Te Quiero, Mon Amour!
8 Compras y Confusión
— Qual é o aspecto cultural mais marcante de Paris em comparação à Nova Iorque, Scarlett? Há algo que diverge bem as duas cidades?
Assustada, ela quase saltou da cadeira com as demandas de Michel, arrancando risadinhas da galera de nossa classe.
— Acho que… — Tentou formular algo, sem sucesso, constrangida. Deu para notar que a garota mal prestava atenção à aula de cultura, então basicamente, Michel perguntou-a de propósito algo que ela não saberia responder, para que se envergonhasse por desdenhar de sua disciplina.
— Eu sei o que diferencia os parisienses dos porteños — comentei, levantando o braço. Não ousei portar-me a Michel como “professeur Dubois”, ou “Monsieur Dubois”, pois, ele irritantemente opunha-se àquilo. Havia cometido esse erro algumas vezes e em quase todas ele iniciou uma ladainha chata e sem fim alegando ser “jovem demais” e que “Monsieur”, era seu pai.
Se ele sabia ser petulante, pois bem, eu também.
— Diga, Gabriela.
— A forma como tratam os outros.
Pude ouvir um burburinho atrás de mim do tipo “do que ela tá falando?”
O sinal tocou exatamente quando ele estava prestes a rebater minha fala, me poupando daquilo. Sim, meu intuito era salvar minha colega desatenta, mas acabei por soar, talvez, um pouco mais debochada do que o aceitável. Se bem, que ninguém pareceu entender nada além do próprio Michel, que me encarou como se eu houvesse cometido um terrível crime enquanto recolhia sua maleta e dava espaço para a professora de didática ocupar o posto da aula seguinte.
Embora as meninas e Reyes não houvessem interpretado mal a minha atitude – o que me causou uma momentânea sensação de alívio, pois, nos últimos dias eu estava sendo abarrotada de questões sem respostas por eles – eu ainda me senti culpada pelo olhar atordoado de Michel ao sair.
Por que só faço besteira? Ele prometeu que me ajudaria, e eu estou o retribuindo dessa forma. Parabéns, Gabriela. Você merece um prêmio.
Michel tinha cumprido com o prometido e me autorizado faltar por alguns dias. Eu usei aqueles dias para, ao menos, tentar resolver um pouco dos meus problemas. E depois do ocorrido na sala naquela terça-feira, eu fui para casa e recebi uma surpresa ainda maior após me direcionar para o banheiro em busca de um bom banho: eu havia menstruado. Bem, isso talvez justificasse uma porcentagem considerável dos meus nervos à flor da pele. Graças a Deus, durou apenas até o domingo.
Para esfriar a cabeça naqueles dias livres, eu aproveitei o tempo para sair com Simon, e aos fins de semana, com Jade, Leroy e Lola também. Eles me levaram para conhecer lugares lindos como o Louvre e a LaFayette; também ao cinema, a um parque de diversões e a um restaurante requintado.
Michel tinha razão, no fim das contas. Eu estava precisando de um tempo para espairecer e revigorar minha energia. Merci, Professeur Dubois.
Quando retornei à instituição depois da folga de quase uma semana, todos me receberam bem e não me encheram de perguntas – exceto meus amigos – como temia que fariam. Até mesmo os alunos com quem eu não tinha tanta proximidade vieram me saudar dizendo que sentiram a minha falta nas aulas. Fiquei lisonjeada e extremamente agradecida.
Simon, que costumava chegar quase sempre no mesmo horário que eu da faculdade, me tirou do transe ao chamar-me para o almoço. Após as refeições da tarde, Jade ia dar aulas particulares de francês. Leroy buscava Lola na escola e logo encaminhava-se para seu home office, e eu e Simon nos revezávamos para cuidar dela.
Naquela segunda-feira, especificamente, Simon liberou-me da função, ficando responsável por sua irmã para que eu pudesse sair com os meus amigos. Combinei com Scarlett e Heloisa – que criaram um grupo nosso no WhatsApp junto a Reyes – de irmos às compras no shopping.
O dinheiro que recebíamos do governo não era muito, mas certamente conseguiríamos encontrar coisas interessantes. Eu tinha roupas em mente, enquanto Scarlett iria em busca de maquiagens, Heloisa de sapatos, e Reyes, livros.
Aquilo era outro item da minha bucket list: renovar meu guarda-roupas e comprar coisas que eram caras em meu país pela primeira vez, como celular, livros e fones de ouvido.
Às 15:30, Scarlett, Heloisa e eu topamos com Reyes na entrada, que estava em uma chamada de vídeo com uma garota loira de cabelos lisos compridos, que por suas descrições e elogios costumeiros sobre a garota, deduzi que era sua namorada.
— Ei, meninas, vocês chegaram cedo! — Reyes saudou-nos ao nos abraçar. Seus olhos se transformavam em dois risquinhos fofos quando ele sorria largo daquela maneira.
— Olá pela segunda vez no dia, Reyes! — eu o cumprimentei. — E você é a famosa Emma, right? — Arrisquei a pergunta em inglês para a garota sorridente na frente do visor, que entendeu, apesar de meu nível ser básico.
— Hello, girls, sou eu sim! — Ela riu e sacudiu os braços divertidamente. — Vocês devem ser as colegas de quem ele tanto fala. Nice to meet you!
— Olá, Emma! O prazer é nosso! — Scarlett comentou, acenando para a câmera.
— Eu sou Heloisa e essas são Gabriela e Scarlett — Ela apresentou-se e nos indicou à Emma para a tela. — Ouvimos muito ele falar de você, tipo… all day long! — completou, revirando os olhos comicamente. Todas nós rimos, incluindo Emma. As bochechas de Reyes instantaneamente ruborizaram. Por um segundo, doeu lembrar-me de como Santiago costumava agir quando morávamos no mesmo país, mas logo balancei a cabeça para afastar aquele pensamento.
— Espero que sejam coisas boas, Reyes! — Emma exprimiu, séria.
— São as melhores, sempre sobre o quanto ele sente a sua falta — Heloisa salientou a última palavra. — Vocês são muito fofos! — exclamou, animada.
— I agree! — Scarlett alegou. — Me chamem para o casamento, viu? Eu daria uma ótima madrinha!
— Thank you… — Emma parecia incrédula, quase encabulada.
Me sentia feliz vendo Reyes e Emma juntos, torcia verdadeiramente por eles. Entretanto, trazia à tona lembranças de Santiago, e nossa atual situação ainda me incomodava. Havia até mesmo desabafado no telefone dias antes com Tía Dulce, que me aconselhou a respeito de Santiago. Ela me informou não ter conhecimento de seu atual paradeiro, mas soube através da mãe dele que agora Santiago trabalhava no período da noite. Fora isso, nada novo sob o sol.
Após nossa ligação, Tía Dulce tinha digitado um pequeno texto que reverberou em minha mente.
“Asi es la vida, cariño. Ninguém disse que seria fácil, mas também não precisa ser tão difícil se você decidir! Uma boa conversa é a base de tudo... A não ser que você sinta que já não o ama mais, não desista de lutar. Seja sempre honesta sobre o que você sente, primeira e principalmente consigo mesma. Você merece sorrir e não chorar, Gabi!”
Cada vez que minhas mensagens e ligações não recebiam o devido retorno, uma pontada de dor no peito me atingia. Nem mesmo a mãe de Santiago sabia como me ajudar, e eu já havia cansado de tentar encontrar as respostas em terceiros.
Era angustiante admitir, mas como eu poderia fugir da cruel realidade que estava se apresentando diante de mim? A chama da paixão de Santiago estava se apagando, era quase que diminuta. Enquanto isso, eu relia as nossas conversas antigas, analisava as nossas fotos juntos, ouvia as nossas playlists e sonhava com os seus beijos praticamente todas as noites.
Me perguntava exatamente qual havia sido meu erro: ter ousado lutar pelo meu sonho e ido para outra nação? Ou será que nós estávamos fadados desde o início a fracassar e eu estupidamente me permitir acreditar que ficaríamos juntos?
Notar que a indiferença veio de alguém que eu tanto amava foi algo inexplicavelmente doloroso. Me senti iludida… e bastante culpada. Mas resolvi não focar apenas naquilo. Segui o conselho de Tía Dulce, afinal, antes mesmo de eu chegar a conhecer Santiago, eu já vivia, não precisava dele. Por mais que doesse, eu iria acabar me acostumando a não precisar nunca mais – ainda que demorasse demasiadamente.
— Que horas são aí em Irkustk? Faz muito frio? Qual é o seu signo e MBTI? Quantas línguas você sabe falar? — Heloisa inquiriu, ativando o seu modo interativa ON e me trazendo de volta à realidade.
Reyes, Scarlett e eu demos risada enquanto Emma esforçava-se para respondê-la. Emma era bastante simpática e gentil. Despedimo-nos dela para ir finalmente às compras. Emma revelou ser dez e meia da noite em seu fuso horário local; compartilhávamos do clima frio de inverno, entretanto a região na qual ela vivia beirava graus abaixo de zero.
— Não sabia que seria tão divertido — confessei, chacoalhando minhas sacolas de frente para Scarlett. Caminhávamos pelos corredores movimentados, em busca de nossos amigos, pois havíamos nos desencontrado.
— É terapêutico… — ela afirmou. De repente, seu celular apitou. — Heloisa acabou de responder minha mensagem dizendo que está na praça de alimentação e que encontrou o Reyes lá.
— Vamos até lá, então!
— Como a fila tá cheia, não vou ficar aqui esperando! — Heloisa queixou-se vislumbrando o letreiro do McDonald’s quando nos aproximamos deles. Havia realmente uma quantidade exorbitante de pessoas ali. — Vamos a outro lugar!
— É… o que vocês acham do Subway? — propus e eles imediatamente me acompanharam, mas antes que pudéssemos ir muito longe, ouvimos um grito estridente. Senti um arrepio ruim na espinha devido ao susto, e por um segundo, tive certeza de que se tratava de Adele, mas descartei a possibilidade e apressei os passos na direção oposta; entretanto, uma voz bastante conhecida por mim soou logo após o grito.
— Eu sempre te odiei, chérie!
— Lola? — sussurrei, boquiaberta e comecei a correr com as garotas e Reyes ao meu encalço rumo aos sons dos berros.
— Sua criancinha irritante! — Adele esbravejou. Pus-me na pontas dos pés para entrever melhor, contemplando seu vestido branco manchado. — Não sabe do que eu sou capaz?!
— Sou mesmo uma criancinha, mas bem menos insuportável que você! Só queria tomar meu milkshake em paz, e você me atrapalhou! — A fina voz inconfundível de Lola me fez caminhar ainda mais depressa.
— Isso tudo é inveja, petite chérie? E por acaso isso era motivo pra você sujar meu vestido caro da Gucci? A culpa não é minha se as pessoas perto de você queriam autógrafos meus!
— Saiam da frente! — Scarlett esbravejou atrás de mim e troquei rápidos olhares com meus amigos. Tão confusos quanto eu, eles apenas me seguiam. Desesperava-me pelo que Adele pudesse tentar fazer contra Lola.
Enquanto tentava achegar-me mais perto do foco da discussão, levei cotoveladas de estranhos, que assistiam de camarote. Algumas pessoas murmuravam o quão desnecessária era a situação, já outras, reclamavam algo sobre a falta de educação de Lola. Fui atravessando a onda de gente, e as vozes de Lola e Adele foram ficando cada vez mais e mais altas, e eu paralisei ao encontrar os olhos de Michel.
— Lola? Michel? — indaguei, parando ao lado deles, perplexa. Notei que Michel estava abaixado para adequar sua altura à de Lola. Ela encarou-me assustada, já Michel, parecia tranquilo e tentava apaziguar a situação. — O que é isso? — Observei as pessoas em volta, à procura de Simon. — Cadê o seu irmão, Lola?
— Você de novo, coisinha insignificante? — Adele grunhiu entredentes antes que eles me respondessem qualquer coisa, me peitando.
— O que é que está acontecendo aqui, hein, Adele? — inquiri, firmemente.
— Eu vim com Adele para comprarmos materiais para a instituição e essa garotinha estava provavelmente passeando por aí sozinha — Michel iniciou, num tom calmo, o que era admirável pois o clima instalado ali não era dos melhores. — E como você mesma já tinha visto, elas tiveram uma discussão que resultou em um bom banho — Ele prendeu a risada.
— Como sabia que eu estava aqui, Michel?
— Eu presto atenção em detalhes, Gabriela. — Ele piscou e sorriu de lado. — Principalmente nos mais importantes.
Pisquei depressa, absorta. Michel Dubois acaba de adicionar mais um adjetivo à lista. Ele é indiscreto. Bem direto, aliás.
— Não já falei pra você voltar pro seu país de origem? — A voz irritante de Adele me despertou do transe. — Eu disse que não queria mais ver sua cara na minha frente, mas pelo visto você decidiu dar uma de doida, né?
Aquilo pareceu ser a gota d’água para Lola, que desprendeu-se dos braços de Michel e agarrou um copo com refrigerante das mãos de um garotinho que passava por ali. Ele abriu o berreiro atraindo atenções, ao mesmo tempo em que Lola simplesmente despejou todo o líquido contra o rosto de Adele. De repente, aquela tarde havia se transformado em muito mais do que uma confusão generalizada.
— Isso é por você se meter com a minha família novamente, sua nojenta!
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