13 décembre 2021, Élysée, Paris, France

Aquele seria um dia importante, onde apresentaríamos trabalhos acerca de nossas realidades em nossos países na aula de cultura. Eu estava mais apreensiva do que o normal. Falar do bairro onde cresci era trágico e nostálgico ao mesmo tempo, pois trazia à minha memória inúmeras lembranças — como o cheiro de comida de rua, o barulho dos vendedores ambulantes escandalosos e do sabor de chicha morada.

Era um local comum, repleto de pessoas comuns, todavia, o perigo morava ao lado. Os prédios retangulares feitos de tijolos eram extremamente agrupados — anunciando que Villa 31 era uma favela.

Quem morava na Villa sabia muito bem aonde ir e onde evitar pisar. Havia aprendido a me contentar com os pequenos detalhes — com coisas que eram corriqueiras na vida de muitos dos estudantes de minha classe.

Apesar de alguns de meus colegas terem vindo de contextos mais privilegiados que o meu, jamais fui tratada com desdém por quaisquer um deles. Pelo contrário, eles demonstravam interesse genuíno em ouvir sobre o meu passado, buscando compreender minhas perspectivas e trajetória com respeito e atenção — e eu os retribuía.

Os poucos euros que conseguia enviar para Tía Dulce e Tío Juarez representavam uma mudança significativa na vida de minha família, o que me dava ainda mais motivação para seguir em frente — e possivelmente tirá-los de Villa 31.

Pensando nisso, adentrei o metrô com Scarlett ao meu encalço. O veículo estava lotado e sufocante — para variar. O frio do inverno era cortante, porém, com tantas pessoas aglomeradas, senti um pouco de calor. O mau cheiro devido à falta de desodorante de muitos indivíduos ali presentes era algo que eu nunca conseguiria ignorar.

Torci o nariz, conforme Scarlett resmungava sobre seu relacionamento com o pai, alegando que, mesmo à distância, ele tentava controlá-la. O pai de Scarlett era dono de uma empresa de administração e o responsável por sua estadia em Paris. Ela acrescentou que seu pai havia se tornado um homem frustrado desde que sua mãe o trocou por um cara mais jovem e descontava isso na filha.

Enquanto observava o movimento do metrô e Scarlett atordoada, eu me perguntava se não ter sofrido com o controle parental havia sido algo bom, apesar de Tía Dulce conseguir ser dura a seu próprio modo.

Assim que deixamos o metrô, uma senhora esbarrou em mim e rosnou: "sudaca!" ao encarar a lapela de meu uniforme. Estremeci devido ao susto, sentindo uma mistura de raiva e impotência me dominando. Quando finalmente entendi o que estava acontecendo, dei de ombros. Já havia me acostumado a esse tipo de situação vulnerável e humilhante.

— O que foi que você disse? — indagou Scarlett, avançando contra a senhora para empurrá-la.

— Não, Scarlett! — eu a impedi, limitando o espaço de seus ombros.

— Saiam do meu caminho! — retrucou a idosa, apressando o passo.

— Ei! Volte aqui! Você nem pediu desculpas! — insistiu Scarlett.

— Não, Scarlett! — Segurei seu braço com delicadeza. — Sério, não vale a pena...

— Claro que vale! Eles não podem sair impunes! A gente tem que confrontar essa gente! — gritou Scarlett.

Respirei fundo e sorri.

— Obrigada por me defender, mas é que eu realmente prefiro deixar pra lá...

Scarlett bufou, contrariada, e fingiu ceder, caminhando em direção à saída da estação.

— Vamos?

— Vamos.

Alguns minutos depois, paramos em frente à porta do colégio canadense. Estávamos caminhando em direção à entrada da French4Foreigners, porém, um barulho de moto chamou nossa atenção.

— Simon? — Scarlett e eu exclamamos ao mesmo tempo, nos entreolhando.

Meu queixo quase caiu quando a pessoa na garupa retirou o capacete.

— Heloisa? — Scarlett e eu exclamamos juntas novamente.

— Meninas? — Reyes irrompeu de repente, tão espantado quanto nós duas. — Tá tudo bem?

Scarlett fez que não com a cabeça, apontando sutilmente na direção de Heloisa e Simon.

— Meu Deus! Ela pintou o cabelo! — Reyes salientou.

Eu ri, enquanto Scarlett revirava os olhos.

— Não, idiota! Ela está com o Simon!

Reparei nos visuais dos dois. Heloisa agora estava loira, com um novo corte de cabelo que garantiam à sua calça rasgada e a camisa do uniforme um ar despojado. Simon, por outro lado, trajava um colete de couro marrom, caminhando com uma confiança descomunal, como se tivesse saído de um desfile de moda.

Heloisa aproximou-se de Simon para beijá-lo, mas quando notou que eu, Scarlett e Reyes estávamos ali presentes os assistindo, virou a cabeça e despediu-se dele com um abraço.

Como assim eles estavam juntos?

Paralisei por um breve segundo, boquiaberta, tentando assimilar o que via. Antes que pudesse pensar em questionar Heloisa e Simon, Reyes e Scarlett me arrastaram para dentro da instituição.

Não consegui evitar a tristeza por Simon não ter vindo falar comigo, pois estávamos há duas semanas sem nos ver. Ele era como um irmão para mim... Para onde tinha ido a nossa amizade? Como ele podia ter voltado assim sem me explicar nada, tão indiferentemente?

— Eu sabia! Eu sabia! — gabava-se Scarlett, gargalhando. — Eu te avisei, Gabriela! Eu avisei!

— Avisou o quê? — Reyes perguntou, confuso.

— Eu sabia que Heloisa tinha parado de falar com a gente por conta do Simon! — Scarlett revelou. — Ela sabia onde ele estava!

— Agora fiquei mais confuso ainda... — Reyes começou a roer suas unhas nervosamente. — Então era na casa dela que ele estava metido?

— Acho difícil a host family dela ter deixado, é muito arriscado... — Scarlett ponderava, enquanto Reyes andava ao lado dela, confabulando. — Talvez ela só estivesse o acobertando!

— E por isso se afastou de nós... — Reyes e Scarlett concluíram, juntos, orgulhosos da dedução.

— Como vocês são fofoqueiros! — acusei.

— Até parece que você também não tá curiosa! — Scarlett rebateu.

— Tô, mas vou esperar eles me contarem! — confessei.

— Mas eu ainda não entendi! — Reyes afirmou. — Por que a Heloisa não contou pra gente? Como ela se aproximou do Simon? Como conseguiram disfarçar tão bem? Por que ele voltou só agora? Eles estão namorando?

— Para de fazer tanta pergunta, Reyes! — reclamei. — Você tá me deixando mais aflita ainda!

— Você tirou as palavras da minha boca, Gabi. — Scarlett concordou. — Não surta, Reyes.

Ele seguiu pelos corredores num transe ao fazer inúmeras perguntas consecutivas e eu e Scarlett o acompanhamos, soltando risadinhas.

Já com o pen drive em mãos, acomodei-me em meu assento de sempre próximo a Scarlett e Reyes dentro da sala. O assento onde Heloisa costumava ocupar agora era de Marzahn Bulatova, uma garota introvertida e doce do Cazaquistão.

Desde que Heloisa se afastara de mim, Scarlett e Reyes, ela sempre ficava junto a Ebraim Gara, Davide Simonetti e Kim Young Jun — da Tunísia, Itália e Coreia do Sul, respectivamente. Eu esperava que, após as apresentações de hoje, Heloisa finalmente me esclarecesse tudo.

Subitamente, o som de saltos altos ecoando pelo corredor invadiu a sala. Meus olhos arregalados denunciavam minha surpresa ao encarar a figura à nossa frente, que da última vez que a havia visto, mantinha os cabelos arroxeados. Agora, ela estava loira assim como Heloisa. Entretanto, diferentemente de minha amiga, irradiava algo que eu não intitularia atitude, e sim arrogância ao caminhar com fones de ouvido, mascar chicletes e nos encarar como se fôssemos extraterrestres.

Ah não... de novo não. Por que ela estava aqui? Onde estava Michel?

— Essa não é a menina do shopping? — sussurrou Reyes e Scarlett aquiesceu para ele.

— Shopping? — Marzahn pronunciou-se, com suas íris escuras brilhando em confusão e curiosidade.

— Longa história! — respondi, tranquilizando-a com um sorriso.

— Bom dia. — Michel não poderá vir. Sou Adele Dubois, prima dele e irei tomar os trabalhos de vocês. Pela ordem alfabética, o primeiro é Davide Simonetti.

Ao passo que Davide configurava seu trabalho no projetor da sala, era notável os olhares perdidos dos alunos e igualmente alguns cochichos a respeito de Adele.

Davide discursou sobre sua infância na fazenda de seus avós, de uma maneira tão emocionante feito sua postura impecável e seu tom de voz educado.

Segurei o choro ao contemplar as fotos apresentadas por Ebraim, que alegou sentir saudades da família e da namorada. Ele ostentava o mesmo sorriso simpático e quebrado na frente desde criança.

— Gabriela Sanz?

Levantei-me da cadeira num salto a ouvir meu nome sendo pronunciado com o r puxado. Por mais que eu já tivesse me acostumado com o som, a voz de Adele era bem irritante e eu me obriguei a prender o riso.

— Desculpe-me... — respondi. — Eu estava distraída escrevendo na minha bucket list que quero conhecer a Itália e a Tunísia...

Todos ali presentes, obviamente, exceto por Adele, acharam graça de meu comentário. Até que naquela manhã eu não estava tão simples quanto na primeira vez que nos vimos. Devido ao frio, eu havia comprado e ganhado alguns casacos mais firmes dos Berny.

Adele me encarou dos pés à cabeça, como se estivesse me investigando. Ela esboçou uma careta e fez sinal para que eu fosse até o centro da sala, bagunçando seus fios quase platinados, entediada.

Após posicionar o pen drive e iniciar os slides, ouvi exclamações em espanto, inclusive vindas de Adele.

— Nossa... mas... que lugar é esse? — ela simulou despreocupação e zelo na voz. — Nunca tinha ouvido falar...

Respirei fundo.

— Então... Se chama Villa 31. — relatei, sorrindo para a classe. — Possui cerca de 40,000 habitantes. Lá moram muitos imigrantes vindos do Paraguai e da Bolívia, que era o caso do meu pai.

Adele ficou boquiaberta.

— Uau... é pior do que eu pensava. Coitadinha... — ela arrastava as palavras de uma maneira irritante, num volume que só eu escutaria.

— É uma realidade muito difícil... — murmurei para mim mesma, a ignorando. Passei para a próxima imagem, que continha uma foto minha, ao lado de Tío Juarez, Tía Dulce e Juan, durante meu aniversário de 15 anos. — Essa é minha família... meus tios, que considero como pais e sou muito grata por terem me criado, e meu primo, que foi criado como meu irmão...

Juan, que tinha quase cinco anos na época, mantinha-se todo sujo do bolo de dulce de leche que Tía Dulce havia passado a noite toda preparando. Ela havia economizado para comprar o tecido e costurar para mim sob medida meu vestido rodado; os sapatos, a mãe de Santiago havia conseguido para mim. A maquiagem tinha sido feita por Natália.

Naquela época, eu não estava animada, mas nenhum deles iria me deixar passar por aquela data sem a devida comemoração. Minha festa de 15 anos aconteceu num mini salão com 20 pessoas, um bolo simples, mate e alfajores — e se tornou uma das noites mais especiais da minha vida.

Meus olhos arderam e eu pisquei depressa para afastar as lágrimas.

— Ok — Adele bocejou, entediada. — Pode seguir.

— Enfim... Tive uma infância difícil, mas posso resumir dizendo que agora estou bem. E Villa 31 entrou num processo de urbanização em 2010 para sair do isolamento.

— Parece um local perigoso...

— E é. Bastante. — afirmei, lembrando as muitas vezes em que fui roubada e também alguns turistas ousados que arriscavam filmar o local com suas câmeras profissionais.

— Nesse lugar vocês têm acesso à água?

Franzi o cenho para aquela pergunta ridícula.

— Temos. Como você acha que eu sobrevivi até agora?

Alguns membros da classe soltaram risadinhas e vaias à Adele, que cerrou os punhos. Eles não sabiam que ela me conhecia — apenas Scarlett, Reyes e Heloisa. Estava demorando para Adele comentar algo tão estúpido; eu deveria ter desconfiado desde o princípio.

Adele aproximou-se de mim, fingindo ter vindo para saudar-me com beijinhos na bochecha de maneira cordial, pronta para lançar seu veneno.

— Sua irmãzinha me fez voltar aos holofotes depois daquele vexame no shopping. Merci, mon chérie — Sua entonação era mansa, porém, cruel e enjoativa feito seu perfume de baunilha. — Aliás, já passou da hora de voltar pra sua favelinha...

Adele afastou-se e sorriu falsamente para a classe, acenando como se fosse a Miss Universo. Meu corpo inteiro pulsou, esquentando, enquanto o mundo parecia ter congelado. De repente, cada ofensa feita por ela até aquele momento direcionadas a mim vieram à tona. Minha visão ficava turva conforme eu dava passos calculados sentido ao rosto de Adele.

— Como é que é?

O estalo e minha mão esquerda avermelhada me incriminaram. A ardência não superou minha satisfação ao apreciar a bochecha de Adele marcada por minha palma dolorida. Nem eu mesma estava acreditando na minha própria coragem. Talvez eu já tivesse com vontade de fazer isso há muito tempo e ainda não tinha sido capaz de identificar meus sentimentos.

— Como você ousa, sudaca? — esbravejou Adele, avançando na minha direção com um soco. Desviei de seu golpe, sentindo o suor escorrendo por minha testa.

— Sudaca? — Ri, sem humor, empurrando Adele contra o telão. — De novo não!

— Ai! — Adele berrava ao passo que eu agarrava seu cabelo com toda minha força, contratacando suas tentativas de me tapear.

A luz do projetor bateu contra minhas vistas e cegou-me por uns instantes. Adele aproveitou minha distração para morder minha mão direita e cobrir-me de arranhões com suas unhas longas — e demoníacas.

— Argh! Me solta! — grunhi, constatando que o sangue escorria por meus braços. Iniciei uma série de bofetadas sucessivas, desforrando minha raiva, meu ódio, e vingando-me de toda aquela afronta.

A classe surpreendentemente estava aplaudindo, e eu conseguia ver Scarlett me assistindo orgulhosa enquanto Adele tentava me jogar no chão.

— Isso, garota! — encorajava-me Scarlett, pulando. — Eu te falei que valia a pena!

— Vai, Gabi! — Heloisa comemorou por igual. Notei que Reyes, ao lado dela, estava vibrando como se aquela fosse a final da copa entre França e Argentina. Até mesmo Marzahn e Young Jun, que geralmente eram tímidos e reservados, torciam por mim.

Eu teria rido se os puxões de cabelo de Adele não estivessem me matando. A direcionei até a porta, revidando. Sentia meu corpo amolecer a cada segundo que passava devido à pulsante adrenalina, e podia jurar que em breve apagaria de vez. Posicionei minhas mãos em minhas têmporas latejantes, e Adele apoiou seus punhos sobre os joelhos, recuperando o fôlego.

Todos endireitaram a postura e ficaram em silêncio ao avistarem Arthur e Michel irrompendo na sala.

— Pensamos que alguém tinha sido sequestrado aqui — comentou Arthur. — Vocês atrapalharam nossa reunião.

Como ele conseguia ser tão bem-humorado até nesse tipo de situação? Michel mostrava-se indubitavelmente desapontado, entretanto a expressão serena e o sorriso de canto de seu pai permaneceram inabaláveis.

— Te falei que isso não ia dar certo, pai — Michel balançou a cabeça negativamente.

— Pois é, filho — Arthur suspirou, decepcionado. — Errei em dar mais uma chance à minha querida sobrinha.

— Tio... — Adele começou, com a voz vacilante, e calou-se apenas com o olhar atravessado recebido vindo dele.

— Desculpe, Monsieur Dubois... — implorei, quase chorando.

— Perdão pelo ocorrido, Gabriela! — Arthur me encarou gentilmente, compadecido. — Conheço muito bem o gênio de Adele! Nem preciso perguntar o que houve pois sei que certamente foi ela quem provocou tudo isso.

— Pedimos perdão a todos pelo ocorrido, isso não irá se repetir. — Michel fez uma espécie de reverência à classe.

— Michel, leve Gabriela a enfermaria. Eu cuido de Adele — ordenou Arthur e nós vimos a professora de história francesa adentrando. Adele, sempre tão cheia de si, sequer tentou argumentar e apenas seguiu o tio.

— Eu te ajudo! — propuseram Scarlett, Heloisa, Marzahn, Reyes e Richárd ao mesmo tempo.

— Obrigada pelo apoio, pessoal, mas não precisa! — agradeci, com um sorriso fraco. — Boa aula!

A porta fechou-se atrás de nós e eu senti meu pé dormente.

— Vamos? — Michel ofereceu-me uma de suas mãos e eu a segurei, dando um passo. Acabei pisando em falso e tropeçando levemente.

— Eu não tenho força na perna... — confessei, frustrada.

— Posso te ajudar? — Aquiesci, relutantemente. — Um segundo — Meu rosto enrubesceu imediatamente quando Michel suspendeu-me no ar e me posicionou em suas costas como se eu fosse um mero saco de arroz. Aquele perfume exagerado de sempre dele adentrou minhas narinas, e eu revirei os olhos.

— N-não... p-precis...-

— Está confortável? — Michel cortou-me, firmando minhas pernas em sua cintura e eu envolvi seu pescoço com o braço usando o restante da força que me restava. — Você não vai conseguir andar assim. Não sei se percebeu, mas... você está sangrando.

— Percebi... — Observei que o líquido vermelho estava manchando o paletó de Michel. — Muito legal ser carregada por aí feito uma mochila.

Michel gargalhou.

— Não brigue da próxima vez, Mademoiselle.

Fiz uma careta.

— Você também teria brigado, Michel.

O calor do corpo dele intensificava o meu desconforto físico, tornando terrivelmente doloroso o percurso até a enfermaria. Quando chegamos, Michel apoiou-me cuidadosamente na maca e eu agradeci sem olhá-lo diretamente nos olhos, envergonhada.

Entrevi através do espelho da enfermaria meu estado atual: meu casaco estava todo desfiado, meu cabelo arrepiado, meu corpo completamente avermelhado e coberto por arranhões cujo sangue já havia estancado.

— Desculpe mais uma vez, Gabriela — Michel iniciou. Tentava não prestar tanta atenção nele, que retirou o paletó, e assentou-se ao meu lado, porém, era praticamente impossível. Os músculos bem trabalhados do abdômen e bíceps de Michel eram evidenciados por sua camisa social justa.

Balancei a cabeça negativamente.

Foco, Gabriela. Foco!

— Não foi culpa sua... — sussurrei, olhando-o diretamente nos olhos.

— A enfermeira está vindo.

Assenti.

— Você vai ficar aqui por perto, né?

Michel igualmente assentiu.

— Vou sim.

— Obrigada — Sorri fraco. — Tenho um pouco de medo de qualquer coisa relacionada a remédios e injeções.

— Fique tranquila.

— Se fosse tão fácil assim...

Suspirei. Certamente não era medo de ser expulsa da instituição ou arrependimento por ter brigado com a Adele que eu estava sentindo, porém, eu estava inquieta e um tanto quanto zonza. Como eu poderia ficar tranquila numa situação daquelas?

Michel buscou uma compressa de gelo e entregou-me.

— Aqui.

— Merci — agradeci, pressionando-a contra minha testa.

— Vou me assegurar que você nunca mais tenha que passar por isso. Prometo que minha surpresa dessa vez será infinitamente maior.

— Surpresa... surpresa... — critiquei, piscando múltiplas vezes. Eu já estava farta daquele joguinho. Parecia que Michel não queria que eu desistisse do curso a qualquer custo, como se perder um aluno fosse capaz de acabar com toda a reputação deles ou algo parecido.

— O que? Não entendi...

— Realmente você acha que isso conserta as coisas, professor?

— Não é isso, é que eu est...-

— Por que você deixou ela te substituir, professor? — o interrompi de maneira ríspida.

Michel arqueou as sobrancelhas.

— Por que você está me chamando assim?

— Não é isso que você é, afinal de contas? — perguntei retoricamente. — Meu professor de cultura francesa?

Miguel engoliu a seco.

— Sou... Eu e meu pai estávamos terminando de organizar a festa de fim de ano, e eu não iria conseguir tomar os trabalhos.

— Com certeza sua prima já tinha tudo isso em mente — supus, abalada.

— Faz sentido — Michel concordou, dando de ombros. — A professora de história iria dobrar no meu lugar, mas Adele insistiu.

— Por favor... — supliquei, segurando suas mãos para enfatizar meu pedido. Suas palmas estavam quentes e suadas, e Michel alternou o olhar entre nossas mãos e meus olhos, perplexo por um instante. Eu já tinha feito tantos absurdos naquele dia que ele poderia simplesmente se esquecer de mais uma ousadia de minha parte. — Mantenha essa maluca o mais longe possível daqui pra frente.

— Irei — Michel soltou uma risadinha, mas seu tom era determinado. — Sabe... quando meus avós abriram o colégio canadense e fundaram o instituto, esse não era o objetivo.

— Imagino.

— Adele é desesperada por atenção... como ela nunca recebeu dos pais, tenta preencher esse vazio com dinheiro. Ela não conhece amor, empatia, nada disso.

— Isso é muito triste. Sei lá... falta de Deus...

Michel suspirou.

— Sim. Ela só conhece o dinheiro e a obsessão, por isso é tão fútil e passa por cima de tudo e de todos. De alguma forma eu fui o único parente que a suportou e a única pessoa que ela não tenta competir contra.

— Você tem irmãos?

Michel negou com a cabeça.

— Eu tenho... — contei. — E se ele tivesse visto o que aconteceu, teria chorado...

— Com licença — Michel pediu, limpando as lágrimas que escorriam por minha face e tocou meu ombro, sorrindo de forma empática.

— Desculpa por ter falado daquele jeito... — pedi, fixando meus olhos em meus pés para disfarçar a vergonha.

— O que você disse? — Michel fingiu não entender.

Cruzei os braços, indignada.

— Me desculpa!

— Tudo bem, Gabriela! — Ele riu de maneira convencida.

— O ar tá desligado? — reclamei, me abanando. — Tá muito calor aqui dentro... tipo... muito calor mesmo!

— Não. Inclusive você está tremendo.

Levantei o olhar e encarei as íris escuras de Michel. Preguei as vistas na cicatriz demarcada em seu rosto e na pintinha grifada em seu pescoço. Custava acreditar que ele, de todas as pessoas possíveis, havia se disposto a me ajudar, alguém com quem eu pensei que jamais iria aprender a conviver.

— Mademoiselle Sanz... — a enfermeira surgiu, com um sorriso amigável, cortando meus devaneios. Ser endereçada tão formalmente por outros não soava tão engraçado como quando era Michel.

— Bonjour, Madame — eu a saudei, grogue. Senti minhas vistas pesando e acabei adormecendo com a vista das covinhas de Michel.

Notas finais
Link do trailer da fanfic: https://youtu.be/LX1qLRTXwWI?si=55WCHw4kxjHw2p3V Playlist da fanfic (ouçam na ordem, cada capítulo é uma canção): https://open.spotify.com/playlist/3nqnfGHPeW6Z0ismULPlbY?si=CBFteePcSQKt9RlULrSILQ&pi=u-DihW8LqXRDCO https://linktr.ee/dgwoman (elenco da fic)