Tempestade

4 Capítulo três: Vingança


Minha melhor amiga e eu, tínhamos conceitos diferentes sobre o que era vingança ou não. Infelizmente. Eu imaginava que quebrar coisas pessoais, ou publicar desaforos na internet era razoavelmente algo bom, mas Annie tinha planos diferentes.

–-- Festa? – Gemi com horror. – Annie, eu não vou a festas.

Eu não ia a festas. Não depois de Guilherme. A careta de terror que eu fiz, deveria ter sido o suficiente pra ela.

–-- Vai ser na minha casa. – Argumentou. – Uma festa de boas-vindas a aluna nova. Algo muito bem elaborado que deixe a escola eufórica para ir, e claro, Kate não será convidada. – Seus olhos se prenderam nos meus. – Você não pode fugir de festas pra sempre.

Mas eu podia evita-las para sempre. A hipótese de eu ter que ir a uma festa da escola, tinha feito o meu estomago despencar. Annie estava com aquele olhar maníaco que ela exibia sempre que envolvia moda ou festa, absorta demais para prestar atenção no meu semblante de pânico.

Festas era o meu pior pesadelo. Ainda mais festas com uma garota que tinha a possibilidade de ser uma assassina.

–-- Hey, a minha banda poderia tocar. – Propôs Izec, animado.

Annie soltou gritinhos de excitação. Não, não, não. Isso não podia acontecer.

–-- Acho que isso seria um bom estimulo de euforia geral. – Ela mordeu o lábio, animada.

Péssima ideia. Péssima ideia

Um tumulto vindo do lado de fora, chamou a atenção genérica. Houve um grito de dor estridente. Levantei-me da cadeira com um salto, caminhando apressadamente em direção à saída do refeitório, acompanhada por um bando de alunos que corriam agitados para o lado de fora.

O vento frio me atingiu em cheio assim que saí pelas portas. Era uma ventania gelada, que arrancava as folhas das árvores do campus. Semicerrei os olhos, e caminhei em direção ao aglomerado de alunos.

Muitas pessoas protestaram, enquanto eu tentava abrir caminho entre elas. Ganhei algumas cotoveladas e insultos, mas consegui chegar ao epicentro. Meu queixo quase tocou o chão, em questão de segundos.

–-- Oh meu Deus! – Exclamei, tapando a boca com perplexidade.

Ana Catarina estava caída no gramado. Ela chorava e gemia compulsivamente, com uma mão pressionando o nariz ensanguentado. O sangue se misturava com suas lágrimas, e empoçava seus cabelos tingidos e a gola da sua jaqueta azul. Era aterrorizante ver todo aquele líquido vermelho pingando.

Penélope estava calmamente postada ao lado dela. Ela parecia descontraída e relaxada, sentido o vento forte acariciar seu rosto. Seus cabelos pretos flamejavam nas suas costas como uma pipa. Seu sorriso era demoníaco.

–-- Parece que você se machucou... – a voz nasalada de Penélope soou sarcástica. – Está doendo?

Sua expressão se tornou teatralmente preocupada. Lentamente ela começou a se agachar na direção de uma Ana Catarina, completamente ensanguentada. Ana Catarina começou a recuar na outra direção, chorando com aflição.

–-- Eu. Perguntei. Se. Está. Doendo. – Penélope rosnou, segurando a garota com força pelo tornozelo. A garota negra gemeu de dor, revirando os olhos nas órbitas. – É deselegante não responder, sabia?

Parecia que meus músculos tinham virado cimento. Eu quis gritar para que alguém intervisse, mas não conseguia encontrar a minha voz. Eu apenas permaneci ali, olhando.

–-- Acho que você mexeu com a garota errada. Eu sou a Princesa Velásque Kyle, e você, quem é? – O soco de Penélope foi certeiro e fatal. Bem no meio do olho direito. Houve um arfar coletivo. – Prazer em te conhecer.

Com elegância, a garota se levantou com um sorrisinho inocente e caminhou graciosamente para longe de todos, deixando como visão, apenas uma cascata de cachos que sacolejaram contra o vento enquanto ela se afastava.

Uma coisa eu tinha que admitir: o soco tinha sido pura poesia. Foi aterrorizante. Mas foi lindo.

Algumas pessoas se aproximaram para ajudar Ana Catarina, que agora além de ter tido o nariz quebrado, exibia um olho inchado e que provavelmente ficaria roxo.

Saí do caminho, quando vi que o diretor e a supervisora se aproximavam assustados e sem fôlego por estarem correndo.

Mordi o lábio, pensativa. Eu não era uma pessoa má. Não gostava de ver ninguém se machucando, porém eu tinha que admitir que talvez Catarina merecesse aquele soco. E, assim como eu, a maior parte da escola concordava. Ana Catarina não era alguém amável. Todo mundo queria soca-la.

Levantei os olhos do chão, e me deparei com uma cena que fez meu coração se espremer no peito. Annie conversava com Penélope, animadamente. Agora mais do que nunca, ela queria dar uma festa para a aluna nova. Gemi baixinho.

Os dias que se passaram foram de pânico total. Pânico porque minha melhor amiga tinha virado uma psicótica com a organização da maldita festa. Os preparativos corriam a todo vapor. Eu mal tinha um segundo de conversa decente com ela, sem que ela despejasse sobre mim noticias sobre as preparações.

–-- Bom, eu acho que se colocássemos um plano de fundo verde na parede oposta ao palco, iria realmente valorizar o ambiente... – Eu não precisava de muito esforço para desliga-la completamente da minha mente.

A única coisa interessante que havia acontecido, era o fato de que Penélope não ganhara sequer uma suspensão. Ana Catarina tinha dito ao diretor que caíra, livrando a outra garota de ser expulsa. O porquê de ela ter feito isso, era um grande mistério.

Penélope se tornara um ícone no colégio. Onde ela passava, todos os olhares se caíam sobre ela. Ela ignorava todo mundo, mas parecia contente com toda a bajulação.

Eu mantinha distância máxima dela, por fatores óbvios. Ainda mais depois de descobrir que ela tinha uma inclinação natural a violência.

Outro fator surpreendentemente anormal aconteceu no decorrer da semana: Minha irmã Líli finalmente apareceu em casa. Desde que eu havia voltado das férias na casa do meu pai, eu ainda não a tinha visto.

–-- Iza? – gritei. A minha casa estava completamente silenciosa quando eu cheguei após a aula, o que era estranhamente anormal – Iza anda logo, você vai chegar atrasada no balé, e eu tenho que ir pra joalheria.

A minha paz silenciosa não durou muito tempo. Iza apareceu correndo e gritando no corredor feito uma louca. Já estava usando a sua roupa de bailarina rosa, e tentava segurar o coque que prendia seus longos cabelos louros. Logo veio Lili correndo pelo corredor com uma escova rosa de plástico nas mãos.

–-- Uau, você existe! – Exclamei sarcasticamente para Líli. – Pensei que fosse apenas uma lembrança.

Minha irmã me encarou com seus olhos cinzentos faiscantes. Ela parecia uma boneca Barbie de cabelos cacheados e roupas vulgares e rasgadas.

–-- É muito bom te ver de novo, irmãzinha. Com certeza farei um doce de leite para comemorar.

Iza se escondeu atrás das minhas pernas choramingando.

–-- O que foi dessa vez? – perguntei a Lili, que ergueu a escova de plástico nas mãos, como se fosse uma arma.

–-- Essa garota diabólica me mordeu. – acusou Lili. Seus olhos cinzentos se estreitaram em direção a sua réplica infantil encolhida contra o meu quadril. – Não adianta se esconder atrás da Sabrina, nós temos contas a acertar.

–-- É Sophia. – Murmurei a contra gosto.

Minha irmã deu de ombros, e eu fui para o meu quarto deixando que as duas se matassem. E se possível que não fizessem muita bagunça. Lar doce lar.

Não que eu reclamasse de não ver Líli com regularidade, obviamente. Mas a minha mãe ficava mais amável quando Líli estava em casa, tentando agradá-la de todo modo para que permanecesse.

Não era culpa da minha mãe que Líli estivesse fora de casa. Era culpa da minha mãe que ela permanecesse fora de casa. Vanessa nunca nos pressionava a nada, nos deixava livres para fazer qualquer coisa que nos fizesse bem. Líli apenas abusava disso. Não trabalhava, passava as tardes inteiras trancada no quarto com um som ensurdecedor ligado. Saia quase todas as noites e voltava dias depois, completamente bêbada ou com uma ressaca enorme. Nunca dizia aonde ia ou com quem saía e o que fazia. Claro que não ter Líli por perto, às vezes era um alívio. Quando estava em casa, levava todo mundo à loucura com um tipo de palavreado que usava, as roupas, e os comentários desagradáveis e maliciosos. Mas tê-la fora de casa, automaticamente nos deixava em estado de alerta.

Certa noite, encontrei minha mãe dormindo profundamente com o celular apertado entre os dedos. Vanessa morria de medo de receber ligações da polícia ou de algum hospital, falando sobre o paradeiro de Líli.

Na noite que antecedia a festa, eu suava frio. Tentei a todo custo pensar em outra coisa. Mas era em vão. A maldita festa ficava martelando na minha cabeça.

Comecei a arrumar meu guarda-roupa, já arrumado, só para manter minhas mãos ocupadas. Tentei agir como um robô: separar, dobrar e guardar. Tinha tudo pra dar certo, caso eu não tivesse encontrado uma caixa durante o processo.

Sentei-me no chão, dando-me por vencida. Destampei a caixa e afundei minhas mãos apanhando fotos entre os dedos. Um mar de nostalgia caiu sobre mim, quando comecei a passar as fotos. Eu ria histericamente enquanto via minhas fotos criança. Eu carregando Iza bebê, que por algum motivo mordia meu braço aparentemente com força. Em todas as fotos, Líli aparecia com uma cara emburrada ao fundo, completamente contrariada. Uma foto me chamou atenção. Era uma foto do meu pai e minha mãe juntos, me carregando. Minha mãe tinha um cabelo estranho, que me fez sorrir. Meu pai estava mais magro e já usava um bigode espesso e negro.

Afundei as mãos na caixa novamente, apanhando outra remessa de fotos. Assim que olhei a primeira foto, senti uma cratera se formar no meu peito. O sorriso despencou do meu rosto.

Eu estava em todas as fotos. Assim como Annie, Jimmy, Izec... E Guilherme. Trinquei a mandíbula com força. Tudo voltou a mim como um elástico. Um golpe certeiro no meu peito.

O nosso namoro. A festa de fim de ano da escola. O final trágico. A sirene da polícia se aproximando, cada vez mais alto, cada vez mais insuportável. Meu grito sufocado que nunca chegou a sair de verdade.

–-- Querida, você está bem? – Minha mãe se aproximara de mim, com lágrimas escorrendo pelas bochechas, completamente desorientada e assustada, assim que os policiais levaram Guilherme pra longe. Logo depois de ele me olhar nos olhos, com aqueles olhos cor de jade que eu amei por tanto tempo, e prometer que voltaria. Pra me destruir.

Eu sabia que minha mãe conversava comigo. Parte de mim estava consciente. Mesmo olhando para baixo, com os braços ao redor do corpo, eu via a aproximação dos alunos, me olhando fixamente sem saberem o que fazer. Eu apertava o caco de vidro ensanguentado, entre meus dedos com tamanha força que logo estariam me cortando também.

Jimmy e Izec se postaram em ambos os meus lados, em posições defensivas. Izec jogou o casaco sobre os meus ombros, sem me dizer nada. As expressões de ambos eram exatamente iguais: ódio mortal. Mas havia tanta dor nos olhos deles que eu mesma tive vontade de me levantar e abraça-los se eu não estivesse em condições piores.

–-- Sophia. Sophia. – Minha mãe balbuciava incontrolavelmente em meio ao próprio choro desesperado.

Meu corpo inteiro tremia, fazendo meus dentes bateram dentro da minha boca ressecada. Mas eu não estava com frio.

Permaneci do mesmo jeito, olhando para o chão. Nem lágrimas eu tinha.

Houve gritos, protestos e choros que cortaram o silêncio sombrio que tinha se formado, com exceção do choro da minha mãe. Alguém estava lutando contras às pessoas, tentando se aproximar. Não ergui os olhos pra ver quem era, ou o que acontecia. E também não precisei.

–-- Onde ela está? Me solta. – Annie berrava e chorava ao mesmo tempo, desvencilhando-se das pessoas que tentavam segurá-la. – Sophia. Soph...

Ela caiu de joelhos no chão com um baque alto, na minha frente. Permaneci imóvel. Jimmy tentou puxá-la para o seu lado, mas foi inútil.

–-- Sophia, por favor... — Annie gemeu.

O tremor aumentou em meu corpo, e enfim eu percebi que se tratavam da minha mãe e Annie me sacudindo pelos braços.

–-- “... machucaram ela?”.

–--“... Eu não vi direito, Guilherme foi preso?”.

–--”... Foi horrível”.

–--”... Porque ele estava sangrando?”

–--“... Ela cortou ele com uma garrafa?”

As conversas chegavam até mim. Minha cabeça latejava com aquelas vozes girando pelos meus ouvidos. Mal via o rosto desfocado da minha mãe pairando sobre mim, com os olhos vermelhos. Sua boca se abria e fechava ferozmente, porém eu não conseguia distinguir o que ela dizia com todo aquele turbilhão de palavras pipocando a minha volta.

O tremor no meu corpo diminuiu um pouco, quando um par de mãos gélidas afrouxou o aperto no meu braço. A cabeça de Annie tombou para trás e ela caiu no chão inconsciente.

Foi tudo caótico. Perturbador. Angustiante. Não me lembrava de como os paramédicos tinham conseguido me imobilizar e me deitar na maca. Eu via pessoas tombando para trás o tempo todo. Desmaiando. Como Annie. Mas eu não me lembrava mais, quem eram. Minha memória era em cortes, com fragmentos soltos por toda parte. Talvez eu não tivesse conseguido assimilar os fatos, ou eu os esquecera para o meu próprio bem.

Afastei-me das fotos com os olhos em chamas. As lembranças tinham sido reais demais.

Prendi a respiração não me permitindo mover um musculo sequer. Era uma reação inútil contra a dor. Ela já me consumia completamente.

Quando não senti mais nada do pescoço pra baixo, eu desabei no chão. As lágrimas escorriam quentes pela minha bochecha, e um grito sufocado de dor tentava abrir passagem pela minha garganta. Eu o sufocava com todas as minhas forças, reprimindo-o para o meu âmago mais profundo.

Permaneci imóvel no chão. Tentava não pensar em nada, mas automaticamente pensava em tudo. Dor. Era tudo que eu sentia, até finalmente adormecer no chão do meu quarto.

E meus sonhos não foram tranquilos.

Eu corria.

Sabia que era em vão, mas corria.

Apenas uma questão de tempo até que ela me encontrasse. Mas eu precisava correr, mesmo que meus passos fossem lentos e estúpidos e que a maior parte do tempo eu tropeçasse nos meus próprios pés. Ainda assim eu corri.

Trombei em algumas árvores à medida que eu avançava. As folhas caídas no chão farfalhavam quando os meus pés roçavam-nas. Caí novamente, afundando minhas mãos na lama ao tentar me apoiar. Ouvi a risada dela ecoando a minha volta. Rapidamente me levantei e recomecei a correr, seguindo uma rota diferente da anterior.

Mas não importava qual caminho eu tomava, eu sempre sabia que ela estava em meus flancos, nem se dignando a correr. Ela ria e se deleitava com os meus tombos e desespero, enquanto eu tentava de todo jeito fugir. Porém eu era incrivelmente lenta com meus passos desajeitados, e ela apenas me acompanhava caminhando solenemente e assoviando, rindo como uma criança em um parque de diversões.

Parei, assim que minha cabeça bateu-se em uma superfície dura. Recuei alguns passos, exasperada, pestanejando forte. Passei os dedos pelo topo da minha cabeça, vendo que eu tinha batido em uma árvore.

Antes mesmo que eu pudesse lembrar-me de onde eu estava e o que eu precisava fazer — correr, na melhor das hipóteses – ela já estava ao meu lado. Virei-me de sobressalto, vendo ela parada com os dedos nos quadris. Um sorriso triunfante cruzou seu rosto.

–-- Quando você vai aprender que não adianta correr? – Ela disse ainda sorrindo e tamborilando os dedos nos quadris.

Fiquei parada deixando que o vento varresse os meus cabelos pelos meus ombros. Olhei-a perplexamente admirada pela sua beleza.

Ela era alta. Com um corpo esguio e gracioso. O busto avantajado se destacava no decote do vestido preto, justo. Seus cabelos eram de um tom vermelho sangue, completamente lisos como o meu. Uma franja tapava metade da sua testa, jogada para o lado esquerdo.

Meus olhos encontraram os seus. Os dela eram verdes, feito duas esmeraldas, brilhavam sedentos e famintos; sendo tudo que meus olhos negros e opacos não eram. Vi o meu reflexo pálido e amedrontado na sua íris. Eu parecia tão incrivelmente frágil e pequena, um alvo fácil de ser derrubado. Minha aparência era tão triste, ridícula e deprimente comparada a ela, que fez meu estomago se revirar de nojo de mim mesma.

Um sentimento que parecia não ser meu atravessou o meu peito como uma bomba – um sentimento que eu não conhecia, que parecia nunca ter sentido antes, mas que rapidamente o identifiquei como inveja. Inveja de tudo que eu não era, de tudo que eu devia ser, ou até, de tudo que eu queria ser. Entretanto, acima de tudo, inveja por ter um fim tão trágico, tão doloroso, patético e em vão. Ela teria uma vida longa e feliz pela frente. Eu não. A chegada da morte – da minha própria morte – despertava um relógio dentro de mim, contra o meu consentimento. Eu senti cada segundo passar, com uma calma demasiada, arrastando os ponteiros e quase congelando o tempo a minha volta. O meu coração entrava no ritmo desacelerando aos poucos, batendo lentamente tentando não parar, tentando não cessar como o relógio que soava dentro de mim. A inveja súbita foi substituída pelo meu medo e meu pânico, que foi se tornando real, como um mergulho de volta para a superfície. Fechei os olhos e esperei que o tempo acabasse de vez. Porém, eu fui derrubada no chão com uma força abrasadora.

Não ousei abrir meus olhos. Pelo soprar do vento mudando de direção, eu soube que ela iria atacar.

Escorreguei no chão, ao mesmo tempo em que escorregava no sonho.

Com um ofegar alto e sufocante, eu abri meus olhos para o quarto escuro.

Meu coração martelava com tanta força no peito, que eu dirigi rapidamente minhas mãos na direção dele, hesitante que ele saltasse.

As palmas da minha mão estavam suadas e pegajosas. Sentei-me no chão, chutando a caixa de fotos pra longe. Eu arfava alto, ao mesmo tempo em que o suor escorria pela minha testa e pela minha coluna.

Espreitei os olhos a minha volta. Tudo parecia tranquilo e calmo, exatamente como deveria estar. Exceto pelas minhas cortinas que flamejavam contra o vento sendo lançadas para o alto. Cerrei os dentes.

A campainha soou estridente do lado de fora.

Ergui-me do chão com dificuldade. Meu corpo latejava com dor por não ter dormido confortavelmente.

Cambaleei pelo corredor em direção à porta. Aparentemente somente Iza estava em casa, e dormia profundamente.

A campainha voltou a tocar, impaciente.

Xinguei quem quer que fosse, mentalmente. Abri a porta com um solavanco. Annie aguardava do outro lado, com um sorriso nos lábios rosados.

–-- Meu Deus! Parece que passou um trator por cima de você. – Comentou, chocada.

De fato, eu estava consciente de que minha aparência não deveria estar das melhores.

–-- Annie, não existe vida antes das dez da manhã. – Resmunguei sonolenta. – O que te traz aqui tão cedo?

O sorriso psicótico que ela abriu em resposta, me fez congelar. Gemi de pavor, quando vi minha melhor amiga cruzar a porta da minha casa arrastando consigo uma mala cor de rosa de rodinhas. Isso não era bom.