Notas iniciais
Nos vemos nas notas finais, aproveitem a leitura. =*

O aeroporto Charles de Gaulle estava lotado. Pessoas indo e vindo com malas e familiares, apressados e felizes para pegar seu voo. Eu me sentia totalmente deslocada, como se eu estivesse vivendo em algum tipo de realidade alternativa. Eu não queria viajar, não havia uma única célula do meu corpo que tivesse o mínimo animo para estar parada esperando o voo da air france sair.

A saída de casa naquela manhã foi quase uma encenação da marcha fúnebre. Sabia que não adiantava discutir com o meu pai, pois sabia que seria inútil, mas não pude deixar de fazer a minha expressão mais furiosa e revoltada. O caminho até o aeroporto não seria agradável, não se dependesse de mim.

– Arrume essa cara Annabeth! Não é como se eu estivesse te mandando para a morte. — meu pai falou enquanto esperávamos na fila para fazer o check-in, após um longo período de silêncio.

– É quase como se fosse. – falei azeda.

– Típico! – ouvi Miranda falar ao meu lado. – Ela não sabe aproveitar as oportunidades que você oferece pra ela Frederick! Uma ingrata.

Olhei azeda pra ela. – Além de me mandar para o outro lado do mundo precisava trazer ela junto?

Meu pai me deu um olhar sério, mas não retrucou. Apenas ficava olhando a tabela dos voos como se estivesse ansioso demais para se livrar de mim. Na noite anterior a viagem não havia ocorrido nenhuma discussão. Era claro que não. Miranda havia conseguido o que queria, não havia mais pelo que discutir. Se aquela piranha achava que as coisas iam ficar assim ela estava muito enganada. Eu não ia deixar barato pra ela.

O check-in não demorou muito, mais do que rapidamente a mala foi despachada e meu pai localizou meu voo e descobriu que não estava atrasado o que só me deixou mais aborrecida ainda. Tudo estava dando "certo" demais para a viagem. Seguimos para a sala de embargue e desembarque que estava apinhada de gente. Não demorou muito para ouvirmos a última chamada.

Última chamada para o voo 349 da air france com destino a Londres embarque portão 2.

Olhei para o meu pai novamente com uma expressão torturada desejando com todas as forças que aquilo fosse apenas um pesadelo, que ele me abraçasse e me dissesse para voltar para casa com ele. Meu pequeno mundo restaurado, o que obviamente não ocorreu.

– Quando chegar ao aeroporto de Londres me avise. — meu pai parecia se esforçar para conter uma emoção muito forte.

– Eu não preciso ir.

– Sim, precisa.

– Eu não quero ir.

– Vai te fazer bem. Quero que vá e se divirta, esqueça um pouco dos problemas, pense melhor sobre a faculdade. Faça amigos. Sei que não esta feliz com isso, mas quando tiver oitenta anos o que vai dizer para os seus netos? Que ficou cuidando de mim e tomando conta da casa?

Uma parte pequena na minha cabeça sabia que ele tinha razão, não era saudável que todo o meu mundo girasse em torno dele.

– Como que o senhor vai se alimentar? – Miranda revirou os olhos e bufou.

– Ora Annabeth! Não é como se eu fosse um bebe em um carro fechado. Além do mais eu não estou sozinho no mundo, tenho Miranda.

Aquilo havia doido. Miranda retorceu os lábios em um sorriso malicioso. Eu estava magoada demais para retrucar. Apenas assenti de uma forma sombria e me virei para os portões. Não pretendia me despedir, eu já me sentia muito ferida e magoada, mas meu pai tinha outros planos. Sem pensar duas vezes ele segurou meu braço e me puxou para um abraço forte.

– Prometa que vai me ligar sempre! – senti as lágrimas escorrerem. Eu não queria chorar, tentei com todas as minhas forças suprimir aquele sentimento, mas as lágrimas traiçoeiras estavam ali.

– Eu ligarei e você também me ligue.

Abracei meu pai com mais força desejando que ele não me soltasse, desejando não ir embora, o que foi inútil. Senti quando ele me soltou, Miranda não deixou nem por um segundo o sorriso malicioso fora do rosto. Ela estava se deliciando. Não importava quanto tempo eu ficasse me despedindo e o quanto chorasse ela simplesmente sabia que eu iria embora de qualquer jeito então esperar um pouco mais ou um pouco menos não fazia diferença.

Minhas pernas se moverem em direção do portão de embarque e entreguei as passagens para a atendente. Dei uma última olhada para trás e com um último suspiro caminhei pelo corredor de acesso para o avião. Agora era pra valer já não havia meios de voltar atrás. Encontrei o meu lugar na classe econômica e guardei minha bagagem de mão. Peguei meu IPOD e coloquei os fones no ouvido esperando o momento que o avião fosse decolar.

A aeromoça estava passando para conferir se cada passageiro estava confortável e ajudando tantos outros a se acomodarem. Fechei meus olhos tentando pensar com frieza no que faria para voltar para casa, ouvindo a música Mirrors do Justin Timberlake tão alto nos fones de ouvido, que não percebi o que estava por acontecer até que aconteceu.

– AIII!

Uma bolsa pesada foi arremessada em cima de mim de uma forma tão brusca que me fez dar um grito. Abri meus olhos empurrando a bolsa em um movimento involuntário batendo com força em alguém enquanto eu me preparava para reclamar. Vaguei meus olhos pelos lados em busca da pessoa traiçoeira que havia perturbado meu descanso e me desconcertei quando me deparei com aqueles olhos verdes como o mar.

Senti minha boca se abrir minimamente enquanto continuava avaliando o corpo dele. O cabelo era preto e bagunçado, a pele tinha um leve toque bronzeado, os olhos verdes eram misteriosos como o mar. O corpo era bem cuidado. Ele não era bombado como esses garotos que moram dentro de uma academia, mas malhado. O sorriso era sarcástico e os olhos tinham um toque malicioso e brincalhão. Dava para ver a ponta de uma tatuagem nos braços.

Em um momento muito louco eu me lembrei da minha infância, com meu pai, na baia de San Francisco. Eu era criança e éramos apenas nos dois, não existia Miranda. Corríamos pela praia, brincando de pega-pega na beira do mar. Quando meu pai me pegou me levou para o mar e me deu um banho. Aquela lembrança fez meu coração se apertar. Mas esse sentimento não durou tempo suficiente para ser desfrutado.

Quando eu finalmente entendi o que havia acontecido, a tristeza deu lugar para a raiva e eu me vi gritando no meio do avião lotado.

– MAS QUE PORRA É ESSA?!

– Educada você.

Eu o ignorei a sensação, que ouvir a voz dele causou no meu corpo e continuei.

– Por um acaso nunca andou de avião? Não sabe nem guardar uma mala?

– Senhorita, por favor, acalme-se. – a aeromoça tentava contornar a situação o que só me fez ter mais raiva ainda. Eu estava cansada de ficar calma. Cansada de ter que aceitar tudo o que todos me pediam com um sorriso no rosto. Cansada de sentir raiva e ter que engolir aquele sentimento. Cansada, simplesmente cansada. Mas a pior parte não era ela tentando acalmar, era o sorriso, debochado e sarcástico no rosto dele.

– O que foi? Além de demente tu é surdo? To falando com você! – vi com prazer a sua expressão mudar. O sorrisinho filho da puta havia desaparecido e os olhos verdes haviam adquirido um brilho tempestuoso como se o mar estivesse revoltado.

– Oh me desculpe, senhorita perfeita. – enquanto dizia isso ele fazia gestos e falava como se me imitasse. O que só me deixou mais furiosa. – Desculpe se meus neurônios não são de seu agrado. Alias, acho que errou a classe, aqui é a econômica, ala dos dementes.

Senti o meu rosto corar violentamente. Todo o avião havia parado para nos ver discutir. A aeromoça começava a perder a compostura.

– Ou os dois se acalmam ou ambos saíram do avião. – ela retrucou baixinho para que apenas nos dois pudéssemos ouvir.

Eu considerei aquela ideia. Não seria nada mal ter que descer do avião e poder colocar a culpa em outra pessoa. Mas ele pareceu ler isso nos meus olhos.

– Nem pense! Se eu perder esse voo vou me meter em problemas e eu não vou deixar que uma piralha mimada coloque a culpa em mim.

– Prefiro ser uma piralha mimada a ser um descerebrado!

– Prefiro ser uma piralha mimada a ser um descerebrado! – ele me imitou. – Faça um favor a todos desse avião, senta e fica quietinha ok?

E ao dizer isso ele piscou enquanto se sentava ao meu lado.

Minha boca se abriu de novo sem acreditar na ousadia dele. E em mais um daqueles momentos puramente instintivos eu me joguei sobre ele decidida a machucar qualquer parte do corpo dele que as minhas mãos pudessem alcançar.

Era uma reação estúpida, claro. Ele era muito mais forte que eu. Minha raiva borbulhava como em um caldeirão quando eu escutei ele rindo como se achasse aquilo tudo muito divertido. Não demorou muito para a aeromoça voltar acompanhada de um homem todo vestido de preto com óculos escuros e uma escuta no ouvido. Ele me lembrou aqueles seriados policiais.

– Senhorita Chase, tenho ordens expressas do seu pai para não deixar que saia desse avião por mais que tente criar tumultos.

Aquilo foi como um tapa na minha cara. O segurança continuou.

– Ele pediu que lhe entregasse isso também.

Annabeth!

Pare de criar tumultos no avião.

Você não irá descer!

E quanto mais tumulto causar, mais tempo passara longe.

A escolha é sua.

Frederick.

Aquilo foi como um balde de água fria. Sentei na poltrona, atônita demais para expressar qualquer reação que fosse. Meu pai havia mandado um segurança junto no avião? Era isso mesmo? Confere produção? O segurança olhou feio para meu acompanhante de assento antes de se afastar para um lado mais escondido do avião. Novamente quando a surpresa me abandonou deixou espaço para a raiva.

Onde estava meu pai e o que Miranda havia feito com ele?

Bufei no meu lugar, cruzando meus braços na frente do meu corpo querendo que o mundo explodisse. Ouvi aquele sorrisinho debochado, e coloquei meus fones novamente para conter o desejo de morte que se criava dentro de mim. Sensação essa que voltou renovada quando meus fones foram arrancados de forma brusca da minha orelha.

– Como ela é brabinha. To até com medo dessa carinha emburrada, tão perigosa como um chihuahua querendo dar uma de pitbull. – ele riu da forma mais sarcástica que pode arranjar.

– Seus pais nunca te deram educação não? – falei recolocando meus fones, que logo foram arrancados novamente da minha orelha.

– Deram, ao contrário dos seus. Nunca te ensinaram que não se coloca fones de ouvidos quando alguém está falando com você?

– E quem disse que eu quero falar com você?

– Mas é claro que você quer.

Eu ri sem nenhum humor.

– E porque você acha isso?

– Porque se eu fosse uma galinha frigida eu também gostaria de falar com alguém tão lindo quanto eu.

Eu me lembrei dos valentões do colégio que pegavam no meu pé diariamente. Ele não era muito diferente. No fim das contas eles apenas se provaram tolos apaixonados que ficavam ressentidos comigo quando eu os rejeitava. Nisso ele também não parecia ser muito diferente.

Ele continuava a me olhar de forma sarcástica e eu podia ter começado novamente uma briga. Podia ter sentido raiva. Podia ter sentido muita coisa. Mas já não havia mais espaço no meu corpo para nenhum sentimento novo. De uma forma que surpreendeu até a mim mesma eu me vi sorrindo de forma doce para ele. Ato que o pegou totalmente desprevenido. Juntei nossos rostos em um gesto ousado e percebi com uma pontada de satisfação quando ele começou a respirar mais rápido e vacilou.

– Galinha frigida? – outro sorriso doce. Os olhos dele desceram para o decote da minha blusa e eu sorri fraco. – Bem que você queria ter.

Falando isso me afastei com um ar presunçoso. Ele se recuperou em tempo.

– Talvez nos seus sonhos mais excitantes mon cher.

Sorri novamente sem humor.

– A modéstia mandou lembrança.

– Modéstia é para os fracos. – agora estávamos de novo pisando em um terreno conhecido por ele. Ele se sentia forte quando estava retrucando que era o cara mais fodão de todos. Não estava acostumado que desviassem desse rumo e tomassem o controle.

– E a falta dela é para os estúpidos sem noção que se acham os gostosões quando na verdade não passam de um covarde impotente e mal amado.

– Blá blá blá... Que discursinho em? Por isso que deve ta há tanto tempo sem sexo.

– E quem disse que eu estou?! – falei meu tom subindo algumas oitavas. Ele agora havia pisado lindamente no meu calo.

– Ninguém, mas a sua reação confirma a minha teoria. – o sorrisinho sarcástico voltou o que só me fez olhar com raiva pra ele.

Bufei indignada recolocando os fones. Estúpido, arrogante gostoso. Ok, o que? Eu não podia ter pensado essa última parte.

Tentei não pensar nele, só que não tive toda essa sorte.

Os fones foram novamente arrancados de mim, e eu estava pronta para reclamar enquanto minha mão voou na direção dele, que estava mais preparado do que eu para a minha reação. Sem se importar com o fato de estar ou não me machucando ele agarrou meu braço, segurando de uma forma que deixou nossos rostos mais colados. Tão colados que eu podia sentir a sua respiração. Seus olhos agora eram de um verde hipnótico. Ele me encarou de uma forma que me fez sentir medo. Medo daquela intensidade toda.

– Sabe por que você quer falar comigo patricinha? – ele sussurrou com uma voz rouca. – Porque eu sou a coisa mais emocionante que já te aconteceu nessa vidinha patética.

Eu ia responder, eu juro que ia, mas eu não conseguia encontrar a minha voz. Meu coração martelava muito forte, minha mente girava. Um calafrio passou por todo meu corpo. As palavras dele continuavam nadando na minha mente.

“...sou a coisa mais emocionante que já e aconteceu nessa vidinha patética.”

Não demorou muito para a aeromoça chegar e nos realocar de lugar.

Aquele voo começava a ficar interessante.

Notas finais
Primeira interação do casal. Não sei se fiz isso de forma certa então se puderem comentar e me dizer o que acharam eu agradeceria de coração.