Te Quiero, Mon Amour!
18 Strasbourg
Querida mamãe,
O centro de Estrasburgo é, sem dúvidas, meu novo lugar favorito da França! A cidade estava toda coberta de neve quando chegamos. O frio era horrível, mas a paisagem compensava. Saímos cedinho de Paris, pela madrugada. Deu pra ver os piscas-piscas acesos, um espetáculo!
Estrasburgo tem canais belíssimos, e a Catedral é estonteante! As casinhas todas têm aquele típico estilo alemão enxaimel, a coisa mais linda do mundo! Pena que não conseguimos passear de barco, mas Michel nos prometeu que na volta nós vamos lá.
Comprei muitos souvenirs, desde chaveiros à blusas para Lola, Jade e Leroy de presente. Achei uns panos bem legais para Tía Dulce bordar, canecas para o Tío Juarez, e até mesmo uma bola de futebol para Juan. Não é autografada, nem de edição limitada, mas acho que ele vai gostar mesmo assim.
Recebi alguns vídeos de Reyes e Emma dançando. Agora Reyes está na Rússia visitando a namorada, mas eles não estão muito bem, pelo que ele me contou. Triste, né? Só espero que ele fique feliz, seja lá o que quer que decida.
Depois de seis horas na estrada, chegamos ao chalé de Florian no final da tarde, com o céu todo cor de morango. A neve cobria quase tudo, mas dava pra ver um pouco do chale do lado de fora.
Uma escadinha na entrada me lembrava alguns filmes antigos. Tudo é dominado por tons terrosos, achei tudo super aconchegante. Na sala, tem uma lareira de pedra enorme no centro e os sofás são cor de mostarda. Os pisos de madeira fazem um barulhinho esquisito quando pisamos. A sala e a cozinha são gigantes, com espaço suficiente para todos utilizarmos juntos ao mesmo tempo.
Cada um dos três quartos do chalé tem suíte privativa com banheira, azulejos rústicos, uma cama de casal e outra de solteiro; e também uma varandinha com vista para a natureza.
Florian realmente caprichou na decoração e prezou pelo conforto de todos. Scarlett, obviamente, se gabou pelo bom gosto de seu namorado, afinal, segundo palavras dela, eles estavam juntos.
Não sei porque exatamente, mas algo está estranho. Desde que chegamos aqui, eles parecem estar na defensiva um perto do outro. Apesar de Scarlett ter dormido no colo de Florian durante toda a viagem, percebi que eles mal se olham ou interagem.
Quando chegamos, tudo que fiz foi arrastar minhas malas pro quarto e ir dormir. Hoje acordei cedo, ainda meio tonta, mas guardei minhas roupas e tomei um banho ótimo. Aqui dentro é tão quentinho que estou de regata, legging e aquele par de havaianas com estampa do Brasil que a Heloisa me deu.
Falando nela, bebemos café arábica que ela comprou numa loja de produtos importados em Paris, e agora eu sei porque dizem que o café do Caparaó é o melhor do mundo!
Montamos uma fogueira do lado de fora, enquanto Simon tocava ukulele e Scarlett violão. Era um cenário clichê de acampamento, mas não deixava de ser especial. Cantamos, rimos e, por breves momentos, consegui me esquecer dos meus problemas e ignorar meu coração.
Michel está animado pra escalarmos o Sainte-Odile amanhã. Eu até gosto de andar e fazer trilhas, mas meu lado preguiçoso me diz pra eu não ir, já o meu lado curioso me diz que vai valer a pena a vista lá de cima!
Enfim, é isso. Desabafar nessas cartas está sendo meu conforto. Quero esquecer que o tempo está passando e focar em outras coisas.
Às vezes custo acreditar na loucura que minha vida está se tornando, tanto no bom quanto no mal sentido. Às vezes fico chocada ao perceber que estou em outro país longe de casa, fazendo amigos de outros países e realizando meu sonho de viver falando francês.
Talvez era dessa loucura que eu estava precisando, e esses últimos dias me dei conta que preciso ser grata por ter tido a chance de enxergar a vida por outros ângulos.
Vou ficar bem, eu prometo.
Com amor,
Gabriela Sanz.
Dobrei a carta e guardei-a junto com a caneta em minha mochila. Enxuguei as lágrimas e joguei-me sobre a cama. Foi quando, de repente, senti a presença de duas figuras femininas altas e magras atrás de mim.
— Tudo bem, Gabi? — Scarlett começou, como quem não queria nada, esfregando as mãos em seu vestido, inquieta. Seu perfume cítrico logo fora ofuscado pelo doce de Heloisa.
— Sim… — Lancei-as um olhar desconfiado. — E com vocês?
— Tudo também… — Scarlett encarou a janela, mordiscando suas unhas.
— Tá frio, né? — Heloisa mencionou, passando as mãos nervosamente pelos cabelos.
Cruzei os braços impacientemente.
— Vão direto ao ponto!
— Bem… nós não queremos que você fique triste pra sempre pensando no Santiago… achamos que você poderia tentar seguir em frente… — começou Heloisa, um tanto quanto hesitante.
— Que? — sussurrei, perplexa.
— Por que você não se rende? — Scarlett sentou-se em uma das camas de solteiro e alisando o lençol, despreocupadamente.
Franzi o cenho.
— Não sei do que vocês tão falando… —
— Richárd… — Scarlett cantarolou.
Esbocei uma careta.
— De novo isso?
— É… — Heloisa me cutucou com a ponta dos dedos, me causando cócegas e risadas involuntárias. Desvencilhei-me dela, revirando os olhos.
— Já percebemos que ele é afim de você! — continuou Heloisa, gargalhando.
— Vocês viajam demais! — resmunguei.— De onde tiraram isso?
— Tá estampado na cara dele! — Heloisa afirmou.
Dei de ombros.
— Nunca reparei…
— Nunca? — As duas perguntaram, rindo, boquiabertas, como se me acusassem de ser a maior mentirosa do mundo.
— É verdade! — Bufei. — E eu não tô nem aí se vocês não acreditam em mim!
— Calma, Gabi! — Heloisa tocou levemente meu cotovelo. — É que… nós achamos que você tem que seguir em frente e… você tem muitas opções!
— Não tô com cabeça pra isso… — confessei, cabisbaixa.
— Sinceramente, Gabi… se você não quiser o Richárd, eu quero! — Heloisa anunciou, animada. — Ele é tão gato, né, Scarlett? O sorriso dele, os lábios… os braços fortes… imagina aquela boca no meu pescoço… ai!
Soltei um grunhido ao ouvir o comentário ousado de Heloisa.
— Heloisa! — Scarlett a repreendeu e logo em seguida ambas gargalharam.
— Vocês enlouqueceram! — Taquei uma almofada na direção de Heloisa.
— Minha querida, a melhor forma de conhecer um país, é começando pelos pratos típicos! — Scarlett piscou para mim, brincalhona e eu fiquei horrorizada. — Era brincadeira… vocês sabem que eu gosto do Florian…
— E é lógico que eu também tô zoando, eu amo o Simon! — Heloisa admitiu, levando uma mão ao peito.
— Ama? — eu e Scarlett perguntamos juntas, perplexas. Heloisa corou imediatamente.
— Me expressei mal… eu… eu… — ela tentou argumentar, mas a essa altura do campeonato, eu e Scarlett já estávamos correndo atrás de Heloisa feito crianças. Simon e Florian, na sala, nos assistiam como se fôssemos loucas, mas até que achavam engraçado.
— Ai, meninas — exclamei, apoiando-me no sofá para recuperar o fôlego. — Vocês são doidas!
— O que aconteceu? — intrometeu-se Simon, debruçando-se no encosto do sofá.
— Nada demais… — Heloisa assegurou, agarrando uma das mãos dele e me fitando, curiosa. — Mas, Gabi… você nunca viu o Richárd como uma possibilidade?
— Como assim… — Florian, mesmo perdido, integrou-se à conversa. — Possibilidade?
— Não faço ideia de onde elas tiraram isso! — me defendi, insinuando que elas eram malucas ao girar meu dedo em volta de minha orelha. Meu rosto avermelhado denunciava minha indecisão. Eu não sabia se ria, agradecia pela preocupação ou me escondia de todos ali.
— Se for quem eu estou pensando… ele é bem esquisito… muito na dele… — Florian comentou.
— Nada muito diferente de você, né, Chouchou? — Hora errada para Scarlett tentar soltar qualquer tipo de piada. Florian instantaneamente congelou sua feição.
— Você sabe que eu estou tentando…
— Florian, eu…- — Scarlett tocou as bochechas dele e lhe acariciou na região. Florian ignorou o carinho e levantou-se de repente.
Eu e Heloisa balançamos negativamente a cabeça para Scarlett, que seguiu atrás dele pelo corredor.
— Acha que daria certo entre a Gabi e o Richárd? — Heloisa ignorou a tensão anterior, perguntando a Simon.
— Nem conheço ele… — Simon se manifestou e eu sorri vitoriosa. — Então não posso opinar…
— Simon! — reclamou Heloisa, agarrando a mão dele num tom manhoso e um tanto quanto infantilizado. Nunca a havia visto agir dessa maneira perto de alguém, o que me causou certo desconforto. Aparentemente também em Simon, que discretamente escorregou a mão dela para longe.
— Eu tenho dificuldade de identificar meus sentimentos... — exprimi, mudando de assunto.
— Também tenho… — Simon segredou baixinho. Vi na expressão de Heloisa um sentimento indistinguível, e algo me dizia que ela estava cansada. Abracei-a de lado no sofá para aliviar a tensão.
— Eu preciso melhorar… — comentei, suspirando.
— Boa sorte — desejou-me Heloisa, apoiando suas mãos sobre a minha e sorrindo. Ela era uma amiga admirável. Mesmo claramente triste, arrumou espaço e tempo para sorrir e desejar minha felicidade em meio à sua dor.
— Vai dar tudo certo, petite souer — Simon afirmou, me arrancando um sorriso. Era bom ouvi-lo chamando-me assim novamente depois de tanto tempo. — Logo, logo, você nem vai lembrar que o Santiago existe!
— Quem é Santiago? — Aquela voz tão bem conhecida por mim surgiu atrás de nós, e senti meu corpo petrificando automaticamente. Simon e Heloísa se entreolharam e saíram de fininho.
Levantei do sofá e virei-me para encarar Michel, que estava exatamente como eu havia desenhado em minha mente — para o meu descontentamento. Suas sobrancelhas estavam arqueadas e ele mantinha uma das mãos na cintura.
— Santiago é o meu namorado… quer dizer ex… — Rapidamente me corrigi.
— Como? — Michel indagou, mordiscando seu lábio inferior de leve.
Engoli em seco fechando forte meus olhos, sentindo o espaço entre nós diminuindo conforme Michel avançava na minha direção.
O perfume de Michel presente no ar dificultava minha respiração, me perturbando. De repente e mais uma vez aquela sensação irritante de suor e rosto quente me incomodaram, algo que eu simplesmente não conseguia controlar.
— Naquele dia que me afoguei na bebida, chorei feito uma louca e… dei em cima de você… descobri que ele estava me traindo.
— Pelo visto… tô sendo o último a saber… — Michel ironizou, engatilhando-me. Eu tinha sido a última a saber da história, aparentemente.
— Desculpa…? — eu pedi, abrindo um sorriso constrangido. Minha vontade de fugir dali crescia a cada segundo que passava.
— Não precisava nem pedir… mas… se esse tal Santiago é tão importante assim… — alfinetou Michel, tocando seu queixo, pensativo. — Por que você nunca falou dele antes, Gabriela?
— O quê? — retruquei, sentindo o peso invisível dos meus ombros se intensificando. — Você não sabe o que tá dizendo, Michel!
Ele suspendeu os braços, rindo ironicamente pelo nariz.
— Se você diz…
— Te incomodou saber que eu tinha um namorado? Porque não deveria! — ralhei, piscando apressadamente. — Eu não devo explicações a ninguém!
— Não é isso, Gabriel..-
— Eu também sou digna de ser amada, tá bom? — cortei-o, com a voz embargada. As lágrimas surgiram nos cantos de meus olhos, mas imediatamente as sequei. — Eu não sou tão desinteressante assim, ok?
— Gabriel…-
— Você tem dó de mim? — Solucei, interrompendo Michel mais uma vez. — Isso cansa! Me deixa em paz!
Michel escutou todo meu surto calmamente, sem mover um músculo sequer de seu corpo. Em seguida, e com delicadeza, ele secou minhas lágrimas e segurou-me pelos ombros, me incentivando a olhá-lo fixamente nos olhos.
Suas íris transmitiam a mesma calmaria de sempre, pesando em minha consciência. Tudo o que eu queria era que Michel parasse de me encarar daquele jeito, como se soubesse exatamente o que eu estava sentindo. Era quase que... sufocante.
— Não tenho dó de você, Gabriela… Mas… Nada do que você disse faz sentido! — Michel não parecia abatido, pelo contrário, parecia querer me entender. — O ponto é que você poderia ter confiado em mim… poderia ter me contado. Eu pensei que… — ele hesitou, balançando a cabeça em negação. — Esquece…
— Pensou o quê? — incentivei-o a prosseguir, estalando a língua.
— Que fôssemos amigos? — sugeriu Michel.
Perdi o fôlego.
— Não somos, Michel! — Afastei-me dele, olhando para baixo e sentindo a raiva pulsando dentro de mim.
Michel piscou diversas vezes, como se estivesse absorvendo o impacto de minhas palavras. Considerei novamente a possibilidade de recuar, entretanto, eu já tinha ido longe demais.
— Me enganei, então. — Michel riu sozinho e eu senti meu corpo tremer um pouco. — Pardon...
— Você é só… — Gesticulei ao dizer. — O meu professor de cultura francesa! Espero que não se esqueça disso!
— Não irei, Gabriela. — Michel assentiu, claramente decepcionado. — Pode ficar tranquila.
Sorri sem mostrar os dentes, fingindo serenidade.
— Que bom…
Michel endireitou a postura e ajeitou seu blazer.
— Aparentemente, eu sou o único preocupado aqui. Não quero magoar você e nem a mim mesmo ainda mais, então... não vou mais me intrometer. E daqui em diante, eu sou só… — ressaltou a última palavra. — O Professeur Dubois.
— Que ótimo! — afirmei, jogando meus cabelos para trás. Ver o olhar triste no rosto de Michel me causou tremenda culpa e eu desejei voltar atrás e pedir-lhe perdão pela minha atitude impulsiva, mas controlei a sensação e apenas me retirei do recinto.
Dirigi-me até o lado de fora do chalé e me acomodei na escadinha. O clima era cortante, mas a vista para as estrelas valia todo o esforço físico.
Quando menos esperava, adormeci, desejando que aquele dia nunca tivesse existido.
Fale com o autor