Notas iniciais
Espero que gostem :)

Dois meses, dois meses desde aquele beijo. Dois meses que não nos vemos.

Agora eu estava aprovada na universidade dos meus sonhos, procurando um apartamento para dividir com os meus amigos que também haviam passado, me esforçando para terminar o ano letivo e economizando cada centavo. Eu me sentia realizada! Em dois meses eu estaria na universidade dos meus sonhos com meus amigos e nunca mais colocaria os pés nessa cidade. Nunca mais escutarias piadinhas enquanto eu caminhasse na rua, ou ninguém desviaria o caminho de mim. Não me olhariam desse jeito. Não me tratariam assim.

Acima de tudo, eu nunca mais passaria perto daquela igreja.

Nunca mais veria ele

Mas...

Como tudo na vida tem um “mas”, o meu “mas” era Alhena. Eu a ignorei, não atendi ou retornei suas ligações e ficava fora do seu ponto de vista, e como aquilo doía.

Naquele dia, nenhuma de nós duas apareceu na feira exceto para retornarmos para os ônibus fretados, no caso de Alhena, uma van com ar-condicionado e frigobar. Aproveitamos cada segundo o camarim da banda até que ela voltasse do show e depois nos despedimos, foi a ultima vez que falei com ela.

Eu estava mais do que acabada, se eu dormisse 4hras por noite estava no lucro! Se não existisse base, minhas olheiras estariam assustando criancinhas por ai. Usar e abusar das horas extras, entregar os trabalhos em dia, procurar um apartamento, verificar se as vacinas do Gus estavam em dia e... passar a noite inteira pensando naquele dia, em como me senti completa e nada mais havia importância.

Brida me olhava estranho, mas os outros estavam normais, afinal eu sempre estive com essa cara de morta.

Eu achei melhor não procurar por Alhena. Aquilo havia sido um erro, e mesmo que tenha sido um dos momentos mais mágicos da minha vida, eu sabia que era errado. Que era perigoso.

Agora, quando eu ia para o trabalho preferia pegar o ônibus que dava a volta, pois assim não passaria em frente ao colégio e não correria o risco de vê-la, aquilo seria demais para mim.

— Quer que eu te busque hoje? – Marco estava com uma voz horrenda de sono do outro lado da linha, obvio que eu não o faria vir me buscar.

— Não, durma, você precisa mais do que eu – respondi com um desprezo brincalhão na voz. Eu tinha certeza que ele havia revirado os olhos antes de finalizar a ligação.

— Você fecha o caixa hoje, Terra? – Julio, um dos caixas que parecia tão exausto quanto eu me perguntou, quase com o olhar suplicante.

— Vá logo antes que eu mude de ideia.

Quando dei por mim, ele já estava longe. Esperto.

Assim que terminei de fechar e fui para a saída, levei um susto. Na rampa que dava para o ponto de ônibus havia uma Alhena que me olhava furiosamente me esperando.

Gelei.

Parei.

Que diabos ela estava fazendo ali? Me olhando como se quisess arrancar meu fígado e come-lo assado?

— O que faz aqui? — perguntei, fazendo o possível para soar desinteressada. Seus olhos emitiram um reflexo triste e rápido, mas logo ela se recompois e voltou a sua postura de ataque.

— Você não retornou minhas ligações ou respondeu minhas mensagens.

Sua voz era firme, decidida, isso fazia com que eu sentisse uma espécie de... Orgulho. Mais do que isso, despertava o lado inconseqüente em mim, me fazia querer perder o controle.

As pessoas ao redor estavam nos encarando, provavelmente reconhecendo Alhena e se perguntando o que ela fazia ali, comigo, a lésbica sem vergonha na cara. Antes que alguém conhecido nos visse ou alguém fizesse que nosso esbarrão chegasse até os ouvidos de alguém, a puxei sem falar nada e só parei de andar quando estávamos dentro do estacionamento tô do shopping, este já fechado. Era um lugar quase seguro.

Fiquei de costas para ela, pois sabia que se eu encarasse seus olhos, qualquer coisa que ela me pedisse eu faria, pois o poder que eles tinham sobre mim eram imensurados.

— Não significou nada para você, não é? — aquela voz com uma pontada de magoa acabava comigo, eu não tinha chão. Se não havia significado nada para mim? Havia sido simplesmemte o momento mais mágico da minha vida.

Mas ela era Alhena Cardoso

A filha do pastor

O exemplo de Exemplar

—Não.

Fechei meus olhos com tanta força que quando voltei a abrir vislumbre círculos coloridos. Eu não poderia confiar nela, ela nunca abriria mão do seu preconceito por mim ou por ela mesma. Ela era Alhena, e todos sabiam disso.

Não escutei mais sua voz é quase presumi que ela havia ido embora, mas seu cheiro ainda estava ali, me sufocando de culpa e desespero.

— Vá embora Alhena.

—Não.

Sua voz estava cheia de teimosia, era um alerta de que não importa o que eu dissesse, ela não sairia dali.

Quando eu ia novemente me esforçar para pedir que ela fosse embora, sua voz soou primeiro.

— Eu não quero isso para mim Terra, eu sei que você é todos dessa cidade acham de mim, mas eu não sou isso — pelo tom ela estava séria — eu não sou intolerante ou preconceituosa, posso sim ser mimada e nariz empinado, mas eu sei cuidar de mim mesma e sei o que eu quero. E o que eu quero é sair daqui, e você.

Meu queixo a essa altura já estava no chão, ela havia dito, ali, com palavras inteiras e decididas que me queria, que não queria mais aquela vida que eu pensava que ela idolatrava. Acho que ela interpretou mal o meu silêncio, pois quando voltou a falar sua voz estava nervosa.

— Mas eu não posso fazer isso sozinha.

Notas finais
Bom gente, eu, como vocês também, não acho justo a Terra sofrer pela Alhena e nem compro esse clichê de "garota preconceituosa se apaixona pela lésbica", não acho isso certo, por isso fiz questão de deixar claro que a Alhena não é esse tipo de girl. Para a pessoa legal que me perguntou que curso a Terra vai cursar, isso vai estar no próximo cap ashuashua então não vou dar spoiler aqui Beijúsculos e comentem :*