Tem que ser você
6 O despertar
Notas iniciais
“O sono é a uma dádiva, o sonho é um presente, acordar é um alívio e morrer é opcional”.
CINCO ANOS DEPOIS
20 de Junho
Disseram que ele não demoraria muito para acordar, que seria uma fase passageira, mas já se passaram cinco anos e nada de Henrique acordar do coma. Fico pensando em todas as coisas que aconteceram, e não sei se isso é um castigo pelas coisas que eu fiz ou se era mesmo para acontecer.
Eu venho ao hospital todos os dias visitá-lo na esperança dele acordar, e sempre penso para mim mesmo que ele vai acordar e vai me ver ali do lado dele. Desde que o pai de Henrique faleceu há dois anos, as coisas ficaram mais complicadas, os médicos cogitaram desligar os aparelhos, mas eu não deixei.
Foi difícil passar por isso tudo, mas as coisas melhoraram com a chegada de Lorena, a melhor amiga de Henrique na infância que aos dezesseis anos conseguiu uma bolsa para estudar no exterior, porém ao visitar a família no Rio de Janeiro acabou sabendo do acidente e veio imediatamente para Petrópolis.
— Já viu o sol que está lá fora? – perguntou Lorena enquanto pegava água no corredor.
— Sim, o sol está ótimo, mas nada tem sido ótimo sem o Henrique – respondi a ela, eu estava sentado olhando para o vazio.
Lorena ficava me observando quase que o tempo todo, ela sempre notava a minha preocupação, a tristeza no meu olhar, enfim, era algo que eu não podia controlar. Por mais que ela tentava me alegrar com seu jeito extrovertido, eu sempre voltava para o estado de angústia.
— Eric, eu sei tudo o que você sente, mas não pode continuar assim – disse ela de uma maneira bem consoladora – eu entendo, mas não acha que está na hora dele descansar?
Não pude acreditar no que ela havia dito, sério mesmo que ela pensava isso, sério mesmo que ela achava justo deixar Henrique partir. Na mesma hora me levantei e fui andando para o estacionamento e ela veio falando atrás de mim.
— Eric! Pára de tentar achar que tudo vai se resolver, você tem que cogitar a hipótese de que talvez ele não acorde, e que ele descansar seja a melhor opção – gritou ela.
— Não é desse jeito, temos que ter esperança, acreditar em milagres – eu tentava explicar a ela a minha expectativa.
— Não é justo deixar ele se cansando mais naquela cama, enquanto se espera um milagre incerto.
— Sinceramente Lorena, você está muito negativa, acho que isso não é bom para o Henrique – eu disse sem rodeios.
— Eu sou o problema, até parece, eu sou a única que está pensando nas coisas.
— Então vá embora! Ninguém te chamou aqui! Volte para o exterior! – tive que ser grosso, mas era o que eu achava.
— Quer saber, eu vou sim! Cansei disso tudo! Não me procure quando Henrique morrer!
As lágrimas desciam pelo meu rosto, eu não tinha mais o que pensar, minha cabeça estava quente. Não me sinto culpado por ter pedido ela para ir embora, eu só queria um pouco de paz e ela estava muito negativa.
Voltei para o corredor do hospital, me sentei nos bancos perto da recepção e fechei os olhos por alguns instantes, eu estava tentando encontrar algum tipo de saída para este estado emocional.
Sinto alguém cutucando meu ombro, e logo fui abrindo meus olhos lentamente e quando os abri por completo me deparei com uma imagem que rezei muito para não ver mais, Arthur estava ali parado na minha frente, depois de cinco anos, ele teve coragem de voltar.
— O que faz aqui? – eu gritei fazendo com que todos na recepção olhassem para mim – Não tem idéia do que você causou?
— Eu não tive intenção nenhuma de causar este acidente, eu passei esses anos todos afastado de tudo e pensando nas coisas – o olhar dele era aquele tipo de olhar fixo e verdadeiro.
— Vai embora daqui! Você não é bem vindo – comecei a chorar, e ele veio tentar me abraçar só que consegui afastá-lo de mim, até que dois seguranças me perguntaram se estava tudo bem – Levem esse cretino daqui!
Eles pegaram Arthur pelo braço, enquanto ele gritava “Eu te amo, Eric”. Minha cabeça girava e girava, eu não conseguia ficar em pé direito até que desmaiei.
21 de Junho
— Eric?Acorde!
Abri os olhos e notei que estava na cama do hospital, não me lembrava bem do que tinha acontecido, o médico de Henrique estava na minha frente, sua feição era de alívio.
— Você está bem? – perguntou ele com um sorriso – Preciso me certificar que não vai ter um ataque do coração – brincou ele.
— Eu dormi muito? Estou sentindo meu corpo cansado.
— Ah não se preocupe, você estava tomando muitos calmantes, seu corpo não agüentou.
Ajeitei-me na cama, bebi um pouco de água, e mesmo assim o médico ainda me olhava de uma maneira alegre e ansiosa.
— O que houve doutor? – perguntei.
Ele deu uma respirada e em seguida começou a falar
— Você tinha razão em ter esperanças, meu jovem, a espera acabou! – meu coração acelerou e as lágrimas começaram a descer, e no fundo eu sabia que o milagre tinha acontecido.
— É isso mesmo que está pensando, Henrique acordou!
Tive uma explosão de felicidade dentro de mim, algo que não sabia como controlar, minha reação foi abraçar o médico aos prantos, que retribuiu meu abraço com felicidade nos olhos.
— Eu que... que...ro vê-lo doutor – gaguejei, pois nem as palavras conseguiam sair corretas da minha boca.
— Ele ainda está se recuperando, não consegue falar direito, aos poucos ele vai se adaptando novamente as rotinas, nossa equipe vai trabalhar nisso.
Levantei-me, e fui acompanhando o médico até o quarto de Henrique, estava ansioso demais, não conseguia acreditar que ele retornou para minha vida. Faltavam poucos passos até o quarto, e eu coração acelerava mais e mais. E finalmente chegou.
— Henrique, diga “Oi” para seu amigo Eric – disse o doutor.
Cheguei bem perto dele, e vi aqueles olhos lindos e vivos que aos poucos se viraram para me olhar, e algo inesperado aconteceu. Henrique tentava gritar, e não conseguia, ele urrava algo e não conseguia terminar, eu fiquei muito preocupado, achava que ele podia estar sentindo dor. O médico se aproximou dele e tentou acalmá-lo, até que Henrique se esforçou e disse “Saia! Eric”.
Foi tão direto, que consegui entender o que ele queria, não sei o que se passava na mente dele ou do que ele se lembrava, mas foi muito doloroso ele ter falado aquilo.
Depois que eu saí parece que ele se acalmou, enquanto estava no corredor vi Lorena chegando.
— Eu vim o mais rápido que pude – disse ela ofegante – Porque não está lá dentro?
— Ele não me quer lá – expliquei a ela – Simplesmente não me quer.
— Não fique assim, está sendo difícil para ele – ela tentou me consolar.
O dia foi passando e eu já estava cansado, e resolvi ir para casa, dar a notícia à minha irmã de que Henrique havia acordado.
— Fico tão feliz que esse pesadelo acabou – disse ela.
— Eu também estou feliz por ele ter acordado e saber que ele viverá, e que terá alguém para fazê-lo feliz.
Minha irmã ficou me olhando, e notou a tristeza em meu olhar, mas não havia nada que ela ou alguém podia fazer por mim, eu entendi muito bem o que Henrique queria.
— Você vai vê-lo amanhã?
— Não! – respondi. – Vou deixá-lo viver novamente, mas sem mim.
Deitei-me na cama, peguei meu celular, disquei o número e esperei ser atendido.
— Eu sabia que você ia ligar – disse Arthur.
— Quero ver você amanhã, pois decidi que quero ir embora daqui.
— Estarei aí pela manhã.
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