TAKE ME TO CHURCH
1 Melancholy.
Notas iniciais
My lover's got humour, she's the giggle at a funeral.
Knows everybody's disapproval. I should've worshipped her sooner.
O som dos violinos da orquestra ecoava ritmicamente a marcha fúnebre pela imponente construção, as paredes de pedras escuras propagavam frieza e consistência. O espetáculo melodramático que seus olhos testemunhavam fazia seu estômago vazio revirar-se, todas aquelas pessoas e a maioria nem mesmo conhecia a jovem e falecida mulher no centro do cômodo.
A garota desviou seus olhos cansados ao encontro do caixão negro e elegante, observou o corpo em eterno sono por uma ultima vez, capturando os detalhes. Os cabelos loiros perfeitamente cacheados e alinhados, os olhos que um dia foram de um azul tão alegre quanto o céu de verão fechados para sempre, os lábios secos pintados de vermelho e o vestido branco e adornado que ela mesma havia escolhido. Era de tirar o fôlego, a constatação de que aquela era a mesma mulher que havia arrastado-a ao parque em menos de quarenta e duas horas atrás. Havia sido o melhor dia de sua vida, e então, o pior.
A sensação de esgotamento que a assolava se tornou, de repente, uma carga muito grande e a igreja que trazia leveza desde que começou a frequentá-la lhe parecia apenas mais um laço em volta de seu pescoço. Suspirou brevemente enquanto sentia seus pés guiarem-na para fora daquele lugar, cerrou os olhos ao sair pela porta lateral e encontrar o dia tão bonito e limpo quanto qualquer outro, como se o mundo ignorasse o fato de que o universo havia se tornado um pouco mais escuro sem sua mãe no mundo.
Procurava apoio nas paredes ásperas e tentava respirar meio ao nó que se formou em sua garganta quando sentiu algo quente atingir-lhe o rosto, limpando com rapidez as lágrimas que haviam escapulido e virando-se na direção da fumaça que tomava conta de sua visão. Um sorriso fez sua cabeça girar, de onde ela havia surgido? A jovem de cabelos alaranjados mantéu a expressão amigável e a boca aberta enquanto empurrava um cigarro por entre seus dedos.
— Parece que você está precisando de um. — explicou ela ao ajeitar a saia de couro em suas pernas e franzir o nariz.
— O que está fazendo aqui fora? — questionou curiosamente, a voz que saiu de sua garganta era irreconhecível para si, quebrada. Ela analisou o cigarro em suas mãos, sem realmente ter a coragem de traga-lo.
— Eu preciso falar com o reverendo, mas não sou exatamente bem-vinda na igreja. Não é como se eu quisesse presenciar o velório de algum cadáver que eu não conheço, de qualquer jeito. — deu de ombros, jogando os cabelos longos para longe de seus olhos.
Surpreendentemente ela não se sentiu ofendida com o descaso em que a estranha em roupas indecentes tratou a homenagem, aquilo havia sido a coisa mais sincera que haviam lhe falado hoje. Levou a cigarrilha aos lábios rosados lentamente, incerta sobre como proceder com aquilo e se deveria, sugou a fumaça de uma vez e contorceu o seu rosto ao sentir o gosto de queimado em sua língua. A garota arregalou os olhos quando uma tosse involuntária irrompeu de sua garganta com a força de sete cavalos, jogou a batuca na calçada cimentada ao se curvar em busca de ar, sentia o peito arder.
— Tenho que dizer, você até que foi bem... Para sua primeira vez. — a jovem riu espontaneamente á medida que analisava o rosto avermelhado e delicado da outra á sua frente. — Sou Mad.
— Como em Madeleine Martin? A filha desviada do reverendo? — seguiu os movimentos da garota ao que ela colocava a língua para fora em desgosto.
— É assim que me chamam agora? Desviada? Prefiro apenas Mad ou Adele, o que você julgar melhor. — piscou um dos olhos cinzentos, tirando outro cigarro do bolso de sua jaqueta negra.
— Sou Lia Lieber. — apresentou-se com uma leve reverência, abrindo um sorriso repleto de melancolia. — Foi um prazer te conhecer e tudo mais, mas agora eu preciso voltar ao velório da minha mãe.
— Oh.— pronunciou Madeleine, arrependendo-se do que havia falado mais cedo enquanto observava a garota caminhar suavemente, o vestido negro balançando em seus movimentos e os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo firme chicoteando em suas costas.
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