Seis meses antes (Paris, France)

– Olha como você tá molhada pequena. — aqueles dedos tão proibidos invadiram a minha calcinha alisando minha intimidade. Não consegui conter o gemido sôfrego que reverberou pela minha garganta. Era bom demais, proibido demais, insano demais. Meu corpo se curvou procurando mais do toque proibido. — Será possível que você tá gostando? — O sorrisinho sarcástico que escapou dos lábios dele me fez ter vontade de socá-lo, vontade está que foi suprimida quando ele me invadiu com dois dedos e torceu eles dentro de mim.

– Você é uma garotinha safada Annabeth! Eu devia ir embora agora e te deixar aqui ardendo de tesão por mim só para te fazer aprender a não me fazer de idiota. — ele intensificou o movimento dos seus dedos me fazendo soluçar de prazer. Eu me sentia tão perto. Voando tão alto. Seu polegar começou a massagear o meu clitóris e eu literalmente vi estrelas.

E então, com um último grito de prazer, eu acordei...

Sim, você leu correto.

Eu acordei em um salto no meio da escuridão suando muito. Minha respiração era ofegante e meu coração palpitava tão forte no meu peito que parecia que ia sair saltitando pelo quarto. O nó que eu senti na parte mais intima do meu corpo era frustrante. Meu corpo todo gritava por alivio. Alivio que não viria se não fosse proporcionado, por mim mesma. Sim, era realmente vergonhoso para uma garota ter que se submeter a esse tipo de coisa. O que piorava quando meu pai resolvia vir ver o porquê eu estava gritando. Como agora...

– Annabeth! — meu pai entrou porta afora com o bastão de baseboll em uma das mãos pronto para o ataque, usando apenas sua samba canção que tinha desenhos do bob esponja. O porquê de ele usar algo tão vergonhoso para parar um ladrão? Talvez ele estivesse tentando matar o ladrão de rir.

– Calma pai! — levantei da cama em um salto indo de encontro a ele para mostrar que eu estava bem. A cena era meio cômica na verdade, mas eu sempre me contive para não rir.

– O que aconteceu com você? Parece que correu uma maratona!

– Eu tive um pesadelo... — falei desviando meu olhar.

– Que susto você me deu, Annabeth! — seu corpo inteiro irradiava alivio.

– O que aconteceu? – Com certo desagrado observei quando minha madrasta entrava no quarto com uma expressão azeda no rosto.

– Annabeth teve um pesadelo.

– Conte uma novidade. — ela falou de forma desagradável. — Eu disse que ela só queria chamar a atenção.

Olhei de uma forma furiosa pra ela. Era bem verdade que não nos dávamos bem. Ela me queria longe. Longe da vida perfeita que ela havia planejado junto do meu pai. Eu era a intrusa, jamais seria bem vinda na vida dela.

– Não diga isso Miranda. Annabeth seria incapaz de tal comportamento.

E então como se as coisas não pudessem piorar ainda mais observei enquanto um dos filhos dela, meu meio irmão, ia ao encontro daquela bruxa e perguntava, de forma chorosa, um sonoro “mamãe o que aconteceu?”. Ela me encarou com olhos furiosos, me culpando por ter acordado um dos seus filhos.

– Dê um jeito na sua filha Frederick, ou eu juro que eu darei! – e após me lançar um último olhar fulminante ela se afastou.

Meu pai apenas me dirigiu um olhar de pena como se realmente lamentasse muito por mim existir. Nem se ele tivesse me dado um tapa teria doido tanto.

– Quer falar sobre o sonho? Quem sabe te acalme. — oh claro pai, eu realmente quero falar sobre o sonho. Certamente eu direi que ando tendo sonhos pornôs com um cara do qual não consigo ver o rosto nunca. Ótima coisa para se compartilhar com um pai.

– Não precisa pai. Eu já não lembro o que é.

Ele me olhou desconfiado, ele sempre sabia quando eu estava mentindo, mas não tentou arrancar nada. Ficava claro quando eu não queria dividir momentos com ele. Tentei não pensar na freqüência com que esses sonhos estranhos continuam me assombrando. Senti aquela parte que mais pedia por atenção latejar novamente. Com um suspiro resignado entrei para tomar um banho, o mais frio que eu pudesse naquela noite invernal.

A neve caia solta lá fora, o barulho do vento não me deixava dormir, minha mente vagava para pequenos detalhes do sonho, mas eu precisava dormir. Ouvi a discussão do meu pai com minha madrasta do outro quarto. Isso estava acontecendo com uma intensidade tão grande que já havia virando uma rotina. Eu teria ficado feliz em desaparecer por alguns dias, mas a verdade é que não conseguia deixar meu pai sozinho com ela.

– Guarde minhas palavras Annabeth. Um dia, quando menos esperar, seu pai vai lhe colocar para fora dessa casa. Para fora das nossas vidas...

Sabia, bem no fundo da minha mente, que se eu me afastasse ela daria um jeito para que eu não pudesse voltar nunca mais. Ela o envenenaria e eu já não teria mais para onde voltar. Meu pai havia ficado extremamente amargo depois que minha mãe nos abandonou. Eu era muito pequena quando isso aconteceu, mas eu sabia que ele não havia superado ainda. Atrevo a dizer que ele nunca superaria. Miranda havia aparecido na vida dele quando eu tinha apenas dez anos e depois do primeiro filho ela simplesmente decidiu que não precisava mais de mim nas suas vidas. Desde então ela empenhou todos os seus esforços para tornar a minha vida um inferno.

– Porque ele amaria uma piralha dá qual a mãe abandonou? – tentei fechar meus olhos e resistir à vontade de chorar. Eu ainda lembrava como se fosse hoje as palavras dela.

Eu sabia o número de coisas que eu estava abrindo mão quando decidi não fazer a faculdade de arquitetura que eu tanto queria, mas era necessário. Eu estava ocupada demais me defendendo de Miranda para me preocupar com coisas bobas como um futuro. A verdade é que o mundo lá fora me assustava. Ficar sozinha me assustava. Meu pai ficou ainda mais frenético quando as cartas de aceitação das faculdades de Yale, Oxford e Cambridge começaram a chegar. Mas eu não podia ir embora e deixar ele sozinho, podia?

O dia amanheceu gelado. Uma densa camada de nuvens cobria o céu, mas não nevava. Eu odiava aquela casa, odiava Paris. É claro que a cidade era linda, uma cidade dos sonhos, mas não era a minha cidade, onde nasci, onde cresci. Miranda havia nos forçado a mudar para lá quando percebeu que meu pai vivia muito preso a lembrança da minha mãe.

Coloquei minhas roupas quentes com uma sensação estranha. Por isso que quando eu acordei naquela manhã e tive a milionésima discussão com meu pai sobre aquele assunto eu não me surpreendi.

– Bom dia. — meu pai falou naquele seu tom arrastado.

– Bom dia. — o dia não parecia normal. Para começar Miranda ainda não havia tentado me insultar de alguma forma. Pelo contrário, havia um toque de alguma coisa no olhar dela, na forma como andava pela cozinha, um ar de felicidade, como se tivesse finalmente conseguido o que queria. Peguei meu suco de laranja, com waffles e uma fruta e sentei na bancada da mesa para comer em silencio.

Miranda estava de costas para mim mexendo na pia e arrumando o café da manhã dos seus filhos com um ar de superioridade. Aquilo me deixou agitada.

– Dormiu bem? — ergui os olhos para encarar os verdes intensos do meu pai sentindo que naquela pergunta carregava um significado muito maior do que apresentava. O tom dele era diferente, meio nervoso, como se estivesse reunindo forças para enfrentar uma guerra.

– Sim e o senhor?

– Sim... — ele hesitou. Meu pai hesitou?

– Algum problema?

– Talvez...

– Porque não vai direto ao ponto! — levei meu copo à boca que parecia muito seca em uma tentativa inútil de parecer calma. Quando larguei o copo ele começou.

– Eu quero que você vá para um acampamento. – ele não me olhava nos olhos quando disse isso.

De primeiro momento não acreditei no que estava escutando. Aquela não era a primeira vez que aquela bruxa tentava me mandar para fora, mas dessa vez estava sendo diferente. Geralmente quando aquela conversa começava a frase nunca vinha acompanhada de “Eu quero” e sim de “Miranda quer”. Eu não podia ter ouvido direito.

– Acho que não entendi. – ouvi minha voz soar de forma totalmente mecânica. Miranda soltou um sorrisinho sarcástico e meu pai deu um olhar de censura pra ela.

– Já comprei as passagens. Você vai amanhã pela manhã.

– Eu não vou para nenhum acampamento. – minha voz soou mais ríspida do que eu desejava. E o que era pior... Magoada.

– Me de um bom motivo para você não ir...

– Simples, não quero ir e você não pode me obrigar.

– Essa casa é minha Annabeth. Enquanto viver sobre o meu teto fará o que eu mandar. – ele continuava não me olhando nos olhos. Ele parecia estar dizendo um discurso escrito por alguém. Olhei com raiva para Miranda.

“Um dia, quando menos esperar, seu pai vai lhe colocar para fora dessa casa.”

– Foi você não foi? Finalmente conseguiu o que queria.

– Eu o que? – ela me lançou um olhar inocente com um ar presunçoso. Tive vontade de chorar, mas engoli as lágrimas. Não daria esse gostinho a ela.

– Eu não irei embora!

– Já esta decidido Annabeth. Você irá, quer queira ou não.

Ela me olhava agora com um olhar de triunfo, soberano, sem um pingo de pena. Era o olhar de quem havia ganhado a guerra. Precisei de toda a minha força de vontade para não chorar. Eu não parava de ouvir as palavras que ela havia jogado na minha cara aquele dia.

“Para fora das nossas vidas...”

– Você vai viajar para Londres amanhã, sem nenhuma chance de discussão. Ficará uns dias lá e depois alguém vai te escoltar até o acampamento. Vai morar sozinha por alguns meses para aprender um pouco sobre a vida. – eu simplesmente não podia acreditar no que meus ouvidos estavam escutando.

– Você não pode me obrigar a ir! — eu dizia de forma incoerente.

– Sim, eu posso. Eu sou o seu pai e você vai fazer o que eu mandar. A senhora Chevalier vai te acompanhar em Londres até que a conexão chegue. Seu vôo sai às nove horas da manhã. Esteja pronta ou eu a levarei de pijama. — e sem dizer mais nenhuma palavra ou me dar à chance de argumentar ele se afastou.

A operação "pesadelo" acabava de começar.

Notas finais
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