Templo das Bacantes Vol. 2
39 Entre a cruz e a espada.
Notas iniciais

Enquanto na Grécia Dimitri Yurievich Volkov e seus homens executavam a Operação Terra Queimada, em Moscou outro membro da Vory v Zakone tentava juntar as peças de um quebra-cabeça perigoso.
Na viela escondida entre os maciços blocos de degradados e acinzentados edifícios que remetiam à Era Soviética, no violento bairro Chertanovo, ao Norte de Moscou, silencioso Camus investigava a carcaça carbonizada do que anteriormente fora o Lexus preto blindado de Dimitri, com um olhar grave e semblante preocupado.
No dia anterior, após ter decidido retornar à Russia com Hyoga depois da fastidiosa discussão com Afrodite, o aquariano foi pego de surpresa pela notícia de que o Vor máximo da organização havia sofrido um atentado, mas que não sofrera nada grave e passava bem. Nada de novo para o mundo do crime, nem para quem estava tão acostumado a ele, não fosse por dois curiosos detalhes: ter sido informado do atentado por terceiros e não pelo próprio Dimitri, que também não o procurou para arquitetarem juntos uma retaliação.
Como segundo Vor e braço direito do patriarca russo da Vory v Zakone, o fato de não ter sido convocado para achar os culpados, nem ter sido colocado a par dos detalhes intrigou Camus, que era tratado como um filho por Dimitri, portanto, em caso de um atentado o normal seria ele ser o primeiro a ser informado pessoalmente e encarregado de retaliar os culpados. Somado a isso, o líder da “família” parecia estar incomunicável, outra situação muito suspeita. Mesmo depois de passar horas tentando contatar Dimitri por todas a vias possíveis e receber todo tipo de desculpas, Camus nada conseguiu saber sobre o paradeiro do Vor.
A mente do aquariano era toda especulações e suspeitas, e ele decidiu imediatamente começar a investigar o que de fato estava acontecendo, já que todos os seus sentidos, somados à sua vasta experiência na máfia, lhe indicavam que algo estava sendo escondido de si.
Não havia feito pausa desde que chegara da Grécia, nem mesmo para descansar da viagem com Hyoga, e astuto passou o dia em uma investigação discreta, solitária e sigilosa que o levou até ali, naquela viela escura em Chertanovo.
Agachado em frente à carcaça queimada do carro, vestido com um sobretudo preto de couro e as mãos calçadas com luvas, com auxílio de uma lanterna vasculhava as cinzas do que outrora fora um luxuoso Lexus blindado.
Horas antes a polícia havia isolado a área e removido os corpos do motorista e do detetive para dar início ao processo de identificação, porém esse jamais seria concluído, já que por um bom preço Dimitri havia conseguido fazer com que a história fosse abafada, da mesma forma que por outra boa quantia paga aos detetives encarregados do caso Camus tinha conseguido acesso ao local do crime com exclusividade.
— Isso non foi uma emboscada! — murmurou o aquariano estreitando os olhos — Dimitri... O que o levou a queimar o próprio carro e contar essa mentira? — falava consigo mesmo ao se levantar e esfregar os dedos sujos de fuligem enquanto dava a volta em torno do veículo — Isso foi certamente uma queima de arquivo. Mas, que arquivo você precisava apagar que não fosse de meu conhecimento?
Cada vez mais preocupado, e acreditando que talvez o velho russo tivesse desconfiado dos documentos fiscais que havia pedido ao contador, e quem sabe de alguma forma descoberto sua reunião com Saga, Camus agora vasculhava não apenas o carro, mas também seu entorno a procura de alguma pista.
Caminhou a passos lentos observando cada mínimo detalhe daquele monte de cinzas e ferro carbonizado em vão, até que agarrou o puxador do que um dia fora a porta do veículo e com um solavanco a arrancou. Queria olhar por dentro, mais de perto.
Praticamente entrou na carcaça negra de metal, e logo o cheiro dos corpos carbonizados que antes ali estavam subiu-lhe às narinas lhe causando um desconforto nauseabundo. Era insuportavelmente forte, mas mesmo enjoado se pôs a vasculhar tudo com o máximo de cuidado e minúcia, iluminando cada canto com a luz da lanterna.
Alguma pista deveria ter sido deixada para trás, já que reza a lenda que não existe crime perfeito.
Dito e feito!
A queima do automóvel não se dera 100%. Alguns destroços escaparam da destruição total, ainda que tivessem ficado bem chamuscados, incluindo resquícios do que parecia ser uma pequena pilha de papéis cobertos por cinzas e bem carcomidos. Camus tinha certeza de que ao toca-los eles se desfariam em pó, mas mesmo assim estendeu a mão enluvada e começou a espalhar cuidadosamente as cinzas na esperança de ter sobrado algum vestígio no interior da pilha, onde o calor seria menos intenso e a falta de oxigênio consumido pelo fogo ao redor poderia ter impedido a combustão completa.
E de fato por baixo de todas as cinzas haviam pequenos fragmentos crestados do que pareciam ser fotografias.
Camus franziu as sobrancelhas curioso, e com um olhar grave e atento foi desgrudando as folhas, uma por uma, para analisa-las. Estavam muito danificadas. As que não haviam sido queimadas por completo tinham virado um borrão disforme, mas depois de muito insistir eis que encontrou uma que parecia minimamente aproveitável. O papel fotográfico estava borrado e enegrecido, porém um dos cantinhos sobreviveu a queima total.
Aquário saiu do automóvel com o pedaço preservado da fotografia na mão, pois lá dentro o cheiro ainda presente e forte dos corpos o estava deixando com o estômago embrulhado, no mais, do lado de fora respirando ar fresco conseguiria iluminar o papel chamuscado para avalia-lo melhor
Ao aproximar o fragmento de foto de seu rosto somente o que conseguiu deduzir é que era a imagem de uma mulher. O fogo havia queimado praticamente tudo, deixando visíveis apenas parte do chapéu, do óculos escuro e da orelha, a qual exibia um belíssimo brinco dourado em formato de rosa.
Meros detalhes que para qualquer pessoa na face da Terra não diriam nada, mas que para Camus era o prenúncio de seu pior pesadelo.
— Por Dieu! Non pode ser! — a voz saiu abafada e as mãos que seguravam aquele ínfimo pedaço de papel estremeceram.
O terror o tomou de assalto quando reconheceu não apenas o chapéu, modelo floppy, mas também os brincos, pois se tratavam de uma joia de ouro feita por encomenda por ele mesmo, e a qual presenteara o namorado, Afrodite, quando completaram dois anos de namoro, e que agora ele usava quando se disfarçava.
Com a boca seca e o coração a pular alucinado dentro do peito Camus se perguntava o que uma foto de Afrodite fazia no carro carbonizado de Dimitri, e como fora parar ali. Sua mente já traçava na velocidade da luz milhões de teorias, possibilidades e suspeitas, todas aterrorizantes e que apontavam para uma única e óbvia resposta que ele se negava a aceitar.
Sentiu uma pequena tontura, mas antes mesmo que pudesse se recuperar daquele choque sua atenção foi roubada ao sentir distante a agitação dos Cosmos de alguns dos Cavaleiros de Ouro na Grécia.
— Mas o que...?
Em poucos segundos sua mente racional se pôs a trabalhar.
Eram coincidências demais para um dia só. Definitivamente havia algo de errado e Dimitri, Afrodite e agora os Cavaleiros estavam envolvidos.
— Salaude des enfers!* — esbravejou já metendo o fragmento da fotografia no bolso do sobretudo enquanto corria para seu carro, estacionado ali perto, enquanto no caminho tentava detectar o Cosmo de Afrodite usando o seu — Merde! Merde!**
Não conseguindo contato com Peixes através do Cosmo, Camus entrou às pressas em seu automóvel esportivo, apanhou o celular e discou para o número privado que tinha com o pisciano.
— Merde, Afrodite! Atende, sua fodida! — murmurou já enfiando a chave na ignição.
Novamente sem resposta. O que poderia ser um bom sinal, pois já que o Cosmo de Peixes estava inativo poderia significar que ele não estava em perigo, caso contrário o estaria usando para lutar, mas como não sabia o que estava acontecendo na Grécia, sem perder tempo deu partida no carro e decidiu que precisava agir imediatamente.
Enquanto cortava as ruas de Moscou em alta velocidade, fez outra ligação, agora para Andreas, seu braço direito e homem de confiança dentro da Vory, e que estava em sua mansão fazendo a guarda de Hyoga a pedido seu.
— Alô, Andreas? Preciso que ouça minhas instruções e siga minhas ordens com urgência, e non me interrompa! — disse em disparada assim que o outro atendeu, nem lhe dando chance de resposta — Preste atenção: Surgiu uma emergência. Eu ainda non posso lhe dar detalhes, mas preciso que fique aí em minha casa, com Hyoga e depois...
Camus abruptamente interrompeu sua fala quando sentiu o Cosmo de Shura de Capricórnio contatar o seu emitindo um alerta de invasão ao Santuário.
— Putain de merde! C’est naze!*** — exclamou arregalando os olhos avelãs.
“Chefe? O que foi chefe?... Alô!”, Andreas o questionava do outro lado da linha.
— Andreas, cuide do Hyoga! — o tom da voz de Camus mudara, o que antes entoava como um pedido agora tinha uma nota grave, emitindo seriedade e perigo — Non saia de perto dele, non fale com ninguém e non atenda a porta até que eu lhe dê uma segunda ordem.
Sem esperar a resposta do capanga, e confiando plenamente nele, o ruivo desligou o aparelho celular exibindo uma carranca angustiada em seu rosto e encostou o carro numa vaga qualquer ali mesmo, na rua em que passava. No instante seguinte a armadura de Aquário cobriu seu corpo e Camus correu na velocidade da luz em direção à Grécia.
Sua investigação levara tempo demais, e agora poderia ser tarde.
***
Pelo mundo outros cavaleiros também sentiam o Cosmo de Shura emitindo o alerta.
No Tibet, Mu e Aiolia não haviam encontrado a ameaça que rondava a torre de Jamiel. A presença deles parecia ter afugentado o invasor, por isso é que mudaram de estratégia e juntos começaram a percorrer as vilas em busca de alguma informação dos moradores. Leão vigiava o sono de Kiki, que agora estava em seus braços, enquanto Mu perguntava aos habitantes locais se haviam visto algum forasteiro.
O lemuriano era uma figura conhecida por muitos, mesmo agora não morando mais no alto da montanha, e principalmente os mais velhos logo vinham até ele cumprimenta-lo e responder suas perguntas.
Não foi surpresa para Mu quando escutou de alguns moradores do vilarejo que uma figura alta e encapuzada falando um idioma desconhecido apareceu por ali naquele dia fazendo perguntas sobre a torre na montanha, mas mal tivera tempo de dividir a notícia com Leão, pois após sair da última casa e pegar o filho de volta nos braços ambos sentiram o alerta e trocaram um olhar aflito.
— O Santuário! — exclamou exaltado e surpreso o leonino, de olhos arregalados.
— Vamos deixar Jamiel para depois, Aiolia. — Mu respondeu tão surpreso quanto ele, já ajeitando Kiki no sling — As 12 Casas estão desfalcadas. Vamos voltar imediatamente para nossos postos.
E com um aceno afirmativo do leonino, Mu franziu a testa e teleportou a ambos direto para as escadarias do Santuário, onde sem ainda entender o que ocorria, mas também sem perder tempo, ocuparam seus postos como guardiões dos templos de Áries e Leão.
***
Há muitos quilômetros da Grécia, totalmente alheio ao plano audacioso de Dimitri, Milo de Escorpião cumpria mais um translado de moças, operação solicitada pela Vory v ZaKone.
A tarefa, demandada com extrema urgência e muito bem remunerada pelos russos, exigia que o escorpiano atravessasse um grupo de quinze belas moças georgianas que fugiam da situação precária de seu país em busca de condições de trabalho mais bem gratificadas em um requintado bordel de Moscou.
Acompanhar as moças que viviam no vilarejo do vale de Pankisi era um serviço extremamente fácil para Milo, pois apesar da geografia acidentada da região esta era familiar a elas, portanto seguir através da Chechênia até finalmente alcançarem o território russo nem levaria muito tempo. Assim pensava Milo, mas não foi o que aconteceu.
O que o escorpiano não contava era que assim que atravessassem a fronteira rochosa entre os dois países se deparariam com um cenário caótico logo na primeira cidade que lhes serviria de descanso para a viagem. Em meio ao fogo cruzado entre revolucionários chechenos e milicianos russos, explosões, gritos de agonia e pedidos suplicantes de socorro, Milo conseguiu abrigo para as quinze moças que acompanhava, em um hospital de campanha improvisado pelos moradores locais.
Diante daquele caos civil, e provido de uma natureza benevolente, além de seu juramento de servir à deusa Atena e proteger a humanidade, Milo em poucos minutos se via ajudando a abrigar a população daquele vilarejo no humilde hospital improvisado para também protege-los do fogo cruzado.
O mais intrigante era que nem Escorpião nem a imprensa local pareciam estar cientes daquele conflito, uma vez que diante da aceitação de independência da Chechênia as tropas militares russas se retiraram do local. Porém, rebeldes russos não satisfeitos em perder o território antes ocupado por eles incitaram uma rebelião, batendo de frente com revolucionários chechenos que recebiam suprimentos bélicos de origem albanesa. Milo tinha conhecimento do ódio existente entre albaneses e russos, o qual já perdurava de longa data, e aquele conflito era como riscar um fósforo dentro de um paiol.
Já trajando sua sagrada armadura de ouro de Escorpião, Milo corria carregando os feridos nos braços para protege-los do fogo cruzado e evitar que pisassem nas minas terrestres no trajeto até o hospital de campanha, quando de repente sentiu o Cosmo de Shura alertando para uma invasão no Santuário.
— O quê? — arregalou os olhos em espanto — Não pode ser! Justo agora? Não tem mais nada para dar errado nesse dia? — disse em assombro em voz alta mesmo, enquanto se agachava próximo a entrada da barraca do Pronto Socorro trazendo uma senhora ferida em seus braços.
— O que foi Milo? Você está falando com quem? — perguntou em um russo sofrido uma das jovens que o escorpiano acompanhava para levar até Moscou.
Milo olhou preocupado para a jovem que o questionava e em seguida para todo o seu redor ocupado por pessoas desesperadas, feridas e que necessitavam de ajuda urgente. Soltou por fim um suspiro resignado e respondeu em russo de forma bem simplória.
— Nada, não se preocupe.
Enquanto ajudava a idosa que tinha em seus braços a se acomodar em uma maca improvisada no chão ouvia a jovem georgiana.
— Você disse que é muito forte, que faz coisas inacreditáveis... Por que não mata esses rebeldes infelizes e seguimos o nosso caminho? O tempo está passando e nós vamos perder o trem para Moscou. Eu vou perder a minha chance.
— Para de falar besteira, garota! — Milo respondeu ríspido — Eu não posso simplesmente sair por aí matando gente, ou eu seria tão ou mais covarde que eles se fizesse isso. Eu sirvo a uma causa maior. Vivo para defender as pessoas, não para matar quem eu julgo se comportar errado.
A georgiana de cabelos claros e olhos muito azuis o fitou séria, assustada com a repentina mudança de humor do grego, que se aproximou e a olhou bem dentro dos olhos.
— Sorte sua e de toda essa gente aqui que eu não penso como você, não é gatinha? Caso contrário você e suas amigas estariam no meio desse fogo cruzado junto com todo esse pessoal, enquanto eu já estaria bem longe indo para a minha casa. — sem desviar o olhar esticou uma caneca esmaltada e amassada a jovem — Pega, vai encher essa caneca com água para essa senhora, enquanto isso vou proteger quem está tentando chegar aqui para se abrigar.
Dito isto Milo saiu em socorro dos civis na zona de confronto, sempre com seu Cosmo em alerta e em ressonância com os Cosmos dos demais Cavaleiros de Ouro, pois assim poderia se manter atento a qualquer movimentação brusca no Santuário, já que nada havia sido notado por ele de anormal além da aglomeração de seus irmãos de armas nas Doze Casas. Ao que tudo indicava, se algo aconteceu no Santuário rapidamente havia sido contido, e sua presença não era de extrema urgência, diferente daquele lugar remoto que precisava muito de sua ajuda.
Por isso mesmo havia decidido se manter ali ajudando a população local e assim que tudo fosse apaziguado iria entrar em contato com o Santuário o mais rápido possível.
***
Desde o alerta do rompimento do Selo de Atena nas primeiras horas daquele mesmo dia, em Tenochtitlan, na atual Cidade do México, prosseguia a árdua batalha entre o deus Tezcatlipoca e os dois Cavaleiros de Ouro tidos como os mais poderosos da atual geração.
Logo que chegaram ali a principal manobra dos Santos de Atena foi evacuar completamente a área deixando o Templo Mayor completamente isolado. Este outrora fora um dos principais templos do panteão asteca erguido e dedicado aos deuses Huitzilopochtli e Tlaloc, mas que após a penúltima guerra Santa passou a servir de prisão para a tríade principal, Tezcatlipoca e seus dois irmãos. Assim, enquanto Saga continha a divindade ainda enfraquecida para ganhar tempo, Shaka evacuava a área até não sobrar cão, galinha ou gato em cada vilarejo.
Mesmo com esse cuidado todo fora praticamente impossível evitar muitas baixas, já que a divindade asteca alimentava-se de energia vital e dependia dessa para se fortalecer, porém a rápida resposta do Santuário com a chegada dos dois Cavaleiros ali evitou o pior, que Tezcatlipoca rompesse os outros dois Selos de Atena que mantinham presos seus irmãos.
Sem a tríade formada, o deus asteca não viu alternativa senão preservar seu corpo verdadeiro o mantendo dentro do Templo Mayor, e escolher um corpo humano como receptáculo para poder enfrentar os dois guerreiros de Atena. Assim, possuíra o corpo de um dos sacerdotes que guardavam as urnas e com esse foi que entrou em combate com os dois Cavaleiros.
O conflito, que já se estendia por horas, deixava visível o nivelamento dos poderes e Cosmos dos três combatentes, com uma pequena vantagem para os dois Cavaleiros que Ouro que, diferente do deus asteca, estavam em sua plenitude de poder e vigor físico, além de que não lutavam sozinhos, mas em perfeita e extraordinária sintonia.
Procurando preservar a vida do sacerdote cujo corpo servia de receptáculo para Tezcatlipoca, Shaka havia usado o Tesouro do Céu para prendê-lo e privá-lo dos cinco sentidos humanos, mais o sexto, numa tentativa de obrigar a divindade a deixar aquele corpo e assumir o seu verdadeiro, pois só assim Saga podia Selá-lo, enquanto o Cavaleiro de Gêmeos fechava as sucessivas dimensões que Tezcatlipoca tentava abrir para contra atacar ou mesmo tentar uma fuga.
Tudo parecia sob controle quando finalmente Shaka arrancou todos os sentidos da forma física assumida pelo deus asteca, fazendo com que esta tivesse as forças exauridas por completo, então Saga já se preparava para selá-lo abrindo a urna sagrada que levara consigo, mas eis que exatamente nessa hora o Cosmo de Shura fora sentido por ambos os Cavaleiros, emitindo um alerta de invasão.
Milésimos de segundos.
Foi o tempo que os Cosmos de Saga e de Shaka vacilaram.
Milésimos de segundos em que o terror atingiu seus corações estraçalhando toda e qualquer concentração na luta, pois um alerta de invasão vindo do Santuário agora para ambos tinha uma força muito mais pessoal.
O pensamento de Saga abraçou em desespero a lembrança de Geisty e dos filhos, temendo por sua segurança, e Shaka, de olhos fechados, sentiu o peito congelar diante da imagem de Kiki e Mu que se desenharam em sua mente. Será possível que a terrível visão que tivera na noite anterior se concretizaria?
Acima deles, pairando no ar sobre a milenar e imponente pirâmide de Tenochtitlán, resistindo, imóvel e imperturbável tal qual uma imagem esculpida em mármore ou bronze, Tezcatlipoca viu naquele ligeiro vacilo sua chance de vencer o embate.
Abrindo mão do corpo humano que usava como receptáculo a divindade liberou seu poderoso espírito, e este mergulhou para dentro do Templo Mayor pegando ambos os Cavaleiros de surpresa.
“Saga, ele vai atrás do corpo verdadeiro!”, disse Shaka diretamente à mente do geminiano já saltando na mesma direção, seguindo a divindade para dentro do Templo asteca.
“Eu sei. Não podemos deixar que o alcance, nem que rompa os outros dois Selos. Proteja as outras urnas, ou não teremos chances contra os três, Shaka. Depressa!”, disse o Grande Mestre seguindo pelo mesmo caminho que Tezcatlipoca havia tomado na velocidade de um relâmpago.
Antes mesmo de chegarem ao núcleo da grande pirâmide para onde seguia o Cosmo da divindade, o Cavaleiro de Virgem isolou as outras duas urnas que guardavam os corpos e espíritos de Quetzalcóatl e Xolotl, os deuses que junto com Tezcatlipoca compunham a poderosa tríade asteca, usando seu escudo de Cosmo, o Khan, e na mesma hora a terra tremeu sob seus pés.
A escuridão que já tomava aquele mausoléu sagrado se adensou ainda mais. Era como se a própria noite tivesse caído sobre seus corações. Então, as paredes de rocha da construção milenar gemeram e o núcleo da poderosa fortificação aos poucos era engolido por uma distorção temporal, como se o universo, não aquele que estavam familiarizados, mas um grandiosamente mais poderoso, surgisse ali para dragar a tudo que tocasse.
Aquela era a dimensão na qual somente deuses eram capazes de atravessar.
No centro daquele fragmento de macrocosmo estava Tezcatlipoca, agora em sua forma original, uma figura assustadora e imponente que sustentava uma furiosa carranca de jaguar e trazia cravado no peito um espelho de pedra obsidiana polida, através do qual podia refletir passado, presente e futuro.
“Saga!”
Shaka gritou ao chegar ali e ver refletido no espelho de Tezcatlipoca a face de Gêmeos, porém a face do mal, aquela que outrora tanta desgraça havia trazido para todos e tanta dor para si. Cabelos totalmente negros, olhos escarlates de um brilho desumano e um sorriso hediondo estampado em uma máscara de perversidade.
“Não acredite no que o espelho de Tezcatlipoca te mostra, Virgem!”, disse o Santo de Gêmeos, o verdadeiro, enquanto lutava para fechar aquela dimensão. “Aquele não sou eu. Não sou eu! Agora que está mais poderoso, já que está em sua forma verdadeira, ele vai tentar nos enganar nos mostrando um reflexo do passado para confundir nossas mentes e nos puxar para a dimensão divina.”
— Nossos corpos... Serão... destruídos. Argh! — gritou Saga, que com seu Cosmo elevado a um nível inimaginável conseguiu de forma surpreendente impedir o avanço da abertura daquela dimensão, mas ainda tinha que Selar a divindade, e esta tinha o corpo totalmente protegido por aquele macrocosmo divino.
Shaka então abriu seus olhos, e no momento que seu Cosmo explodiu alcançando um patamar indizível ele olhou para o lado, para o rosto verdadeiro de Saga, ignorando a imagem refletida no espelho.
Seu coração, apesar de aflito, se regozijou ao enxergar a face boa do geminiano, e diante daquele ínfimo segundo de paz e confiança o Santo de Virgem sentiu uma presença divina banhar seu espírito.
— Eu vou puxa-lo para fora. — disse o indiano — Abra a urna de Atena.
— O que? Não pode se lançar lá para dentro! Shakaaa!
Saga gritou aflito na mesma hora em que Virgem, envolto por uma aura dourada, levitou até a borda da dimensão divina aberta por Tezcatlipoca.
***
Diferente de Áries e Leão, Aquário quando chegou à Grécia não rumou para o Templo do qual era guardião.
Não era à toa que Camus era o segundo Vor da Vory v Zakone. Ele conhecia a organização como ninguém, seu modo de agir, suas estratégias, por isso ocultou seu Cosmo para que sua presença não fosse sentida pelos companheiros e sorrateiramente rumou para o Templo das Bacantes, onde tinha plena certeza de que encontraria as respostas que procurava naquele beco violento de Chertanovo, em Moscou.
Movendo-se nas sombras e com pressa, pois sabia que sua posição dupla agora o colocava em risco, Camus usou a passagem dos fundos do Templo das Bacantes que dava para um corredor praticamente isolado, o mesmo que usava para sair furtivamente do quarto de Afrodite quando ainda encontravam-se ali. Esgueirando-se ligeiro, e sem que ninguém se desse conta de sua presença, logo chegou à porta dos aposentos particulares do sueco e entrou.
Por um instante se sentiu aliviado ao notar que o local estava intocado e sem sinais de luta. Estava escuro, vazio, e podia ouvir do lado de fora a movimentação desesperada das pessoas, choro, gritos e vozes de comando.
Uma apreensão enorme lhe tomou de assalto causando um forte aperto em seu peito. O cheiro de pólvora e sangue era forte e podia ser sentido mesmo através das paredes e da porta fechada, sobressaindo até ao odor forte de rosas que emanava dos objetos pessoais do namorado.
Apesar de sua investigação, e de atender prontamente ao alerta de Shura, tudo indicava que havia chegado tarde. Seja qual fossem os planos e ordens de Dimitri, dada a balburdia que ouvia ao longe a ação já havia sido executada.
Camus fechou os olhos e puxou profundamente o ar para dentro dos pulmões procurando mais uma vez se acalmar.
Sabia estar em uma situação extremamente delicada frente ao Santuário. Como Vor da máfia russa seria difícil provar que não estava envolvido seja lá o que fosse que descobrisse quando saísse daquele quarto, ainda mais depois de sua ausência, que poderia ser interpretada como uma saída estratégica. Por outro lado, a foto de Afrodite, a qual ainda estava consigo, lhe indicava que seu lugar na “família” russa também estava ameaçado.
Preocupado Camus se aproximou da porta que dava acesso ao corredor interno, encostou o rosto na madeira e tentou ouvir o que conseguisse, silencioso, imóvel. Sua tensão naquele momento era tamanha que um ar gélido saía de sua boca entreaberta e das narinas e se condensava embaçando o verniz que revestia a porta. Precisava urgentemente descobrir e entender o que estava acontecendo para rapidamente poder traçar uma estratégia que garantisse sua segurança, e também a de Hyoga e de Afrodite.
Sentindo-se até um pouco enjoado devido ao medo e apreensão do que podia ter ocorrido ali, mas determinado a manter-se firme já que muito dependia de si e do modo como reagisse, Camus engoliu em seco ao ouvir a voz de Shina, que enérgica e nitidamente abalada dava ordens para alguns Cavaleiros de Prata que pareciam ter acabado de chegar. Ouviu quando a amazona lhes mandou recolher os feridos e escoltar as garotas que ainda estavam nos quartos até o posto médico. Ouviu também a voz de Marin, e ambas conversavam enquanto passavam pelo corredor:
“Shina, acabei de voltar do porão. Levei um kit de primeiros socorros para Misty.”
“Ah, que ótimo. Fez bem.”
“Até ficaria lá para ajudá-lo a fazer um curativo, mas creio que você precisa de mais ajuda aqui em cima... No entanto... Acha seguro deixa-lo sozinho vigiando aquele homem?”
“Sim, Marin, totalmente seguro. Anda, preciso que leve Rebeca para a enfermaria. Ela precisa retirar uma bala alojada na perna e levar pontos. Depois, a ideia de manter o desgraçado do russo vivo foi do próprio Misty, então ele que se vire em vigiar e fazer os próprios curativos. Agora precisamos pensar em...”
As vozes então ficaram distantes demais para que Camus pudesse entender o que diziam, mas o que tinha ouvido fora o suficiente.
— Mon Dieu... Eu non posso acreditar! — sussurrou o ruivo ao se afastar vagarosamente da porta, sufocado. Seu estado de tensão lhe causava falta de ar, as palmas das mãos suavam frio e seu coração batia tão forte e rápido que sentia o peito doer — Será possível que...
Estava nítido que a Vory havia engendrado um atentado contra o Templo das Bacantes, e um de seus membros agora estava em poder do Santuário, no porão, vigiado por Misty de Lagarto.
Mesmo imerso em um dilúvio de emoções, tensão, medo, nervosismo, Camus manteve-se frio o suficiente para não perder o raciocínio. Sabia que precisava ter acesso ao russo capturado antes de Saga, ou talvez perderia a chance de provar sua inocência frente ao Santuário.
Acessar o porão do Templo de Baco sem ser visto por ninguém não seria uma tarefa fácil, mas também não era impossível. Afrodite lhe mostrara todas as passagens secretas que existiam naquela construção milenar, e suas habilidades de Cavaleiro de Ouro lhe davam vantagem sobre as patentes inferiores.
Por isso, mais que depressa retornou à porta dos fundos do quarto, acessou o corredor por onde havia chegado até ali e através das passagens secretas chegou ao subsolo. De frente para a porta do porão sentiu o Cosmo oscilante de Misty.
Desejava estar sozinho naquele momento, mas ser o cavaleiro de Lagarto a estar ali era dos males o menor. Ou pelo menos era o que achava, até abrir a porta silenciosamente e dar de cara com uma cena que nem em seus devaneios mais insanos imaginou que veria.
O choque de Camus com aquela realidade inimaginável foi instantâneo.
Estarrecido o aquariano olhou para Dimitri amarrado a uma cadeira de madeira, a cabeça pensa para um dos lados, desacordado, e num dilacerante momento de angustia se deu conta de que tudo mudaria em sua vida a partir daquele momento.
Julgou que encontraria ali algum membro de influência menor, jamais o próprio Dimitri, e se o Vor em pessoa estava ali significava que a situação era muito mais séria e perigosa do que jamais imaginou.
Temeu por si, temeu por seu filho... temeu principalmente por Afrodite.
Mesmo com toda a cautela do aquariano, os ouvidos bem treinados e sorrateiros de Misty ouviram o ruído das dobradiças da porta rangendo seguido do som quase desprezível da sola de metal da armadura de Aquário ao se chocar com o chão de pedra, e quando virou o rosto para a entrada do aposento os olhos azuis escuros lhes saltaram das órbitas. Surpreso abriu a boca em choque. Não esperava ver o aquariano tão cedo, e também não sabia o que ele fazia ali, antes de qualquer Cavaleiro aparecer, até mesmo Saga, a quem imaginou que veria atravessar aquela porta antes de qualquer outra pessoa, mas, ligeiro como era, mesmo com o coração aos pulos e os nervos a flor da pele manteve o sangue frio e a mente focada. Não sabia de fato se Camus estava ou não do lado do Santuário, se tinha algum envolvimento com aquele ataque tão ousado quanto suicida da Vory, ou até que ponto estava envolvido, mas sabia que aquela era a hora de ele, Misty, tomar um dos lados, e esse seria o mesmo do Santo de Aquário, não importando qual deles seria.
— Camus! — sussurrou em voz baixa — Alguém te viu descer até aqui? — fez a pergunta demonstrando mais nervosismo do que de fato sentia.
— Non! — Aquário respondeu, finalmente voltando sua atenção ao Lagarto, com o coração ainda aos pulos — Assim que senti o Cosmo de Shura vim direto para cá para ter certeza do que estava acontecendo. — fechou a porta com cuidado para não fazer barulho e caminhou alguns passos para dentro do recinto, olhando ora para Misty, ora para Dimitri. Seus piores medos se tornando reais na visão do Vor inconsciente — Pelo jeito é pior do que eu esperava... — Camus então caminhou até o jovem loiro e segurou em seu ombro com força — O que aconteceu aqui, Misty? Eu preciso saber de tudo. Onde está Afrodite?
A voz saiu forte e ríspida devido à urgência e seriedade das perguntas, e o rosto do ruivo estava fechado em uma carranca.
Misty levantou os olhos encarando o francês interrogativamente, e por um breve momento analisou cuidadosamente suas feições. Fitou os olhos avelãs que aflitos aguardavam sua resposta, os músculos trêmulos do rosto, a respiração ligeiramente agitada que escapava dos lábios frementes e, conhecendo o aquariano como conhecia, concluiu que ele nada tinha a ver com toda aquela desgraça, mas era tão somente outra vítima dela.
— Pelo jeito alguém deu com a língua nos dentes, né Camus. — disse Lagarto estreitando os olhos — Eu disse tantas vezes para você e Afrodite tomarem cuidado, não se exporem tanto, mas aquela bicha venenosa sempre levou a minha preocupação para o pessoal, sempre me acusando de invejoso, sempre fazendo sua cabeça contra mim... E Saga? Saga subestimou a Vory. Achou que podia brincar de casinha com a puta deles... Vocês dois vacilaram feio.
— Misty, eu non pedi sua opinião, nem preciso de uma lição de moral nesse momento. — o ruivo cortou o Lagarto, e irritado com suas indiretas o agarrou pelo braço enfaixado por uma atadura e o empurrou contra uma das colunas, encarando seus olhos com fúria — Eu te fiz uma pergunta. Quero saber o que aconteceu aqui. O que EXATAMENTE aconteceu aqui, Misty? Me diga o que você sabe.
Lagarto soltou um gemido abafado de dor e contorceu o rosto fechando os olhos.
— Aiiii. Meu braço! — abriu os olhos e encarou Camus com zanga — Pega leve, ruivo, não está vendo que estou ferido? — fez um bico e suspirou profundamente — O que eu sei? Exatamente, e precisamente, ainda nada, apenas o óbvio. Seus amigos russos declararam guerra ao Santuário. Não passou pelo salão não? A Vory nos atacou, Camus! Chegaram aqui de mansinho, disfarçados, e pelo que me parece eles tinham uma estratégia muito bem traçada, além de extremamente eficiente, porque quando percebemos já era tarde demais. Eles sabiam o que estavam fazendo e quem estavam enfrentando. Você está bem ferrado ruivo!
— Mas que merde! — exaltado o aquariano largou o braço de Lagarto e se afastou, dando alguns passos para trás até se voltar para Dimitri e ficar o encarando por algum tempo em silêncio, enquanto milhares de pensamentos martelavam sua mente, principalmente a imagem de Afrodite naquele fragmento de fotografia — A Vory nunca executaria uma operação tão arriscada a troco de coisa pequena... É bem provável que Dimitri tenha descoberto a gravidez da amazona de Serpente, ou até mesmo... — interrompeu-se de súbito em negação ao que quase havia dito.
— Seu caso com Afrodite. — completou Misty, que ganhou outro olhar severo do francês.
— Non... Dimitri non seria louco ao ponto de vir pessoalmente aqui apenas para...
— Dimitri? — Misty interrompeu o aquariano, que com o nervosismo havia deixado escapar que aquele homem amarrado à cadeira era ninguém menos que o líder da Vory v Zakone — Espera! Para tudo! Não me diga que esse velho aí é o tal Dimitri! O poderoso chefão!
Camus olhou de canto de olho para o Cavaleiro a seu lado e confirmou o que dissera com um aceno afirmativo de cabeça. Não adiantava mais esconder a identidade do Vor, pois sabia que assim que Saga chegasse ele o reconheceria.
— Oui. Esse ai é Dimitri Yurievich Volkov, o chefe da Vory v ZaKone, meu superior...
— Pela deusa! Me pinta de rosa que eu tô bege! — disse Misty arregalando os olhos e pousando as mãos no peito.
— Dieu. — Camus abaixou a cabeça e esfregou o rosto com ambas as mãos — Dimitri veio pessoalmente à Grécia executar uma operação contra o Santuário... Sem o meu conhecimento, ou seja... Ele sabia que se eu fosse colocado a par dela eu o impediria. — retirou as mãos do rosto e olhou para Misty, e agora seu semblante era aflito como nunca, os lábios tremiam e os olhos avelãs estavam imersos num mar de angustia — Por Atena, Misty, quem eram os alvos? Até onde eles conseguiram ir?... Eu... eu imagino que ele tenha traçado uma estratégia para inabilitar os Cavaleiros a fim de conseguir o que queria... ou non teria conseguido nem ao menos entrar no bordel... mas... eu... eu non sinto a presença nem o Cosmo de Afrodite...
Houve silêncio durante alguns segundos, e então Misty olhou sério para Camus, contraiu os lábios numa expressão de pesar e com a voz mais branda deu a fatídica notícia.
— Não o está sentindo porque ele não está aqui. — disse, depois fez uma pausa balançando a cabeça e espantosamente um aperto no peito e um nó na garganta o pegou de surpresa. Piscou os olhos retomando fôlego para continuar — Afrodite está ferrado, ruivo. Bem ferrado.
Ao ouvir aquilo Camus sentiu como se uma lâmina de gelo lhe atravessasse de uma só vez o peito num golpe bruto e cruel.
— Como assim ferrado? — perguntou com a voz trêmula, depois levou a mão até a altura do coração e a espalmou no metal frio da armadura.
Misty engoliu em seco.
— Máscara da Morte o levou para o Hospital de Atenas entre a vida e a morte...
Camus entreabriu os lábios, mas sua voz não saiu. Estava presa na garganta já dolorosamente apertada.
— Eu posso afirmar com convicção que Afrodite era um dos alvos, junto com Geisty, que também foi levada ao Hospital, talvez Shina e eu... — Misty continuou, tentando fingir indiferença e evitando olhar nos olhos do aquariano, mas por dentro estava em ebulição.
— Mas... o que... por Atena, o que fizeram com ele? E... e como conseguiram fazer algo com ele? — murmurou o francês com a voz embargada.
— Olha, eu não sei te responder, ruivo... Tudo que posso dizer é que os desgraçados dos teus amigos russos sabiam exatamente como parar Afrodite, como impedi-lo de agir... e souberam muito bem como machuca-lo feio. Ele... ele salvou a minha vida... e provavelmente foi ele quem botou esse velho maldito para dormir, mas ele não estava conseguindo usar o Cosmo e... todo aquele sangue...
Camus estava totalmente rígido, de olhos fora das órbitas a encarar o rosto pesaroso de Misty. Não se movia nem ao menos para respirar. Seu peito parecia congelado, como sua alma e sua vontade. Estava a beira de um colapso, mas o único sinal visível que seria capaz de denunciar seu estado eram as pupilas contraídas que viraram um pontinho minúsculo. "Todo aquele sangue... todo aquele sangue...”, A voz de Misty ecoava repetitivamente em sua mente.
Queria gritar, chorar, arrancar os cabelos... Sentia-se culpado, por não ter chegado a tempo, por achar que um dia poderia ter uma vida normal ao lado do pisciano e tê-lo envolvido com a máfia. Por fora ele se mantinha sereno feito um lago cristalino, mas por dentro um vulcão se remoendo prestes a entrar em erupção.
— Ele foi... ferido?... Você disse que... ele está ferrado, mas Afrodite é um Cavaleiro de Ouro e... Dimitri... a Vory... são apenas... civis... — balbuciou num murmúrio sôfrego e claramente temeroso.
— Pelo jeito você que sempre teve tanto cuidado com a Vory justamente por conhecer o poder dela agora a está subestimando. — disse Misty — Afrodite foi ferido sim, Camus... eu não vi, não sei pelo que, mas alguém abriu um buraco na barriga dele, e por algum motivo ele não conseguiu usar o Cosmo para estancar o sangramento... ele perdeu muito sangue e saiu daqui inconsciente. Se passar dessa noite vai ser um milagre.
Camus sentiu os joelhos fraquejarem e a dor no peito se tornar mais intensa. O enjoo de minutos antes voltara acompanhado de uma leve vertigem.
— Mon... Dieu... Eu non posso... acreditar... Se... se eu tivesse chegado antes... — sussurrou mais para si mesmo.
A voz antes imponente agora era um fiapo, pois o oxigênio começou a faltar, a visão ficou escura e achou que iria desmaiar, então o vulcão entrou em erupção.
Aquário começou a tremer por inteiro, cada músculo, cada fibra de seu corpo, mal conseguindo se manter de pé. Em seus olhos a represa havia se rompido e as lágrimas começaram a sair tão abundantes que pingavam em sua armadura, escorriam por baixo e lhe molhava a pele. Suas sobrancelhas se uniram e seu rosto ficou transfigurado pela dor.
Olhou nos olhos de Misty e não conseguiu evitar o choro copioso.
Camus só conseguia pensar que o amor de sua vida estava morrendo, e que a culpa era sua.
Todas as mentiras, todos os planos malucos usados para protege-los no fim não serviram de nada.
Natássia se foi, e agora estava perdendo Afrodite. Não era capaz de proteger ninguém. Não era ninguém. E todos que se aproximavam de si morriam.
Uma vontade grandiosa surgiu de morrer junto com Peixes. Implorava intimamente para que alguém surgisse do nada ali e também lhe ferisse de morte. Não ofereceria resistência, pois sua vida sem Afrodite de nada lhe valia.
Não resistindo mais ao baque das emoções que tanto lutava para conter, e que agora estavam soltas, caiu de joelhos no chão engasgado com a própria saliva em meio a soluços convulsos.
Lagarto, que não esperava uma reação tão intensa vinda de um homem como Camus, quando o viu prostrado aos prantos se abaixou e levando uma das mãos a suas costas tentou ampara-lo.
— Ei Camus, precisa ser forte... Saga deve estar para chegar aqui e não vai ser nada bom encontra-lo assim... Depois, bem... eu sei que disse que seria um milagre se a Escamosa passasse dessa noite, mas estamos falando de Afrodite, você mesmo conhece aquele viado como ninguém e sabe o quanto ele é imprevisível... além de muito forte. Ele até pode sair dessa.
— É culpa minha... eu devia tê-lo protegido. Eu devia tê-lo impedido de ir à Rússia. — disse o aquariano entre soluços.
— Tá maluco? E alguém nesse mundo consegue controlar aquela bicha desvairada? Camus, não se entregue, não pode se deixar abater. Não agora.
Camus nada respondeu. Com seus piores medos se tornando realidade o ruivo se desesperava cada vez mais.
Diante daquela reação do aquariano, Misty percebeu que se não agisse rápido estaria tudo perdido, e sem reservas tocou num assunto delicado, que sabia que surtiria o efeito desejado.
— Camus, você pode não ter conseguido proteger Afrodite, mas ainda pode proteger Hyoga.
O aquariano de súbito ergueu a cabeça e olhou para Lagarto.
— Ou se esqueceu que tem uma criança que precisa de você? — continuou Misty — Você não pode desistir agora, ou quem vai proteger Hyoga? O seu filho, Camus, ele o está esperando na Rússia sem saber de nada. Imagine a desolação dele se perder Afrodite e também você.
Astuto como sempre, ao perceber que era escutado Misty elegeu aquele o seu momento de glória. Iria obter a gratidão e confiança eternas de Camus. Aquela era sua chance de ouro para mostrar ao aquariano o quão superior, bondoso e prestativo ele era, o quanto Camus poderia confiar em si, e principalmente provar a ele que todas acusações que Afrodite sempre fazia contra sua pessoa não passavam de fato de calúnias.
— Agora mais do que nunca você precisa ser forte, ruivo. Precisa tirar força de onde não tem para se livrar dessa enrascada, porque Saga vai achar que está envolvido em tudo isso. Por isso, precisa ser mais rápido, mais astuto, e convence-lo do contrário. Eu acredito em você, mas e os outros? Sabe que a pena para traição ao Santuário é a morte, e se for acusado e declarado culpado o Hyoga vai estar sozinho nessa vida. Pior, nas mãos da máfia. Quem te garante que... Ah! Pela poderosa Atena, eu nem consigo falar...
— O quê? — Camus perguntou ainda choroso.
— Quem te garante que a Vory e também o Santuário não queiram cobrar de Hyoga a traição do pai? Sim, porque a Vory também pode te culpar, já que o velho ai é o chefão e agora está sob poder do Santuário... Camus... O Hyoga pode pagar pelos seus crimes. Ele seria filho de um traidor.
— Dieu!... Non diga uma coisa dessas nem brincando! — murmurou o francês.
— Então respire, se recomponha, recupere a calma e o raciocínio e vira esse jogo.
As palavras ardilosas de Misty foram como bofetadas na face úmida do aquariano, que as tomou como verdade absoluta. Sua família precisava dele. Poderia se lamentar depois, não agora.
Com um aceno positivo de cabeça Camus enxugou o rosto com a palma das mãos e se colocou de pé, sendo seguido por Misty. Respirou fundo algumas vezes e procurou recuperar a razão.
— Como Dimitri veio parar aqui, nesse porão? Disse que acha que Afrodite deixou ele inconsciente. — Camus perguntou um tanto mais recomposto, voltando a ter a feição séria e analítica de sempre, mesmo que por dentro seu coração estivesse despedaçado.
— A Shina ia matar o velho. Eu que não deixei e a convenci que era melhor deixa-lo vivo para Saga interroga-lo. Sei lá ele me pareceu importante, até porque um velhote desses não teria vindo para cá se não fosse um dos figurões. Só não imaginava que ele era O figurão, né! — Lagarto respondeu e aproveitou a deixa para mais uma vez ganhar pontos com o aquariano — Mas, eu queria era ganhar tempo. Eu sabia que manter um membro da Vory vivo poderia te ajudar a limpar sua barra... Eu estou do seu lado, ruivo, e vou te ajudar.
Camus olhou para Misty e mais uma vez concordou com ele, admirado com sua inteligência e astúcia.
— Está certo. — o ruivo respondeu — Eu quero ficar a sós com ele. Poderia ficar do lado de fora e me avisar caso alguém aparecer? Eu preciso ter uma conversa com meu chefe.
— Oh, mas é claro! — respondeu Misty todo solícito já se encaminhando para a porta de saída.
— Mais uma coisa. — disse Camus fazendo Lagarto interromper os passos e olhar para trás — Eu vou precisar de você para ter notícias de Afrodite.
— Como eu disse. Pode contar comigo. — respondeu o Cavaleiro de Prata antes de deixar o porão fechando a porta atrás de si.
Do lado de dentro, sem perder mais tempo e ainda um tanto desesperado Camus andou apressado até uma prateleira aos fundos do recinto onde pegou um balde de limpeza, o encheu com água que apanhou de uma pia localizada ali e retornou até onde o Vor russo estava amarrado à cadeira ainda inconsciente.
Com um golpe só, num gesto eletrificante de puro ódio e revolta, atirou a água diretamente no rosto de Dimitri para acorda-lo.
Agora ali eram só os dois, despidos completamente das mentiras que contaram um ao outro a vida toda para protegerem-se de si mesmos.
Negrito— traduzido do russo.
*Salaude des enfers! = Desgraçado dos infernos!
**Merde! Merde! = Merda! Merda!
***Putain de merde! C’est naze! = Caralho! Mas que merda!
Fale com o autor