TAKE ME TO CHURCH
3 Freedom.
Notas iniciais
We were born sick, you heard them say it.
Passos leves sobressaíram-se no corredor escuro e a garota desviou seus olhos verdes e úmidos da cratera na parede manchada para a origem do som, que se tornava mais forte a cada segundo. Aos poucos o corpo esguio foi entrando em seu campo de visão, coberto por couro e seda, as botas sempre nos pés e os cabelos alaranjados chicoteando o ar a sua volta. Lia analisou-a enquanto a outra tragava um cigarro de olhos fechados e salteava erroneamente pelo corredor, desejou por um segundo que fosse independente e espontânea como a recente amiga. Queria ter força para tomar conta de si mesma e seguir suas vontades, ser livre. Temia que ser como Madeleine Martin estava muito longe de suas capacidades.
— O que aconteceu? – o tom alto em que a pergunta foi proferida dentre os lábios pintados de vermelho espantou-a de seus pensamentos e fez-a levantar o olhar inchado mais uma vez.
A garota apenas encarou-a muda, tentando ajeitar o rabo de cavalo dourado que portavam seus cabelos desgrenhados, sentindo o couro cabeludo dormente sob seu toque. Constatou estar sendo estudada ao perceber o olhar cinzento percorrer todos os hematomas visíveis em seu rosto e na pele de porcelana exposta pelas vestes rasgadas antes de ser guiada com cuidado para dentro da pesada porta de metal, encontrando o loft abarrotado de pinturas com alívio.
— Diga-me quem fez isso com você... agora! – ela inclinou a cabeça em dúvida, observando o rosto da jovem a sua frente, tão avermelhado quando seus cabelos.
— Eu não sei... as pessoas usavam esse véu negro. – desviou os olhos envergonhada ao ter o olhar firme sobre si. – Eles continuavam repetindo que nasci com alguma doença. Eu só... Só não queria ter que chegar em casa assim.
— Eles te violen-... – arregalou os olhos cinzas enquanto agarrava os ombros magros da garota.
— NÃO! Não. – interrompeu afobada, repulsa lhe incomodando diante do pensamento.
Observou a ruiva soltar o ar que não sabia que ela estava segurando, com alívio, enquanto lhe sorria compreensivamente e abria uma das gavetas da cômoda de madeira maciça e remexia nas roupas emboladas ali. Agradeceu-a mentalmente ao capturar a enorme camiseta negra dos dedos longos e olha-lá timidamente, as mãos trêmulas se livrando do vestido florido e rasgado que agora mal cobria seu corpo, notou algo no olhar da outra oscilar ao botar-se de pé em apenas suas roupas íntimas antes que ela se afastasse para o banheiro apenas fechado por uma cortina de miçangas.
Vestiu a roupa emprestada rapidamente, tentando se tapar antes que Mad retornasse, as bochechas corando-se de acanhamento e o nariz latejando ao tentar um sorriso. O pano úmido em sua face surpreendeu-a, levando-a a se retrair diante do toque, mas o olhar que recebeu em troca fez-a parar de sem mover e aceitar a ação. Seu humor melhorava a medida que sentia o sangue e a sujeira ser limpa de seu rosto e seus braços, suas pernas livres da imundice finalmente, a expressão concentrada no rosto de sua amiga enquanto exercia o cuidado sobre si a intrigava.
— Como você se sente? – questionou com calma, colocando o pano manchado de lama e sangue seco de lado e encarando-o a fundo mas orbes verdes.
— Péssima. – foi sincera, sempre fora apreciada por sua honestidade.
— Quer que eu te faça sentir bem? – indagou Mad com divertimento, cortando o clima aflito que havia se apossado do ambiente e tentando levar os pensamentos da outra para longe da surra que ela havia levado.
A garota não lhe respondeu, apenas desviou os olhos duvidosa e repuxou os lábios na tentativa de um sorriso, se perguntando o que ela queria dizer com aquilo e achando divertido o ar descontraído que caia sobre elas. Sentiu a pressão nada familiar sobre sua boca antes que pudesse reagir, os dedos enterrados em seu maxilar tomando o que queria para si e o toque úmido entre seus lábios impondo passagem.
Aquilo era... diferente. A primeira e última vez que havia feito aquilo fora no jardim de sua casa, com o filho atrevido da vizinha, há quase trinta e seis meses atrás... tinha acabado de completar doze anos, não era uma lembrança muito agradável. Mas a situação era diferente, a boca de Kyle não era tão macia... e os toques em seu rosto não possuíam nem a metade de experiência. Ele também não era uma garota... uma garota!
Lia caiu em si, abandonando a especulação e prestando atenção no que acontecia. A língua quente e aconchegante movendo-se entre a sua, tocando o céu de sua boca com gentileza, dando voltas no espaço que tinha. Encarou o rosto sereno a sua frente de olhos arregalados, sem reagir diante das ações da garota ou ás sensações convidativas que sentia. O rubor tingiu suas bochechas ao deixar escapulir aquele leve som de sua garganta ao ter o lábio inferior mordiscado e a cintura marcada por uma das mãos suaves da ruiva, os olhos esverdeados se fechando contra suas vontades e suas mãos alcançando os fios laranjas da outra ao receber leves beijos e sucções ao longo de seu queixo.
Quando a atenção de Madeleine retornou aos seus lábios Lia estava decidida, iria ser livre. Foi pega no embalo do segundo beijo que recebia, seguindo os movimentos da amiga timidamente, entrelaçando suas línguas de modo desajeitado. O batom vermelho aromatizado deixando o sabor de morango por toda sua boca, a delicadeza dos toques impregnando seus sentidos e a envoltura habilidosa em seu corpo fazendo com que lhe fugisse um suspiro.
— Se sentindo melhor?
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