Taste of danger - Percabeth
14 A nova Annabeth!
Notas iniciais
Há algumas horas eu havia decidido me esconder no local proibido da mansão. Eu não entrava ali desde que era criança, mas senti que precisava encarar aquele lugar e fazer as pazes com o meu passado para poder realmente seguir em frente. Entrar ali me deu uma sensação amarga na boca e um desconforto que eu tentei inutilmente reprimir enquanto as lembranças desastrosas daquele dia fatídico invadiam a minha mente.
Caminhei por entre as árvores até uma das mesas velhas, que se encontravam recostadas perto da cerca de madeira, passando meus dedos pela madeira ressequida. Pedaços que haviam descolado da tinta saiam na minha mão, por entre meus dedos. À madeira estava podre e mal cuidada. O lugar que já havia sido um dia o mais bonito da mansão, não era visitado há anos. A grama estava alta, não havia mais flores, e os pássaros não faziam mais seus ninhos no topo das árvores. Aquele lugar só fez o espaço oco no meu peito aumentar.
Fazia alguns dias que eu estava me sentindo pra baixo. Coisas boas estavam acontecendo, mas eu não estava conseguindo viver, todos aqueles momentos com plenitude. Muitos sorrisos, muitas conversas, muitos lugares, porem eu sentia-me vazia. Sentia-me uma menina descalça a correr no asfalto quente das três horas da tarde, em julho.
Sentia-me da mesma forma de quando tinha oito anos, e imaginava que embaixo da minha cama havia um monstro. Eram momentos em que eu não me encontrava dentro mim e dentro de meu mundo. Meu pensamento voava longe. Meu corpo estava em um lugar, mas minha mente e minha alma vagavam descontroladas por caminhos longínquos e desconhecidos.
Olhei na direção dos balanços. Eles estavam do mesmo jeito que eu me lembrava, porém um tanto mais enferrujados. Eu conseguia ver Luke e eu sentados ali quando éramos crianças nos embalando. Competíamos quem conseguiria ir mais alto enquanto a senhora Chevalier tomava chá com bolinhos na mesa afastada. Tentei sentir qualquer coisa enquanto lembrava aquela cena, felicidade, raiva, tristeza, dor, mas não pude. Isso significava que eu precisava sentir alguma coisa e no momento eu me encontrava vazia.
O olhar de carinho era dirigido a mim e o abraço tão forte, profundo e quente dos meus amigos continuava igual. Mas eu não estava ali. Jamais dissera que algo me incomodava, até porque não sabia o que era. Em nenhum momento falara que estava me sentindo deslocada, amedrontada e com uma vontade louca de fugir. Mas o abraço deles parecia acalmar o mundo, mesmo que por alguns instantes.
Por quanto tempo agi da mesma forma, pensei do mesmo jeito, fiz as mesmas coisas. Hoje observando o dia ensolarado ainda podia me lembrar da noite que decidi dar um basta e um novo “eu” surgiu. Alguém decidido, alguém impulsivo, alguém que busca os seus sonhos, inova, corre, luta, vai por novos caminhos, encontra novas pessoas, realiza objetivos.
Em algum momento olha para os lados, olha para si e percebe que sente falta de algumas coisas do passado. Bate a saudade. Por um instante, o consolo é saber que para ter uma coisa, é preciso abrir mão de outra. Conforta. Mas não deixa menos saudoso aquele momento.
Sai do meu estupor quando escutei os gritos vindos da mansão. Ninguém havia pensado em me procurar ali no canto mais recostado do jardim. A única pessoa da qual eu corria o risco de descobrir meu esconderijo não estava ali. Não havia notado quanto tempo eu devia estar sumida e também não me importava. Dei uma última olhada para a área dos balanços antes de sair sorrateiramente pela porta em direção a área da piscina.
Sentei na borda da piscina deixando as árvores me esconder para fazer parecer que eu sempre estivera ali. Observei enquanto Piper caminhava na minha direção. Ao fundo era possível escutar o barulho de grilos e da água da piscina em movimento quando meus pés faziam pequenos redemoinhos na água.
– Ahhh então ai está você!
Piper me surpreendeu não alertando a todos que havia me encontrado. Ela se limitou a sentar ao meu lado enquanto me analisava.
– Tudo bem?
– Tudo. – falei indiferente.
– Algo está te incomodando?
– Porque da pergunta? – meu corpo todo ficou na defensiva.
Piper olhou para todos os lados como para se certificar de que não havia ninguém perto. Depois aproximou o seu rosto do meu como se fosse me contar um segredo.
– Eu consigo sentir que você mudou. Parece distante. Um pouco fria. Eu gostaria de saber se fiz algo para causar isso.
Olhar para os olhos tristes e culpados de Piper teria feito meu coração se apertar alguns dias atrás. Hoje, ele permaneceu calmo, como se fosse incapaz de sentir qualquer coisa.
– Estou bem. Apenas... – hesitei. – Estou revendo alguns pontos da minha vida. Acho que preciso me encontrar.
– Sabe que tem amigos de verdade aqui, não sabe? – ela parecia mais preocupada em convencer a si mesma do que a mim.
– Eu vou ficar bem. – dei de ombros.
– Hey, ai estão vocês. Onde você se meteu o dia todo? – Thalia vinha na nossa direção segurando um pedaço de sanduíche. — Jason está quase tendo um filho. Ele quer saber se vocês vão ir à festa ou não.
– Que festa?
Eu não havia percebido que já estava ficando escuro e que eu estava com fome até que vi o sol indo embora e Thalia destruindo o sanduíche a cada mordida.
– Tem um luau em uma casa na praia perto daqui. Os meninos estavam querendo ir. Como todo mundo percebeu que você tava meio...
– To dentro. – me levantei depressa sem dar a chance de Piper terminar a frase. – Vão ficar ai, paradas como um dois de paus? Não vão se arrumar?
Elas trocaram olhares preocupados antes de assentir e me seguir para dentro da mansão em direção dos quartos. A cozinha estava uma bagunça. A senhora Chevalier havia dispensado as empregadas no fim de semana, sem nenhum motivo aparente. A situação dos corredores e das salas não estava melhor. Parecia que um verdadeiro Tsunami havia passado pela mansão inteira.
Perto da porta Percy discutia com a... o que ela era dele mesmo? Namorada? Era o que ele queria convencer a todos, mas eu não caio nesse jogo. Ela estava longe de ser namorada dele. Ambos olharam na minha direção de relance quando entrei na sala.
– Elas estão aqui! – Nico gritou para alguém do sofá. Após se virou para falar conosco. – Jason e Percy estão doidos atrás de vocês. Quase mandaram uma equipe de busca atrás dessa ai. – E falando isso ele acenou na minha direção.
Percy e a nova “namorada” acharam que essa era à hora mais apropriada para entrar na sala. Eu olhei para ambos de forma irônica não contendo um sorriso de escárnio quando eles seguraram a mão um do outro. Por sua vez ela me olhou de um jeito enojado como se estivesse fazendo um grande esforço para estar na mesma área comum que eu, porque ele a havia obrigado.
O clima entre ambos não parecia estar muito bom. Peguei algumas partes da conversa apenas, mas pelo pouco que pude ouvir Percy não a levaria a festa e ela não estava muito feliz com isso. Observei com certa maldade quando ela apertou a mão dele com mais força quando percebeu que ele me encarava. Não pude deixar de encarar os olhos verde mar, que repousaram sobre mim enquanto me analisavam. Neles eu vi muita duvida e confusão enquanto ignorava os apertos insistentes na mão da nova “namorada”, segundo ele. Me limitei a devolver um olhar frio e duro com um ar entediado.
– Eu estava na piscina. – dei de ombros.
– Você não estava lá. – Percy falou de forma grosseira.
– Quem disse? – rebati com um ar esnobe.
– Eu digo! – rosnou. – Você não estava naquela porra de piscina Annabeth!
Olhei divertida para o rosto contorcido de raiva dele.
– Annie, por onde andou? Ficamos preocupados? – Thalia tentou.
– Estava na piscina. Ponto.
Percy parecia querer abrir um buraco no meio da minha cabeça. Meu sorriso se alargou.
– Não sei por que se importaram tanto com ela. – bradou. – Só queria chamar atenção, ninguém vê isso?
Todo mundo ficou em silencio esperando pela minha reação. Eu estava achando tudo muito divertido. Ele tinha um brilho de ódio e raiva nos olhos que só me fez gostar mais daquela brincadeira. Lancei o meu olhar mais doce para ele, me aproximando para colocar uma das minhas mãos no seu ombro enquanto a outra acariciava o seu rosto. O gesto repentino pareceu pegá-lo de surpresa e foi com grande satisfação que vi a “namorada” dele bufando em um misto de raiva e surpresa. Então me preparei para falar as palavras que encerrariam a conversa.
– Não tenho culpa se você não tem neurônios o bastante para me achar lá.
Percy me olhou incrédulo chocado demais com o meu comentário para poder esboçar qualquer reação que fosse. Meu olhar se tornou frio e eu virei minhas costas para eles subindo as escadas em direção do meu quarto, sem esperar de fato por uma resposta. Quando cheguei no meio da escada olhei para trás procurando pelas garotas. Ambas me olhavam apreensivas da sala como se tentassem entender um complicado problema de física quântica.
– E vocês duas? Não vão se arrumar?
Ninguém disse nada. Todo mundo parecia tentar entender as minhas reações como se estivessem atordoadas demais por terem levado uma martelada na cabeça. Eu apoiei ambos os braços no corrimão da escada empinando meu corpo para trás em uma pose sensual antes de falar.
– Não sei se sabem, mas temos um luau para ir. E pelo menos para mim a noite promete. – então olhei na direção do mais novo casal feliz – ironia você por aqui? – piscando de leve para Percy enquanto mordia o lábio de forma sexy e vendo com prazer o rosto da namorada dele ficar vermelho de raiva até a raiz do cabelo. Todos me olharam sem entender, e eu abri o meu sorriso mais malicioso antes de me virar para a escada e subir.
Percy Jackson preferia aquela vadia a mim? Pois hoje à noite eu ia mostrar para ele o quanto ele ia se arrepender daquela decisão.
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