6 décembre 2021, Élysée, Paris, France

Com um sobressalto, fui arremessada para fora da cama e bati o pé contra a quina do móvel. O impacto da dor física me atingiu com força, e eu relutava para distinguir meus sonhos da cruel realidade.

Lembranças agridoces minhas com Santiago – dos nossos bons tempos da adolescência – inundaram-me. A valsa que dançamos juntos durante minha festa de 15 anos… o dia que ele pediu para Natália descobrir se eu era solteira… nossos beijos inexperientes em Puerto Madero no natal…

Era como se todas as dúvidas e arrependimentos se aglomerassem em meu peito, e eu abusei de lágrimas abundantes que transbordavam por meu queixo dolorido; uma sensação um tanto quanto libertadora, quase que terapêutica.

Com as vistas ainda turvas pelo sono aparente, tateei as paredes do quarto rumo ao banheiro. Levando comigo uma toalha para o cabelo e outra para o corpo, tomei um banho relaxante. Meu cabelo rebelde odiava o frio tanto quanto ou mais do que eu, protestando em um emaranhado de frizz a cada mudança climática. Apliquei um pouco de base, corretivo e contorno para disfarçar os vestígios de tristeza, solidão e angústia em minha face repleta de olheiras fundas. Garanti aos meus lábios tons terrosos de marrom, que ornavam bem com o casaco xadrez reforçado escolhido por mim – um presente que ganhei dos Berny logo que o inverno começou a se instalar no hemisfério norte – por cima de outros dois de algodão.

Devido ao frio, eu aderia à gorros, cachecóis, luvas térmicas, tudo que pudesse me proteger daquela geladeira, – quero dizer… freezer. A neve era visível pela paisagem da janela de meus aposentos, assemelhando-se a um filme. O clima de Paris rivalizava levemente com o que eu tinha experienciado em Bariloche durante uma excursão com o colégio na qual eu havia sido sorteada. Contudo, o frio parisiense era absurdamente mais violento.

Para conseguir enfrentar o dia, prometi a mim mesma que eu iria concentrar-me em me divertir e ignorar as emoções que Santiago seguia trazendo à tona ao irromper em meus sonhos continuamente.

A tão famigerada surpresa preparada por Michel era um passeio para todos os alunos do colégio canadense, incluindo os intercambistas da French4Foreigners. E ao descer as escadas, deparei-me com uma das vans estacionada em frente à porta da residência dos Berny. Mais quatro estavam alinhadas atrás dela. Enquanto os mais de 300 alunos regulares partiriam em ônibus, os intercambistas, em menor número, foram acomodados nas vans, cada uma com capacidade para 20 pessoas.

Mademoiselle Laurent, encarregada da condição da van, acenou para mim, que prontamente retribui. Antes de me dirigir ao assento vago ao lado de Reyes aos fundos do veículo acinzentado. Como de costume, naquele horário era de se esperar que ele estivesse fazendo uma ligação com sua namorada. Naquela manhã em específico, ele estava quieto.

— Bonjour, Reyes! — exprimi, cutucando suas costelas com as pontas dos dedos, gargalhando.

— Bonjour, Gabi! Que bom que você chegou! — Reyes celebrou ao passo que me cumprimentava bocejando e em seguida sorrindo forçadamente.

— Foi dormir brigado com a Emma? — perguntei, numa tentativa de quebrar a atmosfera pesada.

— Não sabia que você lia mentes, minha cara. — respondeu-me sem emoção.

— O que houve? Você geralmente é tão otimista ao falar, Reyes. Parece tão pra baixo… — Observei, notando que o tom de nublado do céu combinava com as olheiras cansadas de meu amigo filipino.

— Ah, Gabi… — ele começou, e eu pude ver suas mãos tremendo. — Emma quer abandonar a faculdade de medicina para vir morar comigo aqui na França. Discutimos, pois eu acho importante cada um manter sua individualidade antes de estar num relacionamento. Eu não quero jamais que ela abra mão de um sonho pra ficar perto de mim, apesar de morrer de vontade de estar com ela.

— Me corta o coração te ver assim, meu amigo… — confessei, sentindo meus olhos marejarem.

— E o que vocês decidiram até agora?

— Bem, estamos considerando opções, como transferência ou, término. — Reyes anunciou naturalmente e eu o encarei, perplexa. Aquela palavra provocou-me um calafrio. — Doeu quando Emma teve que voltar pra Irkutsk, eu achava que nunca sentiria uma paixão tão forte como a que senti por ela, minha família não acreditou, achavam que iria ser só mais uma paixão de verão, mas ela me fez mudar, ela me fez crescer. Eu só queria poder abraçá-la agora e dizer que independentemente de qualquer coisa, eu torço por sua felicidade.

— Não sou tão boa com palavras, Reyes, você sabe... — Toquei seu ombro. — Mas é lindo ver que vocês se comunicam tão bem.

Que raiva! Por que Santiago não faz isso? Por que não diz o que está pensando? É muito chato ter que ficar adivinhando, pensei.

— Tudo bem. Eu meio que já estou acostumado a dizer adeus mesmo… Não foi fácil largar tudo em Cebu para vir aqui. Sinto falta de mergulhar, sinto falta da minha família, sinto falta da Emma. Meus irmãos me mandam mensagens todos os dias. Eu sinto muito a falta deles. Não sei se nem o dinheiro que estou juntando vai ser suficiente pra quando eu voltar, Gabriela. — Ele sorriu sem mostrar os dentes.

— E se não conseguirmos sair da zona de risco da falência, Gabriela? Estamos com pouquíssimos clientes mesmo fazendo calor o ano todo, eu até tento ajudar nas mídias, e mesmo assim, não é suficiente para bancar tudo. Eu não quero que eles tenham celular só depois de adultos como foi o meu caso, quero dar condições melhores aos meus irmãos.

A família Lazarte havia passado por muitos perrengues após a morte do patriarca da família devido à uma pneumonia severa. Deixada com 12 filhos e uma empresa de mergulho para administrar, a mãe de Reyes precisou da ajuda dos filhos mais velhos para não ficar desamparada.

Quem quer que visse Reyes no dia a dia, não imaginava por tudo o que ele já havia passado nesta vida. Por um momento me senti culpada por todas as vezes que reclamei do meu pouco, pois, parando para pensar, poderia ser muito para algumas pessoas.

— Você foi e é muito resiliente, Reyes. A história de vocês é uma inspiração para todos. — tranquilizei-o e optei por mudar o foco. — Vai ficar tudo bem no final, independentemente de qual seja a sua escolha, Reyes!

Chequei onde poderia estar Heloisa, e não encontrei rastro algum da brasileira. Ultimamente ela não vinha interagindo muito com o pessoal do nosso squad, tanto pessoalmente, quanto nas redes sociais; apenas nos desejava bom dia, respondia-nos com thumbs up, e durante as aulas, arrumava desculpas para não sair conosco.

Minha intuição martelava alegando que talvez eu, Scarlett e Reyes devêssemos insistir para que Heloisa revelasse suas motivações ocultas, porém, resolvemos confiar na amizade cultivada até então. Sabíamos que Heloisa não tinha sido feliz no passado em sua terra natal –, assim como todos os outros integrantes do nosso grupo –, mas, acima de tudo, que o tempo de cada um para processar as coisas seria diferente. Caso Heloisa estivesse realmente enfrentando algum percalço em sua vida pessoal – o que eu tinha quase certeza –, ela talvez não teria vontade de se abrir conosco tão facilmente, e por isso, nós não a pressionamos.

Vasculhei o veículo em busca de Scarlett e topei com seu cabelo ruivo, destacando-se ao lado de um rapaz loiro. Não pude identificá-lo por estar de costas, porém, deduzi que fosse aluno do terceiro ano devido ao tom marinho do colarinho de seu moletom do colégio canadense. Eles formavam um contraste luminoso nos bancos, bem como America e Maxon de The Selection. Um sorriso de felicidade se formou em meus lábios ao ver o… casal?

Desde quando Scarlett tinha um namorado que eu não tinha conhecimento a respeito? E como ele, sendo aluno regular estava conosco naquela van? As perguntas eram muitas em minha mente. Bem, aparentemente ela era a única realmente animada do nosso squad naquele dia, então eu fiquei feliz por minha amiga.

Reyes assentiu à minha sugestão de dividirmos meu fone de ouvido durante o percurso. Passamos todo o caminho escutando BLACKPINK, por recomendação dele. O som delas me agradou bastante.

Ao avistarmos o primeiro ponto turístico, agarrei-me ao braço de Reyes e senti a textura de sua jaqueta de couro — numa tentativa de abrigar-me da temperatura cortante da rua.

Adentramos o majestoso Museu do Louvre, e cada pintura e escultura, parecia renovar meu encantamento por Paris. A passagem pela Catedral também foi marcante, embora uma sensação de melancolia tenha pairado no ar ao lembrar que não poderíamos adentrá-la devido ao trágico incêndio que a deixou interditada desde 2019. Lamentei não ter tido a oportunidade de visitá-la antes, mas balancei a cabeça, reconhecendo que minha viagem ocorreu no momento certo.

Apesar de já ter explorado esses pontos turísticos em outras ocasiões, a presença de Reyes, Scarlett e agora, Florian – o mais recente agregado do nosso grupo – ao meu encalço, acrescentava uma nova dimensão às experiências.

Florian, um ano mais novo que eu, Reyes e Scarlett, irradiava gentileza em cada palavra e gesto, sempre buscando a mão de Scarlett enquanto caminhavam juntos. Suas bochechas coradas denunciavam sua paixão por Scarlett. Torcia para que essa relação evoluísse para algo mais significativo. No entanto, não pude deixar de ser atacada por uma pontada de tristeza. Santiago não tinha mais essa proximidade comigo há um bom tempo, antes mesmo de eu vir para a França.

“Chega disso!” pensei com determinação, mirando a enorme variedade de petiscos típicos franceses que estavam dispostos à nossa disposição em frente à Torre Eiffel.

— Acho que eu nunca vi tanta comida na minha vida! — exclamou Reyes, maravilhado.

— Nem eu! — concordei. Vi Scarlett entupindo-se de macarons e ri alto junto a Reyes e Florian, que pendurou uma flor na orelha da, aparentemente, namorada e depositou um beijo carinhoso em seu nariz. Eu e Reyes desviamos o olhar ao mesmo tempo, desconfortáveis. Notei que ele provavelmente estava com saudades de Emma. Lembrei mais uma vez de meu namorado e pensei no que ele estaria fazendo naquele exato momento, se também estaria pensando em mim e soltei um suspiro cansado.

— Vou ali rapidinho… — anunciei, passando pelos alunos para cumprimentar Mariana e a galera de Buenos Aires. Simplesmente joguei-me contra o gramado gelado após dizer a eles “hola, mi gente”.

Minha vontade me venceu e acabei pegando meu celular. Decidi abrir o perfil de Santiago no Instagram para ver se ele havia respondido a alguma mensagem minha. Nem sinal. Que novidade! Ele sequer tinha visualizado. Até mesmo sua família não me atendia ou respondia… Era tudo muito estranho. Tía Dulce dizia que ele estava muito ocupado trabalhando na loja de conveniência com a mãe, e que eles haviam se mudado para outra casa mais afastada da nossa.

Minha raiva, meu desespero, meu ódio, meu amor, minha paixão, minha ansiedade, minha angústia… – tudo isso me consumia e era o que Santiago representava para mim.

Tomada por tudo isso, eu apertava com força a tela do celular ao digitar para Santiago mensagens ofensivas, indagando para onde tinha ido todo aquele amor que ele dizia sentir por mim no passado.

Meu celular apitou com uma mensagem de Natália e eu apaguei, imediatamente, o enorme texto que eu iria enviar para Santiago.

natalia.poggio: Oi, Gabi. Quero começar dizendo que algum dia você ainda vai entender tudo. Juro que nunca fui tão covarde. Nunca quis te ferir. Espero que você não me odeie no final. Me perdoe desde agora. Você é minha irmã! Confia em mim. Te amo pra sempre.

Franzi o cenho. Cada palavra de Natália só piorou aquele turbilhão de emoções que eu tinha me tornado. Minhas mãos e pernas tremiam exageradamente, temendo que o pior fosse acontecer. Autossabotagem, é o nome.

gabisanz: Que? Como assim? O que você quer dizer com isso? Enlouqueceu? Por que isso agora? Do nada? Me responde, Natália! Aquele dia você jogou na minha cara que eu tinha sumido e que precisava conversar comigo, mas foi você quem sumiu! O que houve?

Roendo minhas unhas, tentei me concentrar nos detalhes – triviais –, ao meu redor: a toalha de piquenique quadriculada sob meu tronco, o aroma de lavanda que se estendia pelo parque, as risadas contagiantes dos alunos ao longe... Nada adiantou.

Recorri aos petiscos franceses dispostos em uma profusão de cores e sabores irresistíveis por toda a vasta área do Champs de Mars. Croissants crocantes, baguetes frescas, uma variedade exuberante de queijos e a cartada final: uma garrafa de Bordeaux! Eu saboreava um pouco de tudo sem qualquer tipo de remorso, empenhando-me para elevar os níveis de concentração de serotonina em meu sangue.

— Gabriela? — Levantei a cabeça para encarar Michel. — Precisa de ajuda?

— Claro que não! — exclamei, tentando controlar meus batimentos cardíacos através da respiração. Pensa em algo legal, pensa em algo legal. Não chora na frente dele, não demonstre sua aflição!”, eu gritava dentro da minha própria cabeça ao simular um sorriso.

— Você não é muito convincente, que bom que não tentou carreira de atuação! — afirmou, como se lesse meus pensamentos. Quando dei-me conta, eu estava encarando a grama, incapaz de contemplar suas íris penetrantes e escuras diretamente. — Não precisa me contar, mas não precisa mentir pra mim.

— Desculpa, é que…

Michel mexeu os cabelos que escapavam de seu gorro e acomodou-se à minha esquerda.

— Não peça, tá tudo bem… — Suspirou ele, apreensivo. — Não sei se é o momento ideal pra te perguntar, mas… depois dessa surpresa você… ainda tem… sabe… a mesma visão que de todos os parisienses são mal-educados?

— Ei, eu nunca disse isso! — me defendi. — Só insinuei que o tratamento era diferente.

— Tinha ficado subentendido pra mim, sendo assim…

— Então, professeur Dubois, foi você que tirou uma conclusão errada a meu respeito! — brinquei, buscando dissipar qualquer possível tensão acumulada.

— Espero tirar conclusões certas daqui pra frente.

— Bem, quando se trata de ignorância e má educação, no caso da sua prima… era isso mesmo… — Dei de ombros. — Sem shade.

— Concordo com você... Ela é sem escrúpulos. Eu nem sei como aguento ela há anos.

— Você é tipo um… guerreiro, talvez? — silabei, admirando sua calmaria. — Os porteños são bem mais barulhentos e simpáticos, às vezes me identifico com o jeitinho dos franceses, porque tenho meu próprio mundinho, sabe? Às vezes eu me pego viajando na maionese…

— Você tem razão — Michel aquiesceu, virando-se para admirar a bela paisagem do rio Sena. — Eu estudei sobre a Argentina na faculdade, sabia?

— Que incrível! E como foi? — perguntei, curiosa.

— Bem interessante. Foram nas aulas de literatura e cultura, estudei sobre Borges e Cortázar.

— É, eles foram importantíssimos pra nossa história. E você terminou faz pouco tempo, né? Você vive dizendo que tem “só 22 anos.” — Imitei seu tom de voz ao sinalizar aspas com os dedos.

— Sim — Michel concordou. — Iniciei a faculdade de letras logo que finalizei o ensino médio com 18 anos. Usei o nepotismo para conseguir um trabalho na empresa do meu pai.

— Pelo menos você não se acomodou! — eu respondi num tom brincalhão e ele soltou uma risadinha, assentindo.

— O que te motivou a vir para Paris?

— Você deveria perguntar o que não me motivou, né? Motivos eu tenho de sobra… Desde criança eu sonho com isso, sempre senti uma paixão inexplicável pela cultura francesa, sempre sonhei em conhecer e viver em Paris, e obviamente, outros lugares incríveis feito Lyon, Marseille e Estrasburgo. Enfim, obviamente, nenhum lugar é perfeito, teve muita coisa que me frustrou, mas eu decidi que nunca ninguém vai conseguir tirar meu sonho de mim.

— Que lindo! — Michel sorriu lateralmente e eu devolvi-lhe o gesto. — O que você mais sente falta de Buenos Aires?

— Tirando minha família… Acho que de falar espanhol o tempo inteiro, ver os letreiros em espanhol, de viver em espanhol.

¿En serio, Gabriela?

Arregalei os olhos, movendo imediatamente o pescoço na direção da voz de Michel ao ouvi-lo pronunciar meu nome sem o som marcante do “r” do idioma francês.

—Como assim você também fala espanhol?

— Foi uma das línguas que estudei na faculdade. — afirmou Michel, convencido. — Me formei em francês e também posso dar aulas de espanhol e inglês, ou seja, mesmo se meu pai me demitir, vou conseguir emprego em outro lugar.

Soltei um gritinho em êxtase.

— Não acredito que passei esse tempo todo falando em francês com você sem saber dessa informação! — exclamei, apoiando o peso de meu corpo contra meus braços. O vento brigava com o meu cabelo, gerando-me calafrios. — Se bem que, né, não faria muita diferença, visto que pelo protocolo eu tecnicamente deveria emergir 100% na língua francesa e só falar em espanhol fora do colégio.

— Tecnicamente esse não é o colégio — ele apontou. — Mas fique tranquila, esse será nosso segredo. — sussurrou e eu assenti. — Sempre que precisar de alguém pra falar espanhol, pode puxar assunto comigo!

— Bom saber que tem mais alguém que poderá me entender, professeur Dubois, ou melhor, professor.

Michel ficou pensativo por uns instantes.

— Por incrível que pareça, gostei do jeito como você me chamou. Soa muito mais bonito do que professeur. Como se fosse um apelido… não um título…

— Uau, então sou uma exceção! Este é o verdadeiro poder da língua espanhola! — comentei, ajustando o cachecol ao redor do meu pescoço.

— Ou você me deixou confortável. — Michel sorriu abertamente.

— Mais uma barreira quebrada? — brinquei e nós dois rimos.

Michel pousou uma mão sobre o queixo, exprimindo um olhar misterioso ao puxar as mangas de seu suéter off white para baixo.

— Receio que nunca tenha existido uma, Mademoiselle Sanz. — Aquela pareceu a palavra certa para recordar-me de nossa conversa de semanas atrás e me fazer abrir um sorriso nostálgico. — Meu objetivo é seguir te mostrando que nem todo mundo aqui é como a Adele!

— Tudo bem… — eu disse.

— Tirando o francês, todos os idiomas que aprendi, eu só arranho mesmo. — Michel confessou. — E o idioma em que mais me sinto confiante depois do francês, é o inglês. — Michel sussurrou, rindo e eu o acompanhei em seguida. — Que nem um outro francês ouça isso, por favor!

— Realmente, Scarlett de tanto ser ignorada, nem tenta mais falar em inglês com o pessoal na rua, às vezes é inevitável não esquecer uma palavra ou outra e apelar pro inglês…

— Verdade! Enfim… Espero que você tenha uma ótima estadia, que mude sua visão a respeito dos parisienses. Não os deixe tirar o brilho dessa cidade incrível que Paris é. Tem muitas nuances esperando serem exploradas para você desperdiçar por conta de pessoas infelizes.

Merci! — Abri um sorriso e anui a cabeça, e Michel retribuiu instantaneamente a ambos os gestos.

— Depois que seu intercâmbio acabar, pretende continuar em Paris, Gabriela?

Aquela pergunta reverberou em meu interior, assemelhando-se à uma saída. Santiago estava emocionalmente distante de mim, bem como minha família na Argentina, e os indivíduos daqui feito Simon, Lola e Heloisa, fisicamente. Eu não estava aguentando tanta indiferença, tantas questões sem respostas. Minha fragilidade uniu-se à possibilidade de permanecer por mais tempo na França para aproveitar oportunidades de focar em meu crescimento pessoal; quanto mais tempo eu ficasse, mais fácil seria lidar com as situações – pelo menos era o que eu esperava que aconteceria.

— Gostaria muito… — confessei, suspirando. — Prefiro pensar no aqui e agora, pelo menos por enquanto. Obviamente, não irei descartar possibilidades jamais. Só não quero criar expectativas e me frustrar.

— Torço para que você se encontre de verdade aqui, para que realize seus sonhos, seja lá quais forem as suas decisões finais.

Enquanto estávamos imersos na conversa, avistei Reyes, Scarlett e Florian não muito longe dali tirando fotos. Florian — o fotógrafo cobaia de Scarlett — mostrava-se notoriamente enfadado ao aguardar cada polaroid sair. Ele revirava os olhos e sorria abobalhadamente a cada gritinho empolgado de Scarlett, enquanto ela lhe roubava beijinhos nas bochechas. Reyes, por sua vez, segurava uma tocha olímpica ao lado do casal.

— O que o amor não faz, né? — sussurrei. Nem sei se é amor ainda, mas, enfim…

Era difícil definir o que minha amiga estadunidense e Florian estavam tendo juntos. Talvez nem eles estivessem tão preocupados em categorizar sua relação, afinal, Scarlett não demonstrava ser esse tipo de pessoa.

Talvez, mas só talvez, se eu não tivesse permanecido tão absorta em meus próprios problemas nos últimos meses, eu estaria mais atualizada a respeito da vida de meus amigos intercambistas. Me sentia extremamente culpada.

— Gabi! — Scarlett exclamou, arrastando Florian e Reyes consigo na minha direção e de Michel. — Bora tirar foto? — propôs, agachando-se para adequar-se à minha altura. Assenti e endireitei minha postura ao encarar a lente.

— E você, Reyes? — convidei-o, levantando-me da canga no chão, e em seguida, estendendo a mão para que ele se achegasse a nós. Reyes posicionou-se no meio, envolvendo seu braço direito por cima de meu ombro, e o esquerdo, por cima do ombro de Scarlett; seus olhos cheinhos modelaram-se em dois riscos quando ele sorriu. Florian capturou várias imagens nossas, que improvisamos com caretas cômicas na última.

— Venham todos agora! Você também, Michel! — Scarlett convocou, mudando a configuração para ativar o temporizador da máquina fotográfica. Michel colocou-se de pé ao meu lado, mantendo as costas retas sentido ao disparo do aparelho nas mãos de Florian. — Depois te mandamos as fotos via online, Michel! — informou Scarlett, entregando-me cópias de alguns polaroids nossos.

— Pode mandar pra Gabriela que ela me envia. — Michel deu de ombros, piscando.

— Ela acabou de me mandar. — eu respondi após meu celular apitar com o aviso do grupo.

— Anota seu número aqui! — Entreguei meu celular pra ele, com as mãos vacilantes. — Bem, a não ser que você ache esquisito, já que é do colégio, e tals… pode ser só o Instagram.

— Tranquilo, pode ser os dois! — concedeu Michel, digitando seu número nos contatos e usuários no aplicativo. Eu o segui no Instagram e percebi que seu perfil era abarrotado de fotos ao redor do mundo, entretanto, a maioria eram de comidas e paisagens. Bem low profile, eu diria…

gabisanz: Ei

michel_dubois começou a te seguir.

Estava distraída admirando os detalhes de uma foto dele no espelho em um de seus stories recentes, até que Michel me tirou do transe com sua voz aveludada:

— Pronto, confere aí.

Michel respondeu minha mensagem com uma figurinha engraçada de uma baguete e repostou uma de nossas fotos com Scarlett, Reyes e Florian nos stories com a legenda “Surprise” e uma canção do cantor Calogero como trilha sonora. Foi muito bom eternizar aqueles momentos de descontração em formato de imagens, que eu iria emoldurar em meu quarto – afinal, aquelas quatro pessoas haviam se tornado partes essenciais de minha história em Paris, e eu iria levá-las comigo em meu coração aonde quer que eu fosse.

Notas finais
Link do trailer da fanfic: https://youtu.be/LX1qLRTXwWI?si=55WCHw4kxjHw2p3V Playlist da fanfic (ouçam na ordem, cada capítulo é uma canção): https://open.spotify.com/playlist/3nqnfGHPeW6Z0ismULPlbY?si=CBFteePcSQKt9RlULrSILQ&pi=u-DihW8LqXRDCO https://linktr.ee/dgwoman (elenco da fic)