A música eletrônica alta irritava meus ouvidos, enquanto eu andava pelas pessoas que dançavam e conversavam na festa, tentava passar pelo mar de gente com tanta dificuldade que acabei derramando uma bebida alcoólica qualquer que minha amiga, que já estava bem longe do meu campo de visão, tinha me dado logo que cheguei.Segui para o banheiro o mínimo que podia fazer era parecer decente, não que eu queira ficar com qualquer cara daqui, mas também não quero ficar parecendo uma maluca. Finalmente no banheiro pude olhar bem no espelho e o que olhava de volta para mim, era uma garota de olhos castanhos escuros e longos cabelos pretos e cacheados nas pontas, rosto redondo e corpo no tipo violão, de altura média e uma fantasia da chapeuzinho vermelho ou melhor minha ancestral. A maquiagem do meu rosto continuava intacta, o vestido que eu usava era na verdade uma blusa tomara que caia com um corset marrom que estava quase me matando, uma saia godê também marrom, meias ¾ e um salto preto, mas o mais importante era a longa capa vermelha com alguns bordados dourados no final que estava amarrada em meu pescoço. Essa não era a original, já que a verdadeira estava no museu da cidade, era só uma réplica que foi passada de geração em geração para ficar no lugar da outra. Faziam anos que ninguém usava ela, então eu acho que não ia fazer nenhum mal eu pega-la para dar um toque especial no traje.

As batidas na porta me tiraram dos devaneios sobre minha aparência, coloquei o capuz sobre minha cabeça e saí liberando o local para quem precisasse, voltando para a bagunça que estavam os outros cômodos do chalé. Ando mais um pouco procurando um rosto amigável no meio de vários menores de idade bêbados, enquanto vagava sinto alguém esbarrando em mim , olho para trás pronta para xingar a pessoa que não teve nem a educação de para pedir desculpa, mas vejo apenas um cara alto completamente de preto e uma máscara de lobo, não que isso seja uma decisão completamente segura, mas de qualquer jeito eu resolvi segui-lo, o que acabou me levando lá para varanda que dava para a floresta.

Ele continuou andando em direção à floresta escura, eu pensei duas vezes em continuar com essa ideia, mas ao ver ele quase desaparecendo entre as árvores, fui logo atrás, a provável explicação pra essa atitude idiota era os copos álcool que eu havia bebido e são por esses e outros motivos que menores de idade bebendo são uma má ideia.

Cada vez ficava mais difícil de segui-lo pela floresta e a única opção era tirar os sapatos ali mesmo e continuar, foi o que fiz e logo voltei ao alcançá-lo só que agora, com os pés livres.

Já andava a tanto tempo que podia ver as luzes de Evertown sem dificuldades, nesse momento que deixei de olhá-lo o “lobo” some de vista deixando-me sozinha em uma floresta escura, assustadora, desconhecida, e infelizmente ou felizmente a única opção era voltar sozinha com grandes chances de qualquer monstro aparecer para me matar, enquanto estou indefesa.

Me virando para voltar para a festa me deparo com ele atras de mim e com o susto recuei,foi quando ele começou a seguir em minha direção o que me fez continuar a caminhar de costas para a cidade.

Olhando para os lados a procura de um caminho para fugir , vejo que não estávamos sozinhos, haviam mais pessoas vestidas como ele, então uma sensação de pavor e desespero se instalaram em meu corpo , não sabia o que eles poderiam fazer comigo e nem não queria descobrir.Não pensei duas vezes em começar a correr na direção contrária e já com a adrenalina correndo pelas minhas veias, eu seguia em rumo à cidade o mais rápido possível,até que eu senti um puxão na minha capa, antes de qualquer chances deles me alcançarem eu a desamarro e continuo ofegante para salvar minha vida.

Quase chegando na cidade, eu os vejo parados e enfileirados enquanto o do meio segurava próximo ao seu corpo a única coisa que sobrava da minha herança. Pulei a pequena cerca de metal que separava a floresta da estrada e segui para o departamento de polícia que era perto, chegando lá, o policial me segurou antes que eu pudesse cair no chão, de tão ofegante , ele pediu que me acalmasse e contasse o que havia acontecido. Depôs de tudo devidamente explicado, ele me disse que iria atras das pessoas que fizeram isso e que já tinha ligado para minha mãe vir me buscar. Quando minha mãe finalmente chegou eu corri em sua direção para abraçá-la e e caí em prantos, ela me segurava bem forte mostrando toda sua preocupação comigo e seguimos para casa. Chegando lá eu não pensei em nada e fui apenas para o quarto da minha mãe dormir ,tentar dormir mas nada adiantava, eu virava de um lado para o outro e o sono não vinha.

Talvez o melhor que eu pudesse fazer agora seria tomar um banho, fui para o meu quarto procurar uma muda de roupas qualquer e depois segui direto para o banheiro. Enquanto eu sentia a água caindo pelo meu corpo uns leves barulhos vinham do meu quarto, talvez fosse minha mãe trancando as janelas de casa, já de banho tomado e roupa trocada segui para o quarto da minha mãe, entrando enquanto eu ainda lembrava de tudo q aconteceu e tentava tirar algo de bom desse encontro macabro, fiquei em choque ao perceber, que diferente do que eu imaginara, mãe dormia calmamente em sua cama.

Deixei as roupas que estavam na minha mão caírem no chão e fui pegar o abajur da cabeceira para me defender, com as pernas tremendo e o medo sendo a única coisa que eu sentia ,eu segui para meu quarto no fim do corredor.

Respirando fundo eu abri a porta lentamente e encontrei o quarto em um completo escuro e a única luz era do poste que vinha da janela aberta, acendi a luz do quarto para dar pelo menos uma pequena chance de me defender, mas a única coisa que eu vi foi uma carta no meio da minha cama, deixei o abajur com cuidado no chão e peguei a carta com minhas mãos tremendo, abri-a e li “Você esqueceu algo comigo, vou deixar na frente da sua casa :)”.

Corri para a cozinha e peguei uma faca e segui para a porta da frente com o resto coragem e dignidade que ainda me restava.

Em frente à porta eu a abri rápido e logo olhei para baixo vendo apenas meus sapatos, e o meu desespero aumentou pois eu achei que ele devolveria minha capa e não os sapatos. Voltando meu olhar pra frente,lá estava ele acenando para mim com só metade da máscara em seu rosto e um sorriso, não pensei nem duas vezes e voltei para dentro de casa e tranquei a porta.

Depois disso eu só lembro vagamente da polícia aparecendo aqui e eu tendo que dar outro depoimento, mas nada que ele havia deixado para continha alguma digital, o que dificultou ainda mais a minha situação.

Os anos se passaram e nada de achá-lo, logo o caso esfriou e tudo que eu podia esperar é que talvez um dia ele voltasse pra terminar o que começou.