Take me to church
2 Cap. 2 - Escolhas erradas
Notas iniciais
Depois daquele dia minha cabeça passou a ter várias perguntas do qual eu não tinha as respostas. O que não sabia é que logo as teria e estas guiariam quatro anos da minha vida.
A minha resposta foi a religião, a igreja. Ela me apresentou um Deus que me amava independente de qualquer coisa, com um porém, ela não me aceitava da forma que eu estava, ou seja, em um estado permanente de pecado.
Meio contraditório não é? Mas quando se dá esperança, amor além da aceitação para quem não a tem, isso basta, independente dos termos para conquista-la.
Aos doze anos eu aceitei a Cristo, com isso já sabia o peso de um "sim" porque junto com essa aceitação veio uma série de regras para agrada-lo e em troca ele me daria uma vida melhor porém, não foi bem assim.
Por estudar em uma escola particular e conservadora onde quem mandava era os pais por pagarem toda infraestrutura, você não via preconceito ou ao menos era isso o que eles diziam. Toda escola tem grupos e eu passei a ser do grupo religioso, então todos esperavam algo de mim. Esperavam o certo além de ter que manter toda uma imagem para escola e para os meus amigos, tinha de manter essa imagem de filha perfeita para minha mãe.
Quando alguma coisa dava de errado em minha vida a resposta era: Minha filha, não era da vontade de Deus!
Eu me contentava com isso porque em minha mente ele tinha o melhor pra mim, mas eu nunca estava 100% satisfeita e isso era consequência da minha carne pecaminosa que tinha desejos do qual eram contra a vontade de Deus. Então, eu vivia infeliz para fazer todos ao meu redor felizes e principalmente Deus, é claro. O ser benevolente que independente do que façamos ele sempre estará certo e terá uma boa justificativa para o que ele fez.
Eu vivia em uma corda bamba entre escolhas certas e erradas e ser lésbica não é uma escolha, você já nasce assim. Se eu tivesse essa ideia em mente naquela época teria evitado tantos traumas, tantas culpas, tanto peso sobre minhas costas.
Final de ano, nona série, último dia de aula. Estava indo a escola para pegar os resultados, sabia que havia ficado em recuperação pois em mais um ano, eu passava mais tempo na igreja do que em qualquer lugar. Não tinha tempo para estudar e nem tinha motivação para isso já que a igreja era mais importante.
Pais religiosos, não venham me dizer que vocês colocam o estudo em primeiro lugar na vida de seus filhos, vocês não colocam. Não querem perder o seu filho para o "mundo" (que já é do maligno).
Ao pegar o boletim já sabia do discurso, minha mãe tinha que brigar comigo na frente das pessoas para que elas soubessem que ela era uma mãe rígida.
— Você não devia ter ficado tanto tempo no celular! — Ela bradava. — Vai ficar sem celular!
Eu apenas assinto, não me importava, afinal, essa regra era velha. Se não for pra igreja, fica sem celular. A culpa é de qualquer coisa menos da igreja, menos do peso que eles impõem. O peso de ser santo como Deus é santo. O peso de buscar a perfeição.
Meu pai era bem ausente, a única coisa que importava para ele era se eu tinha sido aprovada então ele concordava com tudo que minha mãe dizia.
Ele aceitava a desculpa do celular por que ele não poderia culpar a religião, ele nem sequer tem uma religião, apenas vivi a vida. Para ele as escolhas erradas tinham consequências porque era algo natural.
Moralismo para mim tinha um conceito bem mais amplo e pesado, não era sobre ser certo e errado, não literalmente mas sim, sobre agradar a Deus ou não.
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