Eu levei quatro anos pra perdoar a situação, e ainda não se foi completamente. Como não odiar você por ter jogado vinte e dois anos de amizade no lixo? Como odiar você, se eu não lembro de não te conhecer? As coisas nunca poderão ser como eram antes, e a culpa é toda sua. Nós éramos tão jovens e destemidas, achei mesmo que eu sabia alguma coisa sobre à vida, até perder você pra si mesma. Eu tenho que fazer um esforço mental pra conseguir ficar longe de você. Ainda.

Tem centenas de textos sobre você, e nenhum foi enviado. Não me falta coragem, mas eu sei. Não posso amar você novamente, porquê se você me trair novamente, vou ruir, tijolo por tijolo. Eu ainda me lembro do dia da última briga. Eu estava tão cansada de agir como sua mãe, tão frustrada por você ser tão amedrontada, tão farta das suas mentiras e tão emocionalmente consumida por nós, mas ainda sinto o cheiro do nosso quarto e o sal das nossas lágrimas. Eu não devia ter te batido, você não deveria ter vindo discutir, eu não devia ter passado a noite em claro, você não devia ter dado em cima do meu namorado. Estávamos em combustão, e aperta meu peito toda vez que eu olho pra minha gata, porquê ela tem os olhos do gato que dividimos. Meu cabelo está muito parecido com o cabelo que eu tinha na época, como o seu também está. Tudo se escalou tão rápido, não posso deixar de sentir dor por quão longe isso foi. Mas eu sabia, mesmo com o ódio no meu coração, mesmo com a minha dificuldade de perdão, eu te perdoaria novamente. Eu te perdoaria pela milhésima vez por todos os crimes cometidos contra a minha pessoa, todas às cicatrizes que eu tenho, toda dor que eu passei, todo o sofrimento, suor, sangue e lágrimas que eu derramei, porquê depois de todo esse inferno eu ainda sei quem você é, e você sabe quem eu sou. Todas às vezes em que algo pequeno acontece com algum amigo, me lembro de você.

Porque você sabia quem eu era, apesar de tudo. Você sabia o meu limite. Você não o colocava acima de mim. E, eu nunca mais tive isso. Ninguém nunca mais me conheceu, até o Lucas. Eu não deixei, eu não abri. Não consigo dizer meus verdadeiros sentimentos, apesar de continuar amando loucamente todos os meus amigos, tendo ataques cardíacos quando eles estão magoados, me sentindo deprimida quando eles partem meu coração, isso se mantém. Mas você conhecia minha verdade. Você sabe que eu falo na cara. Você sabe que eu não volto atrás, e é por isso que nunca mais poderei voltar pra você de novo.

Fomos longe demais dessa vez. Eu não sou mais a mesma pessoa que você conheceu. Meu coração não bate mais, e a culpa é sua. Você o esfaqueou, e sabe disso. Me pego pensando que agora você talvez não goste mais tanto assim de mim, porque me tornei amarga. Todo o amor que eu sinto é corrompido. Você precisa ver a fera que eu me torno quando tenho que dar uma terceira chance pra alguém — Nunca acontece, porquê só dou segundas. — Você não ia gostar de mim, nunca mais fui doce ou inocente, apesar de levar minhas rasteiras, não existe mais o meu campo florido do perdão, ateei fogo em tudo. Agora é um campo cinza e cheira a queimado. Me sinto destruída noventa-por-cento do tempo.

Eu entendo o que você fez. Eu aceito suas desculpas. Mas se você ama assim, seu sangue corre frio. O meu corre quente demais, sabemos. Eu te perdooei tantas vezes, e você continuou a avançar e tirar tudo de bom que tinha em mim. Hoje, não sobrou quase nada de bom. Hoje, eu conseguiria te perdoar. Eu achei que não, mas é só a Bia me decepcionar pra que eu me lembre de que ela foi a substituta pelo sentimento que era seu: Você sempre foi, no fundo da minha alma, a merda da minha melhor amiga. Às vezes, uma melhor amiga de merda, mas sejamos sinceras, eu também tive meus momentos de ser monstruosa. Como posso sentir falta de uma amizade tão tóxica quando eu sei que foi melhor eu ter ido embora?