Take me to church

4 Cap. 4 - Deus irá me justificar?


O dia estava normal. Como sempre nos intervalos entre as aulas eu ia para as escadas e enquanto o pessoal do devocional não passava para fazer o devocional, eu ficava conversando com meu amigo Rafael (Devocional é um momento do seu dia no qual você tira para meditar em uma passagem bíblica, falar sobre Deus ou Jesus. Pode-se fazer individual ou em grupo).

Ele era aquele tipo de crente inconstante, sempre na igreja mas quando estava fora dela ninguém dizia que ele era evangélico. Não o culpava pois sabia das minhas guerras internas e o quanto de autocontrole eu tinha de ter para parecer certa a visão de todos, mas se não tivesse autocontrole seria igual a ele.

Mais uma vez ele estava me pedindo conselhos de como controlar os seus impulsos por garotas, de como se comportar fora da igreja, para ele eu era meio que uma conselheira espiritual. Fico meio tensa, ele me tinha como referência.

Respiro fundo olhando para baixo.

— Todos nós temos nossas guerras internas, basta você alimentar o seu espírito sabe? Ler a bíblia e tals e isso vai passar, seu desejo vai diminuir!

Acabo soltando um longo suspiro pois sabia como ele se sentia e esse conselho que eu estava dando era uma grande mentira pois as ações que eu tomava para fazer o certo só aumentavam a guerra dentro de mim sobre o que é certo e errado.

Por que rejeitar? Atualmente eu rejeitava apenas por medo do que as pessoas iriam dizer caso eu me desviasse.

Percebo que ele estava meio receoso.

— A Rebeca estava falando mal de você, ela estava dizendo que você era sapatão e que havia dado em cima dela. Mas não é nada confirmado, são apenas boatos.

Quase tenho vontade de vomitar,como assim dado em cima da filha do pastor? Ela ficou louca!?

Aquilo me desestabilizou de uma forma que eu não pude me concentrar nas aulas, tinha medo do que as pessoas iam pensar e na minha sala tinha pessoas que eram da mesma igreja que eu me congrego. Eu fiquei muito nervosa e foi quando tive minha primeira crise de ansiedade.

Só vinham pensamentos negativos em minha cabeça, eu me sentia um lixo. Agora meu objetivo maior era negar, negar o que no fundo eu era! Não por mim mas pelas pessoas, por minha mãe.

Naquele dia acabei indo na coordenação duas vezes para relatar os boatos e na segunda vez com pessoas que passaram a ser testemunhas do que ela disse e que suas amigas ficavam passando comentários maldosos durante a aula.
No dia segunte tudo que eu sentia era medo. Seria questionada sobre a minha religião, sobre quem eu realmente era e pedia para Deus me justificar pelos meus atos afinal, eu não fazia nada de errado. Tentava ao máximo ser legal com todo mundo.

Por que aquilo estava acontecendo?
Por que estava novamente sendo questionada sobre a minha sexualidade? Sendo acusada de sapatão quando eu fazia de tudo para negar?

Ao chegar na sala da coordenadora, ela explica (ou pelo menos tenta) para Rebeca que só por eu ter uns traços masculinos e não gostar de maquiagem não era obrigatório ser lésbica. Isso não definia a minha sexualidade.

E então ela fala que isso não dizia respeito a ela e para mudar de assunto ela começa a falar sobre a religião dela.

Suspiro

— Mas eu também sou evangélica. — Fico ofendida com o olhar dela para mim, um olhar de condenação.

A coordenadora volta ao mesmo discurso,então ser lésbica era um erro? Aparentemente era o que ela dizia, em nenhum momento ela colocou isso como normal ou comum.

Volto para a sala um pouco frustrada pelo fato de não ter acontecido nada, ao menos os boatos pararam. Claro que não foi graças a coordenação, mas sim, a alguns amigos que falaram para o resto da sala o que havia acontecido e as pessoas ficaram revoltadas dizendo que não importava, que eu era uma boa pessoa e boa aluna (diferente dela que já havia conseguido confusão com quase metade da escola).

Fico feliz por ter sido justificada por meus atos mas não foi Deus. E sim por pessoasnque analisaram a situação de forma lógica e ficando do lado certo.

Volto para casa incomodada por ter negado quem eu realmente sou mas no momento era a coisa certa a se fazer. Ainda não estava pronta, ainda não havia encontrado apoio ou um bom motivo.