Talvez a Guerra Esteja Dentro de Mim
1 01 - Hiro Kobayashi, nipo-brasileiro

Haviam poucas coisas no mundo que Hiro Kobayashi gostava e podia afirmar que lhe faziam verdadeiramente feliz. Hoje, lendo seus velhos diários surrados, escondidos dentro de uma abertura secreta numa velha escrivaninha em estilo japonês, posso ter certeza de que a ingenuidade e a visão otimista de mundo que ele tinha fora a razão para a necessidade de tão poucas coisas materiais que pudessem lhe tornar feliz, pois, no fundo, Hiro Kobayashi conseguia ser feliz com qualquer coisa. Mas nem todas elas podiam felicitá-lo ao ponto de arrancar-lhe um verdadeiro sorriso meio amarelo, pois na ingenuidade de sua visão, era, também, muito tímido.
Ele definitivamente se sentia completo quando ia ao cinema nas últimas sextas de cada mês. Havia se tornado hábito comum, quando, enfim, o pagamento mensal lhes era entregue pelo seu Catarino, o dono das plantações de algodão e pimenta-do-reino em que trabalhava. Eles recebiam pouco, mesmo para aquela época. Hiro costumava dizer que os patrões tinham esse hábito profano de se aproveitar dos empregados, especialmente daqueles que chegavam ao país sem rumo e sem conhecidos, pois o obstáculo da língua e da cultura favoreciam os abusos e as explorações. Por isso haviam construído uma comunidade unida naquela região de Minas, onde japoneses, nipo-brasileiros e outros asiáticos imigrantes em geral construíram uma comunidade tradicional. Mesmo assim, eles ainda recebiam pouco, pois a voz de seu povo ainda era silenciada demais tão longe de sua terra. Especialmente quando o Brasil declarou guerra aos países pertencentes ao Eixo, o Japão entre eles. Foi nessa época que os desaparecimentos começaram. E os corpos que boiavam pelos rios surgiram. Treze pessoas foram assassinadas no decorrer dos anos da guerra, dentre elas o pai de Hiro, o sr. Kobayashi. Pessoas inocentes, que pagaram pelos crimes de seu país.
Foi bem nessa época, um dos diários de Hiro apontou, que, na tentativa de alavancar a cidade do Carmo dos Perdidos., que já era um ponto comum por conta das grandiosas imigrações que aconteciam naquela região há décadas, fora construído o Magnífico Cinema, onde só a nata da era de ouro de Hollywood tinham o privilégio de estrelar, em filmes que rodavam o mundo e levavam as pessoas para os mais infindáveis países, ponto de encontro de todos os japoneses, nipo-brasileiros, indianos, alemães, indígenas, pretos, brasileiros e, inclusive, alguns americanos que haviam discretamente se instalado nas imediações da cidade, onde estudavam propriedades da flora e fauna amazônica para serem utilizadas na guerra. Hiro não gostava deles, pois, depois que chegaram, o preconceito e as perseguições pioraram. Foi nessa época que o décimo quarto corpo apareceu, depois de anos desde o último acontecido. Hiro havia anotado numa folha meio amassada no seu diário de vinte anos, o primeiro deles que peguei por acaso, que os mais velhos diziam que a maldade dos homens estava matando o sagrado do rio, tornando-o profano e cada vez mais inabitável pela luz do mundo do sagrado.
Satori. É uma palavra que Hiro Kobayashi tinha o costume de escrever em cada um dos seus diários, do seu primeiro, aos onze anos, um ano após terem chegado à Carmo dos Perdidos, quando seu pai morreu e sua mãe adoeceu com a tristeza. Kaito, irmão mais velho de Hiro, tomou a responsabilidade como homem da casa e começou a trabalhar nas plantações de pimenta do reino administradas pelo Coronel Catarino Lacerda, conhecido como Cataclisma, pois seus passos eram tão profundos e pesados que pareciam tormentas e trovões tempestuosos, com uma voz rouca, gritada, feito o mundo que desabava. Daisaigai, era como Hiro e os outros da comunidade o chamavam. Era esperto, sagaz como uma raposa, conseguiu enrolar os recém-chegados com muita destreza, e prendê-los a trabalhos exaustivos, mal remunerados e em situações degradantes e desumanas. Mas Kaito não teve outra escolha, pois precisava prover a sua casa. O obstáculo da língua pesou, especialmente após a morte do pai, que, entre os quatro Kobayashi, era o que falava mais fluentemente o português. Hiro lembrava-se bem, com uma dor de amargura do peito, da maneira como o mundo era confuso e diferente aos seus olhos de jovem entusiasta. Haviam deixado Nagasaki por fruto da promessa de um novo começo, e haviam chegado naquela terra verdejante, mas encontraram acolhimento, tão somente, pela natureza que os rondava, pois fizeram o melhor uso possível de tudo que Deus havia lhes presenteado.
Kami no tsukuri. Março de 1941. É a primeira anotação de Hiro no seu primeiro diário. É perceptível seu desconhecimento pela língua da terra que haviam escolhido viver. Sua letra meio torta e suas palavras sem acentos, vírgulas, crases e tils, eram a prova de seu aprendizado gradual desde a chegada e o ponto final no último dos diários. Hiro Kobayashi escreveu:
“Kami no tsukuri. O Brasil é uma criação de Deus. Era o que meu pai costumava dizer. Ele conosco não está mais. Seu espírito e sua essência se tornaram parte do rio, foi o que o senhor Ori disse. Kaito não gosta de trabalhar para Daisaigai, pois diz que fica violento quando não há muita colheita. A pimenta faz mal pulmões de Kaito, mas ele nunca reclama. Acho que devo procurar trabalho. Por isso quero melhorar português.”
O primeiro trabalho de Hiro Kobayashi acabou sendo com o Coronel, que, como todos haviam descrito, era um homem bronco e com uma voz que atormentava crianças no pesadelos. Hiro ficou assombrado com aquela figura desde a primeira vez que o viu. Ele lhe botou os olhos, feito fosse um pedaço de carne, e disse:
“Você é novo pra ir pra torra de pimenta, mas se for espero que nem seu irmão logo ocê sobe pra cima”, pois era assim que chamavam quando, dentre os colhedores, alguns homens eram escolhidos para trabalhar na fazenda do coronel na transformação da pimenta em grão para seus diversos usos domésticos. O que parecia uma promoção era, todavia, a porta aberta para a desgraça inevitável, pois o constante respirar e suspirar do ar cheio do subproduto da pimenta-do-reino vinha a infligir feridas incuráveis nos pulmões, e, lá, todos os trabalhadores tinham problemas respiratórios antes mesmo dos quarenta anos. A expectativa de vida era de trinta e sete. Pior que o trabalho na fazenda era só o trabalho na colheita, pois era árduo, competitivo e não muito rentável, pois recebia só o suficiente para comprar um pouco de arroz e, eventualmente, algum peixe aos fins de mês. Para sua surpresa, todavia, o coronel não havia lhe mandado para a colher suas preciosas pimentas, mas sim para um trabalho que, na hierarquia da fazenda, estava mais embaixo ainda: o de se livrar de invasores, como passarinhos, ratos, gambás, taturanas, cobras e tudo mais que pudesse sair da mata, pois o coronel olhou nos olhos dele e sentiu que Hiro tinha alma de caçador.
Dito e feito. Hiro nunca foi de se gabar pelos seus feitos. Mesmo as qualidades que descrevia de si mesmo nos seus diários pareciam, tão somente, anotações sem importância de uma vida comum. Mas Hiro era rápido, mais rápido que um gato, o que lhe concedeu certa fama popular pela região. Além de rápido, Hiro era esperto, genuinamente genial e muito observador. Fazia armadilhas perspicazes de bambu e cipó que encurralavam os ratos e enclausuravam os passarinhos. Os ratos ele dava para que os gatos de sua mãe comessem, os passarinhos ele colocava em gaiolas coloridas que ele mesmo fazia, e espalhava pela casa. Alguns, os mais bonitos, ele vendia ao Coronel Catarino, pois sua esposa, dona Aspásia, se encantava pela sua música.
Os diários de Hiro eram ilustrados por seus curiosos e realistas rabiscos, então enxergar as pessoas que atravessaram sua vida foi uma tarefa fácil. Ademais, um hábito que ele desenvolveu ainda com quinze anos, nas suas primeiras escritas, foi o de dar descrições para as pessoas as páginas do que escrevia, pois assim, poderia saber melhor como responder quando alguém lhe perguntasse.
O primeiro desenho era dos seus pais e, logo em seguida, do seu irmão, Kaito. Sua mãe tinha cabelos muito bem cuidados, pois havia aprendido as técnicas milenares de suas antepassadas para cuidados com os fios, algo que era característico de sua família. Ela sempre foi uma mulher moderna diante das tradições e da cultura do mundo antigo. Era estudada, mas não havia se acostumado com o português, menos ainda com o Brasil. Mesmo depois de anos morando em Minas, ainda se negava a pensar que haviam deixado Nagasaki. A única coisa que lhe acolheu foi a natureza esplendorosa e os rios sagrados que ela encontrou na atlanticidade da mata mineira, tão poderosos e encantadores quanto as florestas de sua própria cidade, onde as avós cultivavam a soja e teciam com fios de seda. O pai de Hiro, pelo contrário, sempre foi um grande entusiasta do Brasil, mesmo antes de terem chegado devidamente ao país. Falava português e tinha o sonho de conhecer o Rio de Janeiro. Era sonhador, atrevido e odiado pelos sogros. Quando casaram, viveram no país do sol nascente até o dia que Hiro completou dez anos, que foi quando, por uma oportunidade única de escapar dos perigos da guerra e da miséria que ameaçava seu povo com o governo numa guerra sem sentido, que os Kobayashi deixaram o Japão num navio e chegaram ao norte de Minas, numa região abundante em pés de pimenta-do-reino e rios de águas escuras, conhecida pelos seus perdidos, pelas cachoeiras e por um enorme monte em formato de tabuleiro, que se estendia por quilômetros e mais quilômetros às costas da cidade, arrolando uma mata densa por onde todas as pessoas que se perdiam, eventualmente, eram encontradas.
Em um dos diários Hiro escreveu:
“Saikai suru. Recomeço em Carmo dos Perdidos
Minha mãe costumava ser a menos esperançosa de todos nós, mas mesmo seu coração foi tocado pelo céu do Brasil. Desembarcamos no Rio de Janeiro naquele dia, dois anos atrás, quando eu ainda não falava e nem lia o português. Fomos recebidos por um homem muito alto e muito vermelho, que falava gritando e cuspia assombrosas palavras desconhecidas, que assustavam todo grupo que acabava de chegar. Uma dúzia de imigrantes japoneses. Nagasaki. Tokyo. Osaka. Tokahoma. Sapporo. Havia, também, um casal que não era japonês, mas também não era brasileiro, acompanhado de seu filho. Usavam roupas muito coloridas e tinham a pele da cor da canela. Não muito tempo depois, Hama tornou-se meu melhor amigo, pela conveniência dos nossos nomes terem a mesma primeira letra portuguesa, foi a primeira coisa que aprendi e lhe ensinei. Depois disso, todas as aulas de português que tomava, estendia a meu amigo, que descobri ser:
In — Di — A — No, que não devia ser confundido com o indígena, quando se refere do povo dessa terra. Eu já os vi algumas vezes, espiando das árvores as plantações de pimenta que começam a invadir as florestas. Acho que eles entendem o respeito que nós temos com essa terra que nos acolheu. Hama morre de medo deles. Sonho em conhecê-los. Devem me considerar um tipo estranho de homem.”
Hama Kumar era o filho primogênito de Indira e Shiva Kumar. Descobri que Shiva, assim como Hama, eram deuses na cultura hindu e era cultural nomear os filhos com nomes dos grandes heróis do hinduísmo. Fazia parte do ser, ser em parte divino. Para a família de Hiro, os nomes são a conexão com os passado e com os ancestrais (Por isso ele carregava o nome que pertenceu ao avô de sua mãe). Hiro Kobayashi e Hama Kumar trabalharam juntos no ramo de espantar pragas e pegar passarinhos nas plantações alheias e eram os melhores naquele serviço enfadonho. À dupla se completava com Rui, que era filho de padeiro e tinha uma situação de vida melhorzinha que os outros dois. Era brazuca de nascença. A bisavó havia sido escrava, até que comprou a própria liberdade e se casou com um italiano. A padaria já estava na família há gerações. Chamava-se Libertá, que é liberdade em italiano. Quando li isso, senti um quentinho no coração. Hiro havia ganhado a receita do bolo de mandioca da avó de Rui e ensinado sua mãe. Eles adoravam cozinhar juntos. Depois que ela morreu, sua única alegria era cozinhar, mesmo que sozinho, pois, de certa forma, ele a sentiapor perto.
Ele escreveu:
“Papai implicava se me visse ajudando a mamãe com a comida. Hoje ele entenderia que cozinhar deixou de ser uma distração e tornou-se uma necessidade desde o dia que ela quase colocou veneno na nossa comida.”
Algo que Hiro evitava mencionar diretamente, mas podia se perceber nas entrelinhas dos seus diários, eram os eventuais surtos que sua mãe tinha. Nenhum deles nunca soube, exatamente, dar nome à condição que tomava a sra. Kobayashi, e a fazia experimentar a agonia da confusão. Em certo momento Hiro culpa a guerra, que havia acabado com seus nervos, pois além de Kaito e Hiro havia, ainda…
“Hiro.
Era esse o nome dele. Ele era mais velho que Kaito e usava cavanhaque. Foi um dos primeiros da vizinhança em Nagasaki a morrer na guerra. Não me lembro muito bem dele, apesar de ser meu irmão. Antes de sua morte, meus pais me chamavam de Ren. Depois, passaram a me chamar de Hiro.”
A sra. Kobayashi ficava apática boa parte do tempo (E eram esses seus momentos bons). Depois da morte do sr. Kobayashi, então, tudo se intensificou. Ela havia perdido seu primogênito e seu esposo. Talvez ela tivesse perdido a si mesma em tantas perdas assim, era o que a mente fantasiosa de Hiro costumava pensar.
Hiro havia notado uma tendência comum em pequenos acidentes envolvendo venenos diversos, lâminas cortantes e até pedaços de vidro, que só vinham à tona e aconteciam quando ela estava por perto, em momentos agitados, inquietos. Era quando ela sonhava com o primeiro Hiro e, quando acordava, a primeira coisa que fazia era olhar para o rosto do Hiro que lhe restava, constatando que não era o mesmo. E isso sempre a deixava em combustão. Mas ela não era sempre assim e Hiro não conseguia compreender o porquê disso. Os mais velhos diziam que era porque em seu coração habitavam duas pessoas: o da mulher e o da mãe que perdeu o filho, e que, de certa forma, eles não se completavam mais. A mulher era gentil, era esperançosa, quase jovial. Ela dizia coisas inspiradoras e dançava acompanhando o som do rio. Só que ela era esquecida, esquecida de propósito, como se estivesse quase sempre desligada da própria realidade. Essa sra. Kobayashi tinha olhos para dentro de si mesma, onde havia nada além do paraíso das próprias memórias. Os Kobayashi em maioria tinham essa tendência, mas em doses diferentes. Cada um enxergava dentro de si e se fechava para o mundo de fora, de uma forma, de um jeito.
Hiro Kobayashi, que perdeu tudo pela guerra, uma guerra que ele mesmo nunca viu, mas sentiu, indiretamente, quando levaram os parentes, os vizinhos, e os filhos de amigos. Quando a fome cresceu e o dinheiro acabou. Quando os portos fecharam e a viagem para a América tornou-se clandestina. Passaram quase cinco meses no mar, comendo cebola em conserva e farelo de milho. Fubá, era como chamavam. Hiro Kobayashi tinha só onze anos quando atravessou um oceano inteiro até chegar em Minas. E uma vez, uma fatídica vez, quando ensaiava uma vida a si mesmo, próximo dos dois amigos, num bar infame de uma juventina escandalosa, bebendo cerveja e saquê, ele falou:
“Não sei. Talvez a guerra esteja dentro de mim”
E Hama Kumar puxou-o pelo punho da sua melhor camisa branca e o fez sentar-se novamente.
“Tem que parar com a bebedeira Kobayashi. Estás parando de fazer sentido cada dia um pouco” Rui Tilena, que era italiano em parte, achava engraçado quando os amigos se provocavam, pois era um pior que outro. Sempre o sujo que fala do mal lavado.
“E o Ham Ham aí pensa mesmo que está na posição de fazer julgamentos, ah não nesse estado, meu amigo” e ele mesmo soluçou “E eu mesmo solucei. Brindamos mais um bom dia. Tudo caminha para o fim dos filhos da puta lambe-rabo de Hitler, rapazes.” e eles de fato comemoravam um avanço para o fim da segunda guerra, promovido pelos soviéticos em apoio dos franceses. “Disseram que vão mandar mais pracinhas, agora para Itália. Montecastelo.” Rui observou o copo de cerveja com certa tristeza, os amigos o rodearam “Diz meu avô que é uma cidade esplêndida. Pena que não poderemos conhecer enquanto não terminar essa bendita guerra.” ele suspirou.
“Seu avô é muito mentiroso. Montecastelo deve ser um puteiro sem eira nem beira. Meu pai diz que a Europa inteira é uma merda” Hama respondeu, bebendo um pouco desconfiado. Hiro cuspiu a cerveja com a risada que soltou, um detalhe que ele fez questão de anotar nos seus diários, o que me fez rir também. “E não vale falar que a opinião dele não conta por ser indiano. A Índia não é uma merda, mas a merda dos europeus merdearam a vida indiana” merdearam. Hiro tinha certeza que aquela palavra não existia. Hama era mestre nisso, na arte de inventar verbetes e jeitos “Hama” de se expressar. “E você, Kobayashi. O que achava do Japão?” Hiro lembrou-se da fome, das casas vazias, dos mortos, do sangue, das bombas, do irmão. Sua maior dor era saber que havia muito mais do seu país do que aquilo que a guerra havia enclausurado em seus pensamentos, mas havia cortado por completo os laços com a verdadeira felicidade das suas lembranças. E tudo que restava era medo e angústia. Ele engoliu seco e forçou um sorriso.
“Era igual a qualquer lugar”.
E foi assim que ele se referiu toda vez que lhe perguntavam.
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