Take me to church

1 Cap. 1- Brincadeira de criança


Notas iniciais
Boa leitura.

Nossos pais são complicados, não? As vezes fazem coisas sem razão e principalmente, se preocupam com a opinião das pessoas sobre os seus filhos lhe impondo regras baseadas em seu passado simplesmente porquê já fizeram muita merda na vida.

Sabe aquela mãe que já teve vários namorados e quando tem uma filha fica querendo fazer uma seleção (quase um concurso) para o rapaz que deseja namorar com sua filha? Pronto, a situação é bem parecida.

Toda criança quer ter uma justificativa para os feitos de um adulto, principalmente o porque de algo ser tão errado. Então pais, deixe-me falar um segredo, se vocês não disserem a vida vai dizer, as pessoas vão dizer e acreditem, será da pior maneira possível.

Sexto ano do ensino fundamental, novos professores. Não seria apenas um, aquilo me assustava, vários professores do sexto ano tinham fama de serem exigentes, não deixando os chamar de tio porque segundo eles já éramos pré adolescentes mas, tudo bem, eles davam justificativas para o que faziam e isso era o bastante.

Até o quinto ano não tinha muitas preferências a não ser estudar. Falava com todos e andava com todas as crianças. Brincavamos juntos de tica-tica, pula corda, policia e ladrão, boneca e eu sempre brincava de tudo (mas partucularmente não gostava muito da ideia de brincar de boneca).

Me lembro de quando as meninas iam brincar de boneca ou de casinha, eu ficava as observando sem entender, todos os dias elas faziam a mesma coisa e me olhavam feio quando eu estava a correr com os garotos. Parecia que elas tinham raiva por eu não cair ou não brincar muito com elas. Sabia que era diferente mas isso não havia ficado tão claro, ainda.

Ao chegar na sala todos estavam nervosos e ansiosos. Falavam sobre a professora de história, sobre o quão chata ela era ou seja, não deixava sair nem sequer um minuto mais cedo para o intervalo.

Falo com algumas garotas e vou conversar com os meninos, meu assunto sempre foi sobre super heróis, desenhos, Dragon Boll Z, Power Rangers, coisas rotuladas para meninos.

Eu sempre tinha uma opinião diferente das meninas, nunca quis ser a power ranger rosa ou a amarela, sempre admirei o vermelho por sua liderança.

Estava a conversar com meu amigo Rafael, estava perguntando ansiosa sobre o último episódio dos Power Rangers, eu não havia conseguido assistir porque minha mãe havia reclamado dizendo que eu estava com o mesmo jeito deles mas, que jeito?

E o pior, ultimamente eu estava tendo sonhos em que eu era um garoto por nome de Pipa e eu estava inserida no mundo dos Power Rangers. Não me importava em ser um menino (nos meus sonhos) porque quando estava andando com os meninos me olhavam estranho.

O ano se seguiu bem mas com claras diferenças. Sempre nos trabalhos ficava no grupo dos garotos (e gostava). Tinhamos assuntos em comum mas para minha infelicidade quando os professores escolhiam os grupos eles sempre me colocavam com as garotas alegando algo sobre "Conhecer novas pessoas", mas, não precisava conhecer outras "pessoas". Elas sempre falavam sobre os garotos, faziam brincadeiras relacionadas aos garotos e planos como casamento, filhos e eu não me via nisso. Não sentia nada.

Nas aulas de educação física sempre jogava futebol com os meninos e não me importava com os empurrões (isso até me incentivava), enquanto as garotas sempre ficavam sentadas conversando, brincando de batata que passa passa como se aquilo exigisse algum esforço físico.

Não me importava com o que pensavam, realmente não me importava com o que eles diziam até descobrir que minha mãe concordava com eles.

Estava andando com os meninos indo em direção a cantina. Não ligava para a minha forma de andar, achava normal, até que um dos garotos que não estava em nosso grupo gritou:

— Ana, deixa de andar com os meninos isso é coisa de sapatão!!

Paro de andar e os meninos formam um círculo ao meu redor.

—Deixe ela! Isso não é problema seu! -Falou um dos meninos do meu grupo.

Fico quieta, aquilo me deixou triste e confusa afinal, não sabia o que era "sapatão", nunca tinha ouvido aquela palavra.

Estava com vergonha de perguntar aos meus amigos, falo que tudo estava bem e vou para casa.

Momentos depois fico observando minha mãe ao chegar em casa, curiosa resolvo perguntar.

— Mãe o que é sapatão? — Perguntei enquanto a observava fazer as coisas de maneira estressada, não sabia porque ela estava tão estressada.

—É mulher que quer ser machão, que tem jeito de homem.

Falou de maneira brava, aquilo me deixou confusa e triste. No fundo não entendia por que aquilo estava acontecendo comigo. Não era um menino em compensação me sentia como um mas para as pessoas eu era uma menina e tinha que agir como uma.

Naquele dia não assisti Power Rangers, apenas fui para o quarto e peguei meu violão de brinquedo rosa.

"Afinal por que ele tinha que ser rosa? Por que tudo que tinha era rosa?" — Me pergunto sem entender.

Começo a tocar ficando feliz com os meus dedos deslizando pelas cordas, minha mãe se aproxima perguntando se eu estava andando com meninos.

—Sim mãe, eles são legais! Temos assuntos em comum, os desenhos..

Continuo tocando o violão.

—Mas eu não quero você andando com eles! Você não é menino! Você não é sapatão! — Ela vocifera. — Ouviu!?

Eu estava com medo, por que ela ficava tão agressiva? Só porque eu andava com meninos? Mas não tinha nada de errado!

Não a olho, fico olhando para o meu violão, era de plástico. Ela fica com raiva porque eu não a olhava e pega o violão quebrando-o no meio. Eu chorei, estava com raiva. Por que ela havia feito isso? Não entendia, eu não havia lhe respondido mal! Tudo porque eu andava com meninos?

Choro pelo violão mas no fundo estava chorando por não conseguir ser normal.

Notas finais
Obrigada por lerem, deixem seus comentários. ❤