Te Quiero, Mon Amour!
11 Colores y Juegos
8 décembre 2021, Élysée, Paris, France
Resolvi aceitar a realidade: Santiago não queria conversar comigo, Natália não queria conversar comigo, minha família não queria conversar comigo. Ao invés de permanecer sofrendo por isso ou tentando encontrar razões que parecessem óbvias – ou não –, eu decidi concentrar-me somente em mim mesma. Era como Scarlett me disse uma vez: ninguém é tão ocupado quanto alguém sem interesse. Da mesma forma que uns se vão, outros vêm. Meu novo objetivo era permitir que os eventos seguissem seu curso natural, sem ter que forçar, adivinhar ou insistir.
Naquela semana, estávamos imersos nos preparativos da festa de encerramento do trimestre, que prenunciava o aguardado recesso de fim de ano. Finalmente, pudemos respirar um pouco, pois participaríamos dos jogos de inverno. Naquele ano, os intercambistas — que costumavam participar apenas da organização como forma de acumularem pontos no trimestre — também competiriam: meninas na queimada, meninos no futebol e times mistos no vôlei. Como a matriz do colégio canadense era onde eu estudava, os alunos das outras unidades espalhadas pela França recebiam aulas vagas para nos assistirem.
Era quarta-feira. Scarlett estava em pé na minha frente, segurando um pequeno pincel e uma paleta de tintas. Com uma precisão quase cirúrgica, ela pintava pequenos corações azuis e brancos no meu rosto, ao lado de finas linhas amarelas que imitavam o sol da bandeira argentina.
— Pronto, agora você está oficialmente pronta pra arrasar — cantarolou Scarlett, com aquele sorriso travesso de sempre, ajeitando sua própria bandana com as cores dos Estados Unidos, que ela tinha personalizado com uma quantidade absurda de glitter.
Suspirei, tentando ignorar o nervosismo que me invadia.
— Arrasar? Só se for pra perder com estilo — brinquei, com certa ironia. Competir nunca tinha sido o meu forte, especialmente quando minha cabeça estava tão longe dali. Florian estava lá para consolar Scarlett quando perdemos no vôlei misto mais cedo, e talvez por isso, ela ainda tinha energia o bastante sobrando para enfrentar mais um desafio.
— Gabi, é só um jogo! E pra sua informação, nós vamos vencer! — ela afirmou, colocando as mãos nos quadris como se fosse minha treinadora particular.
— Sei lá, não tô muito no clima, sabe? — confessei baixinho, mexendo nos cadarços do tênis para evitar o olhar julgador dela.
Antes que Scarlett pudesse responder, o som estridente de um apito cortou o ar, reverberando pelos corredores. Era o sinal de que o segundo tempo do jogo de futebol dos meninos da minha turma estava prestes a começar. Sentimos o impacto do vento gelado assim que saímos do vestiário, e o contraste com o calor abafado lá de dentro era brutal. Havíamos perdido a primeira parte da partida para nos arrumarmos, e não me animou saber que estávamos perdendo para a turma de Mariana.
Reyes, ao meu lado, observava o jogo com uma expressão de tédio disfarçado. Notei que Ebraim havia entrado como seu substituto na disputa.
— Ah, Gabi, se pelo menos você e a Heloísa fossem homens… poderiam jogar no time, e aí nós ganharíamos! — Reyes afirmou. Seu uniforme mostrava-se completamente batido, e mesmo assim ele sorria.
Scarlett imediatamente arqueou as sobrancelhas.
— Isso foi machista, Reyes… muito machista! — Ela cruzou os braços, bufando.
— Calma, calma, você entendeu tudo errado, Scarlett! — Reyes gesticulava exageradamente.
Scarlett estalou a língua.
— Sendo mulheres, elas não poderiam jogar? Conta outra!
— Qual é, Cooper? Eu quis dizer que o Brasil e a Argentina são os melhores no futebol, e os meninos da nossa classe estão competindo! Por acaso a Gabi e a Heloisa são de onde? Foi um elogio! — reforçou Reyes, indignado.
— Tudo bem, gente! — Dei uma cotovelada em cada um e abri um sorriso brincalhão.
— Você ficou bravo porque te substituíram? — caçoou Scarlett.
— Claro que não… — Reyes bocejou, se espreguiçando. Antes que Scarlett pudesse retrucar, o apito final soou, encerrando o jogo. 6x1 para o time adversário.
— Faz parte perder, né? — pontuei.
— Não se abale! Agora é a nossa vez! — Scarlett respondeu, levantando-se e me puxando rapidamente na direção oposta da grama, em direção à quadra. Enquanto dávamos a volta pelo enorme espaço, não pude deixar de notar as meninas da equipe adversária. Seus cabelos continham mechas coloridas com as cores de seus países, e elas demonstravam tremenda confiança. Era quase contagiante.
Avistei Heloisa, que estava sentada com o pessoal do segundo ano nas arquibancadas. Ela segurava nas mãos pompons verdes e amarelos vibrantes, entretanto, seu semblante era triste e perdido. Respirei fundo, parando dentro da quadra. Era meu desejo que nós nos reaproximássemos, que estivéssemos ali, as três jogando juntas: eu, Heloisa e Scarlett, unidas novamente.
— E a Heloisa? Não vai jogar? — Scarlett negou com a cabeça ao ouvir minha pergunta. — Mas… e a nossa amizade? Quando ela vai voltar a andar com a gente?
— Eu também tenho muitas perguntas, Gabi. Ela se afastou da gente depois do ocorrido no shopping. Talvez nos ache problemáticas, e bem, por um lado até que somos, né? Sinceramente… eu acho que isso tudo tem a ver com o seu irmão!
Franzi o cenho.
— Meu irmão? O que o Juan tem a ver com isso?
Scarlett revirou os olhos, frustrada.
— Seu irmão Simon Berny.
— Como assim?
— Você se esqueceu que ela uma vez disse que ele era o tipo dela? E que ela defendeu ele na briga com a Jade e o Leroy?
Encarei Scarlett, incrédula.
— Como eu não pensei nisso antes? Será que ela está triste porque ele sumiu?
— Provavelmente. As coisas infelizmente não são como planejamos, Gabi.
Suspirei em concordância, mirando o chão.
— Eu sinto que todos estão se afastando de mim: meu namorado, minha família, minha melhor amiga, até a minha amiga de intercâmbio. Acho que eu sou o problema.
Scarlett colocou a mão esquerda no meu ombro, transmitindo empatia.
— São circunstâncias diferentes. Cada um tem sua própria razão pra desaparecer, Gabi. Fica tranquila… — ela pausou uns segundos e fitou o time adversário. — Agora foco! Precisamos ganhar!
A risada de Scarlett me fez sentir um pouco melhor. Contei até três e firmei meu rabo de cavalo no topo. O apito soou e iniciamos o embate. A adrenalina pulsava em minhas veias, o som da bola quicando e dos gritos animados preenchia o ar. Para a minha surpresa, vencemos a partida. A alegria tomou conta de mim enquanto corria em direção a Richárd Benedek na arquibancada, um rapaz húngaro de minha classe.
— Nós ganhamos! — exclamei, esticando os braços para abraçá-lo, porém, Richárd me pegou no colo, rodopiando-me no ar por um breve instante. Meus olhos se esbugalharam de surpresa, e percebi a expressão insinuativa de Scarlett para nós.
— Somos demais! — ele afirmou, me colocando de volta no chão, e ainda atordoada, balancei a cabeça para Scarlett em negação.
— Vocês mandaram muito bem! — Heloisa se aproximou, e um sorriso genuíno decorou seu rosto.
— Obrigada, Helo! — agradeci, um tanto surpresa com sua atitude. Aquela era a primeira vez em muito tempo que ela realmente se comunicava conosco. Havia esperança, afinal.
Reyes irrompeu de repente, saltitante.
— Vencemos, Gabi!
— Alguém tinha que ganhar para mascarar a vergonha que foi vocês perdendo no futebol e depois de nós termos sido massacrados no vôlei, né? — Scarlett debochou. Os meninos de nossa classe não gostaram de seu comentário, e logo uma discussão começou entre ela e Reyes. Procurei me afastar da confusão, no entanto, um grito ecoou no ar, atraindo minha atenção.
Deparei-me com Heloisa caída, contorcendo-se de dor.
— Heloisa! — chamamos eu e Reyes em uníssono.
— Ai… Meu tornozelo… — ela resmungou. Com a ajuda de Reyes, erguemos Heloisa e apoiamos seus braços sobre nossos ombros. Enquanto a direcionávamos para a enfermaria, notei que Scarlett mantinha-se ao nosso lado carregando os tênis e o par de meias de Heloisa, e seu olhar brincalhão contrastava com a seriedade da situação.
— Veja só: nosso squad juntos de novo, quem diria, né? Mas a troco de quê? — ela desdenhou.
— Hora errada de fazer piadinhas, Scarlett! — Reyes ralhou.
— Olha quem fala!
— Vai começar?
Eu ri, tentando aliviar a tensão.
— Desculpa, Heloisa…
Ela apenas assentiu, respirando devagar devido a dor que sentia. Por algum motivo, eu sentia que Heloisa queria nos contar algo, mas não poderia. Aquela sensação me incomodava demasiadamente. Me perguntei se ela teria notícias de Simon, e me culpei por ter estado tão absorta em meus próprios problemas a ponto de não perceber seu suposto interesse nele.
De repente, topamos com Michel e Arthur cruzando o corredor.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou Arthur num tom caloroso e preocupado.
— Sim, Monsieur Dubois, foi só um pequeno acidente durante os jogos — respondeu Reyes, indicando a porta da enfermaria. — Heloisa torceu o tornozelo.
Arthur soltou uma risada suave, como se já tivesse visto aquela cena um milhão de vezes – o que eu não duvidava.
— Acidentes acontecem, especialmente em dias assim! — Ele sorriu de forma leve, e pude perceber o quanto Arthur se assemelhava ao filho. — Te desejo melhoras!
Michel, ainda com a expressão de preocupação, abriu a porta, enquanto seu pai atravessava o corredor em direção à sala da coordenação. Reparei no perfume de Michel, que era forte o bastante para cobrir o inebriante cheiro de remédios.
— Ela vai ficar bem logo, logo! — A voz dele era suave, quase um sussurro enquanto caminhávamos para o lado de fora.
— Seu pai tinha razão, afinal! — confirmei e Michel sinalizou com as mãos para que nos sentássemos nas cadeiras da salinha de espera.
— Pois é, estou surpreso que você também não tenha se machucado!
— Você está insinuando que eu sou fraca, professeur? — perguntei, sabendo que ele não gostava quando eu o chamava assim. Um sorriso divertido se espalhou pelo meu rosto, e ele revirou os olhos.
— Não, Mademoiselle — Michel se defendeu e eu esbocei uma careta pela formalidade de sua última palavra. — Apenas estou surpreso pois você participou de duas partidas de esportes que envolvem bolas.
— Realmente, mas quem levou a bolada não fui eu.
— Sério?
Assenti.
— Eu dei sem querer uma bolada na cara de uma das meninas que vieram comigo da Argentina. Aposto que ela deve estar me odiando agora.
— Isso faz parte de qualquer coisa da vida. Nem sempre a gente vai ganhar ou sair ileso. Desculpe, é que estava em uma reunião durante os jogos, então não pude ir prestigiar vocês…
— Sem problemas… Bem lembrado, acho que finalmente entendi as diferenças…
— Que diferenças?
— Percebi que os franceses são discretos, e ao mesmo tempo, indiretos quando se trata de sentimentos, mas diretos, muito diretos quando se trata de opiniões.
— Isso é verdade.
— É muito difícil ver vocês dando voltas para não magoar alguém, vocês vão direto ao assunto, o que eu acho um ponto positivo, isso evita má comunicação. Acho que os argentinos são bem mais indiretos nas opiniões, existe o “politicamente correto”, porém, quando se trata de sentimentos, somos bem mais diretos.
— Concordo, mas acho que sou uma exceção! — Michel gabou-se, ajeitando sua gravata e soltando uma piscadela, e nós rimos. — Sou direto nos dois! Bem… e a sua família d’accueil? O que eles acham de tudo isso? Como está sendo a relação de vocês? Eles são “diretos”? — Ele formou aspas com as mãos.
— Minha relação com a Lola, a caçula, é uma incógnita. Uma hora ela parece uma criança normal, muito adorável, e em outra, se transforma na minha maior hater. Meus pais são tranquilos, eles tentam sempre não magoar meus sentimentos, mas não me protegem 100% da dura realidade. Já o meu irmão… bem, ele sumiu faz uns dias!
Michel me olhava como se soubesse exatamente o que estava acontecendo, como se convivesse comigo e se compadecesse. Era uma característica admirável — fazer com que as pessoas se sentissem ouvidas e compreendidas.
Vi a figura de Mariana e de alguns membros do mesmo ônibus que o meu de Buenos Aires aproximando-se de mim ao dobrarem o corredor. Mariana segurava uma bolsa de gelo na cabeça, e alguns dos meninos estavam com os uniformes descosturados. Troquei um olhar com Michel, que prendeu a risada. O lancei um olhar reprovativo e me levantei, avisando a ele que me ausentaria por uns minutos.
— Qué tal, Gabriela? — Álvaro saudou-me de maneira expressivamente feliz, e me abraçou, caminhando ao meu lado pelo corredor. Ah, a hospitalidade dos latinoamericanos…
— Tentando levar bem as coisas… e vocês?
— Pra mim tem sido difícil — um dos meninos respondeu. Até onde me lembrava, seu nome era Jorge e ele tinha frequentado a mesma escola que eu, era um ano adiantado.
— Pra todos nós está sendo! — Mariana acrescentou.
— Complicado ter que ir jantar tão cedo, né? — eu continuei.
— Demais! Fora ter que me acostumar a tomar só um banho por dia foi estranho… mas depois que me acostumei com o frio, vi que realmente não tinha necessidade. — Álvaro destacou, e em seguida, se aproximou de Mariana lhe deu um selinho. — Chao, nena. — Os encarei surpresa, enquanto Álvaro e Jorge andavam rumo ao refeitório.
— Mariana, mil desculpas mais uma vez, é sério!
Ela fez um sinal de não com as mãos.
— Tudo bem, Gabi! Não precisa me pedir desculpas, é normal.
— Então você e o Álvaro estão juntos? — Levantei as sobrancelhas e cruzei os braços. Aparentemente todos tinham alguém ao seu lado, exceto eu, para ser sincera.
— Sim, e você, hein? — Ela sorriu maliciosamente e baixou o tom de voz como quem conta o segredo. — Ainda está com o Santiago?
Me senti constrangida, como se eu não soubesse a resposta adequada. Não conseguia mais nomear o que tínhamos. Apenas abri um sorriso esperando que ela acreditasse em mim. Eu sabia que desde o momento que eu havia pisado em Paris eu nunca mais seria a mesma. Esperava que, ao menos, eu não me perdesse — independentemente de qual fosse o desfecho de minha história com Santiago.
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