Te Quiero, Mon Amour!
12 Marseille
10 décembre 2021, Élysée, Paris, France, 6 da manhã
Adentrei o trem com Scarlett ao meu encalço. Nos acomodamos nos lugares designados pelos bilhetes e eu ouvi meu celular vibrar.
Era uma mensagem de Florian.
florian_dupont: Bom dia, Gabi! Você poderia trocar de lugar comigo? Quis fazer uma surpresa pra Scarlett e cheguei mais cedo com o Michel para organizar o passeio. Nós estamos sentados aqui no fundo. Se possível, você conseguiria trazê-la até aqui?
Franzi o cenho, mas me levantei.
— Vai aonde, Gabi? — Scarlett indagou, se espreguiçando.
— Venha comigo.
Arrastei Scarlett comigo até os fundos do trem. Ela tentou protestar, porém, devido ao sono aparente, tudo o que exprimiu foi um bocejo. Scarlett parou para coçar os olhos, ainda um pouco cambaleante.
Topei com Florian, que sorriu para mim de maneira simpática. Ao lado dele, Michel estava acomodado, com um tablet em mãos e um monte de papéis.
— Merci, Gabi! — Florian agradeceu-me, radiante. Soltei uma risadinha e mirei Scarlett, que não fazia ideia do que estava acontecendo. — Se você não se importar, posso roubar a Scarlett só por hoje?
Assenti com um sorriso cúmplice.
— Se você prometer que cuidará bem dela, tem a minha bênção.
Scarlett e Florian pareciam completamente perdidos no olhar um do outro, algo admirável. Ambos sorriram de orelha a orelha, entrelaçaram as mãos e direcionaram-se para dois assentos vagos no meio do trem.
Michel, que parecia não ter notado minha presença até então, se manifestou de repente.
— Você fica bem de verde, Mademoiselle Sanz! — afirmou, encarando meu casaco tweed. Meu rosto instantaneamente esquentou ao ouvir o elogio.
— Merci, Professeur Dubois. — Ele esboçou uma careta engraçada. — É a minha cor favorita.
Virei-me para retornar ao meu assento, porém, antes que eu pudesse sair, Michel pigarreou.
— Por favor… — Ele retirou a maleta com seu notebook que estava no banco e seus olhos se apertaram num sorriso. — Você pode se sentar aqui, se quiser.
Hesitei por um segundo. Eu poderia muito bem ter seguido meu plano original, porém, acabei aceitando. Acomodei-me ao lado de Michel, tentando me manter o mais discreta possível, com as bochechas ainda pegando fogo. Fingi estar distraída, brincando com o tecido de minha saia.
— Então… — Michel quebrou o silêncio. — Está animada para conhecer Marseille?
— Com certeza! Mal posso esperar pra saber aonde vamos!
Michel riu. Aquele passeio era o prêmio dos vencedores dos jogos de inverno, e certamente eu não saberia nada de antemão.
— Sem spoilers do roteiro!
— Droga, você nunca me dá pistas de nada!
— Pois é, e nunca darei — Michel piscou e ajeitou seu paletó, convencido. — Comigo as coisas são sempre uma surpresa!
Revirei os olhos.
— Nossa… você é o mistério em pessoa, né? — ironizei.
— Isso mesmo. — Michel riu.
— Falando em surpresas… Eu não sabia que você e Florian se conheciam.
Michel assentiu.
— Desde quando éramos pequenos.
— Sério?
Ele riu de minha expressão surpresa.
— Sério. É como se ele fosse meu irmãozinho mais novo que nunca tive. Nossas famílias são amigas há muitos anos, começou na geração dos nossos avós.
Bem, aquilo explicava muita coisa, como quando Florian estava no ônibus junto aos intercambistas no passeio que tivemos em Paris — e também o fato dele ter conhecido Scarlett e poder transitar tranquilamente pelo nosso lado do colégio.
— Então você foi o cupido de Scarlett e Florian?
Michel soltou uma risadinha, aquiescendo.
— Isso mesmo. — Ele suspirou, mirou seu relógio de pulso, e então baixou o tom de voz. — Sempre funciona com os outros, menos comigo…
Franzi o cenho ao notar suas íris aflitas, como se ele estivesse… longe, e ao mesmo tempo perto — e eu já estava farta de sentir as pessoas agindo assim ao meu redor.
O metrô alavancou, e eu coloquei meu fone de ouvido para abafar o barulho dos trilhos. Tentei focar apenas na playlist de K-Pop de Reyes e na paisagem que via através da janela, mas era praticamente impossível. Vez ou outra a imagem de Michel refletia no vidro, e seu perfume — sempre marcante, fresco e amadeirado — consumia todo o ambiente. Às vezes eu sentia vontade de perguntar o porquê ele exagerava tanto, mas temia soar arrogante — como se eu estivesse dizendo que Michel não tomava banhos o suficiente e essa fosse a alternativa encontrada por ele de esconder o mau odor.
Estiquei meus pés e comecei a rolar por minhas redes sociais. Heloisa havia postado um stories da paisagem e eu a avistei ao lado de Reyes um pouco mais à frente. Era reconfortante saber que, aos poucos, ela estava voltando a se aproximar de nosso grupo.
Segui observando cada detalhe das ruas: os casebres coloridos, as árvores cobertas pela neve, o vento batendo contra meus cabelos… até que acabei pegando no sono.
Pisquei múltiplas vezes, esfreguei minhas vistas, e em seguida, minhas mãos uma na outra. Soltei um longo bocejo, sentindo a maciez do tecido de meu casaco contra minha bochecha. Continuei naquela posição confortável por alguns segundos. Após respirar fundo, o cheiro que adentrou por minhas narinas me causou um arrepio.
Aquele não era o meu casaco, era o de Michel. E eu estava babando em seu ombro.
Ergui a cabeça num ímpeto. Como eu vim parar aqui?
— D-Díos mio… — balbuciei, limpando minha bochecha com o dorso da mão. — M-mil perdões, Michel.
— Tudo bem, Gabriela. — tranquilizou-me ele, rindo.
— Q-que horas são agora?
— Nove e trinta em ponto.
Arregalei os olhos.
— Eu dormi tudo isso?
Michel anuiu a cabeça, achando graça. O trem parou no mesmo instante.
— Chegamos… — Michel cantarolou, batendo palmas, e em seguida levantou-se, ajeitando sua roupa. — Ah, Gabriela… Você me deve um paletó novo!
Engoli em seco.
— C-como?
— Estou brincando, obviamente. Que bom que você descansou, pois hoje nós iremos andar muito. — enfatizou a última palavra e eu bufei em frustração.
— Ótimo. — respondi sarcasticamente.
Suspendi meu tronco e meus joelhos enfraquecidos quase me fizeram cambalear. Ajeitei minha mochila nas costas e saí do trem.
Eu, Scarlett, Florian, Reyes, e Heloisa caminhávamos ao lado de Michel, que mantinha suas mãos enfiadas no bolso de sua calça. O observávamos atentamente explicar sobre a arquitetura de Marseille, como se já tivesse pisado em cada pedacinho da cidade. A França era um verdadeiro mix do antigo com o moderno, algo que somente aquele país era capaz de executar tão graciosamente. Havia uma certa paixão genuína em sua voz, era possível sentir o orgulho que Michel sentia de sua própria nação.
Era transparente como água a facilidade com que Michel interagia com as pessoas ali. Tudo nele gritava um estilo de vida que eu jamais havia experimentado, e ainda assim, ele mostrava-se humilde; havia nele uma humanidade que eu jamais poderia ignorar. Ele sabia ser transparente e simultaneamente indecifrável. Talvez não esbanjar luxos fosse algo relacionado aos franceses em si, pois em sua maioria, eu não saberia distinguir quem seria rico ou não.
Quando chegamos, Marseille estava coberta de neve, tão bonita e pronta para nos receber. Fomos em dois museus, e nossa primeira parada para alimentação foi uma famigerada pâtisserie da região. A variedade de massas folhadas, sopas, cafés e macarons disponíveis era impressionante.
Estávamos todos acomodados em um gigantesco sofá em formato de U com capacidade para todo o grupo no segundo andar do ambiente. Próximo a mim estava Richárd, que a cada cinco segundos deslizava os dedos por seus fios cor de mel encaracolados ao contar sobre sua vida em Budapeste. Eu o achava um tanto quanto engraçado, já Reyes o denominava esquisito. Ambos bebericavam suas xícaras de chá, entretidos em uma conversa sobre a Champions League. Na outra ponta, Florian, Scarlett e Michel conversavam animadamente junto aos outros intercambistas. Heloisa mantinha-se ao lado deles, cabisbaixa.
— A França tem um jeito único de fazer comida parecer arte, não acha, Gabriela? — Richárd comentou, observando-me mordiscar um pedaço de macaron. Seu sotaque ao pronunciar meu nome era cativante.
— Sim… Eu ousaria dizer que essa é a melhor parte.
— Discordo… — Reyes se manifestou. — A melhor parte é o poder de compra, faz todo o trabalho duro valer a pena!
Mexi a cabeça em concordância. Produtos de altíssima qualidade por preços acessíveis era algo na qual eu nunca teria tido fácil acesso caso ainda morasse em Villa 31.
— Tem sido uma loucura! — Richárd admitiu. Suas íris verdes demonstravam certa fragilidade e as sardas em seu rosto lhe traziam um certo ar de juventude. — Estou longe de casa, e ao mesmo tempo me sinto estranhamente à vontade.
— Algo indescritível — afirmei e ele sorriu abertamente. — Com licença… — pedi, levantando-me e caminhando até o parapeito da janela, com o desejo de estar só apossando-se de mim. O vento gelado bateu contra meu rosto e eu inspirei vagarosamente para apreciar melhor a sensação. Me apoiei contra o suporte, admirando a vista da cidade. Distraída com o tilintar dos talheres e vasos de porcelana ao meu lado, ouvi passos em minha direção.
— Tá tudo bem, Gabi?
Assenti à pergunta de Scarlett.
— Sim, e você?
Ela aquiesceu por igual.
— Tudo também. — Sorriu largamente e posicionou as mãos na cintura, encenando despreocupação. — O Richárd é bem legal, né?
— Sabia que não viria coisa boa… — Cruzei os braços, ironizando. — O que você está insinuando?
— Que vocês formariam um casal bonito.
— Acho que você está me confundindo com outra pessoa, Scarlett — rebati sem pestanejar, ruborizando. — Ou você esqueceu que eu namoro?
— Óbvio que não. Mas ainda assim… acho que ele está afim de você. Por que você não abre seu coração e dá uma chance pro coitado? Santiago nem fala com você!
— Às vezes eu esqueço do quão direta você consegue ser — resmunguei, revirando os olhos.
— Desculpa se pareço grossa ou enxerida, Gabi. Minha intenção não foi te desrespeitar.
— Qual foi, então? — indaguei, rindo sem humor.
— Te fazer abrir os olhos. Essa situação já passou dos limites… Tem tanto carinha legal por aí feito o Richárd. Não existe só o Santiago, sabia?
— Eu sei.
Minha irritação era evidente. Por que de repente Scarlett havia decidido tocar no assunto? Era como se ela tivesse tocado em uma ferida que estava aberta e eu nem sequer havia reparado. E doeu, como doeu reconhecer para mim mesma, e para Scarlett também, que ela tinha razão no final das contas. Não que eu fosse extremamente convencida — muito pelo contrário, pois eu tinha medo de soar prepotente —, mas era doloroso finalmente reconhecer a verdade que se apresentava diante de mim e eu estava ignorando.
— Por que você não terminou com ele ainda, então? — Suspirei. Nem mesmo eu sabia a resposta daquela questão. — Você não acha que... talvez Santiago já olhou para outra garota?
Minhas batidas dispararam descompassadamente ao som daquela indagação.
— Como é? — sussurrei, incrédula.
— Isso acontece, Gabriela. É impossível vocês não se atraírem por outras pessoas. Não precisa ficar presa nele porque ele é o único cara que você conhece… ou já conheceu.
Senti meus olhos marejando e um nó formando-se em minha garganta. Reprimi o choro, aprumando a postura.
— Scarlett, eu… — Minha voz saiu entrecortada e num tom fraco devido à primeira lágrima que caiu. — Eu amo o Santiago…
— Tem certeza? Acho que nem você acredita mais nisso, Gabriela. Você parece cada vez mais distante dele e até de… quem você era semanas atrás. Digo isso como amiga, digo de coração.
— Eu só tinha vindo aqui tomar um ar… — Scarlett riu como se estivesse avaliando minhas palavras e não levasse a sério uma sequer. — Por que você precisava dizer essas coisas?
— Tem certeza que você não está presa por… comodidade, por medo da reação das famílias de vocês?
Fui pega desprevenida. Como ela parecia ler o que se passava dentro de mim? Scarlett era vidente? Dei uma risada nervosa, tentando aliviar o momento.
— Você está… equivocada…
— Gabi — Scarlett segurou minhas mãos, e sua expressão denunciava empatia. — Talvez seja esse o passo que você precisa dar para crescer e evoluir.
Me mantive impassível por fora, e por dentro só conseguia pensar: E se fosse o fim? Deveria, finalmente, deixar Santiago ir? O que restaria de nós?
— Você merece alguém que te faça feliz, Gabi. Sei que isso é extremamente clichê, mas é verdade. Eu te conheço há pouquíssimo tempo e parece que esse cara mais te faz chorar do que sorrir. Como se ele drenasse a sua energia, e você ficasse sem brilho. Não sei se você já percebeu, mas muitas pessoas sentem inveja de você.
Resfoleguei, quase engasgando com meu próprio ar.
— I-inveja?
— Sim. Você é bonita, nova, determinada, simpática, sonhadora. Tem qualidades que a maioria das pessoas almeja e é incapaz de ter. Eu já reparei como algumas pessoas te olham, como se você fosse uma ameaça. Eu estou te falando essas coisas, pois eu te admiro de verdade, e acredito no seu potencial.
Foi a gota d’água. O discurso de Scarlett tocou — minha alma — mais do que eu esperava. Me vi sem palavras, incapaz de exprimir qualquer atitude a não ser abraçá-la e chorar copiosamente. Uma avalanche de sentimentos me dominou, e eu nem me importava se estava em público.
— O-obrigada… — gaguejei entre os soluços. — Q-que bom… que Deus colocou uma amiga feito você no meu caminho!
Cada discussão, cada vez que Santiago me fez sentir inferior, me fez questionar meu próprio valor e alimentou as minhas inseguranças — tudo veio à tona naquele instante.
Como e por que eu estava mantendo aquele relacionamento tão prejudicial há tanto tempo? Por que eu ainda estava lutando?
— Você não pode sair por aí carregando o fardo alheio — Scarlett afirmou. — A nossa própria cruz já é pesada o suficiente. — Sorri sem mostrar os dentes para ela, entre as lágrimas. — Deus nos dá apenas aquilo que podemos carregar… Pense bem, Gabi. Sobre quem você é verdadeiramente. Sobre o que realmente quer.
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