Síndrome de Gaea.

45 Maddy (eu) e Cassie (você)


A lente da câmera das nossas memórias tem a luz quente, acolhedora. Tem um espaço no meu coração que fatalmente têm um lugar reservado pra você. Casualmente, nunca podemos ser apenas conhecidas. Eu conheço todos os seus traumas e estive em quase todos os anos da sua vida, próxima. Quão louco e incerto foi o fim. Achei que não ia conseguir respirar quando você partiu, e então descobri que conseguia viver sem você. Mas parte de mim sempre ficou à espreita, esperando o momento certo em que você retornaria a minha vida com sua onda de emoções e me arrebatasse. Eu estava certa o tempo todo: Eu voltaria pra você.

Eu não queria admitir. Mas sabia, que cedo ou tarde iria acontecer. Eu fatalmente perdoaria você. Me pego pensando no quão grande é esse desrespeito que tenho cometido contra mim. Eu fui embora tão magoada, algo em mim morreu naquele dia. Você me traiu de todas as formas que uma amiga pode trair a outra: Você usou meus sentimentos, você manipulou os meus traumas e abusou dos meus transtornos. Você tentou roubar tudo o que eu tinha: Meu dinheiro, minha juventude, minha relação com a minha família. Um tsunami, você derrubou tudo o que viu pela frente. Eu juro, teria deixado. Eu teria cruzado os limites da minha fronteira. Eu teria feito tudo, por você. Afinal, eu te perdoei centenas de milhares de vezes: Quando você tentou beijar meu namorado da época, cada namorado anterior. Quando você tentou arrancar as coisas boas da minha vida pra que eu e você fôssemos miseráveis iguais. Eu sei. Mas aqui estou eu: Recém saída da prisão do rancor, eu sei pra quem foi minha primeira ligação — Você. Foi pra você.

Têm uma corda que nos conecta. Ela se estica, emaranha por aí, têm muitos nós, mas nunca rompe. Eu conheço sua personalidade e você conhece a minha. Eu conheço seus traumas e você conhece os meus. É tão bom não precisar falar que eu quase esqueço que você é meu segredo sujo: Não posso contar pra ninguém que estou, na calada da noite, rindo com você no telefone. Todos me julgariam, não é pra menos. — Você me usou. Mais que isso, você me traiu. Você me apunhalou pelas costas e roubou a pouca inocência que tinha sobrado de mim, as poucas coisas boas que eu tinha você destruiu. Eles falam do financeiro, mas ambas sabemos que essa não foi a pior parte pra mim, eu não me importava com os rios de dinheiro que eu gastei tentando salvar você da sua vida de merda. Eu menti por você toda santa vez, eu eduquei você, eu, com pouco mais de um pequeno relampejo de vento na cabeça no lugar do cérebro, criei você, que também tinha um pouco mais de um pequeno relampejo, como uma mãe cria uma filha. Eu fui uma péssima mãe, irresponsável, temperamental e explosiva, mas o que esperar? Eu só tinha 18 anos. Como uma irmã gêmea, você sempre esteve lá. Toda a formação do nosso caráter e personalidade foi próximo ao bizarro. Você estava lá quando eu soube que meu pai biológico tinha se matado, foi pros seus braços que eu corri. Eu estava quando soube que pai abusou de você, confessando entre sussurros aos sete anos pra que nenhum adulto ouvisse, e eu não salvei você. Depois, passei a vida toda tentando concertar isso. Nunca foi o suficiente.

Eu não posso mostrar esse texto pra ninguém. Minha mãe vai me dizer pra deixar você seguir a sua vida. Ela vai dizer que eu vou acabar com a sua vida, por que é isso o que eu faço quando magoada: Eu extraio até a última gota de felicidade da vida da pessoa, dreno tudo o que ela têm, na esperança de me vingar do meu coração partido. Ela vai me dizer que não te odeia e nem te deseja mal, apesar do que aconteceu, mas que eu tenho que te deixar ir. Secretamente, não consigo. Também não posso te ter perto, mas definitivamente não quero te ver longe agora que o perdão brotou no meu coração. Eu odeio todo mundo que me fez mal, nunca perdoei meu pai adotivo por nada do que ele me causou ou causou a minha mãe, meus irmãos que são de fato filhos dele, eu ainda lembro de cada palavra que ouvi contra a minha pessoa no ensino médio, mas eu involuntariamente estou perdoando você. Porquê eu sei. Porquê eu tava lá. Porquê eu entendo. Droga, eu entendo mais do que isso fere meu orgulho. E eu sou tão orgulhosa, sabemos.

Mas eu lembro. As brigas eram feias, ainda que dentro de portões. Gritos, unhadas e lágrimas. Jogávamos muito baixo. Eu mentia pra te denegrir e arrancar todos de perto de você. Envenenava meus avós pra que você fosse privada do amor deles que você tanto ansiava. Fechava a porta na sua cara e escolhia outras amigas na sua frente. Tão pequena e ainda assim, tão socialmente sádica, era isso o que eu era. Eu sabia que você voltaria, então te levava ao limite, lembrando que tudo era meu. Os brinquedos, os amigos, os garotos, a família. E ao mesmo tempo eu podia ser sua grande defensora, brigando com sua família por você. Não deixava que ninguém te humilhasse ou desprezasse, não deixava você sentir medo. Oito anos, foi a idade em que eu enfrentei seu pai pela primeira vez. Não deu certo, ele venceu, mas eu só tinha oito anos.

Eu e meu braço de ferro mantínhamos tudo e todos orbitando ao meu redor. Tudo era sobre mim. Todos os aniversários que você era convidada, todas as viagens que você fazia e toda a rotina era pautada na minha pessoa até o começo da adolescência. Eu entendo o ressentimento, porquê sei que muita coisa eu fazia de propósito, pra te controlar e você sabia, soube todo o tempo que meu amor era intenso, possessivo e beirava a violência. Eu não sabia amar sem controlar como você não sabe amar sem manipular minhas inseguranças. Elas, que eu escondia tão bem de todos, menos de você, eram as suas únicas armas: O meu medo de morrer sozinha. E era isso o que você fazia. Me manipulando em troca de comida, usando minha vaidade pra que eu te desse as minhas roupas acreditando que elas não estavam bem em mim, zoando os rapazes que você queria pra que eu os achasse patéticos e não chegasse perto. Duas crianças criadas sobre o afeto disfuncional uma da outra, e agora parece que está tudo abafado debaixo de um travesseiro de emoções conflitantes. Meu marido me diz conselhos que eu não quero ouvir, porquê sei que nunca mais vou amar outra amiga como eu amei você. Você usou a morte do meu pai biológico pra me manter dando meu dinheiro pra você, tentou beijar meu namorado, me tratava como merda e sugava toda a minha energia. Você não trabalhava, não estudava e vivia as minhas custas durante meus dois primeiros anos de faculdade. Você fazia questão de me diminuir pra se sentir melhor, sim. E sim, eu te joguei pra fora da minha casa e deixei você sem ter onde morar, agressivamente. No confronto, nem parecia que éramos amigas — Éramos inimigas. Você sabe, você tava la. Mas eu amava você naquele momento. Sim, você se aproveitou do meu maior surto psicótico e me fez te sustentar por anos, mas você me amava. Eu sei que amava! Eu tava lá.

E tinha o ciúmes. Como éramos psicóticas com ciúmes. Eu tinha uma paranóia constante de que você ia me abandonar. Eu tinha certeza que você ia arranjar outra amiga melhor do que eu e eu ia perder você, então sabotava todas as suas amizades. Deixava você desfazer de todas elas pra ficar só comigo. Arranjava defeito em todas elas e buzinava na sua orelha até você finalmente começar a ver os defeitos imaginários que eu criei e abandona-las. E os garotos que gostavam de mim, como você os odiava. Não teve um que você não tratou com total desprezo e desdém, pra depois dar em cima deles e provar seu ponto: Homens não prestam, não importa quem eles sejam. Seu pai, seu tio, seu namorado, você tentou ficar com todos. Minha família nunca cedeu a você, mas você tentou e eu perdoei você. Como você odiava quando eles se aproximavam do nosso mundo cor-de-rosa, os meninos. Eu via seu desconforto quando estávamos na igreja e aparecia algum rapaz tentando fazer amizade, eu via sua espinha arrepiar quando eles pediam meu telefone. Como brigamos por isso. Foram tantos nomes que eu nem consigo contar, foram tantas brigas que nem consigo detalhar todas. Rolando o barranco que sobe a esquina da casa da minha vó porquê um menino me deu bom-dia e pediu meu telefone, e eu dei. Você quase quebrou meu telefone quando viu que eu adicionei ele no facebook. Eu te isolei de todo mundo um mês. Ninguém falava com você na rua, meus avós não te recebiam com bolo. Não lembro como voltamos a nos falar, mas sei que o garoto virou carta fora do baralho como você queria e você aprendeu a lição: Nunca tentar por vias de embate direto, não funciona comigo, não arrego nunca. Tem centenas de histórias como essa, eu me lembro. As pessoas não sabem tudo sobre a gente, suponho que a maioria não sabe nem 10%, mas eu sei como sei que o Sol vai nascer amanhã de manhã, que você me amava.

Dói. Meu avô uma vez me disse que você era a única amiga que eu teria na vida, e é verdade. Não acho que terei outro vínculo de amizade tão forte quanto o nosso. Todo mundo sabe que eu voltaria pra você se eu ficasse a alguns passos de distância. Eu menti pra mim dizendo que não perdoaria mesmo sabendo muito bem que eu te perdoaria sim, porquê já fiz isso outras vezes. Fiz isso quando você roubou o dinheiro da minha mãe que era pra gastar comigo. Fiz isso com suas mentiras e traições, e todas às vezes em que aconteciam, como você perdoava as minhas. Todos só lembram do meu lado nessa maldita cidade, porquê todos sempre foram meus. Eu sempre fui a neta de ouro da dona Glória, e você sempre foi a criança bastarda de rua suja que eu andava de lá pra cá, como uma espécie de animal de estimação. Eu sei como você se sentia. Eu sei que eu compactuei e reforcei esse sentimentos algumas vezes só pra te manter sobre controle, quieta. Eu sei que você sabia. Eu sei que não tem inocente na nossa história. Eles podem me dizer o que quiser: Que você é uma louca manipuladora que abusou da minha doce inocência, só meu pai e meu marido me veem por debaixo dessa fachada. Eu sou violenta, sou manipuladora e sou insegura. Mas isso não quer dizer que eu merecia o que você fez. Você usou minha doença, o desespero dos meus pais, você usou meu dinheiro e destruiu meu coração. Você arrancou o resto de fé na bondade que eu tinha. Eu não merecia isso. Eu sei que não.

É claro que todos sempre ficavam ao meu lado, todos eram meus. Até quando eram os seus. Seus parentes, suas amigas, sua vida me pertencia. Minha narrativa sempre foi a única que importou e eu fiz o que eu sempre fiz: Eu contei o meu lado, e deixei o seu de lado. Não importava, todos só ligariam pra como eu me sentia. E foi o que eu fiz, eu magoei minha família, sendo egoista e abandonando meu avô doente acamado para poder viver uma vida de festas universitárias, eu troquei tudo o que eu tinha na fazenda da família do meu pai e a possibilidade do intercâmbio pelo meu ex-namorado agressivo e deixei que todos culpassem você. Mas nós sabemos a verdade: Eu estava lá porque eu estava em surto psicótico? Sim, claro que sim. Eu era mesmo uma louca desequilibrada, uma menina com transtorno bipolar que abandonou as medicações e foi irresponsável gastando toda a sua herança com festas, celulares e roupas para mim e para você. Eu estava em surto mesmo, mas estava lá principalmente porquê eu queria. Claro, tem a sua parcela de culpa. Você se aproveitou da minha mania bipolar, deixando com que eu delirasse, nunca me mandando aos médicos quando eu ficava completamente fora da realidade, pois sabia que se eu voltasse a mim, te mandaria pra fora por perceber o que você estava fazendo, me sobrecarregou com suas emoções e exigências. Você me confundiu com a sua mãe, já que você foi abandonada por ela na porta da minha casa. Você tentou transar com o meu ex-namorado na casa que eu estava pagando com o dinheiro do meu pai biológico esquizofrênico morto. Você quebrou meu quarto quando ele negou ficar com você. Mas, aí está: Eu te aceitei lá. Era mútuo. Eu sugava você dali e eu estava tendo minha fantasia perfeita de irmãs contra o mundo amigas que moram junto e se perdoam enquanto você sobrevivia mais um dia. Quão psicótico foi toda essa merda?

E ainda assim, cá estamos nós.

Fico feliz por você ter aprendido a confiar no Gustavo. Por ter voltado pra minha vida, ainda que em segredo. Como podemos voltar a ser amiga com toda essa bagagem emocional? Como podemos voltar a ser amigas depois de tudo o que aconteceu? E ainda assim... Cá estamos nós. Contra a vontade de todos na nossa vida, nós nos perdoamos. Você se arrepende? Você diz que sim, mas é verdade? Eu me arrependo, juro que me arrependo das maldades que fiz com você. Se você é o monstro na história dos meus pais, eu te criei, induzi e alimentei. Você se arrepende de roubar minha inocência ou o que tinha sobrado dela? De usar meus transtornos pra me deixar manipulável? Você me amou de verdade, ou era só fachada porque você queria o meu ex-namorado? Porque você queria sobreviver?

Eu juro: Eu amei você.