Te Quiero, Mon Amour!
7 Je suis avec toi
Notas iniciais
9 novembre 2021, Élysée, Paris, France
Ouvi por diversas vezes que eu deveria ser grata por estar realizando meu maior sonho e me dedicar cem por cento ao curso e a todo o processo de intercâmbio, e que soaria mal-agradecida caso reclamasse de um aspecto sequer da viagem e das experiências.
Não que eu não estivesse amando estar ali. Eu realmente estava. Mas como em qualquer outra área da minha vida, havia complicações também.
A vida não é só feita de momentos positivos. Eu sempre soube que a França não era somente baguetes, vinhos caros e pessoas bem-vestidas – apesar de isso ser algo corriqueiro de se ver nas ruas de Paris –, assim como a Argentina não girava 100% em torno do futebol.
Porém, muitas camadas sociais, nenhum livro era capaz de explicar, e aquilo tomava muito do meu tempo, coisas que não achava que aprenderia, mas acabei por o fazer, da forma mais complicada possível: na prática.
Isso aplicava-se desde alguns comentários xenófobos que, às vezes escutava de alguns franceses ao dizer-lhes que era proveniente da Argentina, até a alguns olhares reprovativos que recebia por agir de uma forma interpretada por eles como rude, que em meu país de origem seria considerado algo normal; coisas que descobria eventualmente sobre a França. Enfim, era notável que eu estava evoluindo dia após dia.
De vez em quando, eu até mesmo ia à classe de Mariana antes do início das aulas somente para poder me comunicar com alguém que me compreendia cem por cento; talvez eu estivesse sendo um pouco hipócrita, pois, quando morava em Buenos Aires, eu passava meus dias criando situações na minha cabeça e praticando francês. E de repente, sentia tremenda falta de falar espanhol.
Sabia que em algum momento iria sentir saudades do clima, da vibe receptiva das pessoas do meu país, e até mesmo de ouvir Juan falando incessantemente do quão icônico e importante o Messi era, mas não sabia que doeria tanto e que seria tudo tão intenso e em apenas um dois meses de estadia eu me encontraria nesse estado deplorável.
Talvez as atividades estivessem mesmo me sobrecarregando mais do que eu tinha conhecimento. Tive até que cancelar as diversas saídas que combinei com as meninas em prol de revisar matérias; acabei optando por estudar também aos finais de semana, caso contrário, acho, que não teria dado conta.
Um dos motivos pelo qual eu estava aguentando firme à pressão dos professores eram os meus amigos – eles eram compreensivos e não me perguntavam muito sobre minha vida pessoal, somente a cerca de aspectos culturais que lhes interessavam. Scarlett conseguia ser engraçada e séria simultaneamente, nunca sabia quando ela iria dizer algo obsceno ou antiquado. Heloisa e Reyes eram extremamente tagarelas e contavam-me diversas piadas com ótimos trocadilhos que às vezes me distraíam. Mas até mesmo aquilo estava adiantando de nada ultimamente.
Meu Deus, eu estava realmente homesick. Eu era apegada a minha família, isso era um fato, mas não ao extremo do tipo que não se enxerga sem algo ou alguém.
Eu sonhava em ir embora e sempre pensei que aquilo seria algo fácil de aprender a lidar – justamente por me considerar alguém adaptável. Nunca fui do tipo de ser dependente em relacionamentos, e inclusive Santiago, com quem eu mantinha um namoro desde a minha Quinceañera —, parecia afastar-se de mim cada vez mais; mal trocávamos mensagens e havíamos feito, por alto, duas ligações de vídeo junto com Scarlett, Heloisa e Reyes, que havia servido para apresentá-los.
Será que ele havia desistido de nós ou era eu quem havia parado de lutar? O pior é que eu não possuía muitas estratégias ao meu alcance, nada que o trouxesse mais para perto instantaneamente. Era doloroso admitir, mas nós dois parecíamos mais uma dupla de amigos de infância – o que era uma verdade afinal de contas –, do que namorados e, aquilo me incomodava; um turbilhão de sentimentos me consumia por dentro.
Ir às aulas estava me sobrecarregando tanto que, naquela manhã de terça-feira, joguei-me em um dos bancos livres sem me importar com mais nada e sem proferir uma palavra sequer. Heloisa, Scarlett e Reyes vieram na minha direção indagar se eu estava bem e tudo que me vi capaz de fazer foi mentir balançando positivamente a cabeça. Era uma tremenda mentira. Estava extremamente cansada dos pensamentos me atormentando.
Recordava-me dos fortes braços de Santiago me envolvendo em abraços duradouros. Desejei naquele instante ter entregado-me a ele pelo menos uma vez como sempre havia me pedido, para, assim, quem sabe, poder ter ao menos uma boa lembrança intimista de seu amor por mim.
Será que Santiago pensa que eu o abandonei? Será que não me ama mais? Será que se cansou de esperar por mim do outro lado do mundo?
O que eu estava pensando, meu Deus?
Só agora a realidade me atingia de vez. Demorei para sentir falta dele nesse nível de intensidade. Demorei para perceber que de fato a última mensagem que ele havia me enviado tinha sido há três semanas.
Me culpei por ser uma péssima namorada. Acho que sempre demorei para identificar meus sentimentos, e quando o fazia – como agora – era tarde demais.
Quis chorar como nunca antes, mas segurei as lágrimas e encarei as meninas que, à essa hora, me interrogavam sem parar. Tentei abrir meu melhor sorriso para mascarar minha tristeza, o que não as convenceu. O efeito não surtiu nem em Reyes, que também me encheu de perguntas e nos lembrou que teríamos um teste ainda hoje. Ótimo.
Entretanto, após uns dez minutos em silêncio, o inesperado aconteceu: a professora não apareceu. A maioria do pessoal da classe agiu naturalmente, não importando-se muito, contentes pelo furo no teste, enquanto as meninas e Reyes se questionavam se algum deles tinha conhecimento sobre o paradeiro da professora, inclusive, a mim, que mantive-me calada até então.
De súbito, Arthur atraiu nossas atenções, adentrando à sala com seu sorriso acolhedor de sempre. Ficamos de pé em sinal de respeito ao proprietário da French4Foreigners e ele logo nos ordenou que sentássemos novamente.
— Bonjour, meus alunos! Tenho novidades: a Mademoiselle Madeleine entrou de licença à maternidade, vocês sabem que estava sendo difícil para ela seguir com as aulas com aquele barrigão. — Suspirou, dando uma leve risada. — Enfim, ficamos muito aliviados em saber que agora ela está melhor. Para substituí-la, vocês terão aulas a partir de hoje com o meu filho, agora, também, professor Michel Dubois!
No mesmo instante, uma figura alta e longilínea fez-se presente na sala de aula, trazendo consigo um cheiro forte de perfume amadeirado, que por algum estranho motivo, me pareceu familiar. Ao meu lado, Scarlett esticava o corpo numa falha tentativa de enxergá-lo com mais nitidez.
Com um sorriso cordial e um aceno, o rapaz se aproximou do centro da classe. Ele levou uma de suas mãos aos bolsos da calça de alfaiataria e ajeitou o paletó antes de parar de frente para o projetor. A luz bateu forte contra seu rosto e, ele pendeu a cabeça para o lado para evitar o contato e, finalmente, eu pude contemplá-lo com exatidão.
Reconheci imediatamente aquele homem bonito de maxilar bem marcado, pele bronzeada, olhos castanhos escuros e cabelo ondulado de mesmo tom inconfundíveis. Engoli em seco, tentando não parecer perplexa ao lado de Scarlett e Heloisa – que murmurava baixinho o quão gostoso ele era; uma gíria em português que ela havia me ensinado que eu teria soltado uma gargalhada alta senão estivesse tão chocada por ver quem ele era.
Era ele. Aquele cara que estava junto com Adele no fatídico dia naquela loja de grife do shopping.
Apesar de Michel parecer ser menos arrogante do que sua suposta namorada, eu ainda iria manter meus pés – e o restante do corpo todo – atrás com ele. Cresci escutando o famoso ditado “quem anda com porcos, farelos come”, então não esperava nada de bom vindo de sua parte.
Chacoalhei a cabeça buscando não me abalar, afinal, era o cara chamado Michel que iria nos dar aula, não Adele, certo? Tentei acreditar que ele estiva ali para, de fato, trabalhar. Talvez fosse precipitado julgar a índole de um indivíduo baseando-me em um único acontecimento terrível com alguém que ele conhecia, e pelo que eu me lembrava, havia descordado; talvez eu apenas estivesse com os nervos à flor da pele e tudo parecesse ser muito maior do que eu, talvez eu simplesmente não tivesse mais forças para aguentar tantos sentimentos acumulados e precisasse desabar.
Meu cenho ainda estava franzido quando me acomodei em minha cadeira costumeira de frente para Heloisa. Michel nos autorizou conversar até o próximo sinal tocar, seria uma aula livre; faltava só soltarem fogos de artifício e chamá-lo de salvador da classe por não ter aplicado o teste previsto para a data. Eu estava tão absorta em pensamentos, que ver minhas horas de dedicação sendo desperdiçadas não me incomodou tanto quanto geralmente acontecia.
Após uns minutos calada e mirando o teto, Reyes resolveu vir puxar assunto comigo.
— Tá tudo bem, Gabi!? — Tocou minha mão levemente. — Você está estranha desde o início.
— Na verdade, você está estranha faz uns dias já — Scarlett acrescentou, e senti os olhares preocupados de meus três amigos sobre mim.
— Tá sim, é só que… — Minha voz saiu praticamente como um sussurro. Respirei fundo numa tentativa de acalmar meus ânimos. — Tem muita coisa acontecendo… Estou sobrecarregada de tarefas, mau humor… enfim… — Dei de ombros, tentando soar convincente o suficiente.
— Sim, nem conseguimos sair direito ainda em dois meses aqui em Paris! — Heloisa enfatizou, piscando depressa, irritada. — Nosso plano de ir ao shopping foi por água abaixo e nós fomos à Torre juntos só uma vez!
— Tem também aquele problema que estávamos discutindo sobre xenofobia… — prossegui, concordando e iniciando uma série de desabafos. — Tem a minha família que diminuiu muito a frequência do contato comigo por conta do fuso horário e da distância… tem a minha família postiça que é legal, mas eu sei que eles nunca vão me entender cem por cento… apesar de se esforçarem… Bom, menos a Lola, né? Vocês acreditam que disse que eu roubei a família dela e que eu sou a segunda pior pessoa que ela conhece e mais odeia?
Eles me olharam incrédulos.
— E quem é a primeira? — Heloisa arriscou a pergunta, apoiando uma das mãos debaixo do queixo, atenta aos meus relatos.
Dei de ombros, pois, eu não sabia a resposta. Suspirei antes de continuar.
— Enfim, tem também minha situação com Santiago que… parou de falar comigo, sinto tanta falta de estar com ele…
— Olha, disso… eu entendo bem — Reyes solidarizou-se, suspirando. — Também sinto falta de Emma, de seus olhos de cor avelã, de seus lábios… de tudo nela! Mas pra mim não é tão difícil de lidar com isso, sabe? É só você focar nos seus estudos e mentalizar coisas boas que isso logo passa!
— Eu já tentei… — segredei, com a voz baixa, inconformada. — Não é tão simples quanto parece… É meio… desesperador…
Baixei o olhar para meus pés cruzados debaixo da mesa, quando a imagem dos olhos cor de jabuticaba de Santiago brilhando ao me ver e sorrir para mim me invadiu, causando-me um aperto no peito, e eu senti minhas vistas arderem.
— Daqui a ano e pouco vocês irão se reencontrar… isso não é suficiente para te manter animada? Isso só me dá gás pra seguir em frente e orgulhar a Emma, voltar ainda mais… digamos, forte pra ela! Um ano passa rápido, Gabi! — Ele apoiou uma mão em cima da minha mais uma vez e sorriu esperançosamente. De maneira involuntária, senti meus olhos marejarem e abaixei a cabeça.
Não tem como piorar, pensei; até perceber que estava chorando copiosamente.
— Sei que suas intenções são boas, querido Reyes, mas você… não está ajudando. A última coisa que ela precisa agora é de você se gabando sobre seu namoro perfeito! — Heloisa, furiosa, repreendeu-o entre dentes, mas eu consegui entender cada palavra.
Mais uma lágrima caiu, dessa vez na mão de Reyes apoiada sobre a minha, que finalmente notou meu choro.
— Me desculpe, Gabi — disse, desconcertado. — Eu não queria magoar vo…-
— Não me peça desculpas! — repliquei, me levantando num pulo, assustando a todos. — Você não tem culpa de nada. Na verdade, você tem razão. Eu… Eu d-deveria… — gaguejei, e quando minha voz falhou e meus suspiros se tornaram quase que inaudíveis, vi de soslaio que todos os presentes na sala me observavam, confusos e curiosos em silêncio. — Eu deveria estar feliz…
Culpei-me por permitir ser uma pessoa tão intensa e demorar para perceber quando era hora de liberar o que eu estava sentindo. Eram muitas sensações acumuladas, e aquele estava sendo um péssimo momento para elas colapsarem tão de repente, como uma pesada e infinita bola de neve esmagadora.
— Gabriela! — gritaram Scarlett, Reyes e Heloisa em uníssono vendo-me rumar em direção à porta.
— Mademoiselle… — A voz de Michel soou ao meu lado. Ignorei seu chamado e pedi licença com as mãos.
— Excusez-moi…
Licença para continuar chorando como uma criancinha, diga-se de passagem, pois foi basicamente o que fiz após me sentar em um dos bancos do corredor. Corria risco de ser advertida por matar aula, mas não me importei muito naquele momento. Nada parecia fazer sentido, ao passo que tudo era real demais. Eu só queria ir… embora.
— Quer ir para casa, Gabriela?
Enxuguei um pouco das lágrimas e encarei o homem à minha frente ao ouvir meu nome ser proferido por ele. Michel fitava-me com o cenho franzido e mantinha as mãos enfiadas por dentro dos bolsos de sua calça.
— Você estava lendo meus pensamentos? — Foi tudo o que consegui responder antes de soluçar novamente, indicando mais uma sessão de meu chororô incontrolável que parecia sem fim.
— Veja bem, eu não curto muito me meter nos problemas pessoais dos outros, mas me incomoda bastante vê-la chorando assim. — Examinou por alguns segundos minha face, antes de cuidadosamente sentar-se ao meu lado. — O que quer que tenha acontecido, você tem a minha total permissão para sair daqui e ir resolver.
Não depende só de mim, afinal, eu pensei.
Respirei fundo, dando uma longa pausa para tentar me recompor. Michel não havia dito mais nada.
— Não é algo que eu consiga resolver direto daqui, de qualquer maneira… e nem mesmo se quisesse — eu disse, conseguindo formular minha primeira frase sem nenhum intervalo interrompido pelas lágrimas e soluço dentro de cinco minutos. — Não foi minha intenção ser tão dramática e atrapalhar a sua aula, professeur Dubois. Pardonne-moi.
— Michel… — Pigarreou ao me corrigir.
— Pardonne-moi, Michel… — Sorri fraco. — Prometo que isso nunca mais irá acontecer. Vou lavar meu rosto, me recompor e já, já volto à classe. — afirmei, me levantando.
— Você pode recolher os seus materiais e pedir para sua família vir buscá-la! — ele reforçou. — Caso você queira uns dias para repousar… não tem problema se quiser voltar apenas na segunda.
— Não sei se é uma boa ideia…
— Se é eu não sei, mas é bom descansar, principalmente nossa mente de vez em quando.
Concordei com a cabeça.
— Você tem razão, Michel. Obrigada por sua gentileza.
— Não esperava isso de mim, né? — Riu, cruzando os braços como se tivesse adivinhado meu julgamento anterior. Franzi o cenho e engoli a seco, mesmo sabendo exatamente ao que ele se referia. — Eu me lembro de você também, não pense que estou fazendo isso para te recompensar pela grosseria de Adele naquele dia.
— Eu não tinha pensado isso. — menti. Era um tanto irônico. A pessoa mais improvável possível, estava agora me ajudando.
— Estou fazendo isso pois já estive na sua situação um dia. — Ele suspirou e sorriu de lado. — Enfim, o que eu quero dizer é que eu não te conheço e isso pode parecer muito estranho, mas você pode contar comigo para o que precisar, Gabriela.
— Como numa espécie de professor psicólogo tipo o professor Madariaga de Rebelde? Ou será que você tirou isso de uma das letras de música da Avril Lavigne?
— Mada… o quê? — Ele me encarou confuso e pela primeira vez no dia, eu genuinamente ri devido à sua expressão engraçada.
— Madariaga. Enfim, obrigada mais uma vez.
— Por nada. E sim, eu tenho bom gosto musical, Gabriela. — Michel sorriu de maneira convencida e suspendeu o corpo de repente, aproximando-se de mim antes de, adoravelmente cantarolar um verso de I’m with you. “Eu não sei quem você é, mas eu estou com você.”
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