Notas iniciais
Mais um cap e agora um pouco mais da dinâmica confusa e engraçada da casa de Virgem XD ps: a imagem de capa tem uma segunda versão que vai estar no nosso grupo de fics ;)

Santuário de Atena, Casa de Virgem, 8:33am

Com os pés descalços a caminharem em ritmo cadenciado e lento sobre o chão frio de pedra do longo corredor sustentado por dezenas de colunas dóricas, cujo destino era o suntuoso altar que abrigava a imensa escultura de flor de lótus esculpida em ouro, Shaka seguia perseverante para sua sessão matinal de meditação. Já no caminho tinha as mãos unidas à frente do peito e a atenção focada em sua respiração. Nem o sutil tilintar produzido pelas joias que adornavam seus tornozelos conforme andava perturbavam sua concentração.

Sua mente estava sob seu domínio, à sua mercê, como assim deveria ser desde que conseguira atingir o Oitavo Sentido.

Ao chegar a seu destino subiu na escultura dourada, sentou-se tranquilamente, cruzou as pernas assumindo a posição de meditação, respirou fundo e totalmente relaxado deu início.

— OooooooooooooommmmmmmAAAAAAAAAAAWWW!

O grito veio tão repentino e inesperado quanto a dor que sentiu no traseiro ao se mexer procurando uma posição confortável, e essa o fez erguer os quadris de forma abruta e de joelhos ainda na lótus levar a mão à fonte da dor, a nádega esquerda.

— Mas que... droga é... Aaaaaii... — gemeu ao puxar algo que estava preso em sua túnica budista e pelo jeito também nas carnes macias daquela região.

Quando pegou o objeto na mão e o trouxe para olhá-lo — tinha aberto os olhos quando sentiu a espetada — cingiu os lábios e soltou um suspiro. Era um alfinete de fraldas.

— Buda, como isso veio parar aqui? — resmungou esfregando o local da espetada com a mão, depois, ainda ralhando impropérios em sua língua natal, prendeu o alfinete na barra da túnica e voltou a se sentar.

Porém agora estava um tanto mais difícil de conseguir chegar ao estado de relaxamento e concentração que estava momentos antes, visto que a dor no traseiro espetado roubava seu foco.

Mas, não iria desistir.

Era o Cavaleiro de Virgem, famoso por conseguir abstrair a realidade à sua volta e conectar-se com sua mente. Ia ser fácil entrar em transe.

— Ooooooooooooommmmmmmmm...

“SHAAAAAAKA! CADÊ O ALFINETE DA FRALDA DO KIKI? NÃO ESTOU ACHANDO!”

A voz potente por natureza e gritada graças aos traços genéticos de sua descendência italiana vinha de dentro do Templo milenar, da parte residencial, e ecoou pelas colunas. Era de Geisty, que tinha ficado com a missão de olhar Kiki naquela manhã junto de Mu enquanto meditava.

Franzindo a testa e imóvel Shaka respondeu quase no mesmo tom.

— ESTÁ AQUI COMIGO, MAS TEM OUTROS NA CAIXA DE ALFINETES.

“ONDE?”

— NO ARMÁRIO, SEGUNDA GAVETA.

Súbito, silêncio.

Virgem então voltou a se focar em sua respiração.

— Vamos lá, agora vai... Oooooooooommm...

De repente uma risadinha acompanhada de gritinhos altos que reverberavam ardidos pelo corredor novamente tirou a concentração do cavaleiro, então quando mais uma vez abriu os olhos no susto viu Kiki ali, totalmente pelado, e que vinha engatinhando em sua direção na velocidade total e alucinante que suas perninhas e bracinhos rechonchudos lhe permitiam.

— KIKI! — disse o indiano alarmado, e na mesma hora saltou da lótus e correu de encontro ao bebê o pegando no colo — Filho, o que faz aqui desnudo? Por Buda, vai machucar os joelhinhos e as mãozinhas correndo desse jeito feito um elefantinho desembestado! — preocupadíssimo verificava os joelhos do ruivinho passando delicadamente os dedos sobre esses para tirar a poeira.

Nesse instante Mu chegava ali espavorido. Em uma das mãos tinha um pote de talco e sobre os ombros nus uma fralda limpa.

— Desculpa, Luz da minha vida. Eu só fui pegar o talco no banheiro e quando voltei esse menino tinha sumido. Desceu sozinho da cama, acredita?

Shaka olhou para ele sério. E apesar das palavras ditas pelo ariano lhe despertarem questões gravíssimas sobre a segurança do filho, somente conseguiu queixar-se de um detalhe:

— Mu de Áries, por que você também está desnudo? — perguntou em tom repreendedor perdendo seu olhar por alguns segundos no peitoral forte do lemuriano para depois encara-lo nos olhos — Nós agora temos uma mulher hospedada em casa, e isso exige algum recato da sua parte.

— Epa! Desnudo está esse filhotinho de capeta. Dá esse foguete aqui para mim. — disse Mu rindo enquanto Shaka lhe entregava o bebê — Eu só estou sem camisa. Portanto, semidesnudo... Esse pestinha mijou em mim de novo, acredita? Fez até mira com o piruzinho, deve achar que tenho cara de penico.

Como se parecesse que entendeu as palavras do pai lemuriano Kiki soltou uma sonora gargalhada, e não resistindo Shaka riu junto dele.

— Ah, vocês acham graça, né? Vocês dois estão mancomunados que eu sei. — disse Mu já dando as costas ao virginiano — Vamos, filhote, vamos cobrir nossa nudez despudorada e deixar seu pai meditar em paz.

Assim que Áries virou a direita e novamente se viu sozinho ali, Shaka virou-se para sua lótus dourada e voltou a fechar os olhos. Tentou focar sua atenção na respiração, mas as vozes de Mu e Geisty, acompanhadas das risadas alegres e festivas de Kiki é que reinavam em sua mente.

Esse era o preço de se ter os outros sentidos muito mais aguçados devido à privação da visão. Ele tinha uma audição impecável, e tudo que era conversado no interior de sua casa chegava a seus ouvidos treinados.

“Geisty, pega lá a pomada.”

“A de assadura ou a outra?”

“De assadura... KIKI VOLTA AQUI.”

“Deixa que eu pego ele.”

“GENTE CHEGUEI! JÁ TOMARAM CAFÉ. EU TROUXE ROSQUINHAS.”

“Oi Dido, vem aqui, estamos na sala.”

Shaka agora olhava para a lótus dourada de olhos abertos e imóvel suspirava aflito.

Há meses não conseguia meditar direito.

Na verdade desde que Kiki entrara em sua vida não fazia mais nada direito.

— Atena vai voltar, vai precisar de Shaka e ele estará fraco e confuso... — respirou fundo e fechou os olhos levitando — Vamos lá, cavaleiro, você precisa meditar! Precisa elevar seu Cosmo! Ooooooooooooooommmm.

“Mosca eu trouxe pó depilatório para a gente tirar seu buço e fazer a virilha. Não é porque não tá fodendo com ninguém que vai virar uma ursa, né?”

— Ooooooooooooooooommmmmmm...

“Ah, obrigada! Eu ia mesmo te pedir para... NENÊM NÃO COME ISSOOO!”

— POR BUDA, O QUE ELE ESTÁ COMENDO?

E foi assim que por mais uma manhã o cavaleiro de Virgem desistiu de sua meditação para supervisionar as atividades domésticas de sua casa.

***

Pouco mais de um mês havia se passado desde que Geisty voltara ao Santuário e passara a residir na Sexta Casa.

De fato os amigos eram um apoio constante na vida da amazona agora, porém a dor do luto, e com ela todas as complicações que se somavam à sua nova realidade, eram um fardo pesado a se carregar.

Por mais que a amazona de Serpente estivesse obstinada a superar todos os obstáculos de cabeça erguida com muita vontade de viver, por trás do sorriso que carregava no rosto visivelmente mais magro a depressão que se abatera sobre ela mostrava seus traços silenciosos, tanto no emocional como no físico. Cicatrizes que talvez só o tempo seria capaz de curar de fato, mas que se dependesse dos esforços do pisciano este sem dúvidas seria encurtado.

Naquela manhã, como se tornara costume Afrodite adentrava a Casa de Virgem sem cerimônia alguma, e depois que Shaka e Mu assumiram a lida com o bebê espoleta, Peixes acompanhou Serpente até seu quarto, que não era mais na sala de leitura do virginiano, na verdade nunca fora, visto que desde a primeira noite em que dormiu sentada na poltrona ao lado do berço de Kiki, Mu decidiu que a deixaria ficar ali, junto do bebê, o que só faria bem para ambos. Assim, a cama de Geisty foi levada para lá, e também boa parte de seus pertences provisórios.

Enquanto a amiga recolhia alguns brinquedos espalhados pelo tapete Afrodite seguiu até a cama e se sentou na beirada colocando uma caixa robusta que trazia consigo ao lado, sobre o colchão.

— Ai pelos bíceps torneados de Dadá... Isso tá pesado! — disse soltando um suspiro — O que a gente não faz pelos amigos!... Passei a noite em claro só entubando tudo essa casquerada aqui para você.

— O que é isso tudo aí que você trouxe? — Geisty perguntou esticando o pescoço, curiosa para tentar ver o conteúdo da caixa.

— Shampoo com extrato de aloe vera, raiz de bardana e Rosas Diabólicas Reais. — disse Afrodite enquanto retirava dois frascos grandes de vidro transparente e colocava sobre o criado mudo ao lado da cama.

— Quê? — falou espantada a amazona encarando o sueco com os olhões violetas arregalados.

— Devia ver sua cara! — Afrodite deu uma risada satisfeita — Claro que não coloquei minhas rosas tóxicas no seu shampoo, Mosca. Queremos acabar com sua queda de cabelo, não com o seu cabelo. Ah, tá boa. Eu sei o que tô fazendo... Vai por mim, pode usar sem medo que teu picumã vai ficar forte, com um brilho Odara e aquele Olofom* de cabeça. Tem um tico de veneno para piolho, e você pode lavar a racha que também serve para matar chato. — retirou mais alguns potes e frascos da caixa os colocando junto dos shampoos.

— Eu não tenho chato seu tonto... — disse Geisty franzindo a testa enquanto conferia os potes sobre o criado mudo — Mas você tem certeza que este não vai me causar alergia? Porque ainda sinto minhas orelhas formigarem depois que depilou meu buço com aquele... pólen depilatório seu lá.

— Acidentes de percurso. Acontece. Aquele pólen ainda era experimental.

— E você me usou de cobaia!

— Mas a pomada foi boa, não foi? Acabou com o inchaço nas suas orelhas... Aliás, eu trouxe mais dela. — apanhou da caixa um pote grande cheio e o mostrou para a amazona — Minha pomada para pano branco, que serve para frieira, micose, torções, ossos quebrados, carne torcida, picada de inseto macho, contra inseto fêmea ainda não é eficaz, torcicolo, e mais outras coisas aí... Ah! Fiz também esse hidratante para essa sua pele craquelada, e um fortalecedor de unhas, porque as suas estão uó! — colocou tudo sobre o móvel ao lado, e quando voltou a mexer na caixa notou que Geisty não estava mais a seu lado, então a buscou com olhos e deu de cara com o traseiro empinado dela no fundo do quarto — CREDO!

— QUÊ! — a amazona berrou assustada erguendo o tronco de supetão. No movimento deixou cair os brinquedos que recolhia do chão.

— Eu te dei tanta roupa Odara e você está usando um... cuecão de macho? — se aproximou rápido dela, meteu a mão por debaixo da bata curtinha pink flúor que ela usava e deu um puxão no cós de elástico da samba canção, cravando-a entre as nádegas da italiana — É isso mesmo que tô vendo daqui? Sua Mosca odiosa! Cadê as calcinhas lindas para sedução que eu te dei? Por que não está usando elas?

— Primeiro, e mais óbvio, porque não quero seduzir ninguém, né, Afrodite... especialmente o meu marido.

— Ah... isso é. — disse o sueco concordando e arregalando os olhões aquamarines enquanto fazia uma careta.

— E segundo porque o Shaka falou que eu não tenho modos! — disse fazendo o pisciano abrir a boca em surpresa.

— Tô sépian! — disse Peixes cruzando os braços — O sujo falando do mal lavado! E por acaso aquele camelo loiro tem modos para te gongar* desse jeito? Ah, tá boa!

— Shaka não é um modelo de gentileza e simpatia, mas a casa é dele e ele tem sido muito bom comigo, essa é a verdade.

— Hum... pelo menos ele é sincero. Delicado como um coice de mula bem nas bolas, mas sincero.

— Sim. E vamos combinar que não tenho modos mesmo. Eu sou uma amazona e não uma princesa inglesa.

— Ah, poxa, mas elas eram tão lindas... as calcinhas. Todas de cetim e rendas... — disse pensando nas que comprara também para Camus. Afrodite adorava presentear quem ele amava com belas e finas calcinhas.

— Acho que o Shaka se incomoda com rendas...

— Mas elas mal apareciam... a intenção era justamente ficarem escondidas nessa sua busanfona.

— Acho que esse era um outro problema também... Mas, se te conforta, olha aqui... — Geisty ergueu a bata, baixou o cós da samba canção e mostrou a calcinha que usava por baixo, era dourada e tinha um coração bordado com pedrarias — Eu estou usando uma das que você me deu por baixo da ceroula do Mu... Foi o Shaka quem me deu de “presente”, mas é do Mu. — ela riu, porque não entendia a lógica do virginiano — E ele me deu com tanto carinho que seria desfeita da minha parte não usar.

— Bom, o que deus dá a gente não recusa né? — Peixes brincou sorrindo — Depois, essa é uma Casa sagrada, né, um mosteiro de dia e um Templo de luxúria e sodomia de noite. Alôca!... É melhor você manter mesmo a decência, que você não tem, na presença de Buda... Mas, vem cá. — jogou-se de forma desleixada na poltrona reclinável que ficava próximo ao berço de Kiki — Esqueça as ceroulas do Mu, que hoje eu não vim aqui só para te trazer presentes e para filar a boia do Buda loirudo, eu vim também para te fazer um convite. Ah!... — apontou o dedo indicador para ela assumindo um semblante sério — Um convite não, um comunicado, já que não aceito não como resposta.

— Hum... Lá vem! O que está aprontando dessa vez? — disse Geisty abanando-se freneticamente com a barra da batinha, já que fazia uma manhã bem quente naquele dia.

— Uma festa bafo! No meu iate. Daqui três dias.

— Uma... festa? E desde quando você tem iate?

— Ué desde que eu ganhei um do meu namorado! E sim! Vou dar uma festona Mosca! Para comemorar nossa vitória! Com tudo que temos direito, comida boa, muita bebida, ferveção, gogo boys, garçons de sunga frontal, amapôs de tetas de fora... Alôca!

Geisty tinha os olhos arregalados.

— E nesse iate aí que você ganhou do Batman cabe tudo isso? — Geisty riu achado um absurdo tanto a ideia da festa quanto do motivo da comemoração, então caminhou até ele e sentou-se no braço da poltrona a seu lado — E comemorar que vitória, bicha? Eu só tive derrotas... — tentou disfarçar o próprio olhar tristonho desviando os olhos para os joelhos do pisciano.

— Como que vitória, Mosca? — Afrodite respondeu voltando-se para ela e segurando em suas mãos — Estamos vivos! Depois de tudo que passamos estarmos aqui e juntos é uma grande vitória... Ainda tem o fato de que finalmente estamos livres dos suínos russos. Agora com o Camus na liderança da Vory o Santuário não deve mais nada a eles, nem acue*, nem favores, e você e Saga já podem viver em... paz. — soltou as mãos da amazona quando se deu conta do que tinha dito, mas não se permitiu estragar aquele momento — Digo, quando Saga voltar, porque ele vai voltar, sei que vai.

— É... QUANDO ele voltar... Só a deusa sabe. — disse Geisty ajeitando com desânimo a barra da batinha mais para desviar do olhar esperançoso do amigo que lhe fitava sem piscar — Afrodite, eu agradeço a sua intenção, mas eu não tenho pelo que comemorar da minha parte... Eu nem sei o que seria de mim se não fossem vocês me apoiando.

— Ah não! Justo você vai botar ovos na nossa festa, Mosca? — dizia enquanto tentava fazer a amiga olhar para si — Porque não tem sentido eu comemorar nossa vida sem que esteja comigo... Poxa, faz uma forcinha, vai ser legal... Eu já consegui o mais difícil que era convencer o Coiso a me dar permissão.

Nessa hora Geisty arregalou os olhos e encarou o pisciano deveras espantada.

Ma che! E ele deixou assim? Fácil?

— Fácil é puta carente, né meu bem. Claro que não foi matim convencer aquele mondrongo, mas Afrodite de Peixes não tem a fama de ser o melhor estrategista desse Santuário à toa, tá boa?... Nada que uma boa lábia não resolvesse o assunto...

Porca madonna, ma che vai dá merda isso, Afrodite. O que você disse àquele traste?

— Usei de bons argumentos persuasivos... coloquei meu coágulo no modo inoperante, respirei fundo, botei minha armadura e fui lá, solicitei uma audiência como manda o protocolo e todo engomadinho fiz um discurso lindo de como é importante mantermos as tradições milenares em honra aos heróis que no passado caminharam por esse solo grego o enchendo de glórias, vitórias as quais eram sempre honradas com festejos em louvor aos deuses e aos guerreiros sobreviventes, pois, como dizia o bravo Aquiles e o destemido Leônidas: uma vitória deve sempre ser comemorada com bom vinho, farta comida e pederastia em honra à memória dos que caíram em batalha.

— A parte da pederastia eu não sabia não. — Geisty sorriu.

— Eu inventei essa parte... Mas, depois de tudo isso ele logicamente começou a colocar um equê aqui, outro ali, mas eu já deixei ele sem saída. Ninguém pode impedir uma comemoração em honra à nossa glória, nem o Grande Mestre, até porque não vou fazer a festa no Santuário. Poxa, nós matamos o Dimitri, o Santuário se livrou da Vory, estamos iniciando um novo ciclo.

— Acho que você se arriscou demais. Aquele coisa ruim não é o Saga, Afrodite.

— Eu sei, Mosca.

— Então! Você não me confia nele! — esfregou as duas mãos no rosto nervosa e encarou o amigo — Você não me enfrente ele e nem sequer ao menos interaja com ele... O evite ao máximo!

— Ai odiosa, está duvidando da minha perspi... prepis... perspicácia?

— Não, mas... como o convenceu?

— Bom, dizer que a comemoração não seria dentro do Santuário já me deu certa vantagem. Meu iate estará ancorado na costa do Cabo Sunion, ou seja, ainda é território do Santuário, mas fica fora das Doze Casas, assim, tanto a putaiada toda do bordel poderá ir quanto os cavaleiros e amazonas sem que estejam de fato deixando seus postos de vigilância.

— Hum, bem inteligente! — Geisty disse incrédula e um tanto chocada.

— Então, Mosca, gastei toda minha saliva para convencer o Coiso a me autorizar a fazer essa festa para justo você dar para trás? Ah, eu não tô boa, heim! — bufou enquanto olhava de soslaio para a amazona.

Geisty por sua vez, o encarava de volta na tentativa vã de tentar espantar a ideia festeira do amigo.

— Mas bicha, você não acha que...

— Vai ser legal, Mosca. Confia em mim. — num rompante Afrodite pegou nas mãos da amiga levando a seu peito e com os olhos pidões a encarou — Depois de tanta coisa ruim que passamos, isso é só um respiro, nada mais. E eu arrisquei meu edi* indo pedir autorização para o Coiso. Leve isso em consideração.

Geisty soltou um suspiro desanimado que veio logo em seguida acompanhando de um sorriso tímido.

— Está BEEEM! Eu vou... Vou por você!

Com um enorme sorriso no rosto e sem cerimônias o pisciano pulou abraçando Serpente e a girando pelo quarto aos risos

— Hu-huuu! Sua varejeira odiosa! Sabia que não ia me decepcionar! — falava aos berros, efusivo e dando saltos abraçando-a firme.

— Ain, ain, ain... calma, bicha... ain...

— Perfeito! — disse Afrodite enfim contendo a euforia e soltando a amazona, então a segurando pelos ombros se afastou e encarou seus olhos — Te prometo que vai gostar, vai se divertir e vai esquecer um pouco o vudu que é nossa vida. Agora... temos três dias para os preparativos.

— Achei que já tinha tudo organizado.

— E tenho... Digo, tenho três dias para te deixar apresentável, porque linda você já é, só está meio esculhambada.

— Ah... devo agradecer? Foi um elogio? — disse Geisty aos risos.

— Claro que foi... Vamos começar hidratando esse picumã que está mais seco que o bom dia do Buda loirudo. Na véspera fazemos uma depilação completa, buço, virilha, rego, tudo!

— Ai minha deusa! “Cadê Atena quando mais preciso dela?”— pensou a amazona enquanto dava um sorriso amarelo para o amigo que era só alegria.

***

Quando o Sol se pôs no horizonte e as primeiras sombras da noite se deitaram no monte zodiacal, um ritual diário se cumpria na Casa de Virgem.

De frente um para o outro, olhos fechados, pés juntos e mãos unidas hirtas à frente do peito executando um mudra budista de equilíbrio Shaka e Geisty estavam concentrados. O indiano levitava cerca quarenta centímetros do chão. A italiana tentava acompanha-lo, e seus pés descalços já começavam a se desgrudar o piso de mármore quando de repente um estalo tirou sua concentração e esses voltaram a se apoiar no solo.

— Ah, ma che cazzo! — ela reclamou — A pipoca me desconcentrou!

— Não. Sua mente é que estava concentrada na pipoca e não na levitação. — disse Shaka agora também apoiando os pés no chão — Se tivesse focada na prática nem o estrondo de uma bomba atômica lhe tiraria a concentração, quanto muito o milho a estourar na panela. — advertiu enquanto ia até o fogão para chacoalhar a panela com o milho que estourava — E está devendo umas moedas para o pote das injúrias. Palavras chulas em italiano também não são permitidas nessa casa. — sorriu voltando o rosto para ela.

— Desculpa. Minha dívida com o pote das injúrias só cresce, madonna mia! — Geisty respondeu sorrindo de volta e encostando-se na pia — Acha que um dia vou conseguir?

— Pagar a dívida? — brincou o virginiano.

— Não. Levitar. Igual você.

— Claro que vai. Qualquer pessoa é capaz de levitar, basta atingir o exato estado físico-psíquico necessário para tal. — disse apagando o fogo quando os estalos dentro da panela se tornaram mais escassos e então com ela nas mãos foi até a pia — Você possui uma mente forte, mas uma péssima capacidade de concentração.

— Ah, é difícil se concentrar com cheiro de pipoca no nariz, fala sério. — ela respondeu entregando a ele uma tigela grande que havia sobre a pia a seu lado.

— Não é não. É tudo uma questão de treinar a mente, ou você acha que eu estava pensando em quê enquanto levitava? No quanto deveria deixar meu corpo leve a ponto de vencer a gravidade?

— Supostamente era pra ser, não? — disse Geisty enquanto segurava a tigela para que Shaka despejasse a pipoca.

— Era, mas com a prática não preciso mais pensar nisso, por isso estava pensando... — fez uma pausa para colocar a panela vazia dentro da pia, depois voltou para Geisty, apanhou algumas pipocas e as jogou dentro da boca — Será que Dhruva vai mesmo cortar a mão de Anupanma? — mastigava o milho visivelmente nervoso.

— O cretino merece, né? Convenhamos. Ele roubou não apenas as cortinas do escritório do Dhruva mas roubou também a esposa do cara! Ah, que miserável. Dhruva deveria cortar o pau dele também, não só a mão. — disse Geisty também metendo um punhado de pipoca na boca, quando fez uma pausa e encarou Shaka com um semblante sério — Hum, pau não pode falar também, né?

Shaka respirou fundo balançando a cabeça ao modo indiano em sinal de negativa.

— Não. Mas eu não te condeno. Anos vivendo com o Gêmeos naquele alcoice mundano imundo só podia dar nisso... Mas, Manisha não teve culpa, ela caiu na lábia daquele gênio da falsidade do Anupanma... Buda, quanta tristeza. Anos de um casamento abençoado e feliz jogados na lama. Manisha foi ingênua em acreditar naquele homem biltre.

— Um homem biltre, sarado, bonito e cheio da lábia. É meu amigo, infelizmente essa é uma combinação catastrófica para as mulheres. A gente quase sempre cai nela, e quase sempre é cilada. — disse referindo-se a seu passado com Kanon, o qual torcia para um milagre fazê-la esquecer — Agora vamos logo que eu não quero perder o espetáculo! Espero que Dhruva corte a mão do safado com uma faca de serra!

— Ou com linha embebida em cola e vidro moído. Você dá várias voltas em torno do pulso e puxa devagar. Dói muito mais. — disse Shaka jogando mais um punhado de pipoca na boca.

— Adorei! — a amazona sorriu.

Seguiram juntos para a sala ainda comentando os capítulos controversos da novela, mas quando chegaram lá a televisão já estava ligada; Mu assistia ao canal de esportes que passava uma luta de boxe entre Lennox Lewis e Frank Bruno, que antecedia a luta principal daquela noite que seria a disputa do cinturão entre Evander Holyfield e Mike Tyson. No colo do ariano estava Kiki, que assim que sentiu a presença do pai indiano e da amazona na sala deu um gritinho acompanhado de uma sonora gargalhada se remexendo todo no colo do lemuriano mais velho.

— Ah não, Mu! Agora é a hora da novela. Coloca lá no canal que já vai começar o capítulo. — disse Shaka indo se sentar ao lado do marido, enquanto Geisty também se sentava do lado oposto deixando Mu entre os dois.

— Mas Luz da minha vida hoje tem a revanche pela disputa do cinturão dos pesos pesados! — o lemuriano falava empolgado enquanto pegava os bracinhos do filho sentado em seu colo e os segurando simulava dar alguns soquinhos no ar — E a gente está torcendo para o Tyson, né filhote? — Kiki ria efusivo conforme Mu simulava novos golpes guiando suas mãozinhas gorduchas.

— E hoje é o capítulo que vai mostrar se Dhruva vai ou não cortar a mão de Anupanma! — rebateu Shaka virando o corpo para Mu, sua fisionomia de súbito ficara séria — Marido, é um capítulo decisivo. Anupanma já é maneta, se ele tiver a outra mão cortada como vai ser? Não me faça perder esse capítulo, Mu!

Mu também ficou sério.

— Mas Sha, tem reprise do capítulo amanhã, da luta não tem. Você não vai perder, nem você, nem o Kiki, nem a Geisty, não é? — olhou esperançoso para amazona, pois sabia que ela também gostava das lutas — A Geisty também gosta de boxe, depois vocês estão vendo novela o mês todo e duvido que nossa convidada se incomode de mudar só hoje.

Dito isso os dois cavaleiros cravaram olhares incisivos à amazona que com a boca cheia de pipoca até parou de mastigar.

Cabia a ela o voto de Minerva.

Justo ela, que mal conseguia escolher entre uma ceroula de homem ou uma calcinha de rendas fio dental e na dúvida vestia ambas para não ser tomada por ingrata pelos amigos.

Os dois pares de olhos interrogativos aguardavam sua decisão... Nunca dois segundos foram tão longos.

Aflita Geisty optou por charfundar a mão na bacia de pipocas e enfiar afoita mais um punhado generoso dentro da boca já cheia, mastigando nervosamente como se fossem pedras.

Era Evander Holyfield e Mike Tyson versus o maneta biltre que perderia a outra mão.

“Pelos deuses, que decisão complicada!”, ela pensou aflita.

Olhou para Mu, depois para Shaka... ambos lhe encaravam com olhares questionadores.

Nem o bebê lhe tinha alguma misericórdia e em silêncio também a encarava aguardando seu veredito.

Geisty engoliu em seco.

— Isso que vocês estão fazendo comigo não é justo, sabia? — disse enfim deixando algumas pipocas escaparem pela boca demasiadamente cheia — Eu não queria ter que decidir... Mas... — fez uma pausa para engolir o milho mastigado e então pôde sentir a pressão que vinha dos três pares de olhos — Eu estou louca para ver o patife do Anupanma ter o que merece... — nessa hora Mu soltou um suspiro discreto cheio de desânimo, e Shaka esboçou um leve sorriso... que durou pouco — Mas ver o Tyson fazer uma plástica na cara de alguém na base do murro é bom demais! — deu um sorriso para o ariano que respondeu com outro maior ainda, enquanto o virginiano se empertigava e balançava discretamente a cabeça contrariado — Shaka, a gente pode gravar a novela e assistir logo depois da luta, o que você acha?

— O que eu acho? — disse Virgem que tinha a fisionomia severa e metade do corpo já inclinado para frente. Muito pior que contrariar suas vontades era desmerecer a importância de sua novela, por isso levantou-se de supetão, apanhou o controle remoto da mão de Mu e se colocou de pé na frente dos três, amazona, cavaleiro e neném, e deu a sentença final: — Shaka acha que a casa é dele, a televisão é dele e ele vai assistir o safardana do Anupanma perder a mão! E se Shaka pode assistir a reprise, então o marido também pode gravar a luta e assistir depois da novela.

Dito isso sentou-se na poltrona ao lado, sozinho, mudou o canal e sereno como um lago em dia sem ventos deu um sorrisinho de satisfação ao ver que ainda passavam os créditos de abertura.

— Ah, Buda, ainda bem que não perdi a abertura!

— Praga! — Mu ralhou em alto e bom tom, e nessa hora Kiki ergueu a cabecinha, olhou para o rosto do pai lemuriano e curioso e atento fez um biquinho, como se tentasse dizer algo — Está vendo, filhote? É assim que a praga loira do teu pai trata a gente. "A casa é minha, a TV é minha." — remedava baixinho o esposo arrancando uma gargalhada do bebê e também de Geisty.

— Shii, quieto, Mu! Já vai começar. — reclamou o indiano.

— Olha isso Geisty! É uma praga mesmo! Ainda me manda ficar quieto! — disse o lemuriano fazendo um bico, emburrado. Indignadíssimo Mu passou o bebê para a amazona e afofando as almofadas como se amassasse a cara de Shaka com sopapos se deitou no espaço vago colocando os pés para o lado da amiga. — Pois agora que eu durmo com mais gosto!... E fique sabendo o senhor, Shaka de Virgem, que eu também tenho casa, e que só não vou para lá agora para não fazer desfeita com a visita. — disse levantando a cabeça e lançando um olhar inquisidor para o indiano.

— Você não vai porque a sua casa é onde está o seu marido e o seu filho, portanto é aqui, mas quem manda nela sou eu. E fica quieto que Dhruva está dando a sentença... Buda, ele vai cortar dedo por dedo!

Mu lançou um olhar incrédulo diante da audácia do marido e revirando os olhos ajeitou-se entre as almofadas, enquanto Geisty, mesmo curiosa para saber o resultado da luta de boxe, não conseguia tirar os olhos da tela da TV.

Kiki fazia biquinho. Ainda parecia tentar dizer algo.

***

Após o fim do capítulo tão aguardado da novela, quase uma hora depois, o que era uma pequena discussão havia se tornado uma briga feia, e o clima na Sexta Casa estava tenso. Anupanma por fim não perdera a única mão graças a uma fuga digna do rato sarnento que era, e Shaka, contrariado com o desfecho do dilema tanto da ficção quanto da vida real, já que Mu se negava até a olhar para sua cara, recolheu-se a seu quarto irritadíssimo pela peça que o destino lhe pregara.

Áries de fato cuspia maribondos africanos de tanto ódio, e este não se dava apenas por ter sido contrariado, mas porque imediatamente após o término do capítulo de O Guru do Templo da Paixão ele trocou o canal da televisão na esperança de ainda pegar algum lance da luta de boxe, mas infelizmente não a tempo de presenciar a cena que entraria para a história do boxe mundial como o acontecimento mais inacreditavelmente vexatório do esporte.

Assistir a Mike Tyson, seu pugilista preferido desde a tenra idade, amarrotar a face de seus adversários na base do soco era extremamente satisfatório, no entanto vê-lo praticar canibalismo no ringue era simplesmente um acontecimento único!

E foi isso que Mu e Geisty perderam. Mike Tyson arrancando no dente um naco da orelha de Evander Holyfield.

Apenas isso.

Motivo o suficiente para querer esganar o marido que o fizera perder a luta e para trocar o leito confortável ao lado dele acomodando-se no sofá de três lugares enquanto socava com ódio as almofadas. Passaria aquela noite longe do virginiano intransigente e tantas quantas durassem sua raiva e revolta, ainda se recordando da luta histórica e da mordida que não presenciara ao vivo.

Já Geisty, que partilhava com Mu da mesma frustração, além de ter presenciado a briga velada do casal que de tudo fez para poupa-la do constrangimento, seguiu para o quarto que dividia com Kiki desde seu primeiro dia ali. O bebê já dormia pesado, então apenas o acomodou em seu bercinho.

Com os ânimos mais acalmados na casa, que agora estava em completo silêncio, a amazona tentou dormir, mas depois de se revirar na cama repetidas vezes sem conseguir pegar no sono enquanto seus olhos ardidos fitavam o teto branco iluminado pela luz fraca do pequeno abajur de elefante, se deu conta de que não conseguiria. Seus pensamentos estavam mergulhados no convite de Afrodite; a festa no iate.

De repente se surpreendeu sorrindo. E pensar que há poucos anos tinha uma relação tão tumultuada com o pisciano... Praticamente se odiavam, e agora o estimava como um dos mais queridos amigos. Ainda se perguntava onde estava, todos esses anos, esse garoto simples de coração tão generoso que tentava de todas as formas lhe agradar e demostrar seu carinho.

A vida decididamente dava muitas voltas, e está em particular, que trouxe o cavaleiro de Peixes para junto de si, sem dúvida era uma das melhores delas.

De fato não poderia fazer essa desfeita ao pisciano, mesmo que seu espírito quebrado e seu corpo cansado e abatido não estivessem nem um pouco a fim de festas.

Era nisso que Geisty pensava agora enquanto contava, pela quarta vez, cada uma das 108 contas do rosário budista pendurado na cabeceira do berço de Kiki. Iria sim na festa, mesmo a contra gosto, mas não tinha nada apropriado para vestir. Shina e Marin lhe trouxeram os vestidos luxuosos que usava no Templo das Bacantes, também algumas peças mais casuais, mas tudo voltado para a noite, e a festa começaria de manhã e se estenderia por toda a tarde até a noite. Sem contar que era um evento em um iate, no mar, com piscina. Não poderia ir com um traje de gala carregado de sensualidade. As roupas que Afrodite lhe dera também não condiziam com a ocasião, a menos que fosse trajando apenas uma calcinha de rendas e um tope de paetês. Não. Definitivamente precisava de algo leve, simples e também de um traje de banho. Sabia que se pedisse ajuda a Mu ele prontamente os providenciaria, mas decididamente não queria incomoda-lo, nem a ele nem a Afrodite, que deveria estar na correria para organizar a festa, e tudo que precisava estava bem ali, pertinho, em sua casa... Só precisava ir até lá; no Templo de Gêmeos.

E era isso que faria.

Dicionário Afroditesco

Acue— dinheiro

Edi— ânus

Gongar— falar mal, criticar alguém

Olofom— cheiro ruim, fedor

Nosso grupo no face "Fics trio ternura"

Tumblr da Rosenrot com várias fanarts da fic

Notas finais
ÉÉÉ o caldo entornou pro lado do Shaka, COMO ASSIM ELE FEZ 3 ARIANOS PERDEREM A MORDIDA DO TYSON? ( sim 3 pq até o nenê olhou feio pro pai loiro uhauha) E mais essa agora.. Geisty querendo ir para Gêmeos =x será que vai dar bom?