Templo das Bacantes Vol. 2
42 O Poderoso Chefão. - parte 1
Notas iniciais

Quando aquele riso de escárnio cessou fez-se um longo silêncio na sala, então diante do olhar alarmado de Shaka, o Cavaleiro de Gêmeos, agora tomado por algo que mais se assemelhava ao ódio encarnado, se ergueu do chão tal qual um vulto maligno revestido por uma aura nefasta. Já de pé sustentou o olhar pleno de prepotência no virginiano, e este em resposta nada disse, mas também se levantou do chão encarando os olhos que o dardejavam como alguém que está empenhado em combater um inimigo.
Passaram um momento nesse embate mudo, olho no olho.
A dor de cabeça excruciante que antes castigava o geminiano havia ido embora, assim como o zumbido ensurdecedor que minava seu raciocínio. Agora ele finalmente podia ouvir seus próprios pensamentos com clareza, e esses estavam completamente voltados para uma retaliação em resposta a morte de seus filhos gêmeos nascidos sob o signo de gêmeos, seus primogênitos, futuros herdeiros de sua armadura, de seu posto como único líder e regente do Santuário, e soldados de poder inimaginável. Não deixaria que sua perda irreparável passasse em vão, nem que tivesse que revirar cada lixeira de todo solo russo atrás do responsável pelo ataque ao Templo das Bacantes.
De frente para ele, como se tivesse sido despertado por seu estado de desespero, os pensamentos de Shaka também estavam focados no que faria diante daquela realidade tão terrível. Sentia que agora só tinha duas escolhas: acabar com o mal antes de ele ganhar mais força, ou seja, enfrentar Gêmeos em uma luta de mil dias até que ambos sucumbissem para evitar que seu lado maligno repetisse os pecados do passado, ou deixa-lo ir.
O coração do Santo de Virgem só sofrera dor semelhante à que experimentava naquele momento quando Mu havia ido embora de vez para Jamiel, no passado. A dor da separação, a dor da perda. Tinha perdido Saga novamente, e nesse momento de provação foi o amor que sentia por ele que o fez escolher deixa-lo ir, pois agora Shaka entendia que assim como no passado Saga não sucumbiu ao mal porque foi fraco, mas porque seu fardo era muito maior do que ele podia carregar.
Os olhos de Virgem então se encheram de compaixão, e não de rancor e mágoa como da primeira vez, então ele apenas baixou a cabeça e ainda de frente para Gêmeos recuou alguns passos de braços abertos, colocando-se na frente dos dois médicos que impressionados pareciam paralisados, enquanto encaravam sem nem ao menos piscar aquela máscara de perversidade que se tornara o rosto de Saga.
— Não importa o que faça, eu não o deixarei ferir ninguém aqui. — disse Shaka, e apesar de sua voz soar imponente e firme como de costume era perceptível um tom de melancolia.
O Cavaleiro de Gêmeos levantou os olhos sinistros e o canto de seus lábios esboçaram um riso cínico.
— Eu não tenho mais nada o que fazer aqui. — disse ele, e sua voz horripilante em nada lembrava a de Saga além do tom e do timbre familiar. Era sombria, maquiavélica — E você também não, Virgem. Ordeno que retorne imediatamente a seu posto no Sexto Templo.
Nessa hora, diante do olhar alarmado de Shaka, Gêmeos acendeu seu Cosmo, que ao ressoar com a armadura sagrada esta imediatamente veio cobrir seu corpo, então ele deu as costas aos três presentes ali fazendo sua capa carcomida balançar no ar enquanto já caminhava para fora da antessala, rumo ao corredor que dava para a saída da Ala 5, deixando para trás um silêncio pesado que só era quebrado pelo tilintar dos passos metálicos do geminiano ao caminhar pelo corredor, cada vez mais fracos, até desaparecerem por completo.
***
Do lado de fora da entrada da Ala 5, Máscara da Morte andava em círculos dando voltas e mais voltas nervosas enquanto enrolava a ponta fina de um bigode imaginário entre os dedos indicador e polegar, quando ouviu os passos firmes se aproximarem. Imediatamente olhou para a porta em expectava, esperando tanto por notícias de Afrodite quanto de Geisty e dos bebês, mas súbito uma sensação ruim, opressora, lhe tomou o peito.
Sentindo a pele toda se arrepiar e o coração acelerar ainda mais viu as portas duplas serem espalmadas de forma vigorosa, revelando a figura funesta do que antes tinha sido o Cavaleiro de Gêmeos.
— Porca Madonna! Ma io non ci posso credere! — balbuciou para si mesmo, com os olhos arregalados, incrédulo, surpreso, quando foi de imediato interpelado por Gêmeos.
— Câncer, me acompanhe de volta ao Santuário. Você tem muito que me explicar pessoalmente. — disse o grego sem nem ao mesmo olhar para ele, já seguindo caminho para a saída da construção.
Ainda abalado e confuso, para não dizer aflito e temeroso, Máscara da Morte ergueu a voz.
— Espera! E... E Afrodite? Ainda non deram notícias dele!... E Geisty?... Os bambini? Ma io pensei que...
Detendo seus passos, Gêmeos virou-se para trás e fixou seus olhos viperinos aos do canceriano.
— Você aqui não pensa nada, Câncer. Quem pensa por aqui sou eu, você só acata minhas ordens. — disse seco, sem dar mais brechas para argumentações, e prosseguiu a passos decididos em direção à saída.
Máscara da Morte não viu alternativa senão obedecer, ainda que não entendesse o que estava acontecendo, mas já conhecia bem aquela aura soturna, aqueles olhos diabólicos, aquele espírito caótico, e sabia que aquele não era o momento de contrariá-lo, de combate-lo. Alguma coisa muito grave tinha acontecido dentro da Ala 5, mas para o bem de Afrodite e de Geisty melhor mesmo era que Gêmeos ficasse longe dali, por isso o seguiu para a saída sem nada mais questionar.
Já depois de passarem as catracas de segurança, enquanto atravessavam a recepção sob olhares curiosos e assustados dos transeuntes, cruzaram com outro cavaleiro que vinha do Santuário.
Misty de Lagarto havia feito uma cena para livrar Camus do interrogatório de Shina e agora tinha que levar a farsa até o fim, por isso estava ali, faria um curativo no ferimento em seu braço, conseguiria notícias de Peixes e retornaria ao Santuário o mais rápido que pudesse para ajudar na remoção dos corpos e tudo o mais que fosse preciso, mas ao ver Máscara da Morte ali, acompanhado de Gêmeos, e este claramente tomado por seu lado maligno, não pôde evitar o choque.
Abriu a boca e arregalou os olhos num misto de espanto e terror, como se tivesse diante do próprio Hades encarnado.
— Por todos sortilégios infalíveis da poderosa Hera! — sussurrou para si mesmo, e quando Gêmeos parou diante de si fez uma sutil reverência — Grande Mestre!
— O que diabos faz aqui, Lagarto? — perguntou o Patriarca em tom repreendedor.
— Eu estou ferido. Vim fazer um curativo. — Misty respondeu meio vacilante.
— Curativo? Você deveria estar no Santuário e não em um hospital civil! Vocês são cavaleiros ou bailarinas afinal de contas? — vociferou o geminiano.
— É que... bem... há muitos feridos sendo encaminhados para cá eu achei que...
— Pois achou errado!... Ora, e saia da minha frente! — disse Gêmeos sem paciência, e deu um empurrão em Lagarto para abrir passagem, mas quando já se encaminhava para a saída, Misty chamou novamente sua atenção.
— Grande Mestre! — o francesinho gritou, fazendo o grego parar e virar-se para trás para olhar para ele — Vai gostar de saber que pegamos o poderoso chefão.
O Patriarca ergueu uma das sobrancelhas negras como a noite e olhou firme para ele, com interesse, depois voltou alguns passos, retornando em sua direção e parando em sua frente.
— O que disse? — inquiriu.
Misty então o encarou de volta e respirou fundo, com falsa calma.
— Dimitri. — fez uma pausa breve — Nós o pegamos.
O Grande Mestre então estreitou os olhos quiméricos e perscrutou o rosto do Cavaleiro de Prata, que agora deixava escapar um risinho triunfante, e erguendo o queixo de forma altiva lhe deu as costas para tornar a caminhar em direção à saída.
Agora ele sabia exatamente o que faria.
***
Santuário de Atena, Casa de Áries 00:35am
Assim que Gêmeos deixou a saleta e Shaka ficou sozinho com os dois médicos, este voltou-se para eles, pousou as mãos em seus ombros e com a mesma ânsia de um devoto que pede uma graça em um momento de desalento profundo lhes rogou que salvassem a vida de Geisty, “Essa mulher não pode morrer, entenderam? Por tudo que é mais sagrado, salvem a vida dela.”, foi o que ele lhes disse antes de desaparecer diante de seus olhos e ir embora levando consigo o coração pesado.
De volta ao Santuário Shaka teleportou-se direto para o Primeiro Templo, para a forja de Áries, onde correndo rapidamente os olhos encontrou o que procurava: seu pequeno tesouro.
Tomado por uma pressa aguda desfez-se da sagrada armadura de Virgem enquanto andava a passos ligeiros em direção ao cesto colocado sobre a mesa rústica de ferro e madeira onde o guardião daquele Templo realizava seu nobre ofício, então sentiu de uma vez todo o dano sofrido por seu corpo durante a batalha no México e precisou se apoiar na mesa para não dobrar os joelhos e ir ao chão.
Enquanto a armadura de ouro se montava ali mesmo, Shaka caminhava trôpego até o cesto, e com os braços trêmulos, a alma em pedaços, mas com o coração um tanto mais leve apanhou Kiki e o trouxe para seu colo com o afã de quem abraça a própria vida depois de estar cara a cara com a morte. O pequeno lemuriano ainda dormia um sono tranquilo e profundo, e apenas soltou alguns arquejos quando o pai indiano o apertou com força contra seu peito, e nessa hora o Guardião de Áries surgiu ali.
Sua presença foi notada pelo virginiano antes mesmo de Mu proferir qualquer palavra, pois o anseio pela presença do ariano lhe era tão vital quanto a do filho, por isso assim que o percebeu ali Shaka levantou ligeiramente o rosto e olhou para ele, foi então que Mu contemplou, após anos de convivência, algo raro: Virgem tinha os olhos banhados em lágrimas.
Durante todo o tempo em que havia aguardado ansioso o retorno do marido e o desfecho dos acontecimentos, Mu percebera constantes oscilações na Cosmo energia de Shaka, a qual ressoava diretamente com o material contido na grossa aliança de ouro em seu dedo anelar esquerdo forjada com pó de estrelas e que tinha uma pequena quantidade do Cosmo do virginiano. Através deste elo sagrado entre eles, que o guardião de Áries monitorava com devoção, ele se punha pronto para ir em socorro do esposo quando ele precisasse.
E Shaka realmente precisou. Mu podia sentir isso através da aliança.
Naquele momento, quando imediatamente vinha ao socorro da luz da sua vida, o Santo de Áries sentiu seu coração comprimir lhe o peito, e seu rosto que sempre era doce e sereno assumiu uma aparência inquieta e angustiada, mas nem teve tempo de questionar nada, até porque em momentos assim nunca questionava Shaka, apenas o deixava sentir o que quer que fosse que estivesse sentindo até estar preparado para desabafar, já que ele era um homem como nenhum outro e raramente expunha suas fraquezas, e quando menos esperava Virgem deu dois passos ligeiros em sua direção, esticou um dos braços e agarrando a ponta de um dos chifres da sagrada armadura de Áries com um puxão forte o trouxe para perto dele.
Mu cambaleou para frente e antes mesmo de retomar o equilíbrio Shaka já encontrava uma pequena brecha entre os dois enormes chifres e o peito da armadura de ouro onde encaixou-se junto com Kiki, encostando a testa na curva do pescoço do lemuriano para esconder seu rosto. Ali era onde ele desejava estar desde que tudo se perdeu, e ali, nos braços do homem que amava e com o filho no colo a dor de Saga lhe pareceu ainda mais visceral.
Sem pronunciar uma única palavra, Mu envolveu o corpo do esposo com os braços e o acolheu. Estava muito preocupado, afinal Shaka era um homem extraordinariamente poderoso, sábio e extremamente reservado, então para estar ali procurando refúgio e apoio emocional em seu abraço era sinal de que algo muito grave acontecera.
No entanto, eles partilhavam de uma sintonia única de alma e espírito, logo não era preciso que o companheiro lhe dissesse nada naquele instante. Mu enxergou o medo na alma de Virgem, pois aquele abraço forte e aquele clamor silencioso por refúgio só podiam ter um significado: Shaka temia não ter mais nada daquilo, temia ficar sem aqueles que amava, temia sentir a dor de perder sua família. Dor essa que ele próprio já havia experimentado quando Shion lhe fora tirado, e essa amarga sensação aumentou ainda mais sua angústia.
Por isso, em silêncio, e tocado pelos sentimentos do marido, apesar de muito apreensivo pelo que havia desperto aquela reação de Shaka, o ariano envolveu os três com seu Cosmo criando uma cúpula de proteção, amor e conforto os unindo em uma só essência através do elo racial que partilhava com o filho, o qual usou como uma ponte para também confortar o companheiro, resgatando-o e o incluindo naquela energia que os tornava uma só existência. Uma família.
Angustiado, porém paciente, Mu inclinou o rosto para o lado, beijou delicadamente os cabelos loiros que tanto amava, e de forma inconsciente começou a embalar Shaka em um balanço suave enquanto tentava conforta-lo com carícias leves. Áries sabia que Virgem não precisava dele, que poderia ter buscado refúgio em Buda, ou ter entrado em transe e conversado com os deuses buscando nas sábias palavras divinas a paz para seu espírito, assim como fazia na infância, mas não, ele estava ali em seu abraço, segurando Kiki e soluçando em seus ombros, e se Shaka precisava de Mu, Mu sempre estaria ali para ele.
Minutos se passaram, os soluços foram diminuindo até cessarem por completo, no entanto a apreensão do ariano só crescia, até que Shaka respirou fundo, deu um passo para trás e ergueu o olhar para o ariano. Áries engoliu em seco quando mirou para aqueles olhos azuis que quando abertos poucos conseguiam suportar olhar para eles, mas que agora estavam cobertos por um véu lúgubre de tristeza.
— Eu... interpretei os sinais errado, Mu. — disse Shaka quase num sussurro. Sua voz era trêmula e seu rosto nunca esteve tão triste e austero — É culpa minha... O bebê... o bebê devorando as vísceras não era Kiki... O mal... não era nenhum deus asteca, mas... estava aqui do nosso lado o tempo todo.
Mu sentiu o peito ainda mais apertado.
— Shaka... está me assustando. — deixou escapar as palavras num tom tão baixo quanto o marido usara, enquanto suas mãos seguravam nos ombros dele com firmeza. Estava com um pressentimento horrível e no fundo não sabia se de fato estava pronto para saber a verdade — Por favor, não me diga que Geisty e os bebês... — a voz morreu incapaz de completar a frase.
Diante do tom preocupado da voz de Mu e dos doces olhos verdes arregalados a lhe questionarem ansiosos, Shaka respirou fundo buscando forças para dar a notícia fatídica, já que sabia do enorme impacto que ela teria no marido.
— Geisty está viva, mas... — fez uma pausa, e então baixou o olhar para Kiki, e nessa hora sua garganta se apertou novamente — Seu estado ainda é grave, ela corre risco de morte... e os bebês... os pequenos Heitor e Dario... — a voz falhou por um instante e enquanto procurava forças para retomar a fala ergueu novamente os olhos e olhou para o ariano — Eles morreram, Mu... eles morreram dentro do ventre da mãe.
A verdade aterradora atingiu o lemuriano feito um golpe mortal. Forte. Seco. Atroz.
O choque da notícia deixou Mu sem reação por um breve momento, até que seus olhos arregalados se inundaram e lágrimas começaram a deslizar por seu rosto, enquanto imóvel ele encarava o marido.
— Não... — sussurrou com os lábios trêmulos, incrédulo, pois por mais que tivesse se preparado para uma notícia muito ruim, já que era raríssimo ver Shaka abalado daquela forma, não esperava que justamente o companheiro confirmaria um de seus piores temores. A amiga de infância que considerava como uma irmã de criação estava à beira da morte e seus afilhados estavam mortos.
Mu já amava aquelas crianças. Fora ele quem sentira o primeiro pulsar de suas auras repletas de vida dentro de Geisty, e havia se regozijado pela graça de tamanha benção a ponto de invejar o casal. Em sua mente não existia maior felicidade que a de ter um filho, Kiki era a prova cabal dessa certeza, e em igual proporção não deveria existir mais cruel dor do que perde-lo.
Agora entendia o porquê de Shaka estar tão abalado.
Olhando ainda atônito para o marido, imediatamente um pensamento aterrorizante encheu seu coração de trevas e medo: Se ele e o esposo estavam mortificados com aquela realidade, como estaria Saga? Contudo, antes que tivesse a chance de verbalizar seu temor e perguntar qualquer coisa ao indiano, um chamado pelo Cosmo despertou Mu de seu estado de catatonia fazendo todos os pelos de seu corpo eriçarem.
Esse Cosmo era o de Saga, mas diferente do que costumava ser agora este exalava uma energia densa, maléfica, carregada de ódio, e exigia sua presença imediata no Templo de Baco.
Atabalhoado o lemuriano franziu a testa, e encarando os olhos azuis de Shaka piscou os seus algumas vezes. Estava deveras confuso. Não queria deixar o virginiano sozinho, ainda mais ferido e alarmado como estava, mas não podia também ignorar um chamado do Grande Mestre, e principalmente não devia dar as costas a Saga, não naquela hora.
Mu então retirou as mãos dos ombros do esposo e as levou ao próprio rosto enxugando as lágrimas, respirou fundo soltando o ar pela boca e recuou um passo.
— Shaka... eu... — disse Áries quase em lamúria, mas Virgem o interrompeu tocando em seu braço, pois também havia sentido o Cosmo de Gêmeos solicitando a presença do ariano.
— Vá. — disse Shaka — Mas, tenha cuidado, Mu. Saga não é mais... Saga. Eu estarei em Virgem a sua espera.
O lemuriano nada mais disse, ao invés de palavras trocou um olhar cúmplice com o amado, então tocou seu rosto ferido com cuidado e aproximando o seu beijou-lhe os lábios com o coração pesado e dolorido, depois se desmaterializou deixando a Casa de Áries para responder ao chamado do Patriarca.
***
Com cerca de vinte corpos dos russos da Vory v Zakone espalhados pelo amplo estacionamento que ficava na lateral da construção do Templo das Bacantes, Shina e Perseu seguravam cada um os membros de um deles o erguendo para guiar e em seguida arremessar à uma pequena pilha formada por outros sete corpos ali amontoados por eles dois.
Foi quando no meio da ação Ofiúco sentiu um frio na espinha que lhe arrepiou os pelos da nuca.
Em reflexo ergueu o rosto para procurar de onde vinha aquela sensação estranha quando sua atenção foi capturada pelo rosto de aspecto surpreso e um tanto confuso do companheiro de armas. Preocupada, pois Perseu não era o tipo de cavaleiro a se aturdir por pouco, curiosa ela acompanhou a direção em que ele olhava, e em sobressalto arregalou os olhos verdes, incrédula.
Ao longe, caminhando a passos apressados e decididos, viu quando Saga, vestido em sua armadura dourada de Gêmeos, mas cujos cabelos extraordinariamente negros se fundiam com o horizonte daquela noite escura, e a capa branca carcomida a tremular pelo ar, cruzou as ruínas pelos fundos em direção à entrada da adega, que ficava no porão do Templo de Baco, na outra extremidade da construção.
Imediatamente Shina ficou apreensiva. Nunca havia presenciado o geminiano transfigurado daquela forma, apesar de saber que o mal o habitava no mais fundo de seu âmago, pois sendo muito amiga de Geisty esta lhe confessara temerosa acerca dessa faceta horripilante que Saga tanto lutava para manter adormecida, mas que o vivia assombrando feito maldição. E se aquela criatura de aura soturna e Cosmo opressor havia tomado o controle da mente e consequentemente do corpo de Saga, algo muito grave ocorrera.
Shina no mesmo instante temeu por Geisty e Afrodite. Sentiu o coração apertar em apreensão e a garganta a sufocar em desconforto.
Dada a pressa e a direção que tomava provavelmente Gêmeos já tinha tomado conhecimento da presença do russo que fora mantido em cativeiro e era em busca de vingança e informações que ia, mas só conseguia pensar nos companheiros feridos no hospital, principalmente no estado de saúde da amiga grávida, por isso Shina soltou de pronto os braços do defunto, que ajudava Argos carregar, e se afastou. A cabeça do cadáver produziu um som seco ao se chocar contra o chão.
— Ei! — protestou surpreso o Cavaleiro de Perseu — O que foi?
— É o Saga. Ele voltou e está indo atrás do russo. — disse a amazona.
— Sim eu vi que é o Saga, mas... parece diferente. — disse Argos, depois deu de ombros — Eu não queria estar na pele daquele miserável comunista! Anda, ainda tem muito presunto aqui pra ser recolhido.
— Eu preciso ir até lá. Preciso descobrir o que está acontecendo. — disse Shina convicta, o pensamento fixo em obter notícias da amiga, de seus bebês e de Afrodite.
— Perdeu o juízo? Não faria isso se fosse você. Ir até lá pode ser muito pior, pois estaremos descumprindo com a nossa função nesse momento.
Sem responder a amazona apenas seguiu em frente ainda sendo advertida pelo outro.
— Pensa bem, Shina! A coisa não está favorável para ninguém, o melhor a fazer é ficar aqui, o mais longe possível do problema, de preferência.
— Eles não vão me ver.
— Vai bisbilhotar o Grande Mestre? Isso é justamente o oposto de ficar e fazer o seu trabalho.
— Qual a parte do eu estou pouco me fodendo para esse bando de presuntos russos você ainda não entendeu?
— Você ainda vai me prejudicar. — Argos ergueu as sobrancelhas e levantando sozinho o corpo o jogou sobre a pilha.
— Não vou não, eu sou a Ofiúco. Eu rio na cara do perigo, Perseu. Sem contar, que eu nunca vacilo. — disse olhando para a face desdenhosa do prateado, já se afastando — Fique tranquilo e continue a fazer nossa tarefa que eu já volto e ainda te recompenso. — deu uma piscadinha pra o cavaleiro antes de lhe dar as costas e caminhar apressada até desaparecer aos olhos dele, invisível na escuridão da noite.
***
Dentro do porão com pouca luminosidade o som agudo do metal ao se chocar violentamente com a parede de pedras milenares ecoou forte pelo ambiente quando o Cavaleiro de Gêmeos lançou o Santo de Aquário contra esta.
— DIGA DE UMA VEZ, MISERÁVEL! — inquiriu a voz grossa e rouca do grego, que cuspia a milímetros de distância do rosto pálido e sardento do francês — QUAL FOI A SUA PARTICIPAÇÃO NESSE ATAQUE AO MEU PROSTÍBULO, AQUÁRIO? FALE!
Gêmeos tinha ambas as mãos no pescoço do aquariano e o apertava com força enquanto o pressionava contra a parede.
— Nenhuma!... Argh... Eu já disse! — Camus respondeu com dificuldade, divisando ainda atônito e assustado os olhos medonhos que lhe encaravam. Avaliava em silêncio a gravidade da situação em que se encontrava naquele momento, e ainda chocado com a figura que via em sua frente procurava calcular com cuidado cada palavra que fosse proferir — Eu... non sabia... de nada, Saga!
— Saga não. Para você, e para todo mundo nesse Santuário é Grande Mestre! — disse o geminiano entredentes, e nessa hora seu rosto transfigurado se contorceu ainda mais em cólera — Não se esqueça de sua condição de subordinado a mim. Ainda que essa sua máfia de merda pense o contrário, quem manda aqui sou eu. — tencionou ainda mais os dedos contra o pescoço do francês que por reação natural de defesa abaixava sua temperatura corporal quase congelando a mão do geminiano — Quer me convencer de que não sabia de nada? Logo você? Pois eu duvido, Aquário, duvido que esteja tão surpreso quanto eu! Os russos estouram meu bordel, simples civis armados que conseguiram a proeza de ser mais eficientes que Cavaleiros de Ouro... — nessa hora olhou de soslaio para Máscara da Morte, mas logo em seguida voltou a encarar o aquariano —... E você não sabia de nada! Onde você estava quando a sua bela família russa atacou o meu estabelecimento?
— Na Rússia... em... Moscou. — grunhiu o francês encarando os olhos do grego e mau ousando se mexer, visto que já tinha tomado consciência de que não estava diante de Saga, pelo menos não do Saga que conhecia.
— E como chegou aqui tão rápido? — inquiriu o geminiano.
— Eu estava justamente investigando a... a súbita ausência de Dimitri... quando... senti o chamado de Shura...
Exatamente nessa hora outro cavaleiro surgia ali às pressas para juntar-se a eles. Era Mu, que assim que cruzou a porta simples de madeira do porão teve os olhos imediatamente capturados pela visão da longa cabeleira negra que descia vultosa pela capa branca do geminiano, então seu peito gelou e seu corpo todo se enrijeceu. Manteve-se de pé ali, inerte, chocado, até que Gêmeos girou ligeiramente a cabeça para o lado e seus olhares se cruzaram, então Mu finalmente pode entender muitas das palavras de Shion que até hoje buscava sentido.
Aquele era o mal que vivia dentro de Saga, e que ninguém, nem mesmo o próprio Santo de Gêmeos, sabia definir o que era, mas que Shion tanto alertara Mu no passado. Seu velho Mestre temia aquela figura em demasia, a ponto de obriga-lo a se isolar em Jamiel para afastá-lo dela.
— Já não era sem tempo, Áries! — disse o Grande Mestre, que logo em seguida voltou a encarar o rosto sério de Camus — Quando sua presença for solicitada por mim deve responder de pronto. Não tolerarei insubordinação, e também não disponho de tempo para esperar que termine de brincar de casinha com o Cavaleiro de Virgem.
Mu nada disse. Aspirou profundamente o ar carregado daquele ambiente para dentro dos pulmões sentindo os odores acres da bebida esparramada no chão por causa das tantas caixas de garrafas de vinho que haviam sido quebradas quando Aldebaran abateu os entregadores infiltrados. Felizmente os corpos já haviam sido removidos dali, mas o cheiro de sangue também era forte. Correu os olhos rapidamente até o homem amarrado à cadeira, que visivelmente alarmado grunhia enquanto tinha os olhos arregalados fixos aos seus, depois trocou um rápido olhar com Máscara da Morte, que mantinha a habitual frieza e crueldade em seus olhos, embora seu rosto fosse um misto de preocupação e dúvida.
Os olhos extraordinários de Mu então voltaram-se novamente para Gêmeos, e seu coração ficou pesado quando enxergaram sua aura, que em nada lembrava a do homem com quem havia estado no dia anterior quando o ajudou com os últimos preparativos para a surpresa de aniversário de Geisty, o quarto dos bebês. Ali estava ele agora, bem diante do mal que lhe fora ordenado se afastar. No entanto, desta vez não iria embora. Havia retornado ao Santuário em busca de respostas para os temores de Shion e dos mistérios do passado, mas antes que pudesse encontra-las encontrou o amor verdadeiro e ali também formou uma família junto de Shaka. Não iria fugir para Jamiel. Ficaria pelo bem daqueles que amava.
Com essa decisão em mente, embora estivesse extremamente assustado e sem saber ainda como lidar com aquela situação, Mu achou por bem se calar diante daquela provocação. Estava preocupado com Geisty, Afrodite, Shaka, estava cheio de sofrimento e angústia, e se queria ter a chance de poder ajuda-los aquela não era a hora de confrontar o geminiano, ou o ser nefasto que agora habitava seu corpo.
— O que deseja de mim, Grande mestre? — Mu perguntou após alguns instantes de silêncio incômodo, fazendo uso de seu tom de voz mais formal.
Ao ouvir como Áries se reportou a si, uma expressão lívida delineou levemente os lábios finos do geminiano em satisfação, pois a atitude respeitosa que exigia de todos veio de forma natural justamente do pupilo do antigo Grande Mestre do Santuário, o que para si era uma satisfação pessoal e egocêntrica.
— Áries, temos aqui um caso de traição ao Santuário. — disse o grego mirando com ódio o aquariano — E, consequentemente, à minha confiança também.
Camus estreitou os olhos e buscou a face assustada do lemuriano. Na situação delicada em que se encontrava sabia que enfrentar Saga era a pior das reações que poderia ter, por isso viu em Mu sua salvação. Imediatamente, e com muito esforço, agarrou nas mãos fortes do geminiano e afastou seus dedos de sua garganta apenas o suficiente para conseguir balbuciar algumas palavras:
— Eu já... já disse que non... sabia de nada. — Camus falou olhando diretamente nos olhos de Mu, pois era a ele quem tentava convencer de sua inocência, já que Gêmeos o dava como traidor certo — Non traí o... Santuário.
— Escutou isso? — o Patriarca novamente girou a cabeça para o lado e encarou o rosto do ariano que permanecia mudo, apenas observando toda a cena — Como todo bom covarde que se preza, obviamente ele nega o envolvimento com o ataque ao meu prostíbulo. Por isso te chamei aqui, Áries! — voltou os olhos diabólicos ao rosto de Camus — Você vai pegar essa sua cabeça pródiga de habilidades e vai ler a mente desse meu fiel Cavaleiro de Ouro.
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