Teddy Bear
3 Bunny
Notas iniciais

♦ Capítulo III: Bunny
Kanato continuara a consumi-la. Suas presas afiadas já haviam marcado de seu pescoço aos ombros incansavelmente, enquanto as mãos deles afundavam-se em seus cabelos, puxando-os às vezes levemente, às vezes rudemente.
Mudanças de comportamento.
Sequer havia convivido com ele — tinha até medo de pensar no que aconteceria quando fosse de fato conviver —, mas já havia notado que ele a tratava com delicadeza e em seguida tornava-se um ser brutal e obsessivo, como se a alma de Aoi o possuísse desde que seu sangue adentrou sua boca, e desde então ele tivesse controle sobre cada parte de seu corpo da forma mais insana possível.
— Kanato... — ela murmurou.
Os olhos lilases dele se ergueram, parando sobre a expressão de dor da garota, que pareceu agradá-lo pelo sorriso de lado que ele abriu, derramando um pouco do sangue que tinha em sua boca.
— Está doendo, não é? — parecendo levemente preocupado com ela, passou a mão em seu rosto, quase como uma caricia, embora ela recuasse por medo. — Por que você está sempre fugindo de mim, Aoi? — perguntou encarando-a. Ela engoliu seco, sem saber o que fazer. — Me responda — ordenou com a voz firme.
— Você... Você... — tentava controlar sua raiva, visto que se o respondesse iria afrontá-lo ainda mais. — Ainda pergunta?! — fechou o cenho, irritada. — Achou o quê? Que me jogando no chão, me ferindo, sugando meu sangue como se eu fosse um animal eu iria confiar em você? Que iria querê-lo por perto? Eu quero sair daqui o quanto antes, e não desistirei de fugir de você!
Kanato abaixou a cabeça, ele estava tremendo e cerrando os dentes fortemente, a garota sabia que não vinha coisa boa dali, e mesmo não se arrependendo de ter jogado tudo o que pensava na cara dele, percebeu que poderia ter evitado aquilo, se tivesse pensado melhor...
— Eu tento ser romântico com você e é assim que você retribui... — fechou o punho contendo sua raiva, mas logo abriu largamente sua mão direita acertando o rosto de Aoi com um tapa ardente. — Você é mesmo desprezível. Humana tola! — começou a rir. — Acha que tem o direito de me responder? — segurou os braços dela, raivoso. — Você não passa de um brinquedo que eu posso quebrar ao meio quando bem entender. Você não tem vontade própria, entendeu? — começou a apertar fortemente o braço direito dela, que quase gritava de dor. — DIGA QUE FINALMENTE ENTENDEU, AOI! Diga que me pertence!
— K-Kanato... Por f-favor... Você tem que p-parar...
— NÃO ME DÊ ORDENS! — apertou ainda mais. — ANDA, DIGA!
— E-Eu... Pertenço-te — sussurrou, tentando não começar a chorar, já que era a última coisa que queria no momento.
— Eu não ouvi direito — falou, voltando a rir da forma mais egocêntrica possível. — Repita. Mostre-me o quão patética você é.
Aoi fechou os olhos, franzindo a testa.
— Eu... Pertenço-te, Kanato... Me d-desculpa... Eu não queria...
— Aoi, você é tão fofa — abriu um pequeno sorriso. — Eu desculpo você — voltou a depositar uma mordida em seu pescoço, após uma pequena lambida. A garota já estava começando a ficar fraca, o que já era de se esperar, Kanato marcava sua pele fundamente, desfrutando de seu sangue como se fosse o gosto mais doce que seus lábios já provaram. — Que bom que finalmente entendeu... Seu lugar é aqui comigo. Estou certo disso.
Haviam se conhecido em um dia, e ele já se via como seu dono. Se a situação fosse capaz de piorar, ela já não sabia.
— Só quero voltar... Pra casa — sussurrou, tão exausta que já nem sabia mais o que estava dizendo, levando em conta seu estado mental e físico, não iria demorar a pegar no sono ali mesmo. — M-Meu pai deve estar me esperando... Ele dizia para eu não sair tarde sozinha...
— Está tudo bem. Essa é a sua casa agora — continuou, pelo incrível que pareça, de um jeito fofo. Tirou sua atenção do sangue da garota por um momento, encarando-a com calma, ela estava mesmo sonolenta, seu corpo já estava bem mais relaxado em seus braços e ela não se debatia como antes. — Ah, Aoi... Iremos nos divertir tanto. Teddy sentia falta de brincar com uma garota humana... — continuou encarando-a por um tempo.
— O que... Você quer comigo? — foi tudo o que conseguiu dizer.
Ele não respondeu, continuou com o mesmo sorriso amigável no rosto. E antes que Aoi apagasse, o viu se aproximar cada vez mais, selando seus lábios assim que ela fechou seus olhos, pegando no sono.
✖
Assim que abriu os olhos sua visão foi invadida por uma claridade da qual não estava acostumada. Seu corpo estava mais confortável do que quando acordou naquele sofá, mas sentia um leve formigamento nas regiões que Kanato havia mordido e um desconforto em seu braço que ele apertou com tanta brutalidade tempo antes.
Sabe aquela péssima sensação de que você será obrigado a se acostumar com algo que não quer? Era exatamente o que Aoi sentia. Queria simplesmente sair daquela cama e correr mais e mais, mesmo sabendo que poderia não resultar em nada, falhando como em sua última tentativa. Porém, por outro lado, queria passar o resto do dia naquela cama, sentindo-se protegida por baixo daquela coberta tão quentinha, como se ali ninguém pudesse chegar.
Sentou-se na cama, ficando alguns minutos refletindo naquela posição. Suspirou, passando a mão no rosto, e naquele momento notou que seu braço havia sido enfaixado. Por quem, ela não fazia ideia. Mesmo assim, ajudou um pouco. Kanato não chegou a quebrar seu braço, mas sentiu seu osso sento levemente torcido, o que já causou dor suficiente.
— Diga que me pertence!
— Eu... Pertenço-te, Kanato...
Balançou a cabeça negativamente. Não queria se lembrar do que aconteceu... Não queria nem se lembrar que estava em um dos quartos daquela mansão quase tão perturbada quanto os donos dela! Só queria voltar a dormir e esquecer-se de tudo, mas estava simplesmente acordada, presa na vida real, e nela não havia a opção de pausar tudo ao seu redor e começar do zero apagando qualquer erro que cometeu.
Começou a olhar em volta quando tomou coragem para se levantar. Percebeu que tinha um coelhinho de pelúcia rosa no pé da cama, o que a fez se aproximar, engatinhando sobre o colchão.
— Bunny? O que faz aqui? — pegou o coelho, alisando suas orelhas. — Como você veio parar aqui? — estava cada vez mais intrigada. Aquele pelúcia estava em sua casa, em sua cama, quando ela saiu sabe-se lá como e vadiou pelas ruas até a tempestade começar. Bunny era de sua irmã mais nova, antes dela ser morta misteriosamente, ela entregou Bunny para Aoi. Às vezes falava com o bichinho como se estivesse tentando se aproximar das lembranças da irmãzinha, mas era diferente de Kanato, ele parecia levar a sério sua comunicação com Teddy.
Mas por que estava pensando nele mesmo?
— Vejo que já acordou — ouviu Reiji dizer, na porta do quarto, que ela nem havia escutado ser aberta. O rapaz olhou para o pelúcia que ela tinha em mãos, estreitando o olhar. — O que isso faz aqui?
— Hã? Pensei que vocês tivessem deixado Bunny aqui... — respondeu confusa.
— Bunny? Não, nunca vi esse pelúcia imundo antes — disse pensativo. — Mas isso não importa. Seu braço está melhor?
— Ah, sim. Foi você que enfaixou? Muito obrigada, Reiji.
— Não agradeça, por mim deixaria como estava, mas precisamos ir para a escola agora, apronte-se.
— Agora? Vocês estudam de noite?
— Se estou dizendo para se aprontar, é óbvio — retrucou. — Deixei seu uniforme pronto sobre a cama. Não nos atrase mais do que já atrasou.
— Você quer ajuda para se trocar, putinha? — Laito sussurrou atrás dela, que se assustou com sua presença repentina. Que eles apareciam do nada, já ficou claro. Mas ainda assim, não era algo fácil de acostumar. Ninguém aceita a existência de vampiros tão facilmente... Não é? — Oh, perdoe-me. Vejo que a deixei alarmada — sorriu, percebendo seu nervosismo.
— Teddy, a Aoi vai pra a escola com a gente. Legal, né? — Kanato conversava com Teddy sentado em sua cama, com a mesma expressão inocente (e ao mesmo tempo, perturbada) de sempre.
— Laito, Kanato, saiam do quarto. Deixem ela se trocar. Não vou aturar atrasados por conta de seus caprichos dessa vez — Reiji entrou no meio.
— Eu só precisaria de alguns minutos com nossa cadelinha, garanto que seria o suficiente para colocarmos a conversa em dia. O que me diz? — segurou o queixo dela, erguendo seu rosto.
— Laito — o mais velho voltou a chamar a atenção.
O ruivo suspirou se afastando; encarando-a pelo canto dos olhos.
— Cuidarei de você mais tarde — sorriu, sumindo de vista.
Sentiu-se aliviada com o sumiço daquele pervertido, mesmo que os outros ainda estivessem ali. Menos um, pensou.
— Obrigada, Reiji... — virou-se para agradecê-lo, mas o mesmo já tinha sumido assim como Laito, sem mais nem menos. Resolveu se virar para ver se Kanato havia vazado junto com os outros, mas ao invés de estar na cama, ele estava em pé bem à sua frente. — K-Kanato?!
— Você também tem um amigo? — virou a cabeça pro lado, analisando Bunny.
— Ah... Bem, era da minha irmã na verdade... — por que estava conversando com aquele louco?
— Sua irmã está morta? — perguntou simplesmente.
Aoi sorriu de um jeito triste, assentindo.
— Você a matou? — Kanato continuou perguntando.
— N-Não! Claro que não... Que pergunta é essa, Kanato?
— Seu pai que deixou esse coelho aqui né?
— O quê? — o bêbado do meu pai? Sem chances. — Meu pai nem sabe sobre esse lugar...
— Sabe sim, eu o vi — sorriu.
— Como? Kanato, do que está falando? Você viu meu pai? Aqui? Do que está falando agora?
Havia grandes chances de ele estar inventando aquilo, mas agora queria descobrir. Na verdade, queria descobrir tudo a respeito daquele lugar, mesmo ainda querendo fugir o quanto antes dele...
Contradições e mais contradições.
Era isso que Kanato Sakamaki causava nas pessoas?
— Aoi... — ele abaixou um pouco a cabeça, encarando o chão. Algo parecia incomodá-lo enquanto ajeitava Teddy em seus braços.
— Sim?
— Não quero que fale com aquele homem.
— Quem? O meu pai? — riu ironicamente.
Era só o que faltava, ele estava querendo a tratar como um animal de estimação mesmo.
— É. Teddy não gosta dele, e eu também não.
— Mas ele é meu pai... — tentou dizer, mas como sempre, ele a cortou.
— Cale-se! Você não pode preferir ele a mim. Se ele aparecer novamente em seu quarto, irei matá-lo.
QUE MERDA ESTAVA ACONTECENDO?
— Kanato...
— Shh... — colocou o dedo indicador em sua boca, fazendo um sinal para que ela ficasse quieta. — Gosto tanto quando você cala a boca... — ele abriu a boca, mostrando as presas, e se aproximou de sua pele. Naquele momento, ela já fechou os olhos temendo o pior, que aquela situação tão desagradável se repetisse. Mas não. Antes da boca de Kanato se aproximar de seu pescoço, ele desapareceu do cômodo sem deixar pistas.
Aoi colocou a mão no peito, sentindo seu coração acelerado.
Não estava acreditando completamente no que Kanato mencionou a respeito de seu pai, visto que o resto dos irmãos não mencionaram nada, e que Kanato era um maníaco. Mesmo assim, isso levantou sua curiosidade, e não iria descartar a possibilidade daquilo ter mesmo acontecido.
Será que... Seu pai esteve mesmo ali? E se sim, como? Por quê? Não conseguia entender...
Abraçou Bunny, quase como Kanato abraçava Teddy, mesmo ambos tendo valores bem diferentes para os dois.
— Eu... Não entendo porquê estou aqui.
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