Teddy Bear
1 Escolhas erradas

♦ Capítulo I: Escolhas erradas
As ruas estavam um tanto obscuras, até mais do que se esperava no fim daquela tarde. Aoi sentia seus pés congelarem a cada passo que dava naquelas calçadas sujas e gélidas da chuva fina que já havia começado a cair pouco antes dela sair de casa. E por falar nisso, não se lembrava nitidamente de como saiu de seu quarto, seguidamente de sua casa. Embora isso soasse estranho, parecia estar longe de sua casa e não sabia como isso era possível pois não se lembrava de nada, mas com certeza seu pai jamais a deixaria sair naquele horário completamente sozinha, levando em conta o fim que sua irmã mais nova teve da última vez que cometeu um ato semelhante.
Estava confusa com tudo aquilo, apesar de que sua última lembrança era de estar na cozinha se esbanjando de vinho barato. Quando a situação ia de mal a pior, a jovem Aoi apelava para as bebidas, assim como seu pai costuma fazer. Ela detestava essa mania nele, mas, quando o aperto chegava, ela fazia o mesmo. E talvez por isso se detestasse também, essa mania humana de tentar se destruir quando as coisas não vão bem é tão clichê.
Conforme a chuva engrossava, a garota apressava seus passos procurando ao menos um local para se esconder. A cidade a noite não era exatamente segura, então não sabia se deveria pedir informação para algum morador por perto, o que parecia uma opção limitada porque as poucas casas que encontrara na rua estavam com as janelas e portas lacradas. Perguntou-se o porquê de tamanha precaução, mas logo afastou esse pensamento.
Enquanto corria, percebeu que havia acabado de passar ao lado de uma mansão com grandes portões que ocasionalmente haviam sido acabados de serem abertos, fazendo um barulho que se difundia com o som da chuva caindo. Olhou para trás, voltando alguns passos lentamente em curiosidade.
Apesar de a mansão ter uma aparência antiga, era bem bonita à primeira vista. Mas Aoi estranhou não ter visto ninguém por perto, já que aquele velho portão de ferro havia sido acabado de ser destrancado e julgando pela decoração da mansão, era difícil acreditar que utilizavam algum sistema automático, o que dava a entender que alguém abriu o portão e voltou para dentro em seguida. Mas ainda assim... Daria tempo de ver alguém por perto, não? Ninguém seria tão rápido...
O portão já estava aberto quando passei, concluiu. Mas sabia que isso não era verdade, lembrava-se nitidamente de quando passou, mesmo tendo notado tão pouco, o portão não estava simplesmente aberto.
A chuva, que já tinha evoluído ao ponto de ensopá-la, estava tornando-se uma tempestade carregada por trovões. E a luz que enxergava bem distante do final da rua, falhava a todo instante, criando um breu lesivo aos seus olhos.
Voltou a mirar a mansão, que parecia bem mais atrativa na hora do desespero.
— Será que devo...? — cochichou. Ao mesmo tempo em que não sabia o que esperar entrando na residência de um desconhecido, algo parecia atraí-la ainda mais para dentro, e não era apenas sua vontade de sair da chuva, isso garantia. — Acho que não tenho tantas opções...
Do jeito que minha vida anda um caos, nada poderia piorar
Passou por um jardim ao lado de um chafariz, parecendo surpresa por chegar perto de todo aquele luxo, já que nunca viveu em condições tão boas assim, e uma mansão como aquela para ela era vista só em filmes mesmo (principalmente os de suspense, porque desde que entrou ali, sentiu um clima bem tenso, o que considerou mera impressão de sua parte).
Subiu os três degraus em frente à grande porta de madeira, com o corpo acolhido por conta do frio. Levou a mão até a porta com a intenção de batê-la, mas antes que pudesse ser feito, ela se abriu sozinha, o que a pegou de surpresa, mas levantou ainda mais sua curiosidade.
— Tem alguém aí? — perguntou, tentando enxergar algo dentro naquela distância. Sentia-se tão enxerida por estar ali... Por que estava ali? — Eu... Estou meio perdida, e está chovendo muito... Preciso ligar para meu pai. Posso entrar, por favor?
Um. Dois. Três minutos se passam.
Nenhuma resposta.
— Escute... Eu não iria incomodar, só preciso fazer uma ligação, não conheço esse bairro e não sei como voltar pra casa no meio dessa tempestade... Preciso mesmo de ajuda.
Mais uma vez o silêncio reinara.
Impaciente, atravessou a porta, encostando-a em seguida. Olhou em volta, agora, graças à boa iluminação das velas e o lustre no centro da sala — próximo a escada cujo carpete era vermelho — percebeu o quão bem organizada a recepção da mansão era, assim como parecia ser o resto dos quartos. Mesmo os móveis antigos não deixavam a desejar.
Após chamar mais algumas vezes e tirar paciência de onde não tinha para esperar alguém vir atendê-la, começou a andar em curiosidade pelos locais da mansão. Passou por algumas salas e corredores com bandejas de doces de todos os tipos, o que pela sua fome, a atraía muito. Mas já não bastava invadir o local, comeria a comida deles? Não, seria demais. Definitivamente, não.
Chegou a um dos poucos quartos destrancados, a porta estava tão aberta que parecia um convite para entrar, e mesmo não devendo, foi exatamente o que resolveu fazer.
Aoi, o que está dando em você hoje? Enlouqueceste?, rebatia consigo mesma, repudiando todas as suas atitudes impulsivas desde as últimas semanas que só estavam resultando em desastres, E por ter bebido tanto já não sabia mais se estava consciente ou não, já que não era a primeira vez que ela começava a delirar e saía de casa, o que aborrecia muito seu pai.
Aquele cômodo parecia pertencer a uma criança, tinha vários brinquedos e pelúcias espalhados, algumas pelúcias inclusive estavam bem judiadas, algumas sem partes do corpo e completamente sujas. Mas, pareciam bem organizados, quase que em fileiras. A cama era espaçosa e coberta por lençóis de seda em um tom de roxo bem forte, mas o que a chamou atenção foi uma rosa vermelha no meio da cama, tão bonita que chegou a se aproximar para tocar.
— Não toque — ouviu uma voz calma, porém alarmante, dando-a praticamente uma ordem. Naquele momento ela pulou com o susto, virando-se para quem quer que fosse. — Essa rosa já tem dona — continuou ele. Era um garoto, que apesar da altura e da idade que aparentava, tinha roupas bem infantis e carregava um ursinho em seus braços, completamente preso ao seu corpo como se o protegesse. Seus cabelos eram roxos e seus olhos lilases eram circulados por olheiras bem profundas que marcavam bastante sua pele extremamente branca. Do modo que ele a encarava, não dava pra saber o que passava por sua mente.
— Ah... Bem, desculpe-me... Eu sou...
— Por que invadiu meu quarto? Eu e o Teddy não gostamos de outras pessoas por aqui — interrompeu, seco.
Aoi suspirou, encarando o chão, constrangida.
— Eu lamento... Não queria invadir sua privacidade, eu chamei várias vezes e ninguém atendeu, então acabei andando por aí... Sei que foi indelicado de minha parte, é que acabei me perdendo nessa tempestade e...
— Pobrezinha... — ele interrompeu novamente em um suspiro, dessa vez, seu sussurro vinha por trás, não sabia como, mas ele estava atrás dela com o corpo extremamente próximo. Sequer havia escutado os passos dele! Isso era estranho... Tudo nele era estranho. — Você está ensopada — disse deslizando os dedos nos cabelos negros azulados da garota, que estavam completamente molhados. Ela se virou, recuando pra trás. Havia um meio sorriso que parecia inocente em seu rosto, mas por que ainda assim ele não parecia fazer jus a sua aparência? — Você parece assustada e perdida. Essa expressão é bem bonita... Teddy também gostou, não é, Teddy? — seu pequeno sorriso abriu-se um pouco mais, olhando para o ursinho em seus braços, que apertou um pouco mais contra seu corpo, de modo meigo, mas ainda assim, estranho.
Estranho era a palavra que mais definia aquele garoto.
— Hã... Certo — murmurou, estava confusa, mas não queria levar aquela conversa adiante, aquele garoto tinha um jeito muito lunático e julgando pela decoração de seu quarto, uma mente presa na infância. — Os seus pais estão aqui?
— Meus pais? Estão mortos — respondeu com a mesma calma.
— Oh... Sinto muito...
— Eles estão mortos porque eu os amei muito — falou com um sorriso calmo.
— Você... Mora aqui sozinho?
— Não.
— Tem alguém além de você em casa?
— Não.
— Ah...
— Está desapontada? — virou a cabeça lentamente para o lado direito, observando-a.
— Não, não! Eu só... Acho estranho você estar sozinho aqui.
— Não estou sozinho, não está vendo?
— Bem, agora não, já que acabei “invadindo” sua casa... — comentou com humor.
— Eu me referia ao Teddy — seu olhar parecia mais julgador dessa vez, mas acabou ficando só por isso quando ele voltou a olhar para o dito “Teddy”.
— Ah, ok. Peço desculpas...
— Vejo pelo seu olhar de deboche que não está arrependida, então por que pede desculpas?
Era impressão sua ou na mesma hora em que ele estava sorrindo já mudava de expressão e ficava completamente sério?
— Nada... Só acho estranho você se referir desse jeito a um brinquedo...
— O Teddy não é um brinquedo! — seu tom de voz havia se alterado e seus lábios foram contorcidos. Não podia negar que tantas mudanças a deixavam no mínimo incomodada, pra não dizer assustada mesmo. — Não dê atenção a isso Teddy, ela é apenas uma humana tola — falou meigamente para o ursinho, com o mesmo sorriso que ela tinha visto antes. Ele se virou calmamente para a cama, e Aoi encarou sua silhueta magra curiosamente.
Era melhor se manter em silêncio, aproveitar que ele estava distraído rindo para Teddy na cama e sair dali o quanto antes. Era melhor enfrentar uma tempestade do que dividir do mesmo cômodo que aquele maluco!
Aoi se dirigiu até a porta lentamente, fazendo o possível para não fazer nenhum barulho até tocar a maçaneta.
— Você já vai embora? — novamente o garoto havia aparecido atrás dela com um tom gentil em sua voz. Sua mão gélida tocava o ombro da mesma, que afastou a mão dele no mesmo instante, virando-se para encará-lo. — Pensei que ia ficar para brincar — disse parecendo sensível.
— Brincar? E-Eu... Nem sei seu nome... — tentou disfarçar o nervosismo, mas ele estava cada vez mais próximo e ela já estava praticamente encostada na porta que ele tinha acabado de fechar, fugir deixou de ser opção.
— Nomes não importam — abriu um daqueles sorrisos que chegava a fazer seus olhos se fecharem. — Você quer brincar comigo, não quer?
Ela ficou quieta, por que sentia que qualquer resposta que desse acabaria em uma situação bem desagradável?
— Não gosto que me façam esperar... RESPONDA! — ele praticamente berrou contra seu rosto, com o cenho bem fechado.
— S-Sim...
O rapaz relaxou o corpo e voltou a sua expressão, encarando-a por um longo tempo com aquela expressão inocente que ele tanto tinha. Por um momento, ela tinha enfim baixado a guarda, até que ele começou a rir, baixo, mas ainda assim, descontrolado, colocando a mão em seu pescoço e pressionando-a contra a porta com força.
— N-N-Não consigo...respi...
Ele soltou um pouco o pescoço dela, parecendo pensativo.
— Ah é... Você queria saber meu nome, né? Mulheres exigem muitas explicações... — como ele conseguia ser tão calmo em uma situação como aquela? — Meu nome é Kanato — sorriu meigamente, dessa vez um sorriso mais aberto, mostrando suas presas. — E vou entortar até o último osso de seu corpo.
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