Take me to church
6 Quinto capítulo
Notas iniciais
Com o vestibular faltando apenas um mês e meio para acontecer, o ano escolar mais dois e, pensando positivo, nossa mudança programada para o ano que vem, eu estava a mil. Marco me ajudava a estudar todas as noites quando eu chegava do trabalho, todos os finais de semana que eu folgava eram dedicados a adiantar os trabalhos e pesquisar preço de apartamentos e Maringá, meu futuro lar e cidade onde fica a faculdade dos meus sonhos, UEM. Fazia algumas semanas que eu não via Alhena já que nunca mais havíamos nos esbarrado, mas ela ainda martelava na minha cabeça.
Assim que eu, Brida e Matheus fossemos aprovados no vestibular – convicção sim – nós quatro nos mudaríamos para Maringá, arranjaríamos um emprego, no caso eu seria transferida, alugaríamos uma casa confortável com o quintal grande para o Gus e sairíamos desse inferno.
— Você parece cansada – comentou Matheus quando encostei no seu ombro e tirei um breve cochilo no ônibus fretado até a feira de artes.
Soltei um suspiro cansado e me aconcheguei mais ao seu ombro enquanto ele me fazia um cafuné. O ônibus estava esperando os outros estudantes chegarem para partir, isso incluía os gêmeos e Brida, que ainda não haviam chego.
— Guardaram lugar pra mim, né? – Brida entrou no ônibus já com o olhar acusatório.
— Pensando no diabo... – para a minha sorte, ela apenas me lançou um sorriso, logo depois fez cara de assustada.
— Você esta acabada, dormiu essa noite? – como ela era gentil, não?
Quando ia responder a essa pergunta, os gêmeos entraram no ônibus sentando e Danillo puxou Brida para seu colo. Os dois me olharam no mesmo instante antes de dizer qualquer coisa.
— Caramba Terra, você parece cansada – Murrillo, como sempre, nada obvio.
— Dormiu essa noite? – Danillo completou. Apenas revirei os olhos e voltei ao meu cochilo no ombro do Matheus.
O balanço do ônibus enferrujado não era a coisa mais confortável para uma soneca exausta, mas o que eu poderia fazer? Depois que peguei no sono, só o balanço – meio agressivo – de Brida me despertou quando chegamos.
A feira de Artes era uma tradição nessa cidade, ocorria todos os anos no mesmo dia, e todas as duas escolas eram obrigadas a ir. Ano passado a atração principal foi uma banda de uma cidade vizinha que tocava Rock, os moradores moralistas ficaram tão chocados que sugeriram que não fizessem mais a feira, já que Rock não era coisa de gente decente.
Pelo menos eu beijei a vocalista.
Esse ano a atração se daria a uma banda que interpretava covers de banda alternativas, como Imagine Dragons, Marron5 e esse tipo de coisa. Os adolescentes estavam espalhados pelo espaço da praça onde ocorriam algumas oficinas de esculturas em papel e reciclagem, me admira que o prefeito não tenha proibido a musica aqui também.
Um pouco mais afastado dos stands, estava uma pequena feira de livros usados que, pela primeira vez estavam realmente baratos. Aquilo me chamou a atenção, me despedi dos meus amigos e me dirigi até lá.
Alguns dos títulos não me eram nada estranhos e eu colecionava no meu Kindle. Nos últimos meses não tive tempo nem de carregar a bateria dele, não tinha tempo para nada, e isso me intristecia um pouco.
Peguei um volume de um clássico histórico que estava na minha lista a um bom tempo e fui fazer uma busca por mais alguns. Enquanto eu examinava a sinopse de uma ficção sobrenatural adolescente senti aquele cheiro inegável se aproximndo.
E senti uma pontada no estomago. Ela estava ali, perto de mim, como se ela nunca tivesse saído da minha cabeça.
— Adoro essa autora – senti que ela espiava o livro que eu via pelo meu ombro, seu hálito fez cócegas no meu pescoço quase me fazendo perder os sentidos.
Me virei rapidamente e tentei não gaguejar quando falei, o que era quase inpossível levando em conta que essa garota desperta o mais nervoso de mim.
Abri e fechei a boca varias vezes seguidas, mas acabei por ficar quieta e dar um sorriso nervoso. Ela estava deslumbrante mesmo naquele uniforme cafona de saias até o joelho e camiseta branca que ainda obrigaram as meninas a usarem na escola. Em que século eles vivem?!
— Ora, ora. Vejam quem esta aqui...
Eu, que estava em chamas por estar tão perto de Alhena até aquele momento, gelei. Infelizmente eu reconhecia aquela voz, e isso não era nada bom. Guilherme Gonçalves, o garoto que havia dito em voz alta que “me faria virar hetero rapidinho” e me agarrara quando me encontrou na rua alguns dias depois do escândalo e eu já morava com Marco. “É só um garoto fazendo coisas de garotos” me respondeu o policial a quem eu recorri, e ainda me olhou com nojo e desprezo, me ignorando.
Por instinto puxei Alhena, que parecia confusa com a situação, para atrás de mim. Ele me olhava com desprezo, como se eu fosse algo que ele precisava provar ser capaz de ter. Aquele olhar me causava nojo e pavor.
O mesmo nojo que eu sentia toda vez que via o pai de Alhena.
— Terra, o que aconteceu? O Guilherme te fez alguma coisa? – a voz de Alhena estava próxima novamente do meu pescoço, e isso me deixou menos angustiada. Claro que ela conhecia aquele asqueroso, afinal eles eram da mesma escola. Aquilo me causou náuseas.
— Cuidado Alhena, ela vai te transformar em sapatão também. Serão duas que eu terei que curar.
Provavelmente Alhena se tocou do que se tratava, pois a única coisa que senti foi a sua mão tocando na minha. Aquilo foi simplesmente mágico, eu me senti protegida e aconchegada. Ela pegou na minha mão para que pudesse me levar para longe dali.
Com a mão dela na minha e depois do ocorrido meu cérebro não processava nada, só me toquei que estávamos e algum lugar afastado quando ela me balançou chamando pelo meu nome. Seu olhar era um pouco aflito e preocupante. Quando recuperei meus sentidos e percebi que não estávamos mais na praça, mas sim em um lugar com paredes, que eu consegui formular alguma frase.
— Não quero falar sobre isso.
Ela me guiou até um sofá sem braços que estava no canto de uma das paredes. Era um lugar pequeno, com uma penteadeira, um sofá e um frigobar.
— Estamos na cochia da banda, você esta segura aqui, se acalme.
Olhei para baixo e percebi que ela ainda segurava a minha mão, e eu estava tremendo.
— Terra, olha para mim! – ela pegou o meu rosto, me fazendo ficar frente a frente com o seu – Você precisa se acalmar.
Ver ela assim, tão perto. Aquela imensidão castanha dos seus olhos eram demais para que eu não esquecesse qualquer coisa e me perdesse. O seu perfume ficava cada vez mais convidativo, e os seus lábios... o que dizer daqueles lábios?
Eu estava alternando os olhares entre os seus olhos e seus lábios, eu não tinha controle sobre eu mesma, a única coisa que eu sabia era que eu precisava daqueles lábios nos meus. Naquele instante a frase de Guilherme martelava na minha mente “ela vai te transformar em sapatão também” e mesmo assim ela não havia me deixado a mercê dele.
Me afastei de supetão, provavelmente assustando-a. O que merda que estava fazendo?! Eu estava prestes a beijar Alhena Cardoso? A filha do pastor? Queridinha das famílias que comandavam a cidade e conhecida pelo seu exemplarismo?!
A filha dele?!
Que caramba você tem na cabela, Terra?!
Ou eu estava pensando em beijar a garota que foi doce comigo na livraria, me receitou um remédio e vitaminas? Que voltou até o caixa mesmo com as compras paga e lembrou de perguntar se eu havia melhorado?
A garota que me tirara de perto de Guilherme e me trouxera para um lugar seguro, preocupada comigo?
— Eu preciso sair daqui – falei, sem me virar para ver sua reação e procurando a porta.
— Qual a porra do problema Terra?! – dei um pulo de susto, ela havia mesmo dito “porra”? – Você não vai a lugar nenhum até estar bem.
A essa altura eu já havia localizado a porta e estava caminhando até ela. Eu não queria, de jeito nenhum, que ela pensasse que sou uma mal agradecida. Mas se eu continuasse sozinha com ela, a probabilidade de eu tentar beija-la era infinita, e isso não seria bom para nenhuma das duas.
— Você não entende Alhena, não entende! – quando alcancei a porta, com o coração na boca. A porcaria estava trancada.
Respirei. Respirei. Fechei os olhos e tentei pensar em coisas que não fossem os lábios de Alhena ou o som da sua voz. Ela deveria estar me achando uma louca, surtada. Minha mente dava giros, e eu não conseguia processar nada alem de sua boca. Sua voz. Seu cheiro. Nada que não fosse dela.
Senti uma pressão das minhas costas contra a parede e percebi que Alhena me escurralara contra a porta, fazendo com que eu olhasse diretamente para seus olhos. Aquilo não era fácil.
Eu não conseguia raciocinar, a única coisa sensata que me ocorreu foi desviar o olhar, o que foi completamente inútil já que ela segurou meu rosto para que eu a encasasse.
Já se sentiram sem poder algum? Era assim que eu me sentia, não tomava mais minha decições e meu corpo agia por ele mesmo, sem se preocupar com o que aquilo causaria.
Encarando seus olhos, me aproximei lentamente cada vez mais. Eu jogava comandos para o meu cérebro de que isso não estava certo, mas ele só me ignorava.
Alhena não se afastou quando percebeu o que eu iria fazer, e essa era a minha ultima esperança.
Quando meus lábios tocaram os seus, senti algo que eu nunca havia sentido. Nenhuma de nós duas se moveu, mas eu não me moveria nem se eu quisesse, já que meu corpo estava em êxtase e naquele momento nada mais importava, nada mais me importava. Eu me sentia quente, acolhida e... Encaixada. Eu me sentia elétrica e calma, mágica e normal.
Mas que diabos Terra?! Que porra você esta fazendo?!
Ali, aqueles milésimos de segundos de deleite do momento mais mágico da minha vida haviam ferrado com tudo.
Me afastei dela de supetão quando percebi a burrada que eu estava fazendo, a única coisa que vislumbrei foram seus olhos arregalados e surpresos antes de eu voltar, mesmo que inutilmente, a tentar abrir a porta.
Foi tudo tão rápido que eu não sei se lembro nem a seqüência, mas milésimos depois os lábios dela estavam novamente nos meus, dessa vez com agressividade e urgência. Esse era o momento que eu não respondia mais por mim, minhas mãos foram até a sua cintura quando inverti as posições e a prensei contra a parede, e quando senti suas mãos na minha nuca agarrando meus cabelos mandei para inferno qualquer restigio de juízo que eu ainda tinha. Ela era a minha perdição, e quando sua língua se chocou com a minha eu sabia, ou eu queria pelo menos, que só aquilo importasse. E naquele momento só aquilo importava.
Quando uma inconveniência chamada oxigênio nos separou, vi como ela ficava mais linda ainda com o cabelo bagunçado e a boca inchada. Nós duas respirávamos com dificuldade, e pela sua feição ela estava tão atordoada quanto eu.
Não sei quanto tempo ficamos encarando uma a outra, mas se ele estava sentindo-se tão mágica quanto eu, eu deduzo que foi muito.
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