Disquei o número de Santiago, com sangue nos olhos. Ele prontamente me atendeu. Minhas mãos tremiam tanto que meu celular por pouco não caiu no chão.

— Eu não sei nem por onde começar... — repeti a mesma frase dita por mim no último sonho que eu tinha tido com Santiago, e foi bastante reconfortante, como um breve ensaio. Meu peito subia e descia conforme minha raiva se intensificava. — ¿Cómo pudiste? ¿Cómo te atrevés?

Não tinha para onde correr. Eu finalmente estava terminando meu namoro. Tinha pensado por diversas vezes como seria, como eu reagiria, e por um lado, sentia como se um peso estivesse saindo de meus ombros. Era ódio, raiva, tristeza, angústia, ansiedade, desespero, felicidade, alívio... tudo misturado.

Gabriela... — A voz cambaleante de Santiago denunciava seu estado alcoólico. Depois de tanto tempo, ouvi-lo novamente me causou uma náusea momentânea.

— Como você teve coragem? — Minha voz tremia ao ecoar pelo banheiro silencioso, mas eu me mantive estável o suficiente para prosseguir.

Ah, a fofoqueira da Natália te contou? — Santiago debochou. — Finalmente...

Cerrei os punhos e fechei meus olhos, tentando conter o impulso que tomava conta do meu corpo. Minha vontade era de destruir aquela enfermaria inteira com socos e chutes com intuito de descontar todos os sentimentos acumulados.

— Eu preferia que você tivesse ficado com raiva, dito tudo o que pensava, do que ter tido que lidar com a sua indiferença, eu odiei ter que tentar adivinhar o que se passava na sua cabeça! Agora eu vejo que não daria pra adivinhar... já que não tem nada aí dentro, Santiago! Não posso, não quero e nem vou pagar o preço de um amor assim.

Que seja... — Podia jurar que ele estava virando uma garrafa de bebida naquele instante, por conta do barulho do estalo de um recipiente sendo aberto e um de um líquido sendo derramado do outro lado da linha.

— Eu não vou mais lutar por alguém que não se esforça por mim, eu sei que mereço um amor sem forçar, um amor natural e leve, Santiago! Acho que vou demorar a conseguir me abrir novamente, mas eu nunca vou parar de acreditar no amor, principalmente se for por sua causa! Nunca me senti tão humilhada!

Você sempre foi... — Santiago soltou uma risada sarcástica. — Frígida, e eu...

— Frígida? — eu o interrompi imediatamente. Minha garganta estava seca, e as palavras saíam entrecortadas pela dor.

Sim... eu amei você por muito tempo, mas cansei de namorar uma adolescente! Eu tenho minhas necessidades, Gabriela!

Abri a boca, incrédula com o que acabara de ouvir. Dei um soco na parede, e mordi os lábios em seguida, tremelicando de dor.

— Se você realmente me amasse, teria me esperado... — Solucei, com a voz embargada.

Você realmente achou que eu iria te esperar por uns 14 anos? A gente não tá vivendo na época da Bíblia! Você acha que eu sou Jacó? Eu não me vejo nem casando com você!

— Eu te odeio! — esbravejei, socando a parede outra vez. Meus dedos tremeram devido a dor, mas isso não me impediu de continuar. — Nem se você aparecer pintado de ouro na minha frente, eu vou voltar com você!

E nem se eu me odiasse muito eu iria querer voltar com você, Gabriela! — declarou Santiago, de forma cruel.

Uma dor atravessou meu peito no mesmo instante. Lutava para conter as lágrimas que ardiam como fogo sob minhas pálpebras. Santiago não tinha ideia do poder que suas palavras carregavam. Eu ansiei para poder falar com ele novamente por muito tempo, e era doloroso reconhecer que aquele seria o nosso inevitável fim.

— Eu só te liguei pra te parabenizar, Santiago. — Trouxe uma das mãos à frente de meus lábios, e o som de meu choro contido se agravou. — Parabéns por ter jogado quase cinco anos de um relacionamento no lixo. Um relacionamento que só funcionava por causa de mim!

Fechei os olhos, sentindo meu rosto avermelhando-se de arrependimento e vergonha. Eu tinha planos de me casar com Santiago, pretendia juntar dinheiro pra conseguir pagar o nosso casamento... sonhava com uma festa simples entre as nossas famílias, tinha criado até mesmo uma pasta no Pinterest com fotos de decoração e ideias de vestidos de noiva.

Inclusive, eu havia cogitado a possibilidade de ingressar em uma faculdade de turismo na França, conseguir um estágio, e em ajudar Santiago a se mudar para Paris. Planos de morarmos juntos. Planos de até mesmo termos filhos.

E agora, tudo estava se desmoronando.

Seu lugar nunca foi comigo, Gabriela! — Santiago disparou aquela frase dilacerante, que me gerou um tremor.

— Pois é. Eu me enganei achando que era. Agora tudo faz sentido: você nunca me apoiou, dizia que seria loucura eu vir pra cá e a gente continuar namorando...

Eu...-

— Se eu pudesse voltar no tempo... — cortei-o, friamente. — Nunca teria acreditado em você, em nenhuma das vezes que você disse “te quiero”! A primeira vez que eu te vi no corredor da escola, jamais imaginaria que tudo acabaria assim.

Já tinha passado da hora, Gabriela! — Santiago exprimiu, como se aquela fosse uma coisa simples de resolver. — Eu machuco todas as pessoas ao meu redor, infelizmente... eu não sou uma boa pessoa!

— Queria voltar pro dia que eu não sabia da sua existência... mas quer saber? — eu bradei, massageando minhas têmporas latejantes. — Antes de te conhecer eu já vivia! Não vou morrer por causa de você!

Santiago soltou uma gargalhada abarrotada de desprezo. Ele parecia se divertir com meu sofrimento, estava irreconhecível.

Juntos ou não, eu desejo tudo de bom na sua vida! — desejou-me num tom nada natural. — Esse é o amor verdadeiro!

— Amor... — Chutei a porta do banheiro com força ao escutar aquela palavra que, pela primeira vez, soou como um insulto. — O dia que você realmente amar alguém de verdade, a gente conversa!

Pressionei a tecla de desligar exageradamente e mirei o espelho. Meu cabelo estava repleto de frizz e minha maquiagem totalmente borrada.

Num gesto audacioso, agarrei uma das tesouras da enfermaria e cortei as mangas e o comprimento de meu vestido. Mantive-o um pouco acima do joelho e as retirei as mangas, que, apesar de terem ficado desniveladas, mostravam bem mais a minha pele.

Decidida, saí da enfermaria e cruzei o portão do salão. Os sons de música e gente conversando na festa ficaram mais fortes. À medida que eu ia me aproximando, e as luzes coloridas invadiam meu campo de visão.

O cheiro de álcool e suor era quase que palpável. Florian e Scarlett, no canto, interagiam com alguns alunos do segundo ano. Heloisa e Reyes dançavam juntos numa coreografia ridícula. Me vi na obrigação de filmar para implicar com eles depois.

Ignorei Adele, que esbarrou em mim e provavelmente proferiu algum xingamento. Eu já estava longe o suficiente para não ouvir mais nada.

Aceitei o primeiro copo com drink colorido que me foi oferecido por uma garçonete simpática. O gosto era doce, extremamente enjoativo e desceu rasgando pela minha garganta. Distraída com a melodia dos Eletrohits que tocavam, eu bebi incontáveis copos com álcool, e logo, tudo estava se mexendo vivamente à minha volta. Meus sentidos estavam aguçados, e eu rapidamente identifiquei a voz aveludada que chamou meu nome e o perfume amadeirado que preencheu o ar atrás de mim.

— Gabriela?

— Michel! — gritei, unindo minhas palmas, animada, como se não nos víssemos há anos. De repente, Michel estava mais atraente do que nunca. Reparei em seus músculos saltando para fora da camiseta, e em seus lábios carnudos. — Você não estava na coordenação?

— Sim, mas eu cansei de esperar por você... — ele confessou em tom brincalhão e nós rimos juntos.

— Eu não canso de esperar por você nunca... — silabei, grogue.

Michel juntou suas sobrancelhas.

— Está tudo bem?

Assenti, me aproximando mais dele sem pensar demais. Eu já não ligava mais para o que estava fazendo, apenas sentia uma vontade de me divertir crescente dentro de mim. O calor que emanava do corpo de Michel se alinhou ao meu, e os olhos dele pareciam convidativos de um jeito novo, brilhando de um jeito diferente que eu nunca tinha visto antes.

— Tô melhor agora... — Atrevi-me a abraçar a cintura de Michel, quase que num instinto. Michel se manteve rígido, certamente assustado. O peito dele batia descompassadamente, e a sensação de seu cheiro tão perto de mim era tão boa que provocou-me um suspiro.

— O que você está...-

— Você tá tremendo, professor... — Soltei um sorriso sapeca, lhe fazendo cócegas. — Tá quente.... E tá todo arrepiado...

— G-Gabriela... — Michel tentou desvencilhar-se de mim, sem sucesso, torcendo o nariz. — Você bebeu? Tá com cheiro de álcool!

— Claro que não! — Entrelacei um braço em volta do pescoço de Michel, e com o outro comecei a acariciar seu cabelo. Ele estremeceu com o toque, engolindo em seco. — Eu sei que devo estar fedendo, mas... Seu cabelo é tão macio... Se eu dançar, vem comigo?

Michel negou com a cabeça, afastando o toque de minha mão.

— N-não é uma boa ideia...

— Já não basta terem tirado tudo de mim... — lamentei, amargurada. — Não podem tirar você de mim também!

— Não sei o que aconteceu pra você ter bebido e ficado nesse estado, mas se acalma... nada de ruim vai acontecer, Gabriela! — Michel assegurou, encostando as mãos em meus ombros.

— Michel... — Dei um beijo em sua bochecha e pude ver o quão ruborizado Michel ficou. Meu tom de voz era irritantemente infantil e histérico, feito uma criança pirraçando por um doce. — Você é tão gato e gostoso...

— Gostoso? — Michel mostrou-se confuso ao ouvir a palavra em português, enquanto buscava acompanhar meus passos de dança embaralhados.

— Sim... e muito tímido... muito fofo... muito tudo de bom! Se eu tivesse me apaixonado por alguém como você, talvez eu não sofreria tanto! — Michel franziu o cenho novamente, tentando formular uma resposta. Segurei sua nuca com as pontas de meus dedos, o encarando fixamente e sorrindo, triunfante. — Dança comigo!

— G-Gabriela — gaguejou Michel, desconcertado, mas eu pude ver uma risada leve brincando em seus lábios. Rodopiei, de maneira travessa em volta de meu próprio corpo usando a gravata de Michel. Ele procurou me estabilizar parando meus movimentos ao tocar-me pela cintura, em vão. Eu recusei seu gesto, com dificuldade de me manter em pé ao dançar no ritmo da música.

— Eu sei que você está gostando, professor... — sussurrei provocantemente em seu ouvido. — Quão profundo é o seu amor? Seus olhos são bem jovens... tão jovens e bonitos! Olha só! Dá até pra ver a lua neles!

— Meu Deus, Gabriela! — Michel levou as mãos às têmporas, afastando-se de qualquer contato comigo. — Você não está falando coisa com coisa!

— Vai me castigar? — ironizei, colando nossos peitos. — Vai me prender, professor? Se for sozinha com você na sala da coordenação, eu quero!

Michel arregalou os olhos ao escutar tamanho descaramento. Soltei uma gargalhada alta, e vi meus amigos de longe cochichando e trocando um olhar desesperado com Michel, como se planejassem me conter. Heloisa, Reyes, Scarlett e Florian apressaram o passo na nossa direção.

— Vou te levar pra enfermaria, e dessa vez você será realmente atendida — Michel respondeu, decidido, numa mistura de preocupação e nervosismo, mas eu apenas continuei dançando, rindo e abraçando-o cada vez mais forte. — Você não está bem, Gabriela! Precisa de cuidados! — As mãos dele estavam trêmulas ao prender as minhas com firmeza, mas havia um tom de ternura em sua voz.

— Agora senti a pressão! — zoei, apertando as bochechas de Michel. Ele esboçou uma careta. — Sempre gostei de homens determinados! Quero que você cuide de mim!

Quem precisa de Santiago quando se tem Michel Dubois?, pensei.

De repente, flashes de luzes estouraram e um frio intenso percorreu minha espinha. O som ficou abafado e o perfume de Michel começou a se dissipar. Tudo ao meu redor foi se transformando em escuridão total. A última coisa que vi foi o olhar irresistível e preocupado de meu professor de cultura francesa.

— Gabriela!

Notas finais
Link do trailer da fanfic: https://youtu.be/LX1qLRTXwWI?si=55WCHw4kxjHw2p3V Playlist da fanfic (ouçam na ordem, cada capítulo é uma canção): https://open.spotify.com/playlist/3nqnfGHPeW6Z0ismULPlbY?si=CBFteePcSQKt9RlULrSILQ&pi=u-DihW8LqXRDCO https://linktr.ee/dgwoman (elenco da fic)