25 décembre 2021, Élysée, Paris, France

Querida mamãe,

Sou muito grata a tudo o que a família Berny me proporcionou até agora em Paris, mas... este Natal está sendo o pior de todos.

Às vezes eu queria ter amnésia. Talvez assim seria mais fácil superar algumas situações.

Não consigo parar de chorar desde sábado. De vez em quando, corro pro banheiro pra não incomodar ninguém em casa.

Santiago me traiu, mamãe. Será que ele tem razão? Será que eu sou mesmo frígida? Será que a culpa foi toda minha? Tento pensar positivo, acreditar que ele é o verdadeiro perdedor, mas... não dá.

Nada mais faz sentido. Estou longe da minha família e sem os meus amigos por perto. Meu coração dói como nunca doeu antes.

Até mesmo respirar está sendo difícil. Tudo está sem vida dentro de mim. Nunca tive tantas olheiras, e nunca fiquei tantas horas sem lavar o cabelo. Não consigo nem me enxergar no espelho direito ou pregar o olho à noite.

No último domingo, eu acordei sem rumo no quarto. Simon me contou que Michel me trouxe até em casa com a ajuda de Scarlett, Heloisa e Florian. Jade e Leroy, sempre tão solícitos e compreensivos, não me condenaram ao me ver desmaiada. E graças a Deus, Lola já estava dormindo quando cheguei.

Fiz uma loucura tremenda. Eu não costumo beber. Mas naquela hora, pareceu a coisa certa, como uma válvula de escape.

Quando fiquei bêbada, dei em cima do meu professor de cultura francesa. Ele se chama Michel, é três anos mais velho do que eu, é muito engraçado, muito amigo de todos alunos, bastante divertido e... é muito bonito. Talvez o efeito do álcool junto a atração que sinto por ele não tenha sido uma boa combinação. Me arrependo amargamente de ter passado por aquele vexame. Michel com certeza nunca mais vai querer falar comigo...

Desde aquele dia, eu estou ignorando todas as ligações e mensagens que recebo. Ainda não estou preparada para muitas interações.

Fui abarrotada de presentes por toda minha famille d'accueil, até mesmo por Lola, que me deu um desenho nosso muito fofo como recordação. Foi a primeira vez que sorri em dias. Ela está baixando a guarda, afinal.

Conheci os avós e tios de Simon e Lola e ouvi alguns insultos da mãe de Leroy por ser imigrante. Ela se sentia frustrada. Simon revelou que no passado, sua avó teve um namorado japonês, e por ele estar ilegal no país, eles não puderam ficar juntos. Eu estava tão mal emocionalmente, que fugi para a cozinha e simplesmente a ignorei.

Lola e Jade me convidaram para assar biscoitos de gengibre. Simon perdeu sete vezes de propósito no xadrez. Nada me animou o suficiente. Nem mesmo a chamada de vídeo feita entre as duas famílias.

Simon traduzia as frases para Juan, Tío Juarez e Tía Dulce. Eu apenas permaneci calada, enquanto eles papeavam alegremente. Por sorte, nem meu irmão, nem meus tios mencionaram uma palavra sequer em relação a Santiago. Até certo ponto eu aguentei a tensão, mas acabei chorando na frente deles. Menti um pouquinho, dizendo que era somente saudades de casa.

Hoje mais cedo, eu prometi à mim mesma que irei cuidar de mim, do meu coração e pedi a Deus para que, se o próximo cara com quem eu for me relacionar alguma vez pensar em me trair, que Ele o afaste de mim antes que eu me apaixone.

Sei que alguém vai me amar de verdade algum dia, e que irá se esforçar diariamente para demonstrar isso, ele terá orgulho de mim, fará de tudo para que continuemos juntos. Eu tenho muito amor para dar, e sei que mereço isso.

Eu não vou precisar ficar adivinhando o que ele pensa. Ele será um homem direto, sem rodeios, será carinhoso, e presente na minha vida. Ele será melhor do que eu sempre sonhei. Ele será o completo oposto de Santiago.

E eu nunca, nunca irei me perder novamente tentando encontrar outra pessoa.

Com amor,

Gabriela Sanz.

Larguei o lápis em cima da escrivaninha e dobrei a carta com cuidado, soluçando. Ao lado de meu notebook, estava um porta-retrato com uma foto minha junto com os Berny e um polaroid com Scarlett, Reyes, Florian e Michel, tirada no dia do passeio à Torre Eiffel.

Soltei um suspiro. Eu já tinha me livrado de todas as fotos de Santiago, de tudo o que me lembrava dele. Mas, ainda assim, até os momentos felizes que registrei em fotografias o traziam à minha memória.

No dia daquele passeio, algo dentro de mim já estava quebrado. E então veio a mensagem enigmática de Natália. Agora tudo se encaixava perfeitamente.

Eu preferi não conversar com Natália para resguardar o resquício de saúde mental que ainda me restava. Iria aclarar as coisas com ela quando eu retornasse a Buenos Aires, se é que voltaria. Do jeito que eu estava me sentindo, era capaz de ficar em Paris para sempre, para fugir da realidade em Villa 31 e não encontrar Santiago nunca mais.

Me joguei na cama e coloquei uma música da Anahí para tocar. Acabei tirando um cochilo, porém, o barulho insistente de meu celular vibrando me acordou.

— Michel? — atendi, corrigindo minha postura. A vergonha queimava dentro de mim, como se ele estivesse me vendo. Senti um calor subir pelo meu pescoço e um certo receio de Michel ter ficado bravo comigo me dominando. Coloquei o cabelo atrás da orelha e mordisquei as unhas, inquieta.

Finalmente você atendeu, Gabriela! — Michel exclamou, aliviado. Meu coração disparou no mesmo instante. — Você melhorou?

— Sim... — eu disse, quase sem fôlego. — Obrigada pela preocupação...

Tenho uma proposta pra te fazer...

— Nunca mais tentar te agarrar depois de ficar bêbada? — zombei de mim mesma e Michel gargalhou. Ser bem-humorada pareceu a coisa certa para aliviar a tensão crescente.

Eu sei que sou irresistível às vezes... — Michel se gabou e eu revirei os olhos, rindo. — Uma hora ou outra, você iria acabar fazendo isso mesmo, né?

— Com certeza, professor... eu estava me segurando há tanto tempo... — dramatizei, pondo uma mão no peito para encenar. — Acho que o álcool só facilitou as coisas...

Tudo bem, Gabriela! — Michel silabou num tom doce. — Nós temos quase a mesma idade, e eu sei bem como é estar confuso... não se preocupe, eu não fiquei mal pelo que aconteceu. Inclusive, me senti lisonjeado por você ter me chamado de gostoso...

Esbugalhei os olhos e quase me desequilibrei da cama, estapeando de leve minha testa. O suor escorria pelo meu rosto conforme eu sentia a temperatura aumentar. Numa tentativa de apagar aquela cena de meu cérebro, eu massageei as laterais de minha cabeça.

Díos mio... Isso aconteceu mesmo?

Sim... — Michel expôs, achando graça. — Procurei a tradução e... Bem, é um bom sinal de que meus treinos na academia estão surtindo efeito, né?

— Não sei nem o que dizer... — murmurei, mordendo meu lábio inferior. Procurei, inutilmente, prestar atenção no teto e no chão para aliviar meu constrangimento.

Não precisa dizer nada... — Michel assegurou, rindo.

— Obrigada por entender... — agradeci, respirando fundo. — Por me perdoar e não me julgar. Você sempre me ajuda muito Michel. Fico feliz em saber que você está sempre aqui.

Eu também fico feliz em saber que você está sempre aqui, Gabriela. — Michel suspirou e deduzi que ele estaria sorrindo da mesma maneira que eu estava. — Recapitulando, eu tenho uma proposta pra você: Scarlett sugeriu que nós fôssemos para Estrasburgo passar o ano novo no chalé do Florian, o que você acha da ideia?

— Por acaso... você está me convidando por pena? — perguntei, duvidosa.

Não... — Michel imediatamente negou, e seu tom de voz demonstrava um pouco de desapontamento, como se eu tivesse o ofendido terrivelmente por pensar assim. — Por que você acha isso?

— Por ter me visto daquele jeito na festa... Você tem essa mania de querer mudar meu conceito das coisas...

Talvez seja um dom... — Michel concluiu. — E aparentemente... funciona.

Abri um sorriso irônico.

— Talvez...

Michel assobiou do outro lado da linha.

Gabriela, eu estou sugerindo isso porque acho que vai te fazer bem... você precisa espairecer. Todos nós achamos. Pode ser bom para você se distrair um pouco.

Ponderei por uns instantes. E se eu fosse? Seria algo tão ruim assim?

— Vamos só os quatro?

Heloisa e Simon vão também... ele já conversou com a sua famille e eles autorizaram...

— Ah... Ótimo! — Cerrei os olhos, indignada ao imaginar os dois casais juntos e eu desconfortável, assistindo. — Muito bom saber que vou segurar vela!

Nós iremos — acrescentou Michel, bufando. — Prometo que será divertido. Estrasburgo tem trilhas incríveis, vai ser legal você andar um pouco, pra distrair a cabeça, sabe?

Refleti por alguns segundos. Eu realmente não tinha mais nada a perder, nada que me prendesse ali... Por que... não?

— Certo — me rendi, com um fio de esperança brilhando dentro de mim. Talvez a experiência fosse legal, no fim das contas. — Eu aceito.

Notas finais
Link do trailer da fanfic: https://youtu.be/LX1qLRTXwWI?si=55WCHw4kxjHw2p3V Playlist da fanfic (ouçam na ordem, cada capítulo é uma canção): https://open.spotify.com/playlist/3nqnfGHPeW6Z0ismULPlbY?si=CBFteePcSQKt9RlULrSILQ&pi=u-DihW8LqXRDCO https://linktr.ee/dgwoman (elenco da fic)