Demorei muito tempo para engolir tudo que presenciei, o homem me chamou para acompanha-lo no caminho de volta para casa, mas ele não foi em direção a Tun, foi para o outro lado, para dentro da floresta. Durante o caminho ele pareceu diminuir, logo, ele estava do meu tamanho.

--Meu nome é Mets, moro aqui. – Eu sei, foi bem imprudente seguir um cara que eu não conheço para dentro de uma floresta selvagem, mas ele tinha acabado de matar 5 lobos gigantes, eu não queria discordar dele.

-- Bem legal. – Falei sem muita emoção, mas o lugar era realmente fantástico. Uma clareira no meio da floresta, aberta a força provavelmente com o machado destruidor de lobos, isso ficava evidente pelos tocos de arvores por todos os lados. A casa era um grande tronco de arvore, totalmente escavado e esculpido por dentro, com todos os cômodos que uma casa comum pode ter.

Era tudo feito com madeira, mesas, estantes de armas, uma prateleira do que parecia ser remédios, e no chão da sala um grande mapa esculpido a mão, que eu podia apostar era toda aquela região da floresta.

-- Então Mets. -Falei. – O que estava fazendo naquela região? Sua casa é um pouco longe...

-- Estava caçando. A alguns dias atrás algum daqueles lobos arruinaram uma escultura que eu estava fazendo, eu queria vingança, e carne. – Anotação mental pra nunca provocar esse cara.

-- Entendi. – Eu estava começando a ficar calmo com a presença daquele caçador. – Você é um Sun ou algo parecido?

-- Não. – Falou e cravou o machado com muita força em uma parede, decidi parar de perguntar, e toda a minha calma foi embora.

-- Você é um Sun? – Perguntou Mets depois de algum tempo em silencio. – Para estar naquele lugar, sozinho, ou você é um Sun muito forte, ou é um tapado.

-- Fico com a segunda opção. – Respondi.

-- Você é engraçado. Relaxa, eu não vou te matar. – Nesta forma reduzida, Mets tinha uma voz mais comum, chegava a ser infantil. – Você estuda magia?

-- Não.

-- Sabe lutar?

-- Não.

-- Atirar?

-- Não.

-- Como ainda está vivo?

-- Eu não sei.

Mets riu, e eu começava a me lembrar como eu não servia para nada. Ele me serviu um suco de alguma fruta silvestre que eu não consegui reconhecer, me contou algumas histórias de caça, que eu não estava muito interessado, mas não queria interromper, aquele homem parecia não ter contato com humanos a muito tempo.

-- Por que você vive aqui? – Perguntei, e ele ficou sério.

-- Você quer mesmo saber essas coisas, não é? – Falou e eu confirmei com a cabeça. – Bem, a muito tempo atrás, meus pais viviam na floresta, era um vilarejo um tanto longe daqui. Éramos praticamente selvagens se comparados a qualquer cidade, caçávamos para sobreviver, todos se ajudavam, meu pai me ensinou a lutar, minha mãe, a pouca magia que sei. – Ele parou e começou a encarar o mapa no chão.

-- E o que houve com eles? – Perguntei, com medo da reação.

-- Mortos. – Falou, e seu olhar ficava mais triste. – Era uma noite chuvosa, uma grande tempestade nos pegou de surpresa. Abrigamos alguns Sun’s que estavam por ali em batalha. – Seu olhar se perdia cada vez mais. – Eles receberam ordens. – Seus músculos enrijeceram. – Tribos não civilizadas deveriam ser eliminadas.

-- Ah... sinto muito. – Falei. O que se fala em um momento desses?

-- Saia.

Quase corri, no momento em que cruzei a porta, ela se fechou com muita força. Gritos de fúria quebraram o silencio que tinha se formado, madeira partindo, um machado rasgando coisas, e então parou. A floresta mais uma vez estava em silencio. Me virei para ir embora, mas então Mets apareceu na porta.

-- Fique... por favor. – Sua voz estava carregada de emoção, seus olhos vermelhos e suas mãos sangravam, ele podia ser um monstro, mas seu coração não estava petrificado.

—-

-- Eu moro nas ruas de Tun. – Falei. – Poucos falam comigo, e não vão se importar com o meu desaparecimento, as pessoas desaparecem a todos os momentos hoje em dia. – Pensei na senhora Clotz, mas quando eu voltasse, ela entenderia.

-- Você é forte. – Falou Mets. – Sobreviver por 6 anos, morando na rua, e sem ter nenhuma habilidade? É impressionante! – Gargalhou.

-- Acho que a minha habilidade é sobreviver. – Falei, eu realmente não sabia lutar, caçar ou usar feitiços, mas ninguém pode negar que eu sei me virar muito bem.

-- Meus pais queriam que eu me tornasse um bruxo da ordem, minha mãe era empenhada a me ensinar magia. “Ser um feiticeiro real é o melhor cargo existente”, minha mãe dizia... Quem imaginaria que ela seria morta por aqueles que eles tanto admiravam.

-- Acho que não quero mais ser um Sun. Eles são injustos, mercenários e egoístas. – Falei.

-- Você não conseguiria ser um Sun, nem se quisesse. Fraco demais. – E riu.

-- Obrigado, senhor Mets destruidor de lobos. – Ri e voltei para fora da casa, a foice estava escorada do lado de fora da porta, tentei segura-lo mas ela parecia pesar uma tonelada.

-- Ela é encantada. – Falou Mets ainda sentado na sala. – Somente eu posso segura-la, para qualquer outro, ela se torna pesada demais, não importa sua força.

-- Me ensine a lutar. – Falei e a cara de espanto de Mets me deixou contrangido.

-- Você morreria no segundo dia. – E começou a rir descontroladamente.

-- Aposto que não! – Falei, bravo, mas ele ria cada vez mais.

Ficamos assim por um bom tempo, até que ele cansou e decidiu cortar lenha. Passou muito tempo listando coisas que eu não era capaz de fazer, começou a explicar como seria um treinamento de combate com ele, e as varias forma de como eu provavelmente iria morrer no processo. Fiquei por um tempo enfeitiçado pelos golpes de machado que ele acertava nos troncos, a precisão era quase... magica.

-- Você sabe magia? – Perguntei.

-- Bem pouco. – Respondeu, no momento em que rompeu um tronco do meu tamanho em dois. – Minha mãe tentou me ensinar, eu era péssimo para aprender. – Outro.

-- O que você sabe? – Perguntei.

-- Bem... – ele parou e se apoiou em uma arvore para pensar. – Minhas armas são enfeitiçadas, elas sempre voltam para mim ao menor chamado. – Lembrei do machado voando na direção dele, recém arrancado da cabeça de um lobo. – Consigo mudar a minha altura e meus músculos com magia também, ainda estou treinando, mas um dia pretendo derrubar aqueles portões das cidades em um soco.

-- Você usa muita magia para um combatente não acha? – Perguntei e ele ficou sem respostas. Mas antes de qualquer coisa, fomos interrompidos por um grito.

Mets chamou rapidamente suas armas e partiu pela floresta em direção ao barulho, tentei segui-lo, mas ele era veloz demais, e ao crescer de tamanho, eu tinha que dar 3 passadas enquanto ele dava uma.

Me vi mais uma vez perdido na floresta, me sentindo um completo imbecil e sem saber como voltar para a clareira. Olhar a escuridão entre as arvores me arrepiava, minha mente estava começando a imaginar lobos gigantes pulando em cima de mim de todas as direções, agarrei um pedaço bem rígido de madeira e continuei andando, torcendo para encontrar Mets, ao menos antes de encontrar qualquer outra coisa.

Sabe, quando se está sozinho na floresta, sem uma arma de verdade, e sem nenhuma habilidade de combate, você começa a imaginar mil jeitos diferentes de morrer, qualquer barulho acelerava meu coração ao máximo, e eu já tinha perdido a noção do tempo a muito tempo. A floresta parecia ficar cada vez mais escura, barulhos estranhos surgiam do nada, troncos dilacerados pelo caminho só ajudavam minha cabeça a imaginar jeito ainda mais horríveis de morrer.

Então fui atacado, tudo ficou preto, meus braços foram totalmente arranhados, cai no chão e tentei rolar para longe, me recompus e sem entender o que estava acontecendo tentei acertar o que era possível com o meu pedaço de madeira. Até que acertei algo muito duro, e não era uma arvore, Mets começou a rir.

-- Acho que você matou seu primeiro morcego, parabéns! – Falou e riu ainda mais.

-- Onde você estava?! – Falei. – Tentei te seguir, já faz horas que estou aqui!

-- Cara. – Ele estava confuso. -Fazem dez minutos...

Voltamos para o acampamento, Mets não parou de rir por um segundo, e mesmo assim veio contando como ele salvou uma garota de um lobo gigante, eu não entendi nada. Quando chegamos na clareira a garota estava lá.

Ela tinha uma altura normal, cabelos negros cacheados e pele escura, estava usando uma blusa branco, que agora estava totalmente suja de terra, e uma calça. Parecia exausta, mas Mets queria explicações.

-- Por que você estava na floresta a essa hora? – Estava começando a escurecer e Mets estava irritado, o humor dele mudava rápido.

-- Eu precisava buscar algumas ervas para minha avó, era um caminho seguro, nunca havia monstros por ali. – Falou a garota.

-- Os lobos não são monstros. – Falou Mets. – Eles são a maior força da natureza que respondem a esses demônios que andam pela terra.

-- Seja o que for, eles nunca estão lá, não sei o que houve. – Respondeu.

-- Seja o que for? – Mets estava definitivamente bravo. – Mewt, de um jeito nela, se eu escutar ela falar mal dos animais novamente eu devolvo ela para a boca daquele lobo. – E saiu furioso, dando um soco na parede do tronco que fez tudo estremecer.

-- Ele é meio temperamental. – Falei. – Quem é você?

-- Sou Bareka Mut, neta de Havat. – disse orgulhosa.

-- Quem? – Perguntei confuso.

-- Não conhece minha avó? – ela estava indignada. – Ela é uma grande feiticeira, conhecida por todos do alto escalão. Talvez você não seja importante o suficiente para conhece-la.

-- Mets, jogue-a para os lobos, por favor! – Gritei. A garota ficou horrorizada.

-- Mais tarde, agora estou cansado. – Mets gritou de volta, o que fez Bareka entrar em desespero.

-- Isso é sério? – Perguntou ela.

-- Sim, se você sobreviver quem sabe alguém do alto escalão te salve. Claro se eles não estiverem ocupados contando montes de ouro. – Falei irritado.

-- Me perdoe pelas palavras, eu não queria ofender. Por favor, não me jogue de volta para o lobo. – Ela estava realmente com medo.

-- Isso já não é comigo, vai falar com o grandão. – Sorri.

Passei algum tempo sentado assistindo a garota tentar convencer Mets a não devolve-la para o lobo, mas Mets estava dormindo e com certeza não escutou nenhuma palavra. O tempo passou, estava realmente escuro, sem as luzes da cidade era muito difícil enxergar apenas com algumas velas artesanais.

-- Me leve de volta! – Insistia Bareka.

-- Você é muito chata menina! – Mets perdeu a paciência, de novo.

-- Eu preciso ir para Tun, ela poderia vir comigo. – falei.

-- Está muito tarde. Nem mesmo eu ousaria sair no meio da noite por entre essa floresta, fiquem quietos e durmam. Amanhã nós vamos. – Falou Mets.

Dormimos fora da casa, Mets não queria que dormíssemos lá dentro, e com os barulhos que ele fazia a noite, algo me dizia q ele era sonambulo e poderia nos matar enquanto dorme.

Quando dormi, consegui sonhar, mas isso definitivamente não foi bom. Estávamos em um castelo muito antigo, três magos encapuzados estavam sentados em uma mesa, dezenas de corpos ao seu redor, no ponto mais alto de uma parede, uma bandeira exibia uma lua crescente.