Tempestade

3 Capítulo dois: Inimizade


Naquela noite, eu não consegui dormir.

Meu cérebro estava em estado de alerta máximo.

Todos os meus sonhos, sem exceções, desde o dia em que eu vira a garota de manto negro, se baseavam em uma só coisa: minha morte. Na maior parte dos sonhos, eu tinha uma dupla personalidade. Uma outra versão de mim, que também era facilmente morta. E se ela morresse eu também morria. Eu era duas vezes mais vulnerável.

Eu não tinha medo dos sonhos, até aquele dia. Apenas os achava intrigante.

A ruiva sempre aparecia. Ela sempre estava lá pra me matar. O golpe fatal vinha dela. Eu tinha tanto motivo para temê-la, que me esquecia que além dela havia outros a sua volta. Alguns homens, algumas mulheres. Eles eram a plateia. Porque na verdade a garota ruiva nunca precisou deles para me eliminar. Mas de fato, eles estavam ali para cobrir o seu papel caso ela falhasse. Eu nunca lhes dera atenção. Nunca olhava muito para os rostos deles. Só olhava para a mulher ruiva, porque ela queria que eu olhasse pra ela. De alguma forma, era como se ela controlasse o sonho a seu favor.

Porém, só bastou eu olhar para Penélope para reconhecê-la. Ela era parte da plateia. Tinha me visto morrer incansáveis vezes, e isso provavelmente a divertiu. O mais estranho, é que depois de vê-la, eu conseguia distingui-la perfeitamente nos sonhos. Eu sabia diferencia-la dos outros vultos. Conseguia vê-la nitidamente nas minhas lembranças, como via a garota ruiva.

Mas eu tinha que absorver algo inacreditável: a garota existia. Não era fruto da minha imaginação.

Que explicação lógica eu podia dar a isso? Não havia nenhuma.

Eu podia culpar o meu pai. Sim, os sonhos só começaram a acontecer porque eu fui à casa dele. Tecnicamente deveria ser culpa dele. Era mais fácil culpa-lo do que aceitar a minha loucura.

A maldita casa do meu pai. Meus pais se separaram há cinco anos. Um ano depois do nascimento da minha irmã caçula, Iza. Ele se casou de novo, e teve um filho de um ano e oito meses, meu meio irmão, Bruno. Para mim, não é nada estranho ver ele com sua nova mulher, a gentil Fernanda, e com o seu filho. O estranho mesmo sou eu ter de estar lá.

Tecnicamente eu tenho que passar férias com meu pai, sempre. Eu e a minha irmã caçula. Minha irmã mais velha tem vinte anos, é bastante independente, e assim como eu, sente muita mágoa do meu pai. A diferença entre Líli e eu, é que ela não engole seu orgulho, nem quando a minha mãe pede para que faça.

Eu gostaria de dizer, que meus pais se separam, porque a relação já estava desgastada, ou que resolveram seguir carreiras diferentes, ou até mesmo por causa de traição ou desentendimento, qualquer coisa. Mas, infelizmente não era assim a história.

Líli e eu, já fomos espancadas muitas vezes por ele. Já fomos presas por dois dias em um porão escuro, sem comida. Tínhamos que ver a minha mãe apanhando no nosso lugar, implorando para que ele parasse de nos machucar, e tínhamos que ouvir as inúmeras brigas dos dois. As brigas eram um aviso para nós duas, de que ele viria nos bater, como um modo de descontar a raiva que ele sentia da minha mãe. E apanhávamos muito, até que a minha mãe aparecia chorando e pedindo para que ele parasse, senão iria nos matar.

E acredite, ele já chegou bem perto. Passei os dedos pelo meu braço, sentindo uma de minhas piores cicatrizes. Foi quando eu tinha oito anos e rabisquei uma tábua velha que estava no quintal. Nesse dia, ele apertou um prego no meu braço.

Nós tínhamos vergonha de sair de casa. Todas as pessoas sabiam o que se passava conosco, embora nunca dissessem nada. Mas ficavam nos olhando, com olhares tristes e piedosos. Quando saíamos, tentávamos fingir ser uma família normal e feliz. E eu ficava desejando que quando chegássemos a nossa casa, essa falsa paz continuasse. Porém nunca era assim. Lembrei-me de diversas vezes, implorar para que ele me matasse logo, e parasse de me machucar. Mas felizmente, ou infelizmente, ele nunca me deu ouvidos.

As coisas pioraram, quando minha irmã Líli fugiu de casa. Ele achou que eu a estava acobertando na fuga, e me bateu tanto, que a minha mãe pensou que eu estivesse morta. Tive partes do meu corpo, queimados com isqueiro e alguns ossos quebrados. Pra ele, se eu tivesse um estimulo, eu diria a verdade. Mas o medo de revelar o segredo da minha irmã, e o pânico em pensar que ele iria atrás dela e poderia matá-la, fez com que eu ficasse calada. Minha irmã estava escondida no porão da nossa casa, muito magra e cheia de hematomas, e havia implorado para que eu não contasse onde ela estava, e que lhe levasse comida todos os dias. E quando a minha mãe viu aquilo, rapidamente ela chamou a polícia, e colocou meu pai pra fora de casa. E desde então eles estão separados.

Claro, que assim como Líli, eu queria não ter que olhá-lo nunca mais. Mas a minha mãe insistia para que eu fosse vê-lo todas as férias, junto com a minha irmã caçula. E acho que por medo, dele tentar qualquer coisa contra a minha irmã, eu a acompanho por três anos seguidos. Iza foi à única que não foi torturada ou espancada. Quando meu pai saiu de casa, ela tinha apenas um ano. Evidentemente ele havia tentado espancá-la algumas vezes, mas Líli e eu sempre tomávamos parte, e sempre éramos espancadas no lugar dela.

Não tinha a mínima ideia, de como ele havia conseguido ficar somente dois meses preso, e menos ainda de como ele havia conseguido se casar novamente. Parecia seriamente que ele havia mudado, mas algo dentro de mim me dizia que lá dentro ele ainda continuava o mesmo.

Isso me impedia de perdoá-lo. As lembranças de uma infância triste, e de lágrimas. Ou o rosto da minha mãe cheio de dor, todos os dias, enquanto ela se esforçava para parecer que estava tudo bem. E as ameaças de que se ela tentasse alguma coisa, ele nos mataria. Minha infância foi um terror, sem palavras para descrevê-la.

Talvez por isso, Annie e eu nos entendíamos tão bem. Porque não tivemos uma infância doce, como a de Jimmy e Izec. Os pais de Annie deixaram que ela fosse criada por empregados, por causa do trabalho dos dois. Os pais pra ela eram pessoas estranhas. E pior que isso, ela não tinha irmãos e nem crianças para interagir em casa. Graças ao descaso dos pais, ela teve que amadurecer muito rápido.

O pai de Jimmy também era muito ocupado. O Hotel sempre veio em primeiro lugar. Mas, pelo menos eles moravam na mesma casa, e Jimmy teve a mãe de Izec para suprir a ausência da sua própria família.

Izec era o que deveria ter tido uma infância mais tranquila de nós três. Mas com certeza não. Ele estava ocupado demais, desejando todos os bens de Jimmy. No caso de Izec, ele abandonara a mãe. Tinha vergonha de ela ser uma simples doméstica.

E eu torcia para que tudo fosse apenas reflexo de uma infância aterrorizante. Ou isso, ou eu tinha que lidar com o fato de que havia a probabilidade de que aquela garota estava ali pra me matar.

Eu me levantei às sete horas, tão desperta quanto estava quando me deitei.

Arrastei-me até o banheiro. Eu literalmente me arrastei.

Fitei-me no espelho, absorvendo a minha fisionomia. Meus cabelos castanhos estavam embaraçados e cheios de nós presos em um coque malfeito.

Acompanhei cada curda do meu rosto pequeno e arredondado em formato de coração. Meu nariz era levemente arrebitado e minha boca era pequena e cor de rosa. As minhas bochechas eram mais cheias que o necessário, e estavam vermelhas e quentes. Suspirei. Baixei meus olhos negros como o buraco entre as estrelas e abri a torneira para escovar meus dentes.

Soltei meus cabelos e deixei que eles caíssem como uma cascata castanha e lisa, entrando em contraste com a minha pele cor de creme levemente enrubescida. Toquei as minhas têmporas, desapontada por elas permanecerem vermelhas mesmo depois de tentar encobri-las com uma base.

Sobre a minha camiseta vermelha amassada, havia um brilho prateado. Toquei o meu pescoço com a ponta dos dedos, encontrando o meu cordão. Eu tinha uma espécie de amor obsessivo com o meu colar. Ele era de prata, e tinha um pingente com a forma de uma pantera em pleno salto. Iza dizia que era um cachorro muito grande, porque tinha uma coleira em volta do pescoço, mas eu nunca acreditei de fato. Tinha o ganhado da minha avó paterna, quando nasci. Meu pai disse que ela tinha um amor obsessivo por ele também. Mas a minha avó, Sofia, faleceu antes de eu completar um ano. Portanto eu nunca tive a chance de conhecê-la e de perguntar o que o pingente significava.

Meu reflexo era tão monótono e deprimente, que eu não conseguia encará-lo por mais de trinta segundos.

Entrei no meu quarto, nada surpresa em encontrar a minha irmã caçula, enroscada nas minhas cobertas e sorrindo presunçosamente pra mim, com os olhinhos ainda semicerrados de sono. Sorri pra ela, e pulei na cama.

–-- O que está fazendo aqui, Iza? – Perguntei, retirando uma cascata de cabelos louros e cacheados do seu rosto pequeno e angelical.

Iza sorriu, e se retorceu preguiçosamente na cama.

–-- Vim te acordar, mais você já tinha levantado. – Seu hálito quente soprou no meu rosto, e ela tornou a fechar os olhinhos ainda sorrindo.

Mordi a bochecha rosada dela, obrigando-a a abrir os olhos cinzentos e me encarar. Sua gargalhada encheu o ar à nossa volta, e deixei que ela me descabelasse como vingança por tê-la mordido.

–-- O que vai fazer hoje? – Ela perguntou, sentando-se na cama.

Rolei de modo a ficar deitada de costas, olhando para o teto.

–-- Escola, e possivelmente suicídio.

Ela riu, achando graça da minha resposta.

–-- Escola não é tão ruim. – Ela abriu o seu sorriso de gata. – E você estuda com a Annie. E o Izec.

A minha irmã nutria uma paixão nada secreta por Izec. E bem, e como qualquer garota normal, ela queria ser como a Annie.

Claro que ela poderia se passar como irmã da Annie e ninguém notaria a diferença. Enquanto ela olhava pra mim, com seus olhinhos cinzentos, sob cílios longos, me lembrei do quanto ela parecia com a Annie que eu conhecera aos setes anos. A diferença mais notável eram os olhos e o cabelo de Iza que era mais claro e cheio de cachos.

–-- Izec é um idiota. – Provoquei-a.

–-- Não é não. – Ela retrucou, franzindo a testa.

–-- Hora de levantarem, queridas. – A figura pálida da minha mãe, apareceu no vão da porta com seus cabelos louros curtos e espetados em todas as direções. Ela sorria, com as mãos nos quadris e piscando os olhos acinzentados amavelmente.

Ok, eu poderia dizer que fui adotada e ninguém me contradiria.

Mas infelizmente eu não era. Infelizmente porque eu era uma réplica feminina do meu pai. Minha avó paterna também disse que éramos parecidas, por isso o meu nome foi herdado. Mas, eu não me lembrava dela, e também não tinha nenhuma foto para comparação. Sofia odiava sair em fotos. Assim como eu.

–-- Sophia, você tem que ver como Iza está se saindo no balé. – Minha mãe abriu um sorriso orgulhoso no rosto pálido e sardento. – Ela já é quase profissional. Não é querida?

Iza assentiu, se levantando da minha cama.

Sorri. Iza zarpou para o lado da minha mãe e ambas saíram de mãos dadas.

Continuei deitada de costas, olhando para o teto por alguns minutos. Estava cansada, com sono e confusa. E com medo.

Havia uma possibilidade dos meus assassinos serem reais.

Eu queria que os meus sonhos virassem realidade, não meus pesadelos.

Soltei um longo gemido antes de me levantar da cama.

Às dez e meia, eu estava me arrastando pelo corredor do colégio. Eu tinha cochilado durante a aula, algo que nunca me ocorrera antes. Depois de algumas cotoveladas de Annie, eu acordei, mas me sentia um zumbi.

Annie me acompanhava de perto, com os olhos vidrados no celular.

–-- Você tem que achar a Annie, tem que achar a Annie. Isso! Vai! – Ela murmurava palavras de encorajamento para o visor do telefone.

A questão era o seguinte: Annie tinha um jogo em sua homenagem. O pai dela tinha inventado um jogo em que um guerreiro lutava bravamente para salvar a princesa Annie. Só depois de salvá-la ele conseguia mudar de nível. E durante todo o percurso, ele tinha que encontrar as pistas – sapatos, colares, anéis – para conseguir realmente localizar a princesa. Era o jogo mais horrível da humanidade.

O jogo era um vício aterrorizante. Quando se via alguém muito vidrado no celular, era porque estava jogando o maldito jogo da Annie. A própria me dizia que eu odiava o jogo, porque o meu celular não tinha capacidade de baixa-lo. Mas a verdade é que eu o odiava porque eu sempre acabava me deparando com alguém que estava completamente viciado nele.

–-- Existe alguma tecla que faz o guerreiro se suicidar? – Perguntei amargamente.

Annie me lançou um olhar frenético. Parei em frente ao meu armário, atirando as coisas sem dar importância ao que eu estava fazendo.

–-- Nível de combate do guerreiro: 60%. Pistas encontradas: 7 de 10. Nível de vida da Annie: 30%. Nível de inveja da amiga da Annie: 100%. – Zombou, revirando os olhos.

Soltei um longo suspiro, fechando a porta do meu armário. O que eu achava mais inacreditável era que o nível do jogo era eterno. Nunca chegava ao último nível. Isso era agonizante.

–-- Fui mal na prova de química de novo. – Gemi. – Desse jeito eu não vou chegar à formatura.

Um milhão de “Salve a Annie” depois...

–-- Eu até te ofereceria ajuda, mas química não é algo que eu entenda. – Minha melhor amiga, enfiou o celular no bolso e começamos a caminhar rumo ao refeitório, ao som dos saltos de Annie no piso do corredor. – Ah, sim, hoje você vai à joalheria não é mesmo?

Um bando de garotos do segundo ano atravessou o corredor acenando desenfreadamente para Annie. Ela simplesmente gesticulou na direção deles. Como de costume, eu era invisível.

A joalheria. Eu trabalhava como vendedora na joalheria da mãe de Annie. Uma vez que a minha aula era integral, o meu turno era um pouco tarde. Mas, eu não importava. Adorava vender e observas as joias. Annie e eu sempre brincávamos de tentar adivinhar qual joia a cliente levaria, apenas olhando para a sua fisionomia.

Naquele dia, havia uma grande possibilidade de eu dormir sobre o balcão.

–-- Claro. – Respondi. O ar gelado cortou meu rosto, assim que abandonamos o prédio. A grama gelada roçava meus tênis. Cruzei os braços, desejando ter trago um suéter. — Que mudança estranha no tempo. Hoje está bem frio.

–-- É. – Concordou Annie. Sua expressão se contraiu, enquanto ela jogava a cabeça para trás estudando o céu. – Parece que vai chover.

De fato o céu estava ameaçador.

A entrada no refeitório foi quase um alívio. O ambiente era fechado e quase não era propício ao frio. Esfreguei as mãos pelos meus braços desnudos, graças à camiseta preta, numa tentativa de afugentar o ar gelado.

Annie tocou meu ombro e me conduziu até uma mesa no centro do refeitório.

As pessoas nos acompanhavam com os olhos, como habitualmente. Rolei os olhos para as pessoas à mesa. Jimmy Steves tinha o braço conscientemente em volta de uma cadeira vazia que ele obviamente guardava pra Annie. Izec Dias estava sentado espaçosamente ao lado de Jimmy, com os olhos cor de amêndoa oscilando pelas garotas do refeitório – embora uma garota de cabelos claros estivesse sentada em seu colo. Laila Novaes e seu irmão gêmeo Emerson Novaes, – conhecido popularmente como Spike. – tinham uma conversava particular sobre algo que não envolvia ninguém presente.

Minha melhor amiga, mais do que depressa, se lançou em um abraço apertado sobre o namorado. Eu simplesmente gesticulei com a cabeça para as pessoas à mesa, e me sentei na cadeira ao lado da que Jimmy guardava.

–-- Annie! –Laila exclamou, com o seu clássico ar bajulador.

Os olhos da garota brilhavam atrás das lentes dos óculos quadrados. Ela ajeitou o cabelo castanho com mechas multicoloridas, no rabo de cavalo, ficando ereta automaticamente, com os olhos vidrados enquanto observava Annie se sentar.

Spike fez uma cara de desdém para a expressão da irmã, e se virou para iniciar uma conversa com Izec e a garota no seu colo. Garota na qual, me encarava com interesse do outro lado da mesma.

Rolei meus olhos diretamente para o que interessava. Por cima do meu ombro, eu deixei meus olhos voarem em direção à última mesa do refeitório, próxima a janela. Era a única mesa que sempre ficava vazia, e de alguma forma eu imaginei que ela estaria lá pelo fato de não parecer amigável ao ponto de partilhar uma mesa. Lá estava ela: A garota que não devia existir.

Penélope estava sentada preguiçosamente com os all stares pretos sobre a mesa e as costas recostadas na janela aberta. Ela lia um livro que mantinha aberto sobre as pernas longas e magras e vez ou outra, mecanicamente, apanhava um doritos dentro do pacote sobre a mesa. Parecia uma garota normal e relaxada. Não alguém que eu precisasse temer.

Notei uma chama prata em volta do seu pescoço. Era um colar. Não, não era um colar. Era uma réplica do meu. O pingente de pantera em pleno salto, a coleira em torno da garganta do animal... Eu nunca tinha visto ninguém usar esse colar. Pra mim, ele era uma peça única. Até agora.

–-- Ela é estranha não é? – A voz de Laila sobressaltou-me.

Pestanejei, voltando os olhos para a mesa, e me deparando com o rosto redondo da garota de mechas coloridas, apoiado nos cotovelos me analisando sob os óculos.

–-- Ela estuda comigo. – Explicou. Senti seu ego se enchendo daquele ar de “eu sei de tudo”. – Acho que ela é carioca, tem um sotaque acentuado.

Tornei a olhá-la. Ela permanecia impassível, absorta em seu livro.

As pessoas na mesa conversavam distraidamente sobre o time de futebol da escola. Apenas Annie me olhava de esguelha.

–-- O sobrenome dela é Kyle. – Mordi o lábio.

Laila franziu os lábios, pensando.

–-- Ninguém sabe muito sobre isso. – Contou. Provavelmente ela tinha feito uma pesquisa profunda para saber sobre a vida da garota, e claro, saber se era filha de alguém importante. – Ela não disse muito sobre ela. Na verdade, as pessoas que tentaram se aproximar dela ficaram com medo. Dizem que ela é meio encrenqueira. -Bufou desapontada. – E bem, tem as informações que Kate publicou...

–-- ANA CATARINA CONTINUA ESCREVENDO AQUELE JORNAL IDIOTA?- Sibilou Annie furiosa, para o espanto geral. Muitas cabeças se viraram para nos observar.

A conversa na nossa mesa cessou. A atenção se recaiu sobre a garota loura que parecia histérica. Laila sorria satisfeita com o rumo que a conversa tomara.

–-- Kate andou comentando sobre a garota nova. – Murmurou Spike, passando a mão pelo enorme moicano azul. Ele parecia entediado.

–-- Sim. – Laila sorria. – Ela não tem limites.

Annie grunhiu algo ininteligível. A inimizade entre Annie e Ana Catarina – Kate -, iniciara-se desde que ambas tinham sete anos. A garota criara uma implicância tão enorme com Annie, que havia se tornado quase uma obsessão. A coisa toda se intensificara no decorrer dos anos.

Ana Catarina era uma garota alta, negra, e de corpo curvilíneo. Era bonita, embora fosse tão mesquinha que ninguém dava importância para a sua beleza. A garota era irmã de um jogador de futebol famoso. Achávamos que o sonho dela era ser como Annie, por isso ela emanava esse ódio todo. Mas a coisa toda se agravara ainda mais, quando ela começou a sair com Izec e pouco depois descobriu que ele saía com outras quatro também. O nível do seu ódio se expandiu a ponto de criar um jornal de fofocas do colégio e semanalmente escrever colunas que deterioravam a minha imagem e a de Jimmy e Izec, para enfurecer Annie. Foi mais ou menos nessa época que ela começou a se intitular de Kate, e pintou os cabelos de um loiro berrante.

–-- O que ela escreveu dessa vez? – Izec perguntou ligeiramente interessado.

–-- Onde está o jornal, Natália? – Laila se dirigiu a garota no colo de Izec, quase estourando de alegria. Ela ficava em êxtase de felicidade toda vez que alguém lhe dava ouvidos, sobre as fofocas que ela sabia.

Natália apanhou um jornal do colo, e o estendeu sobre a mesa. Laila parecia afetada, pela garota não ter lhe passado o jornal para que a própria lê-se a noticia.

–-- Bem, vejamos... – A voz de Natalia era angelical. Ela passou os dedos finos pelas páginas, procurando. – Aqui está.

“Alguém diferente ingressa em nosso corpo docente. Não é ruim, na verdade é benéfico para os demais a interação com pessoas distintas, e bem, distinta é realmente a palavra que parece descrever nossa nova aluna, Penélope Grace Velásque Kyle. Sim, esse é realmente o nome verdadeiro dela. A primeira reação que você tem ao ouvir esse nome é: Puxa, meu Deus ela é sem dúvida alguém importante. Porém, parece que não. Fontes seguras afirmaram que não há nada de relevante na ficha dela. Ela não tem pais, e veio morar com a tia em um sítio fora da cidade. Parece ter vido do Rio de Janeiro, e também não é citado o motivo da mudança. A instigação se direciona ao sobrenome dela. Kyle. Não é todo dia que escutamos ele, não é? Então, já que ela não tem pais, nossos agentes resolveram pesquisa-la de perto. E que decepção. A garota é uma primitiva de marca maior que não consegue manter uma conversa civilizada. Além do mais, não precisa ser nenhum gênio para dizer que ela é uma selvagem. Basta olhar para as roupas desconexas que ela usa, e francamente os tênis dela são tão sujos que ela devia esfrega-los no tapete para sair de casa.

Convenhamos que ela é uma menina bonita. Sim, devo admitir que o cabelo dela é um máximo. Mas ela parece mais com um bárbaro do quê com uma garota. Ela é quase um garoto. O que nos leva a deduzir que os Velasque Kyle são pessoas com sanidade mental duvidosa, e extremamente porcas, que provavelmente alteraram o nome para fingirem serem pessoas da alta sociedade. Como a idiota da Sophia Mandson, — com ênfase no idiota, por favor – que tenta se passar por alguém importante com um sobrenome incomum inventado, aparentemente.

Eu vejo sinos de amor e cumplicidade no ar. Sophia e a Kyle. Duas imbecis que ainda não perceberam que o lugar delas não é aqui.

Agora é só esperar pra ver em que criatura bizarra nossa amiga Penélope vai se tornar no decorrer do semestre. Parece que a Sophia já se tornou.

Kate Mel.”

–-- O seu sobrenome é Melo. M-E-L-O. – Esbravejou Annie, descontando sua fúria no jornal. Seu rosto tinha assumido um tom escarlate.

Ana Catarina era uma infame. Percebi que meus punhos estavam cerrados com força, desde o momento em que ouvi o meu nome ser mencionado.

Respirei fundo tentando me acalmar. Já devia estar acostumada a essa altura do campeonato a ouvir esse tipo de coisa da “Kate Mel”. Apertei meus punhos com mais força. Se ela estivesse na minha frente, eu provavelmente a teria acertado com força no rosto.

–-- Poxa vida Soph! – Exclamou Jimmy com uma expressão humorística. – Até que a aluna nova é gata. Se deu bem.

–-- Cala. A. Boca. Jimmy. – Rosnei entredentes.

Meu rosto começou a queimar de fúria.

Natália me observava com curiosidade e pena. E o meu estado de humor não estava muito bom para aturar aquilo. Ela pareceu ter entendido, e desviou rapidamente o olhar.

–-- Não tem graça, Jimmy. – Repreendeu Annie.

–-- Claro que tem. – Ele rebateu.

Laila parecia prestes a estourar de alegria. Se ela tivesse lido, provavelmente teria desmaiado antes do fim do texto, de tanta empolgação. Seu irmão gêmeo parecia entediado.

Olhei por sobre o ombro, procurando Penélope. Esperei vê-la ainda lendo, alheia ao fato de ter virado chacota por todo o colégio, mas quando meus olhos alcançaram a sua mesa, ela não estava mais lá.

–-- O que Kate faz, é errado. – Disse Natália, me fazendo voltar os olhos para a nossa mesa. – Ela hostiliza as pessoas que considera de baixo nível. Imagine só. A garota é novata. Poderia ter feito um artigo sobre ela, mas de uma forma que a fizesse se sentir a vontade aqui.

Eu discordava. Ana Catarina podia fazer um artigo sobre o meu tênis descendo pela garganta dela.

–-- É bem isso aí. – Concordou Izec. – Kate pega pesado com quem ela não gosta.

–-- O pior é que ela sempre sai impune. – Lamentou Spike. – Sério, seria bom que ela se desse mal ao menos uma vez, pra variar.

–-- É verdade. Como a diretoria não toma providência a respeito dessa louca? – Annie murmurou de mau humor.

–-- O diretor alega não ter provas de que Kate Mel é a Ana. – Natália contou infeliz.

Revirei os olhos. A verdade é que ele não queria expulsar a garota e se meter em confusão com o irmão dela. Com certeza ele não queria um escândalo na escola, envolvendo alguém famoso.

–-- Bom, — Annie abriu um sorriso maníaco. Um brilho doentio tremeluziu em seus olhos verdes. Isso não era um bom sinal. – Eu sei uma ideia de vingança muito divertida.