Te Quiero, Mon Amour!
5 Me Desperté
Notas iniciais
— Anda mais devagar, Lola! Por que você tá correndo? — Simon indagou olhando pra mim, querendo rir. — Pra quê, hein? Me responde!
— Acho que ela quer chegar mais cedo em casa — sussurrei para ele, que sorriu cúmplice.
— Eu hein, se você já é insuportável assim com essa idade, imagine quando estiver na puberdade, Lola!
A garota aparentemente ouviu nossos comentários, pois, logo virou-se para nós, bufando, indignada.
— Eu que sou lerda ou vocês é que são muito devagar? E chato é você e essa garota aí, sua nova irmã! — Ela arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços. Nós então gargalhamos de sua expressão emburrada; era incrível como um serzinho de aproximadamente um metro e trinta de altura conseguia ser tão ousado e ter sempre uma resposta pronta para cada pergunta. Certamente seria melhor amiga de Juan caso o conhecesse – e se os dois fossem capazes de, de alguma forma, dialogar numa espécie de Frespanhol maluco – ou os dois iriam odiar-se à primeira vista devido à incompatibilidade de seus temperamentos fortes. A tensão presente no ambiente seria como França x Argentina numa final de copa do mundo.
Balancei a cabeça com o pensamento bobo e continuei atrás de Lola e com Simon ao meu lado. Paramos na frente do McDonald’s e pude ver os olhinhos da garota brilharem.
— Vamos, Simon! — Ela o puxou em direção ao caixa. Bem, até que a tarde no shopping estava sendo divertida e consideravelmente agradável. Lola relutava para interagir comigo na maior parte do tempo e eu tentava ser compreensiva, afinal, mal nos conhecíamos e eu já estava sendo chamada de filha pelos pais dela. Certamente gerava-lhe um nó em seu jovem cérebro.
Depois de comer, decidi explorar o espaço do shopping e conhecer outros estabelecimentos. Lola, ao meu encalço, me guiava pela enorme estrutura, enquanto Simon havia optado por continuar na praça de alimentação.
Assim que Lola e eu passamos em frente a uma loja de grife, minha mente reverberou algo importante presente em minha bucketlist: conhecer uma loja de grife, entrar e experimentar várias peças, ainda que eu não tivesse dinheiro suficiente para comprar nada.
— Vamos, Lola, por favor — eu praticamente implorava, era patético.
— Vai sozinha, ué! — Ela esboçou uma careta como se aquilo fosse a maior obviedade do mundo. — Não é como se você fosse uma estrangeira leiga que não sabe uma palavra de francês. Eu até pensei que você fosse daqui porque sua pronúncia é perfeita e você nem tem sotaque forte como a maioria dos gringos que vem pra cá! — ela exclamou, indignada, jogando os bracinhos pra cima.
— Isso foi um elogio? — eu perguntei, fazendo cócegas nela, que pela primeira vez, riu ao desvencilhar-se de mim.
— Tá, foi sim…— Deu-se por vencida, abaixando a cabeça. — Mas não se empolgue, ainda não somos amigas! Você não… Não sabe agradecer?
Eu ri de seu jeitinho peculiar.
— Garota!
— Vamos logo se for pra você me deixar em paz!
Ela puxou-me pelo pulso e nós atravessamos a porta automática de vidro que abriu-se no mesmo instante. Boquiaberta, admirei cada pedacinho da loja, que era extremamente pomposa e pouco movimentada. Possuía manequins que pareciam ser feitos de vidro – ou de algum material semelhante, ou até superior –, vestidos com trajes de alta costura. Havia, também, sapatos e bolsas de luxo de diversos tipos expostos em prateleiras com lacres de segurança. Mirei-me no espelho ao lado. Eu estava simples, mas não me incomodei como achei que faria ao notar que nenhum vendedor viera me atender – não que eu estivesse prestes a adquirir qualquer item dali, afinal.
— Excuse-moi… — Aproximei-me de uma das funcionárias que trajava um uniforme all black e tinha seu cabelo preso para trás num coque. — Gostaria de experimentar aquele vestido de cor esmeralda no tamanho M… — Apontei para o mostruário com os olhos brilhando, sorrindo de forma simpática.
Ela não disfarçou seu olhar reprovativo ao encarar-me dos pés à cabeça, como quem dissesse não ser comum ver pessoas como eu ali, e retirou-se após fazer uma leve reverência. Fiquei com certo receio de que ela me proibisse ou apontasse algum tipo de requisito e colocasse a culpa em mil protocolos, mas tranquilizei-me ao tocar no tecido macio da peça.
— E você, Lola? O que achou? Vê como é brilhoso? Eu amei a fenda! Amo vestidos assim, sabe? Estilo ombro frio… — contei para a garotinha, certa de que colocaria algum defeito e alegaria não ser tudo isso, e quem sabe, reclamar do porquê provar algo que eu sequer iria comprar. Já estava preparada para convencê-la a permanecer na loja apenas por mais uns instantes, e um arrepio percorreu pelo meu corpo ao constatar que ela já não encontrava-se mais ali. Quando virei-me para procurá-la, fui surpreendida por um grito estridente.
— Argh! Essa cor ficou um horror em mim, chérie! Não me valoriza em nada! Não tem como eu ir pra um evento calçando essa porcaria que nem confortável é! Ache outro modelo melhor e… dourado dessa vez! Pelo amor, como você é sonsa e inútil! Anda! Some da minha frente, empregada! Vai!
Dei mais alguns passos até estar completamente de frente a uma garota alta e magra, como uma bela modelo da Victoria Secrets. Seus cabelos eram levemente ondulados e tingidos num tom arroxeado bastante chamativo, sua pele era branca e seus traços do rosto bastante finos. Ela encarava seu próprio reflexo no espelho central, batendo os pés no chão de nervoso. Franzi o cenho ao olhar para o par de saltos prateados que aparentava ter diamantes colados à parte da frente que ela portava.
— Excuse-moi, mas… você precisa de ajuda? — perguntei, parando ao lado dela. Estava realmente perplexa com o fato da garota se recusar a usar algo tão perfeitamente chique. Bem, talvez pessoas ricas e influentes sofressem mesmo com aquele tipo de dilema: devo ir ao casamento do governador com o meu salto de diamantes dourado ou com o prata?
— Quem é você? — respondeu com desdém, arqueando suas finas sobrancelhas. — Trabalha aqui, por acaso?
— Não, estava passando e ouvi alguém gritando e me assustei, aí eu segui a voz e chegu…-
— Tá, tá, garota, eu já entendi! — Passou as mãos pela blusa de renda que trajava e me ignorou completamente, pegando o celular para tirar uma selfie.
— E, sinceramente eu estou abismada que você não tenha gostado desse salto. Ele é perfeito! — continuei a tagarelar. — Bem, talvez não combine com o propósito do evento que você vai, mas que é incrível, isso ele é! Na verdade, acho que nunca tinha visto saltos, roupas e bolsas tão magníficas quanto aqui nessa loja! Do barrio de onde eu vim não temos tantas opções de lojas como estas, eu estou boquiaberta! É tudo extremamente deslumbrante!
— E eu nunca tinha visto uma pessoa tão impertinente! — Revirou os olhos e sentou-se em frente ao espelho, largando o celular de qualquer forma, que por pouco, não caiu no chão e se quebrou. Acompanhei o movimento do aparelho, perplexa com sua atitude. Ela certamente era bastante rica para não ter se preocupado com isso. A garota então apoiou o peso do corpo nos braços esticados contra o banco, esboçando uma feição entediada. — Aliás, você é de onde, coisinha insignificante?
Coisinha insignificante? A forma como ela se referiu a mim me irritou seriamente, mas eu me contive.
— Sou da Argentina! — respondi sem pestanejar. — Por quê?
— Não sabia que esse povinho tinha dinheiro para atravessar o continente! — desdenhou, sorrindo cinicamente. Cerrei os punhos e fui fechando os olhos devagar, tentando controlar a raiva crescente e minha vontade de mostrá-la do que o povinho era capaz através de uns bons tapas na cara. Me arrependi amargamente de ter iniciado aquela conversa – se é que poderia chamar assim.
— Por que está me dizendo essas coisas rudes, sua imbecil? Eu só tentei ser simpática! — Me defendi, sentindo meu sangue ferver de ódio. — Tem noção do quão ridícula pessoas feito você soam?
— Por que, chérie? — Ela levantou-se de súbito. — Olhe só pra você… Agora olhe para mim! — Apontou para o espelho como se ela fosse a rainha da Inglaterra e eu sua súdita mais indigna de atenção. — Grande diferença, não? Eu tenho prestígio, tenho glamour!
Tá, tudo bem que a calça que ela estava trajando era duas vezes mais cara e de qualidade que a minha, mas isso não lhe dava o direito de me humilhar por algo tão fútil! Ah, mas ela vai ouvir poucas e boas!
— Escuta aqui! — Comecei a aumentar gradativamente meu tom de voz para demonstrar que ela não me intimidava. — Quem você pensa q…-
— Excuse-moi, Mademoiselle Skye — a voz de uma funcionária soou frouxa atrás de mim. Mirei a jovem, que notei ser a mesma a quem eu havia pedido auxílio para provar o vestido verde. Suas mãos tremiam ao segurar uma almofada vermelha com um par de sapatos idênticos aos que a garota arrogante usava, porém, numa coloração dourada. — Demoramos para localizar um par similar, pois, receamos não estar disponível na sua numeração, madame Skye.
Revirei os olhos devido à tamanha formalidade. Aquela garota nojenta era a rainha da França ou algo do tipo e eu não estava sabendo? Bem, certamente, se sentia e agia como tal. Franzi o cenho, revoltada quando percebi o que estava acontecendo. A vendedora havia mesmo desdenhado de mim para ir atender àquela ridícula metida à princesa?
Bem, no fundo eu não a julgava ao extremo, pois, devido à minha prévia pouca experiência como auxiliar de vendas na loja da mãe de Santiago, estava ciente da comissão envolvida, e a funcionária sinceramente lucraria muito mais com a garota rica do que comigo; porém, eu jamais menosprezei qualquer cliente por qualquer motivo que fosse – exceto por eventuais faltas de educação vindos por parte de alguns indivíduos.
— Argh, como eu odeio ter esse pé de pato que nada me serve, como se já não bastasse ter essas pernas de flamingo! — A garota de cabelos arroxeados me encarou, sorrindo de maneira debochada. — Assim como não suporto pessoas como vocês duas! Pobres, inúteis! — gritou a última palavra, antes de levantar-se e mirar a vendedora, que encolheu-se no canto do espelho. — Eu falei que queria outro modelo, sua imbecil! Dourado e de outro modelo!
— Vai descontar a raiva em nós agora, idiota? — eu rebati. — Tisc, tisc. Você é doida!
— S-sinto muito, M-mademoiselle, está indisponível… — a fala da vendedora soou por cima da minha voz enojada.
— Indisponível? Mas você é paga para o quê mesmo, inútil? — Deu passos em direção da funcionária, e havia uma considerável diferença de altura entre ambas. — Tira uma grana do caramba vendendo esses sapatos pra não ter do meu tamanho?
— Ah, porque o mundo gira ao seu redor agora, né, Adele? Calma que ela vai mandar fabricar um exclusivo pra você, é só você pagar… — Ouvi uma voz masculina ser emitida atrás dela. — Já falei pra você abrir seu próprio ateliê, bonbon!
— Calado, miel! — Ela suspirou, enfurecida. — Finalmente você chegou!
— Claro! Ficou muito tempo me esperando, é? — Deu um sorrisinho convencido e a abraçou pelo pescoço ao me encarar. Engoli em seco ao trocarmos um rápido olhar e eu tentei não reparar no fato de que ele era muito atraente e extremamente… sexy. Ela definitivamente tinha bom gosto.
Eles iniciaram um diálogo interno e aquela foi a minha deixa para apressar o passo na direção oposta a eles, mas antes pude ouvir a tal Adele esbravejar: “Isso, volte para seu habitat natural! Suma da minha frente e nunca mais apareça aqui porque você jamais deveria ter vindo para o MEU país!”
O homem imediatamente repreendeu à, aparentemente, namorada dele, pelo que pude ouvir em seu discurso de “Quando você vai se tratar, hein, garota?”, entretanto, já era tarde demais para conseguir ouvir qualquer coisa de maneira transparente depois daquilo, pois as lágrimas me cegaram, caindo como um rio.
Necessitava urgentemente encontrar Simon e Lola e voltar para casa. Eu havia, finalmente, encontrado a realidade mais uma vez e sido acordada do meu sonho que havia se tornado um terrível pesadelo.
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