Te Quiero, Mon Amour!
6 Premier Jour
Quando cheguei em casa naquela noite, ninguém arriscou perguntar-me nada. Agradeci mentalmente pelo espaço que eles me deram, pela compreensão que eu, sinceramente, não esperava receber depois do ocorrido.
Aqueles dois últimos dias tinham sido terríveis pois as palavras grosseiras de Adele pareciam coladas no meu cérebro e não saíam mais. Eu não me sentia mais bem-vinda no país que tanto sonhei, onde tanto batalhei para estar.
Eu sabia que estava exagerando e reagindo de uma forma mais emotiva do que deveria. Pessoas vazias como aquela garota são experts em tentar destruir sonhos alheios em segundos, e eu sempre critiquei quem quer que ousasse se afetar por estes tipos de comentários.
Como eu estava sendo hipócrita! Sempre que alguém próximo abalava-se por esse tipo de situação, eu fazia questão de lembrar-lhe de algo muito importante: você é diferente, e é isso o que te torna especial; pra quê sentir vergonha de si mesmo ao invés de orgulho?
E foi pensando nisso que me levantei da cama com determinação naquela manhã de segunda-feira, indo tomar café e me preparar para o começo do curso de francês. Tive uma conversa bem interessante com minha famille d’accueil sobre o preconceito com estrangeiros, sem entrar em muitos detalhes sobre o acontecimento do shopping. Eles me apoiaram, dizendo que infelizmente eu iria encontrar pessoas como Adele pela minha jornada, e talvez até piores. Caberia a mim lidar com elas de forma madura. Eu não iria permitir que uma coisa tão banal quanto a opinião de uma pessoa que não me conhecia, me afetasse; pelo menos, não mais.
A garotinha esquisita, premeditada para morrer órfã e sem amigos na favela mais pobre de Buenos Aires não mais existia; enganaram-se premeditando tal futuro para mim. Toda a afronta que sofri por ser apaixonada por tudo relacionado à França, por estudar a língua, cultura, pesquisar preços de viagem, fazer planos sem parar... Tudo havia sumido quando pisei pela primeira vez aqui. Um longa metragem passou em minha cabeça sobre minha trajetória para poder chegar até aqui, e, olha, não foi nada fácil.
Olha onde eu cheguei, caramba! Eu tô em Paris! Eu não vou deixar nada frustrar os meus sonhos novamente!
— Pronta? — Simon indagou, tirando-me de meus pensamentos. Assenti para ele que estava parado na porta do meu quarto.
Conferi se estava levando comigo todos os materiais e ajeitei a blusa branca do uniforme que continha escrito de forma discreta em azul em uma das mangas o nome da instituição. Estampas e cores estavam liberadas para a parte de baixo, contanto que fossem calças e discretas. Optei por um jeans claro e Converse de cano alto preto nos pés, que havia ganhado de presente de tía Dulce ainda em minha terra natal.
— Falta mais o quê? — perguntou Simon, vendo que eu demorava. Soltei uma risadinha.
— Cabelo e maquiagem. — disse após terminar de aplicar gloss e um pouco de creme para pentear em meus fios capilares.
— Também tenho aula hoje, ma chère sœur. — cruzou os braços, meio indignado ao ironizar. — Você demora igual a Lola pra se arrumar, eu hein.
— Ah, me poupe! Aliás, essa é a primeira vez que você me chama desœur… — reparei, cerrando os olhos ao inquirir. — O que há com você, hoje, petit frère?
— Petit frère? Gabriela, eu tenho dezenove anos igual a você!
Dei-lhe língua, começando a fazer cócegas para provocá-lo.
— Mas continua sendo meu petit frère! — respondi, convencida. — Vamos logo pra você não se atrasar, nosso futuro arquiteto promissor!
Rumamos em direção à moto de meu frère postiço. Coloquei o capacete e subi na garupa do veículo. Simon arrancou com a motocicleta em alta velocidade, o que me causou certa adrenalina. Agarrei-me mais forte à sua cintura e observei o percurso até o colégio atentamente, usufruindo do ar gelado da manhã. Em poucos minutos, chequei através do retrovisor a placa brilhante da instituição. Agradeci Simon e despedi-me dele com um abraço e beijinhos na bochecha, algo comum em ambas as nossas culturas.
Ao adentrar à escola, fiz questão de abarrotar minhas redes sociais com fotos do ambiente. O local era bastante espaçoso, contendo diversas salas com projetores e notebooks disponíveis em cada mesa, pois os alunos sentavam-se em grupos de quatro pessoas. As paredes pintadas de laranja salientavam a beleza do local, que continha armários de cor azul, cadeiras metalizadas e visões privilegiadas da natureza através de imensas janelas; comportava também, quadras internas e externas propícias para a prática de esportes, sala de música e teatro, biblioteca, cinema e até mesmo uma piscina gigantesca!
Pelo que Simon havia relatado, o colégio canadense era particular e de alto padrão, somente pessoas muito ricas estudavam ali. E por ser intercambista, eu teria aulas como gramática, didática, literatura, história e cultura francesa. Os alunos mais jovens que ainda cursavam o ensino médio em seus países de origem teriam direito às aulas regulares para não perderem os conteúdos das disciplinas essenciais, como geografia e matemática. Como eu já havia terminado a escola, meu intercâmbio era apenas um curso que incluía um teste de proficiência aprovado internacionalmente após a sua conclusão, o que me garantia facilidades caso eu desejasse ingressar em alguma universidade da França futuramente; ou seja, havia zero chances de eu desfrutar de qualquer uma das áreas de lazer.
Fiquei feliz por reencontrar alguns dos meus conterrâneos, incluindo Mariana, que informou-me sobre o fato de alguns de nossos colegas estarem em outras unidades do colégio canadense espalhados por toda a França. Nós intercambistas, estudaríamos na ala onde o curso chamado French4Foreigners era aplicado. As diversas salas abrangiam estrangeiros de todas as partes do mundo, e eram divididas por faixa etária semelhante. A regra principal era que apenas um aluno por país poderia frequentar cada turma, ou seja, somente eu seria proveniente da Argentina na minha classe.
O motivo era que nem todos ali presentes eram fluentes em francês ainda, e para terem imersão total durante cada aula, não poderiam recorrer ao auxílio de tradução de algum colega compatriota; o que não fez muito sentido para mim, pois, certamente muitos falavam outros idiomas além de francês, inglês e espanhol, então poderiam recorrer a outros meios.
— Salut! Ça va bien? — Uma garota exclamou animadamente, sentando-se ao meu lado e estendendo-me a mão. — Me chamo Heloisa Albuquerque!
— Enchantée, Gabriela Sanz! — Retribui o sorriso, a cumprimentando. — Pelo seu sobrenome eu diria que você é latina como eu… talvez… do… Brasil? — tentei dizer a última palavra em português num sotaque que soou engraçado e nós duas rimos.
— Isso! Do Brasil! Mais especificamente de Vitória, Espírito Santo! E você é argentina, certo?
A encarei surpresa.
— Como sabe? Você tem superpoderes?
— Claro! Brincadeira… Eu ouvi enquanto você comentava com um menino na entrada! Fora que o sotaque de vocês é inconfundível! Vocês puxam os sons das palavras que têm y e l tal qual os cariocas puxam o “s”. Já webnamorei com um uruguaio e me acostumei! — Riu, achando engraçado sua descoberta, quero dizer, breve conclusão. Mal tive tempo de pensar numa resposta, pois ela saiu me arrastando em direção ao pessoal. — Vem, vou te apresentar pra todo mundo!
As habilidades sociais de Heloisa eram realmente impressionantes, ela aparentava ser muito amiga de todos ali há anos, exalando tremendo carisma. Sua pele escura e brilhante ornava muito bem com seu cabelo longo e liso e olhos cor de âmbar. Fiquei ainda mais impressionada com o fato de que Heloisa havia, em poucos minutos, aprendido o nome de todos ali. Invejei sua extroversão, pois, eu tinha certa dificuldade na maioria das vezes.
Dos alunos que Heloisa me fez cumprimentar, eu decorei apenas dois nomes: Scarlett Cooper – uma estadunidense que destacava-se pelo tom de vermelho quente de seus cabelos curtos e lisos com quem eu logo identifiquei-me devido ao gosto musical variado – e Reyes Lazarte – um rapaz filipino de sorriso e jeitinho extremamente adoráveis, que assim como as meninas e o restante da classe, era muito divertido.
Mantive um extenso diálogo com o mais novo squad formado por Heloisa contendo nós quatro. Batíamos um papo muito interessante sobre nossas terras natais, curiosidades, pratos típicos e costumes em geral, até a chegada de um dos professores, que foi extremamente atencioso conosco.
Nosso período de aulas iniciava-se às 8:30 e tínhamos uma pausa de trinta minutos às 11:30. Antes de sairmos, um homem de meia idade trajado num terno cinza adentrou a sala.
— Bonjour, alunos — Ele abriu um sorriso acolhedor e se posicionou no centro da classe. — Eu sou Arthur Dubois, fundador da Instituição canadense de Paris, que oferece a vocês o curso French4Foreigners. Alguns de vocês estão aqui através de planos do governo, alguns, por intermédio de bolsas, e outros, pagaram pelo curso. Mas sei que todos estão dispostos a se dedicarem ao máximo a todos aos exercícios e exames que serão disponibilizados a vocês durante esse um ano e meio. Estamos sempre preparando novidades para vocês, e a cada fim de trimestre temos uma atividade especial surpresa que geralmente conta com a presença alunos de outras filiais nossas. Desejo a todos boas-vindas e um ótimo e proveitoso período aqui no nosso colégio repleto de novas experiências inesquecíveis a todos!
Ele ainda instruiu mais alguns conselhos, regras e detalhes no projetor antes de partir e ser ovacionado pela classe. Aquilo me animou de tal maneira que, ao chegar em casa às 13:30, respondi algumas mensagens de minha família no celular e aproveitei para enviar um áudio ao meu namorado – ainda que soasse brega – dizendo que sentia sua falta e que o queria abraçado comigo novamente. Santiago não havia me respondido nada desde que aterrizei em solo parisiense, e eu culpava o fuso horário e a distância por serem demasiadamente desconcertantes.
Certamente ele vai precisar de mais tempo de adaptação do que eu, pensei, e no mesmo instante, a notificação de uma mensagem de minha melhor amiga de tirou daquele transe.
natalia.poggio: Gabi, sua doida, você sumiu!!! Já encontrou amigas melhores do que eu aí??? Faz quatro dias que a gente não conversa!!! Preciso urgentemente falar com você!!! Me ligue assim que ler essa mensagem! Besos, te quiero!!!
Depois eu respondo, pensei, sentindo o sono me tomar. Havia passado a tarde toda assistindo Netflix com minha famille d’accueil, e acabei por adormecer no sofá.
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