Tem que ser você
7 O herói
Notas iniciais
“Um destino está traçado quando os outros estão em sintonia, mas precisa ter coragem de admitir que seu destino pode não ser com um certo alguém, e sim com outro”.
15 de Outubro
— Nossa! Amigo, nem acredito que você saiu do hospital – diz Lorena toda feliz.
— Eu não podia estar mais feliz, estou novinho em folha – respondi com uma alegria imensa.
Finalmente eu estava recuperado, e havia voltado pra casa, foi difícil receber a notícia de que meu pai tinha falecido e eu não estava lá, mas sei que onde quer que ele esteja ele está em paz porque eu acordei e estou bem.
— Sei que não interessa você saber, mas o Eric e Arthur estão de volta – disse Lorena não querendo fazer fofoca.
— Porque eles tinham que voltar, achei que estavam felizes em São Paulo.
Ainda não conseguia entender o real propósito do retorno deles para Petrópolis, se estavam tão felizes fora daqui, qual a razão da volta deles. Fico pensando, até que meu celular vibra e tomo um susto ao saber que é Eric.
— Que cara é essa Henrique? – perguntou Lorena – Atende!
Olhei para ela de uma maneira relutante, mas por fim eu atendi.
— Alô, o que você quer Eric? – fui um pouco rude, mas não tinha motivos para ele me ligar.
— Não é o Eric que ta falando, lembra de mim? – disse Arthur.
— Por que está ligando pra mim?
— Se você gosta ou sente algo pelo Eric, então me encontre e ele ficará vivo – respondeu ele com uma voz amedrontadora.
Não estava entendendo nada, Arthur não parecia estar muito bem, estava meio perturbado. Ele me passou o endereço e era um pouco afastado da cidade, ele pediu para que eu chegasse lá em duas horas.
— Aonde você vai? – perguntou Lorena.
— Não posso explicar agora, fique aqui.
Fui direto para a garagem, abri o portão, retirei o carro cuidadosamente até que consegui deixá-lo na calçada para poder fechar o portão. Segui disparado para o local, pelo endereço que ele me deu, e ficava quase perto de Areal, próximo a BR.
Já estava escurecendo, e faltavam alguns minutos para chegar, não sabia o que Arthur estava aprontando dessa vez, mas tinha certeza de que coisa boa não era. Finalmente avistei uma subida ao lado da estrada, e fui seguindo em frente, subindo e subindo até chegar a uma área plana.
Desci do carro e logo vi Arthur segurando Eric com muita força e apontando uma faca no pescoço dele. Tentei não me aproximar muito, mas eu não sabia o que fazer.
— Calma! Podemos conversar? – tentei fazer com que Arthur me ouvisse, mas ele estava fora de si.
— Eu tentei fazer de tudo para ter o amor do Eric, mas você sempre esteve no coração dele – respondeu ele todo confuso nas palavras, tremendo o rosto de uma maneira psicótica – Eu e ele tínhamos que ser felizes, mas ele só pensa em você, só em você.
— Não é assim que você vai consertar as coisas, tenha um pouco de calma – tentei amenizar a situação, enquanto Eric gritava de medo.
— Não me peça para ter calma, eles diziam para eu tomar o remédio direitinho e eu não tomava aí minha cabeça ficava doidinha e eu surtava – disse Arthur totalmente louco.
Não podia correr o risco de ligar para a polícia e ele esfaquear Eric bem na minha frente, mas também não podia me aproximar.
Arthur estava desnorteado, e a qualquer minuto podia cometer uma loucura ainda maior.
— Me mate então! – ordenou Eric – Já que o problema é meu amor por Henrique e escrever sobre ele em meu diário, acaba com isso logo!
— Não Eric – gritei – Arthur ama você, e eu sou o problema, então deixe ele soltar você e eu fico no seu lugar, aí ele faz o que quiser comigo.
A situação estava muito complicada, de um lado um louco que estava prestes a fazer uma besteira, e do outro Eric, que não tem culpa de ter sido alvo de Arthur.
Fui me aproximando aos poucos, sem medo, pois eu sabia que ele não machucaria Eric, que o que ele queria mesmo era usá-lo como isca para me pegar senão não teria me ligado e pedido para eu vir, a intenção dele nunca foi fazer mal ao Eric, e sim me fazer mal, pois dessa forma ele afetaria os sentimentos de Eric.
Cheguei bem perto de Arthur, olhei bem nos olhos dele e tentei fazê-lo entender que seria uma loucura continuar com essa cena.
— Solte-o, e deixe-me ser a sua presa – implorei a ele.
Ele soltou Eric, e na mesma hora ele me abraçou forte e disse “Eu não vou deixar ele te matar”, eu vi no olhar de Eric que seu amor por mim era verdadeiro e sempre foi, mas ele não sabia lidar com tanto amor, mas os cinco anos de coma em que ele esteve comigo, eu tive que entender que o amor da vida dele sou eu.
Arthur se descontrolou ao ver a cena, e me puxou para perto dele, Eric tentou empurrá-lo, mas ele fez um corte em seu braço, e logo em seguida pôs a faca em meu pescoço e disse “Sua hora chegou”.
Antes que ele pudesse me matar, Eric deu uma paulada na cabeça dele e o deixou inconsciente. Nos abraçamos e pedimos socorro.
— Eu te amo – disse Eric – Me desculpe por todas as escolhas erradas que eu fiz.
— Eu acredito no seu amor – disse a ele com lágrimas nos olhos.
Eric se aproximou do corpo de Arthur que estava imóvel no chão, até que ele sentiu a lâmina afiada atravessando seu peito, ele não sabia se sentia dor ou se sentia pena.
Arthur removeu a faca e o jogou pra cima de mim, e ainda respirando, Eric sorriu ao olhar nos meus olhos.
— Foi uma boa vida! – disse ele – Lembrarei sempre de você.
Não consegui me segurar, minhas lágrimas escorriam e eu senti que estava perdendo o amor mais puro e sincero que já tive. Eric parou de respirar. Tinha ido para o céu, e mais um anjo bom se juntou aos outros.
— Pai, cuide dele aí no céu – suspirei e chorei de emoção.
Arthur ficou calmo novamente, ouvi as sirenes, e sabia que estaria a salvo. Os policiais algemaram Arthur e o colocaram no carro, depois retiraram o corpo de Eric e me levaram para prestar depoimento.
16 de Outubro
Nunca me esquecerei da noite passada, ficará sempre gravada na minha mente. Estávamos esperando o padre começar o funeral.
Eu estava junto com a irmã de Eric, que estava inconsolável, ele era sua única família e agora ela só tem a ela mesma. Penso que Eric foi um herói, não teve medo de partir, mas ele conseguiu provar seu amor por mim, e seja qual for o meu destino, eu sempre saberei que vale a pena amar os outros sem esperar nada em troca.
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