hospedadas em um ótimo hotel em Atenas, de férias e seguras. Assim que a casa reabrir as que quiserem continuar trabalhando lá poderão voltar... Rebeca ainda está internada, mas está fora de perigo. — disse Mu com pesar na voz.

— Minha deusa... elas não podem ficar desamparadas, somos tudo com o que elas podem contar. — respirou fundo, e embora toda a dor emocional que sentia não conseguia deixar de pensar nas bacantes — Mu... assim que possível queria visitar o túmulo de Núria, Ágatha e Narjara e... — respirou fundo para conter as lágrimas que brotavam insistentes, e com a voz decidida, porém sussurrada concluiu: — E também dos meus filhos. Quero poder... visita-los.

Um clima pesado e doloroso tomou a todos fazendo o pequeno Kiki desmanchar o riso alegre, armar um bico enorme e se agarrar ao pescoço de Shaka choramingando. Mesmo ainda muito pequeno ele já era sensitivo e podia captar o humor dos adultos a sua volta e reagir a ele.

— Eu vou levar você lá, eu prometo, mas não ainda. — disse Mu pegando na mão da amiga — Você ainda está fraca. Agora só precisa de cuidados e muito carinho. Vamos esperar a poeira baixar e tudo encontrar o seu lugar.

— Exatamente! Tudo na sua... aiii... hora certa! — disse Shaka pelejando para tirar uma larga mecha de seus cabelos das mãos de Kiki, que os puxava sem dó nem piedade para leva-los à boca voraz — Agora a hora é de conhecer o seu quarto... Kiki não come o cabelo do pai, meu filho. — falou baixinho para o bebê.

— Meu quarto? — olhou surpreendida para o ariano — Eu vou ter até um quarto?

— Ora, mas claro! Você achou que ia dormir onde? No tapete da sala?

— Bem, não é exatamente um quarto. — disse Shaka que seguia na frente sendo acompanhado pelos dois — É minha antiga sala de leitura, mas é bem arejado, tem boa iluminação, e organizei tudo para que se sinta bem confortável.

Ao terminar de dizer aquilo já estavam em frente à porta do cômodo referido, e sem mais delongas Virgem a abriu revelando de fato um ambiente modesto, mas minuciosamente organizado e aconchegante. Tinha apenas uma cama de solteiro com lençóis e colcha brancas, travesseiros grandes e um abajur de vitrais indianos ao lado sobre um criado mudo de madeira, onde também havia sido colocado um jarro de barro com água fresca. Sobre uma escrivaninha de madeira tinham alguns livros e um vaso de cristal com flores de diversos tipos. Mais ao fundo havia uma arara com as roupas de Geisty que foram trazidas do Templo de Baco, e ao lado um pequeno gaveteiro improvisado guardava algumas peças íntimas e também toalhas de banho e rosto. No parapeito da janela aberta um incensário queimava algumas paletas de essência de flor de lótus espalhando uma fumaça perfumada no ar.

Correndo os olhos pelo ambiente Geisty pôde notar o carinho depositado em cada detalhe. Era inegável que estava surpresa por perceber que aquele zelo vinha de onde menos esperava, e também o quão triste era sua atual realidade. Divagava por esses pensamentos enquanto remexia nas roupas dispostas penduradas na arara se dando conta do quão grave deveria ser a situação de Saga, já que ninguém se arriscara a ir até a Casa de Gêmeos pegar seus pertences. O lugar que outrora fora, ainda que por um período muito breve, seu lar dos sonhos, agora se transformara em um ambiente perigoso para qualquer um dos moradores do Santuário, principalmente para si.

— Eu não sabia o que trazer exatamente, então pedi ajuda à Shina e Marin e elas trouxeram algumas coisas suas lá do bordel. — disse Mu.

Novamente o pigarrear de Shaka, acompanhado de uma carranca repreendedora enquanto tapava mais uma vez a orelhinha de Kiki, fez o ariano se corrigir de novo.

— Digo, do lupanar malfadado de prevaricação e vício! — Mu falou olhando para o virginiano e sem evitar uma risada.

— Está tudo ótimo, Mu. — disse Geisty dando um suspiro cansado — Não se preocupe. Eu me viro com o que tem aqui. Não se esqueça que sou uma amazona, nem sempre vivi no luxo.

— E se por acaso precisar de algo mais, só pedir ao Mu que ele providencia para você. — disse Shaka.

— É... Providencio.

— ELA NÃO VAI PRECISAR DE NADA! EU TROUXE TUDO!... COM LICENÇA Ô DE CASA! LOIRUDO, POSSO ENTRAR?

De repente uma voz com entonação vibrante e viva ecoou pelo corredor atrás deles ganhando suas atenções, e logo a figura exuberante de Afrodite surgiu ali.

Nas duas mãos carregava dezenas de sacolas sofisticadas e debaixo dos dois braços segurava algumas caixas, igualmente refinadas. Andava com dificuldade, e não era devido ainda estar convalescente, mas porque trazia mais coisas penduradas em si do que era capaz de carregar.

— Já está dentro, né Peixes. — Shaka respondeu olhando para ele, enquanto Kiki dava saltinhos em seu colo e batia palminhas rindo. Afrodite sempre deixava o bebezinho eufórico com sua presença.

Quando acercou-se deles Afrodite deixou algumas caixas e sacolas caírem no chão, e Geisty não escondeu a alegria que sentiu ao ver o pisciano ali. Abriu um largo e sincero sorriso.

— Afrodite! — ela disse exultante.

— Eu me atrasei um pouco, Mosca, porque fui até uma lojinha no centro onde tem uns tamanquinhos Odara* de dormir que são uma graça e que sei que você vai adorar. — disse o sueco, que sem nenhuma cerimônia caminhou até a cama e jogou o resto de sacolas e caixas sobre.

— Tamanco de dormir? Vocês dormem de sapato? — Mu brincou recolhendo as caixas que caíram no chão.

— Se você não dorme de sapato o problema é seu! — disse Peixes, que depois de ir até Shaka e dar um beijo na bochecha rechonchuda de Kiki fazendo uma festinha com ele se voltou para Geisty, parou em sua frente e pegou em suas mãos — Que bom que está de volta. — sem aviso algum abriu os braços e puxou a amazona para um forte e demorado abraço — Eu senti sua falta, Mosca.

A amazona o abraçou de volta aconchegando-se em seu abraço enquanto aspirava o perfume tão conhecido dele, então fechou os olhos e o apertou com força soltando um soluço contido.

Não queria chorar, mas a emoção pelo alívio de ter o pisciano ali depois de tudo que passaram nos últimos dias era grande demais para conter.

— Obrigada por tudo... Sem você eu não estaria aqui. Me salvou por duas vezes. — sussurrou em seu ouvido em meio a cabeleira perfumada, e depois se afastou e olhou em seu rosto sempre festivo. Deu um suspiro tentando espantar a tristeza enquanto enxugava os olhos disfarçadamente.

— Agradeça a Dadá. Ele tornou tudo possível. — disse fazendo um carinho na franja impecável dela.

— Salve Dadá! — ela sorriu tímida — Ai minha deusa, Afrodite, quanta coisa! Trouxe Atenas toda com você? — olhava curiosa entre as bolsas sem decidir qual abrir primeiro — Eu não precisava de nada, sério!

— Que isso? Vai botar ovos nos meus presentes, Mosca? Precisava sim! Não vai ficar usando essas casqueiras que você usava lá no bordel, né santa? — apontou para a arara com roupas — Depois, você está na casa de deus agora, tem que se vestir de acordo, senão ele vai pensar o que de você, que é uma perdida?

Ao ouvir aquilo Shaka revirou os olhos e caminhou até a porta, enquanto Mu segurava o riso.

— Bom, vou deixá-los à vontade... Peixes, sempre que quiser visita-la é bem-vindo... só não abuse do meu bom humor.

— Que bom humor? — disse Afrodite enquanto retirava um vestido de paetês púrpura de uma das sacolas — Alôca! Estou brincando, querido. — voltou-se para Geisty e sorriu — O Buda loirudo sempre tão espirituoso, né? Já te falei que ele é a alegria das festas? Sempre tão animado...

— Para com isso. — Geisty sorriu dando um tapinha de leve no ombro do pisciano — Mas o que tem nessas sacolas? Vai, abre logo, me mostra! — como toda boa ariana era curiosa e já balançava as mãos agitadas no ar.

— Tem tudo, meu bem. Sapato, vestido, camisola, joias, porque pode até faltar paz na nossa vida, mas não pode faltar glamour!

Virgem deixou o quarto suspirando e aos risos Mu o seguiu, mas encostou a porta antes de sair para que Peixes e Serpente pudessem ficar mais à vontade. Estava verdadeiramente feliz com a aproximação dos dois e sabia que essa amizade seria forte e faria muito bem para ambos.

***

Algumas horas já haviam se passado e os raios do Sol em tons de laranja já iluminavam a entrada do Sexto Templo quando uma presença taciturna foi sentida por seu guardião.

Gêmeos desde o início daquela manhã lutava contra o ímpeto de seguir ao encalço do Cosmo que sentira nos pés do Monte Zodiacal. Mas, sem que percebesse havia cumprido todos os compromissos de sua agenda de forma corrida e um tanto descuidada, pois por mais que tentasse abafar aquele elã, no fim das contas sentia-se sufocado por ele.

Por isso, desistindo de lutar consigo mesmo seguia agora pelo corredor do Templo de Virgem sem ao menos se anunciar. Mas, antes que pudesse avançar mais que cinco passos furtivos eis que foi interceptado por Shaka, que surgiu atrás de si trajando a armadura de ouro de Virgem, já completamente restaurada, impondo sua presença, que não era nada amistosa.

— Vai a algum lugar? — disse o guardião daquela casa num tom nada cordial — Grande Mestre.

Com um olhar dardejante de soslaio para o virginiano o grego respondeu:

— Onde está a amazona de Serpente? — desviou o foco de sua atenção antes mesmo do indiano lhe dar uma resposta correndo os olhos investigativos pelas colunas de pedra e a possível passagem lateral pouco à frente.

— Está segura em algum lugar dentro deste Templo, e está sob meus cuidados e do cavaleiro de Áries. — Shaka respondeu no mesmo tom ríspido usado pelo geminiano.

Mesmo sem pousar seus olhos na figura da amazona o Patriarca podia sentir seu Cosmo ali, discreto, e surpreso percebia o seu próprio fremir em resposta. Inspirou fundo, ao mesmo tempo incomodado e curioso. Aquela reação de sua Cosmo energia não era algo que pudesse controlar, e por mais que lhe fosse vantajosa lhe causava um terrível estranhamento, já que se negava a aceitar os fatos... Saga estava por trás daquilo.

Não.

Jamais iria aceitar que sua outra faceta o tornasse um refém medíocre daquela mulher. Não ele.

Tinha que pensar rápido num modo de reprimir Saga. Tinha que ter controle sobre a única pessoa que poderia despertá-lo.

— O lugar dela não é aqui em seu Templo, Virgem. — disse angustiado e um tanto desesperado ao se voltar desafiador para o guardião do Sexto Templo — O lugar de Serpente é primeiramente se apresentando no Décimo Terceiro Templo, como manda o protocolo, colocando-se à disposição das minhas ordens, e em seguida se instalando na Casa de Gêmeos, lugar que ela assumiu como moradia ao aceitar contrair em matrimônio o guardião de Gêmeos.

— Disse bem, Grande Mestre. — retrucou Shaka com ar de desdém — Em conjúgio ela contraiu ao Cavaleiro de Gêmeos, não à vossa excelência. Sendo assim, na ausência de seu consorte a amazona de Serpente pode se dar ao luxo de ficar aonde ela quiser. E ela quer ficar aqui... Eu considero que seja capaz de respeitar a vontade da esposa de Saga, estou certo?

Enquanto os dois cavaleiros discutiam no átrio da Sexta Casa, no jardim de Virgem, sentada sob a sombra de uma das frondosas árvores Salas Gêmeas enquanto segurava uma xícara de porcelana entre as mãos, Geisty sentia o Cosmo e a presença do Grande Mestre ali, e embora esses estivessem deveras diferentes do habitual, seu coração batia agitado como nunca, saudoso, ansioso. Teve ganas em vê-lo e sentiu vontade de correr até ele e se entregar a seus braços à procura de algum alívio, mas aquela euforia logo desvaeceu quando a decepção e o medo a engoliram. O Cosmo nefasto, opressor e agressivo do Patriarca a faziam vivenciar dores do passado. Estas que ela por anos manteve escondidas no fundo de sua memória.

Agora tudo que sentia por aquela criatura odiosa era repulsa, raiva e rancor.

Quase imperceptível devido à distância, ela ouvia a voz grave e seca de sentimentos daquele homem que em nada lembrava a de seu amado cavaleiro grego que doce e suave lhe sussurrara juras de amor junto ao ouvido.

Ali pela primeira vez desde que tudo acontecera Geisty sentia a dura realidade a que sua vida fora reduzida, e uma tristeza imensa cresceu dentro de si lhe engolindo.

Não reconhecia mais nenhum traço do amor imenso de Saga naquela criatura. Ele de fato havia se perdido e talvez para sempre.

Com seu corpo fragilizado e o emocional em pedaços, desta vez nem mesmo ela se valia de forças e confiança para resgatar o geminiano de si mesmo. Estava convicta que perdera o seu grande amor, amante, amigo, marido e companheiro para toda a vida.

Alheia ao que ocorria à sua volta, entregue à dor e desesperança, o pior dos sentimentos que podem afligir a alma humana, Geisty rendeu-se a um pranto sofrido e silencioso ali mesmo, por isso não percebeu a aproximação cuidadosa de alguém que vinha lentamente pelo solo. Nem o farfalhar das folhas e flores a tiraram de seu pesar, até que de repente sentiu um toque sutil e incomum em suas pernas.

Alarmada abriu os olhos e olhou para baixo, e eis que viu ali a última pessoa que esperava que viesse resgatá-la daquele tormento.

— Kiki? — sussurrou contendo um soluço.

O pequenino lemuriano havia chegado ali engatinhando, e agora tentava lhe escalar erguendo as mãozinhas gordinhas para o alto lhe pedindo colo enquanto balbuciava ruídos como quem tentasse falar.

Mesmo chorosa e mergulhada em seus pesares Serpente não pôde deixar de se surpreender com o bebê que fora até ela sozinho, e que agora a encarava com um olhar profundo, doce e cheio de sentimento. Era como se suas enormes orbes lilases a abrasassem e acalmassem seu coração aflito.

Armando um biquinho triste Kiki ensaiou um choro, talvez devido à demora da amazona em lhe dar o colo pedido, então Geisty, tomada por um instinto maternal que já tinha se instaurado dentro de si e agora só crescia arrebatando seu raciocínio e vontade, apressada enxugou as lágrimas com o dorso das mãos e tombou o tronco para frente para pegar Kiki e trazê-lo a seu colo, recebendo de imediato um abraço caloroso e acolhedor dos pequenos bracinhos rechonchudos que apertaram-se em volta de seu pescoço enquanto os dedinhos agarravam com força seus cabelos negros.

E como era bom aquele abraço, aquele aconchego!

Ela chorou novamente, agora um pranto convulso, porém carregado de alívio. Apertava instintivamente Kiki contra seu peito e afagava seus cabelinhos vermelhos com o próprio rosto lhe dando beijinhos e deliciando-se com o cheirinho suave de lavanda e glicerina que exalavam deles.

— Você é um anjinho mesmo. — disse ainda chorando, mas agora um sorriso iluminava seu rosto enquanto embalava o bebê que não desgrudava de si por um só instante — Obrigada, Kiki!

***

Por instantes Kiki fez Geisty esquecer da presença nefasta de Gêmeos ali, na Casa de Virgem, mas este nem por um segundo deixou de monitorar o Cosmo dela.

Vendo o geminiano com o rosto voltado para a direção do corredor que levava à grande porta que selava o jardim particular de sua morada, Shaka caminhou até se colocar entre ele e a passagem o forçando a agora olhar para si.

— Não que fosse necessário eu lhe dizer isso, mas a amazona de Serpente não se apresentará a você no Décimo Terceiro Templo porque ela não está apta a prestar serviços ao Santuário. Ela está convalescendo, precisa se recuperar, cuidar do corpo, da mente e do espírito... e está sob meus cuidados e de Mu por tempo indeterminado. E se você por acaso nos impedir de...

Sem aviso prévio, e sem se importar com o que o indiano falava, o Grande Mestre lhe deu as costas e seguiu pelo corredor que levava para a saída do Templo, mas não sem antes lançar um último olhar em direção à porta que dava acesso ao jardim de Virgem.

Gêmeos saíra dali da mesma forma que entrara. Sem dizer nada.

Sentia o Cosmo de Geisty extremamente melancólico, e o seu Cosmo respondia ao dela, ainda que fraco. Teria muito o que pensar sobre isso, mas agora tinha a resposta que procurava, e que tentava tanto negar. Suspeitava, na verdade, que o pior estava ainda por vir.

Shaka o observou caminhar em silêncio até que fosse engolido pela penumbra daquela passagem milenar, e quando sentiu seu Cosmo, fraco, porém demasiadamente opressor e enfurecido, já fora das dependências de seu Templo baixou a cabeça e suspirou demoradamente.

— Ébrio. — murmurou chateado.

Enfim o momento tão temido havia passado sem as consequências desastrosas que esperava.

Ao retornar à parte residencial já livre da armadura Shaka foi direto até a cozinha onde havia deixado Mu com Kiki quando sentiu a presença de Gêmeos ali, eles preparavam a mamadeira do bebê enquanto discutiam o cardápio do jantar, já que agora tinham uma hospede que precisava se alimentar muito bem para se recuperar, mas ao chegar ali não encontrou nenhum dos lemurianos. Cismado procurou pelo Cosmo de Mu e o sentindo em seu jardim caminhou até lá.

Quando chegou na grande porta dourada deparou-se com ela semi aberta, e ao cruza-la, logo ali na entrada encontrou Mu, que tinha a mamadeira do filho em uma das mãos enquanto olhava contemplativo na direção das Salas Gêmeas, só então, quando também direcionou o rosto para o mesmo lugar foi que viu Geisty sentada entre as flores a ninar Kiki em seu colo.

— Marido? — perguntou em voz baixa para Mu colocando-se a seu lado — Ela pediu para ficar com ele ou você... — fez uma pausa. Desde que decidiram acolher Geisty ali tanto ele quanto Mu não sabiam ao certo se ter um bebê em casa faria bem ou deixaria a amazona ainda mais deprimida, já que inevitavelmente a presença de Kiki poderia fazê-la vivenciar de forma ainda mais visceral a perda dos filhos — Você achou por bem deixa-la ficar com ele?

— Nem um nem outro! — Mu respondeu contemplativo, até que deu um enorme sorriso e se virou para o esposo — Kiki é mesmo nosso pequeno milagre, Luz da minha vida! Ele a procurou sozinho.

— Como assim? — Shaka ergueu uma das sobrancelhas confuso.

— Ele estava no meu pé enquanto eu preparava a mamadeira, e quando me distraí um pouco e procurei ao redor havia sumido. Kiki engatinhou até ela Shaka, sozinho!... Ele vê e sente a aura das pessoas como eu... Entende a grandeza disso? Ele sentiu que Geisty estava triste e foi ao seu encontro para conforta-la. — explicou o pai orgulhoso.

Ainda pasmo e admirado Virgem voltou o rosto para a direção onde estavam a amazona e o bebê a vendo niná-lo enquanto ouvia seu cantarolar baixinho.

— Mas... já tão novinho? — disse em voz baixa.

— Desde o ventre, Luz da minha vida. — Mu sorriu para o indiano.

— Isso é incrível! — Shaka fez uma pausa e depois sorriu de volta — Ele também atravessou sozinho o portal para o jardim. — disse admirado.

— Exatamente! O seu Cosmo, Shaka, deve ter reagido à presença de Kiki de forma inconsciente e permitiu a passagem. Agora que ele aprendeu a engatinhar está um foguete.

— Nosso menino já é um mocinho... Praticamente um cavaleiro, eu não te disse?... Acho que será mais simples do que imaginávamos.

A gargalhada que Mu deu foi tão alta que acabou chamando a atenção de Geisty e Kiki que estavam distantes.

— Pelos deuses Shaka! Com toda certeza! Oh... cada vez mais fácil! Espera para ver então quando ele despertar a telecinese e o teleporte. Vai ser melzinho na chupeta! — Mu ria de chorar.

— Não falo disso. Falo da nossa dúvida. — Shaka o corrigiu — Se ter um bebê em casa faria ou não bem para ela... Acho que já temos nossa resposta. — fez uma pausa e de repente assumiu um semblante sério ao voltar o rosto para Mu — Você disse, teleporte?... Buda, isso vai demorar, né?

— Hum... não sei, depende. — Mu se recompunha com longos suspiros — Isso é muito pessoal. Shion me disse que há bebês lemurianos bem precoces que manifestam seus dons muito cedo, outros bem mais tarde. Depende da carga genética. Eu mesmo nem andava ainda e já fazia os brinquedinhos flutuarem ao meu redor. Mas não se preocupe com isso.

— Como Shaka não vai se preocupar? Então um belo dia ele bota o filho dele para dormir no berço e o encontra no dia seguinte dormindo na copa da árvore, ou em... sabe-se lá onde?

— Ei, isso não vai acontecer. Eu vou treiná-lo. — disse Mu abraçando o indiano preocupado — Assim que perceber as primeiras manifestações de seus dons já irei monitorá-lo e ensiná-lo, portanto você não correrá o risco de achar seu filhote dormindo na árvore. — riu dando um beijo no rosto do marido.

Shaka sorriu entrelaçando seus dedos aos do ariano. Juntos decidiram deixar que Geisty e Kiki tivessem seu momento e retornaram à cozinha para os preparativos do jantar.

Não tardou para que logo a amazona viesse se juntar a eles trazendo nos braços um pequeno lemuriano faminto. Mu então lhe entregou a mamadeira, que já o aguardava no banho-maria, e no colo de Geisty o bebê mamou tranquilo.

Quando o jantar ficou pronto os três sentaram-se à mesa enquanto Kiki ficou no Moises chacoalhando as perninhas com os olhos enormes atentos aos pais e à amazona, que surpreendeu-se com os dotes culinários do Santo de Virgem. Mesmo sem apetite devido à melancolia que assolava seu espírito foi impossível não se render às deliciosas iguarias preparadas pelo indiano e acabou comendo mais do que imaginava.

Geisty ofereceu-se para ajuda-los com a louça, mas nenhum dos dois cavaleiros lhe permitiu fazer nada que não fosse repousar e tentar espairecer.

Lá pelas tantas, enquanto conversava com Mu sentados à mesa e degustando um delicioso pudim de leite feito por Shaka, notou que o virginiano parecia um tanto nervoso e incomodado enquanto lavava a louça, pois ele esfregava de forma tão frenética e espavorida os copos e talheres que imaginou que mais cedo ou mais tarde iria abrir um buraco neles com a esponja.

Julgando que sua presença ali pudesse ser a causa do desconforto do virginiano, que tinha a fama de ser o cavaleiro mais metódico daquele Santuário, Geisty pediu licença para se recolher e se ofereceu para levar Kiki para quarto e colocá-lo para dormir, já que o menininho já cochilava no Moises, exausto devido às tantas emoções distintas vividas naquele dia.

Obviamente nenhuma objeção foi feita da parte dos dois cavaleiros, e a amazona então lhes deu boa noite e seguiu para o quarto com Kiki em seu colo. O deixaria no berço e depois iria para seu quarto improvisado na sala de leitura.

Mal sabia ela que a aflição de Shaka se dava por ele estar perdendo o primeiro bloco do capítulo de sua amada novela indiana, O Guru do Templo da Paixão.

— Louvado seja Buda e todas as lótus sob seus pés santos! — disse já se livrando do avental e das luvas de borracha que jogou em cima da pia ainda molhada — Será que ainda dá tempo de ver o segundo bloco? Hoje Aisha ia descobrir a traição de Omar Gadhib, aquele pulha aproveitador. — passava rapidamente um rodinho recolhendo a água.

— Eu já te falei para abrir o jogo com a Geisty, Sha. — disse Mu recolhendo os pratinhos de sobremesa para levar até a pia — Não sabemos quanto tempo ela vai ficar aqui. Não pode esconder dela que o Cavaleiro de Virgem dessa era tem uma televisão e que em vez de meditar fica com a cara colada nela a noite toda.

Shaka parou o que fazia para dar um croque na cabeça do ariano.

— Aiii! Doeu, praga!

— Perdeu a razão?... Ela não entenderia... Ninguém entenderia.

— Deixa de ser bobo, Luz da minha vida. E qual o problema de você ver novela? Eu trabalho em um puteiro, Camus é líder da máfia russa, Saga escondeu-se dentro da própria mente, o nosso Patriarca é um demônio, Aldebaran é traficante, Aiolia e Máscara da Morte trabalham para máfia grega, Acredite, você ver novela é a coisa mais normal que há entre os cavaleiros dessa Era. Geisty jamais te julgaria por isso. — disse o ariano abrindo a torneira para lavar os pratinhos.

A seu lado Shaka respirou fundo.

— Eu vou pensar. — disse o loiro, e saiu apressado sem dizer nada, mas segundos depois voltou, encostou seu corpo no do ariano o pressionando contra a pia de modo a ficarem colados e beijou seu pescoço dando uma leve mordida em seguida — Talvez eu conte mesmo e até a chame para assistir comigo... Será bom ter alguém com quem eu possa discutir a trama, já que meu marido dorme o tempo todo.

— Hummm... Eu não durmo, Shaka. — disse Mu fechando os olhos sentindo a pele toda arrepiar — Eu reabasteço minhas energias, já que depois da novela eu tenho um esposo fogoso para saciar na cama.

Com um sorriso travesso Virgem deu uma apalpada seguida de um sonoro tapa nas nádegas de Áries e seguiu ligeiro para o quarto, onde havia colocado a televisão.

Com sorte ainda conseguiria assistir o segundo bloco da novela.

***

Depois que terminou de lavar a louça, Mu passou no quarto de Kiki para verificar o bebê antes de seguir a seu quarto, e qual não foi sua surpresa ao abrir devagarzinho a porta e encontrar Geisty. A amazona havia arrastado a poltrona até o berço do bebê e dormia ali, encolhida ao lado do pequeno lemuriano que ressoava baixinho. Suas auras estavam unidas, tranquilas, e emanavam amor e confiança.

Aquela cena tocou profundamente o coração de Mu.

Ele que não conhecia o amor materno, assim como Kiki, viu naquela cena uma mãe transcender a perda de seus filhos e direcionar todo aquele sentimento maternal existente em seu âmago para o pequeno bebê ruivinho.

Embora seu filho nunca fosse substituir Heitor e Dario, Geisty precisava extravasar todo aquele amor que guardava no peito, e estava mais do que óbvio que Kiki estava plenamente receptivo a ela.

Os planos mais uma vez foram mudados.

Áries fechou a porta devagar para não incomoda-la e rumou apressado para seu quarto. Tivera uma ideia, e era sua vez de conversar com o marido antes de coloca-la em prática.

Notas finais
Weee Geisty agora é moradora de Virgem :v Pobre Shaka e suas novelas. Mas esse ambiente novo fará bem a nossa querida amazona, afinal ficar isolada em Gêmeos com o coiso ruim é que não dava né não? beijossss