17 décembre 2021 Élysée, Paris, France, 19h

Aquela noite parecia mágica.

Era possível ouvir a batida da música reverberando a quilômetros de distância do colégio. Assim que paramos em frente ao portão, os intercambistas explodiram em comemoração. Conversas e risadas altas preenchiam o espaço da limousine alugada por Arthur para nós adentrarmos em grande estilo.

No caminho, Scarlett, Heloisa, Reyes e eu ligamos de chamada de vídeo para Emma, que nos desejou bom recesso e aparentava estar ansiosa para encontrar Reyes no Natal. Eles tinham finalmente feito as pazes.

Senti uma pontada de inveja por não enxergar minha luz no fim do túnel com Santiago, e mascarei minha tristeza ao brindarmos com champagne.

Estávamos todos extremamente bem-vestidos, mantendo uma imagem polida. O vestido escolhido por Scarlett era decotado, preto e ia até a altura dos joelhos, ressaltando as regiões de sua cintura e quadris com paetês, decote e pérolas — chamativo feito sua personalidade e cabelo, agora, pintado de preto azulado.

Eu optei por uma peça cor de rubi com as costas abertas, mangas bufantes e uma fenda na parte da coxa. Já Heloisa, por um vestido amarelo mostarda estilo sereia tomara-que-caia. Seus olhos amendoados ficavam pequenos quando sorria abertamente. Há semanas eu não a via tão feliz. Por fim, ela havia voltado a falar conosco, e Simon também tinha retornado a morar junto dos Berny.

Simon não tinha fugido para a casa de Heloisa, porém, ela tinha conhecimento do paradeiro dele, o que obviamente não nos foi revelado. Após muito chororô, nós entendemos o lado de Heloisa e a perdoamos.

Para mim, a príncipio foi um choque. Eu não sabia que minha amiga estava apaixonada pelo meu irmão postiço naquele nível tão intenso, e tampouco que eles tinham se conectado tão assim... do nada.

Talvez o mundo simplesmente não girasse somente em meu entorno, não? Às vezes eu focava tanto em mim mesma que esquecia-me das outras pessoas.

Heloisa, Scarlett e eu acabamos topando a proposta de Scarlett: um SPA Day. Depois de uma massagem divina que aliviou toda a tensão acumulada em minhas costas e ombros, espalharam esfoliante e hidratante por toda minha pele.

Motivadas por Heloisa, alongamos nossos cílios, afinamos as sobrancelhas e pintamos os fios com henna marrom. Uma manicure experiente tratou nossas unhas dos pés e das mãos com banho de gel. Ainda tivemos a audácia de arriscar passar pelo processo da depilação brasileira com cera no buço, axila e virilha — certamente uma das experiências mais dolorosas de toda a minha vida.

Scarlett não parou de tagarelar durante todo o dia. Tônico, sérum, protetor solar... contorno para destacar o nariz e o maxilar... Eram tantos termos que eu fiquei extremamente perdida, porém, satisfeita ao observar o resultado.

Cortaram, lavaram, hidrataram e pintaram meu cabelo de castanho médio com mechas acobreadas. Passaram babyliss nas pontas, deixando meus fios ainda mais ondulados. Aplicaram gloss em meus lábios para realçar o volume. O iluminador serviria para ressaltar os pontos de luz quando fôssemos tirar fotos, segundo Scarlett. Coloquei brincos, aneis, colares e pulseiras brilhantes. Nunca tinha me arrumado tanto antes.

O clima de animação era contagiante. Podia, inclusive, sentir um frio gostoso de antecipação na barriga, uma alegria tremenda, como se algo muito bom fosse acontecer a qualquer momento.

O salão estava coberto por balões foscos pendurados em arcos por toda a extensão da entrada. Havia bandeirinhas vermelhas, azuis e brancas espalhadas por todo o colégio.

Me deliciei com o cheiro e o sabor das coxinhas dispostas sobre a mesa. Devorava pães e mais pães de queijo. Gostaria de ser capaz de identificar meus sentimentos e saber o que estava me deixando tão ansiosa, mas desisti de encontrar uma razão plausível o suficiente.

Até que avistei Michel. Imediatamente aprumei a postura e limpei meus lábios com o guardanapo, andando em sua direção para cumprimentá-lo. Ele sorria largamente para os convidados, acenando para quem quer que atravessasse seu campo de visão. Seu cabelo sempre esvoaçante mantinha-se penteado para trás com gel, combinando com seu terno azul marinho. Michel estava mais bonito do que geralmente eu o enxergava, era praticamente impossível despregar meus olhos dele. E seu charme ao saudar as pessoas era hipnotizante... e sexy.

Meu Deus... que paranoia é essa?, minha voz saiu gritada dentro de minha cabeça ao repreender meus próprios pensamentos.

O que Santiago pensaria se soubesse que estava sentindo atração por outro cara que não era ele? Era normal achar outros homens atraentes, não? Michel e eu convivíamos quase todo dia juntos, e ocasionalmente eu poderia acabar pensando algo assim... A mera possibilidade de Santiago fazer o mesmo com outra garota me gerava culpa.

Evitei meus devaneios idiotas. Reparei que ao lado de Michel estava Adele, trajando um longo vestido de cor metálica tão artificial quanto ela. Respirei fundo, frustrada, dando meia volta e assentando-me em uma das muitas cadeiras disponíveis do enorme salão quadriculado. Reyes e Heloisa me encararam confusos.

— Encheu, Gabi? — caçoou Reyes, ajeitando seu paletó. O tom off white do tecido entregavam a ele um aspecto sofisticado que ornava bem com seu sorriso zombeteiro.

— Você não comeu todos os sushis não, né? — Heloisa ironizou.

— Sobrou bastante pra vocês, tá? — respondi, revirando os olhos.

— Você parece... — apontou Reyes, pousando uma de suas mãos sob o queixo. — Sei lá...

— Chateada? — sugeriu Heloisa, bebericando um pouco de seu copo que continha um drink azul borbulhante.

— Isso! — Reyes concordou. Eu realmente estava aérea, mas não era pra tanto...

— Estou... — Bocejei, mirando o chão. — Muito cansada!

Subitamente, o ruído de uma notificação soou vindo de meu celular. Ao segurar o aparelho, eu involuntariamente bati uma de minhas pernas contra a mesa. Gemi devido a dor, perplexa com o nome do remetente presente no visor. Minhas mãos suadas tremiam, num mix de curiosidade e perplexidade.

natalia.poggio: Ei, Gabi... eu não queria que você descobrisse as coisas assim dessa forma... agora todos aqui em Villa 31 já sabem e eu não tenho porque esconder! Espero que você não sofra tanto... espero que possa me perdoar por ter guardado isso por tanto tempo, juro que sinto muito! Te amo! Não se esqueça de que você é minha irmã!

— Gabi! — exclamaram Reyes e Heloisa ao mesmo tempo.

Reyes tentou me ajudar a sentar-me na cadeira novamente, porém, eu já tinha impulsionado o tronco para cima num impulso.

— P-Preciso responder isso... — gaguejei, afobada.

Antes que eu pudesse separar as palavras para retrucar a mensagem de Natália, meu celular vibrou mais uma vez e eu apressadamente cliquei no conteúdo. Cliquei no anexo enviado junto com o texto me pedindo perdão mais uma vez. Era um vídeo. Meus dedos oscilaram por uns instantes antes de abri-lo.

— O que é isso? — berraram Heloisa e Reyes ao depararem-se com a tela de meu aparelho.

A melodia animada de uma canção de merengue saiu pelo alto-falante. De costas, uma garota ruiva e de cabelos cacheados cochichava algo no ouvido de um rapaz alto e magro. Nem precisei ver seu rosto. O sorriso, o jeito como a mão dele a segurava pela cintura... era inconfundível.

Santiago.

Naquele ritmo de flerte, ele a incentivou a dançar, e aconteceu algo inesperado: a garota o beijou fervorosamente. Esperei que Santiago recuasse, que lembrasse que era comprometido, mas não: ele prontamente retribuiu o gesto.

Engoli em seco, empalidecendo. Pisquei repetidas vezes, sentindo um calafrio e tudo ao meu redor girando. Parecia que todo o sangue presente em minhas veias não estava mais circulando corretamente.

— Esse não é o... — Reyes iniciou, embasbacado.

— Santiago? — completou Heloisa, atônita.

— E-eu... e-u preciso r-resp... — Minha voz saiu falhada, e ao notar pena presente nos olhares de meus amigos, minha vontade de desaparecer dali intensificou-se ainda mais dentro de meu ser.

— Gabi... — Reyes tentou intervir, e eu apenas o lancei uma mirada perdida, como se implorasse para que ele não me seguisse. Ele desistiu, fitando Heloisa, aflito.

Minhas vistas ardiam e meus pés praticamente não respondiam aos passos desorientados que eu me dedicava para dar e não esborrachar-me no chão. Conforme eu caminhava, sentia um nó na garganta e a falta de fôlego me dominava.

Com muita dificuldade, me empenhei em arrastar meu corpo até o corredor. Dobrei a esquina e rapidamente cheguei à saída. Em frente ao portão, o cheiro de cigarro vindo de alguns estudantes do lado de fora se instalou no ar. Àquela altura o odor era só um detalhe.

O medo de desmaiar e acordar num hospital se apossou de mim, então decidi encontrar um lugar para me escorar. Quando dei-me por mim, eu estava com o vestido e cabelos completamente encharcados.

Ótima hora para começar a chover.

Apoiei-me contra a parede, sentindo meus joelhos enfraquecidos pedindo para que eu parasse para descansar. O sabor salgado da chuva se misturava à quantidade exorbitante de lágrimas que escorriam pelas minhas bochechas. E enquanto as gotas de chuva continuavam a cair, eu quase tropecei ao deslizar os cotovelos para tirar meus saltos. Arremessei-os longe, sentindo tremendo alívio nos dedos. Percebi que eu tinha ficado com calos nos calcanhares, mas a sensação de desespero instalada em mim era tão urgente que eu ignorei a dor física.

Até que ouvi risadinhas, gemidos e suspiros. Duas figuras começaram a tomar forma à medida que eu forçava meus olhos. Vislumbrei Scarlett e Florian aos beijos no escuro. Eles repararam em minhas fungadas quase inaudíveis e vieram em minha direção.

— Gabi? — disseram juntos, nitidamente preocupados. Eu sentia meu corpo amolecer a cada segundo que passava, como se fosse colapsar a qualquer instante. Minhas pernas vacilaram, e se não fosse por Florian, eu teria ido direto de encontro ao chão.

— Vai buscar ajuda! — Scarlett soltou um grito agudo e Florian assentiu, apavorado, correndo na direção da coordenação.

Scarlett, com a maior delicadeza do mundo, tentou me ajudar. Com o restante da força presente dentro de mim, desloquei-me até o banheiro mais próximo. Cada movimento parecia uma eternidade. Tudo se movia apressadamente, e minha visão ficava cada vez mais turva.

Scarlett me acomodou em um dos bancos, e logo Florian reapareceu.

— Gabriela? — Michel irrompeu junto a Florian, baixando-se em minha frente para adequar nossas estaturas. — Consegue me ouvir?

Anui devagarinho a cabeça, incapaz de encará-lo diretamente nos olhos. Engoli em seco, enquanto a imagem do vídeo enviado por Natália repercutia em minha mente.

— Não gosto de ver ela assim — confessou Scarlett, com lágrimas nos olhos. Florian passou a mão pelos cabelos dela, a confortando. Scarlett saiu junto a Florian, desolada, avisando que iríamos nos reencontrar na enfermaria.

— Você está com febre — comentou Michel, encostando o dorso da mão contra minha testa e checando meu pulso. — Consegue se mexer?

— Não... — respondi num sussurro.

Excusez-moi... — Michel pediu, antes de erguer meu tronco para cima com firmeza. Resfoleguei, e o cheiro do perfume dele atingiu fortemente minhas narinas. Embriagada pela sensação, suspirei ao sentir o calor de Michel mais perto quando ele apoiou-me em suas costas.

— Que déja vu... — relembrou Michel, bem-humorado, numa tentativa de quebrar o clima triste. — Já estivemos nessa situação antes, certo, Mademoiselle Sanz? — Vendo que eu não tive reação, ele pigarreou. O restante do percurso foi feito silenciosamente, e com muita cautela, Michel colocou-me sobre a maca da enfermaria. Agradeci, abrindo um fraco sorriso.

Merci...

— A enfermeira já está vindo...

Realmente já tínhamos estado naquela situação — os dois na enfermaria, e aquela era provavelmente a minha terceira vez ali no mês. Eu realmente não estava bem. E preferiria ter sido insultada e brigado novamente com Adele do que estar passando por aquela humilhação.

A avidez de Santiago ao agarrar a menina do vídeo passeava por meu cérebro, e eu me via incapaz de controlar as lágrimas.

— Você... — Funguei, limpando meus olhos e encarando Michel, que me mirava de volta, consternado. — Poderia me deixar sozinha?

— Perdeu seu medo de hospitais e remédios? — Michel alfinetou-me num tom brincalhão.

— Não precisa chamar a enfermeira... eu só preciso de um tempo pra respirar e assimilar as coisas...

— Tudo bem... — Michel deu-se por vencido, mas eu notei que ele hesitava em tocar minha bochecha úmida. — Se precisar de mim, estarei na coordenação. Lembra: eu estou com você!

Confirmei com a cabeça e ouvi o barulho da porta se fechando. Desativei o ar condicionado e permiti que todo o pranto dentro de mim saísse. Uma sensação inexplicável de liberdade me possuiu.

Me levantei e andei até o banheiro da enfermaria. Acendi as luzes e encarei os desenhos azuis presentes no azulejo. A atmosfera afastada do forte cheiro de remédio automaticamente melhorou meu humor.

Pude sentir toda minha nuca e testa suadas ao acostar-me contra a parede. Esfreguei meu rosto com água e sabão, removendo toda a sombra esfumada, rímel e lápis que realçavam o tom cor de mel de minhas íris — que agora estavam avermelhadas... e um tanto quanto sem vida.

Arranquei todas as joias e as pendurei sobre a pia. Era como se, de repente, eu fosse eu mesma de novo. A Gabriela anterior me havia simplesmente sido emprestada, aquela vida de luxo não era para mim. E eu prometi para mim mesma que dali em diante cuidaria bem do meu coração. Eu iria falar com Santiago. Finalmente.

Notas finais
Link do trailer da fanfic: https://youtu.be/LX1qLRTXwWI?si=55WCHw4kxjHw2p3V Playlist da fanfic (ouçam na ordem, cada capítulo é uma canção): https://open.spotify.com/playlist/3nqnfGHPeW6Z0ismULPlbY?si=CBFteePcSQKt9RlULrSILQ&pi=u-DihW8LqXRDCO https://linktr.ee/dgwoman (elenco da fic)