Talvez a Guerra Esteja Dentro de Mim
2 02 - Davi, de Minas

Meu coração quase saiu da boca com a vista. A primeira coisa pensei era que se tratava de um castelo medieval recolhido sobre um monte, negro, gigantesco, imponente no horizonte plano que lhe rondava. Mas era reto, reto demais para um castelo, que é cheio de torres e chaminés. Era reto, reto feito uma tábua de passar, feito uma mesa, feito um tabuleiro de xadrez. E não era só alta, era larga, com quilômetros e mais quilômetros se projetando para os lados, roubando para si toda grandeza do planalto. Ainda estávamos há pelo menos dez quilômetros de distância e o monte já era a única coisa que se via no horizonte. De seus cantos lisos, estreitos, subiam fileiras de escadarias naturais, que, na realidade, eram caminhos de mata que rondavam o “tabuleiro”, que era como os moradores da região chamavam o monte. As matas de passagem desembocaram nas densas matas que cobriam a estranheza mágica do monte e levavam, eventualmente, ao topo, onde uma nascente bem no centro da mata deu origem a um lago, que desaguava em treze cachoeiras ao redor dos paredões do monte.
Era esplêndido.
一 Professor, devemos seguir. A cidade não está longe agora 一 Benito, que era um peão a mando de meu amigo, o barão Lacerda, me acompanhava da cidade vizinha até a municipalidade de Carmo dos Perdidos, que havia surgido (Ou se perdido) na região próxima ao monte, envolta na mata por todos os lados, inacessível a não ser por uma estrada de terra antiga. 一 Logo menos anoitece. Dentro dessas matas tem todo tipo de coisa. E não tem nada perto por pelo menos vinte quilômetros.
一 Que reconfortante 一 respondi, meio irônico. Havia aceitado o convite do barão, pois após meu mestrado sobrevivia de uma bolsa de pesquisa financiada pelo governo, que era, bem, quase nada. Dava para pagar um quarto de pensão em Beagá, onde passei a morar após concluir a faculdade.
Sou formado em história, especializado no estudo da imigração de grupos étnicos asiáticos para o Brasil, dentre o século dezenove e vinte. Havia sido informado pelo coronel Lacerda que Carmo dos Perdidos, cidadezinha no norte de Minas, escondida por rios, matas e cachoeiras, sob os pés do grande tabuleiro, havia sido refúgio de japoneses, judeus alemães, indianos e todos os estrangeiros que chegavam ao Brasil pelo Porto do Amparo, numa baía capixaba, e atravessavam o Espírito Santo até chegar em Minas pela estrada dos vinténs, a mesma que estava tomando. Conheci o coronel numa palestra acadêmica em Belo Horizonte, onde discutimos o destino das megapolis, as hipercidades, como chamávamos São Paulo, Rio de Janeiro e, eventualmente, Belo Horizonte, que tornavam-se tão poderosas, muitas vezes mais que alguns países do exterior.
一 Foi isso que atraiu os migrantes, a certeza de que mesmo a mais pequena das capitais do Brasil era maior que seu próprio país 一 o coronel Lacerda me afirmou aquela vez, quando contou que também se interessava pela temática, pois era ele mesmo descendente de judeus alemães 一 Meu avô contava que vieram em um enorme barco, cinquenta judeus. Quarenta deles ficaram ali pelo porto, os outros dez tomaram a estrada dos vintens e chegaram em Carmo dos Perdidos quando tudo ainda era mato.
一 Os judeus chegaram pouco antes dos japoneses em Carmo dos Perdidos 一 o professor Valter completou, enquanto segurava os cotovelos, pensativo. Ele era um senhor alto e calvo, muito erudito, amigo próximo do coronel Lacerda. 一 Quando estive lá pude conhecer a comunidade que construíram. Yuzu.
Toda aquela conversa não estava me interessando, pelo menos não até a menção dos japoneses. O professor Valter era um sujeito meio enfadonho e repetitivo, enquanto o coronel Lacerda cheirava a privilégio e nepotismo. As conveniências da vida me obrigavam a tomar uma atitude comum, ser educado e parecer sempre interessado, mas, no fundo, só queria voltar logo pra casa e me enfiar debaixo das cobertas. Odiava a vida metropolitana por esses lados de Beagá. Tudo era tão vazio, branco.
一 Japoneses? 一 questionei, curioso. O coronel assentiu com um sorriso 一 Nunca soube de comunidades japonesas em Minas. Pelo menos não em um número considerável para se tratar como uma comunidade, devidamente.
一 Bem, eles se estabeleceram muito bem em Carmo dos Perdidos, pois era distante de tudo, inclusive da guerra que, para alguns, era a mais dura e cruel realidade, mesmo estando do lado errado da coisa 一 o coronel contou, pensativo. Ele usava um chapéu escuro, como uma cartola, e uma camiseta branca elegante. Era um sujeito de bigode, com uma expressão gentil 一 Eu conhecia uma família, na verdade, conheci um sujeito, que contou a história de uma família. E foi uma coisa tão surpreendente e tão impensável, que eu duvidei, imensamente, pensei que esse sujeito estava me tomando por imbecíl. Mas então… Ele me apresentou a provas incontestáveis de uma história fascinante, mas extremamente triste, que envolvia a guerra, mesmo tão distante dela 一 ele contou, como se pretendesse atrair minha atenção, o que ele conseguiu, com facilidade, pois tinha uma voz de tenor e um tom de sábio grego, filosófico e harmonioso, como um pai que sabe conversar com os filhos, o que, eu mesmo, nunca tive 一 Eurico Baum Lacerda 一 ele me estendeu a mão. E só então pude ver uma certa sagacidade de raposa nos olhos do coronel, como uma ganância silenciosa, preterida, no fundo de seu âmago.
一 Davi Camilo. Pode me chamar de Davi mesmo 一 apertamos as mãos e selamos nossa amizade. Tinha acabado de completar vinte e três anos. Havia me formado há três e estava concluindo minha dissertação de mestrado sobre as migrações estrangeiras no estado de Minas, investigando, especialmente, o caso do Porto de Amparo e da estrada dos Vintens. O professor Valter era meu orientador desde a graduação e me arrastava para todos os congressos possíveis de Belo Horizonte para mostrar minha pesquisa e se exibir como um pavão. 一 Essa cidade, Carmo dos Perdidos, já havia ouvido falar nela. É um dos pontos da Estrada dos Vintens, o último antes de deixar minas e chegar na Bahía. É bem perto daquele…
一 Tabuleiro. Monte do tabuleiro, ele mesmo 一 o professor Valter completou, certo 一 Gigantesco. Um dos mais altos picos do Brasil, com uma extensão plana do tamanho de uma cidade, toda coberta de mata e nascentes. É um dos lugares mais bonitos do mundo, se me permite dizer, não me surpreende ter sido escolhida pelos japoneses como casa.
一 Davi de onde? 一 o coronel questionou. Abri um meio sorriso, meio desconfiado daquele jeito paternalista exacerbado.
一 De Assis 一 respondi. Ele acatou meu cumprimento e me contou mais sobre Carmo dos Perdidos e Yuzu, que, apesar da distância de outras cidades, pois se isolava na mata que rodeava o Monte do Tabuleiro, era bem rica e desenvolvida culturalmente por conta do turismo, bem como das plantações.
Engoli seco. O professor Valter serviu uma dose de uísque para cada um de nós, que nos sentamos ao redor de uma mesa de centro cheia de livros e revistas velhas.
一 Comprei um imóvel abandonado em Yuzu no último mês. Estava fechada pra mais de dez anos 一 o coronel Lacerda se reclinou no sofá e bebericou o uísque, pensativo 一 Comprei ele da porta pra dentro, então veio a casa e tudo que tinha nela. Encontramos uns móveis velhos, a maioria comida por cupim. Mas encontrei também um baú, escondido dentro de uma escrivaninha, cheio de ervas perfumadas e cristais de sal grosso que impedia o mofo e as pragas, como barata, traça e cupim.
一 O que tinha no baú? 一 questionei, curioso. O professor Valter trocou um olhar com o coronel Lacerda.
一 Ossos. Um saco de ossos humanos e um diário antigo. E eu tenho certeza que esse diário não é filho único 一 ele respondeu, pensativo. Eles perceberam meu arquejo de surpresa, mas não pareciam se incomodar com isso, como se esperassem. Suspirei, meio sem palavras, e bebi um pouco de uísque para ganhar coragem.
一 E de quem são esses ossos? 一 questionei. Eles trocaram olhares.
一 O diário pertence ao principal personagem da mais famosa lenda de Carmo dos Perdidos. Hiro Kobayashi é o nome dele. Era um moço japonês, que chegou no Brasil em 1935, com dez anos, fugindo da guerra. Em 1945, com vinte anos, ele voltou para lá, segundo a história que contam 一 o coronel Lacerda contou, observando minha curiosidade 一 Mas..
一 Perdão, mas eu não entendo o porquê estão me contando isso. Qual interesse de vocês nesse baú? Deviam enterrar esse diário com os ossos do dono 一 foi tudo que eu consegui dizer, aflito. Sentia tremores por toda extensão do meu corpo, uma eterna sensação de vazio.
一 Aí que está. Não sabemos se esses ossos são de Hiro Kobayashi 一 o professor Valter contou, convicto, o que me fez erguer uma sobrancelha. 一 Hiro se tornou uma lenda em Yuzu, quase um santo, uma personalidade histórica de Carmo dos Perdidos.
一 Se não são de Hiro, de quem são? 一 questionei. O coronel deu de ombros, confuso e trocou olhares com o professor Valter.
一 O que nos diz a história contada pelo boca-a-boca dos antigos, é que Hiro Kobayashi chegou a sua cidade natal em Julho de 1945. O grande problema, meu caro professor, é que um mês depois ela foi bombardeada pelos americanos 一 o coronel Lacerda contou. Arregalei os olhos com o susto e quase deixei o copo de uísque cair. Engoli seco, surpreso. Naquele instante, uma centena de imagens da grande guerra tomaram minha mente, numa explosão de pensamentos e imaginação de tudo aquilo que já vinha estudado, mesmo algumas que, em parte, não pareciam minhas, mas que acompanharam as demais feito fossem. Desenhei nas minhas lembranças uma ideia da bomba, relembrei de fotografias que encontrei enquanto pesquisava e lembrei de um vídeo sobre Hitler que havia visto numa aula de história da segunda série. Engoli seco. 一 Hiro Kobayashi e sua família viviam em Nagasaki antes de se mudarem para Minas Gerais. Ele foi o único “brasileiro” a morrer vítima da bomba atômica.
一 Mas ele era japonês. O senhor mesmo disse que ele chegou ao Brasil com dez anos 一 afirmei, tentando dissociar da temática. O coronel Lacerda deu uma gargalhada, recostando-se uma prateleira cheia de livros.
一 Exatamente 一 ele se levantou e caminhou até mim, carregando consigo um livro surrado com a capa feita de fibras de algum material orgânico, como folhas ou flores. As páginas, milhares delas, estavam repletas de anotações, num português agarrado, mesclado com inúmeros desenhos, pinturas, flores secas, objetos dos mais variados tipos e várias fotografias. Encontrei uma delas solta bem no meio, nela, três rapazes se abraçavam diante de um glamuroso cinema. O do meio tinha olhos estreitos e cabelos escuros, usava uma boina e um paletó adornado com um minimalista bordado de flor, com bermudas curtas e suspensório. Era mais alto que os amigos e passava uma sensação de respeito e amizade. Ao seu lado esquerdo havia um outro rapaz, de pele marrom e traços muito lânguidos. Cabelos lisos num topete, nariz fino e sorriso branco, trajando uma camisa sem paletó, com a gola ao redor da garganta. Do lado direito havia um sujeito meio bronco, forte e insidioso, com cabelos claros encaracolados e sardas no rosto redondo. Usava uma camiseta listrada, com suspensórios e uma boina para trás. 一 Hiro Kobayashi, nosso herói lendário, e seus melhores amigos Hama Kumar e Rui Tilena. Esse é o primeiro diário de Hiro. Além dele podem existir outros. Mas só com ele, uma parte nebulosa da história nos foi esclarecida: Hiro Kobayashi, diferentemente do que conta a lenda, não nasceu no Brasil, mas chegou aqui com dez anos de idade.
Murmurei um demorado “hum”, observado pela dupla de senhores diante de mim e tomei o diário com certa desconfiança, analisando as páginas com cuidado;
一 Imagino que uma lenda como a de Hiro deva ser importante pra história e cultura de uma cidade 一 afirmei. O coronel Lacerda assentiu, com uma expressão curiosa, como se, finalmente, tivesse entendido seu ponto.
一 Muitas coisas em Carmo dos Perdidos foram criadas com base na história dele. Junto do monte do tabuleiro e das cachoeiras, se tornou quase nosso cartão postal. Temos um dia só para lembrar da memória deles, pelo menos os japoneses de Yuzu criaram esse dia, que acabou se tornado parte da cidade. Dia 6 de agosto 一 ele contou, pensativo 一 Foi o dia que a bomba atômica dizimou Nagasaki e, possivelmente, Hiro Kobayashi 一 ele se reclinou sobre o diário e apontou um desenho de Hiro, era a paisagem da cidade vista de cima do monte do tabuleiro, desenhada com detalhes sublimes e encantadores 一 E além dos diários, há os ossos. Não sabemos de quem são, mas a primeira suspeita é de que sejam dele mesmo, afinal, estava com seu diário. Mas se forem realmente os ossos de Hiro Kobayashi…
一 Toda sua cidade foi construída sobre uma mentira 一 afirmei, sem papas na língua. O coronel assentiu, meio entristecido, e professor Valter se colocou diante de nós 一 Não entendo meu papel no meio de tudo isso.
一 Você é um pesquisador brilhante, Davi. Se tornou mestre, professor e agora caminha para se tornar doutor. Não confiaria em ninguém além de mim mesmo pra indicar nesse trabalho. Só você 一 o professor Valter concluiu. 一 Precisamos descobrir a verdade sobre Hiro Kobayashi e Carmo dos Perdidos, mas de uma maneira discreta, sem alardar as pessoas. Alguns tratam Hiro como santo. Fazem orações, oferendas, atribuem milagres. Imagina só o choque de se descobrir que nada do que conhecem sobre sua história é verdade.
Engoli seco.
一 E claro, vou oferecer pessoalmente uma boa quantia para financiar sua pesquisa 一 o coronel afirmou, sorridente 一 Enquanto estiver em Carmo, pode se hospedar na minha fazenda. Só vivemos eu, meus filhos e minha esposa, Dinorá.
Era a oportunidade de uma vida, o professor Valter me contou quando estávamos sozinhos. Havia algo estranho em tudo aquilo, mas, de fato, não podia deixar passar uma oportunidade como aquela, afinal, não é sempre fácil para os pesquisadores nesse país. Combinamos os detalhes da pesquisa nos dias que se sucederam. Não tinha ninguém para me despedir a não ser minha senhoria, dona Petúnia, que era uma senhorinha meio surda, mas muito gentil, que me alugava uma kit-net agradável por um preço mais agradável ainda. Saindo de lá para partir para a estação, ela me pediu para tomar cuidado e disse que eu levasse Deus comigo pela viagem. Agradeci e disse que voltaríamos a nos ver em breve.
Quando cheguei em Carmo dos Pedidos, após quase quatro dias de viagem de ônibus e carro, pela estrada dos Vintens, meu coração quase saiu pela boca com a vista. Era tudo muito mais bonito do que eu podia imaginar. E a surpresa maior foi descobrir que não somente Hiro Kobayashi havia se tornado uma história lendária e nebulosa na cidade, mas que haviam, ainda, muitas pessoas e personalidades, cujas histórias se cruzaram eventualmente entre os caminhos que levam à cidade dos perdidos. Havia sido contratado para contar a história, a história perdida de um rapaz perdido. Havia descoberto que, naquela cidade, de certa forma, todos estavam perdidos. E com o tempo, percebi que meu dever era o mais fugaz e literal possível: o de descobrir, conhecer e contar suas histórias, para que, de perdidos, se tornassem conhecidos, como personagens da história brasileira que eram.
E foi nesse mesmo caminho da vista esplendorosa, que nos tira o fôlego, que encontrei, entalhado num jatobá gigantesco, a curiosa assinatura, seguida do desenho de uma suástica, rabiscada inúmeras vezes pelas pessoas que haviam atravessado o caminho antes de mim. Estava escrito:
Pitã.
一 Quem é esse? 一 perguntei à Benito, que terminava de ajeitar a roda do carro preto do coronel. O motorista de olhos escuros e cabelos raspados observou, curioso.
一 Pitã Satã 一 ele ergueu os olhos para mim, pensativo 一 Foi um maluco que morou por esses lados muitos anos atrás.
一 Por que ele era maluco? 一 questionei. Benito riu.
一 E precisa de razão? Tem gente que é e pronto 一 ele respondeu. Mas eu não concordava. E essa curiosidade me perseguiu tanto quanto a de descobrir que fim havia levado Hiro Kobayashi.
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