Série Detalhes do Amor: A Luz Dos Olhos Teus
5 Capítulo 4
Richard
Largo mais uma das apostilas sobre a pilha interminável em minha mesa. São duas pilhas: As já lidas e as que devo ler. A segunda pilha se mantém maior que a primeira.
Celine me trouxe todo material que desenvolveu e que pode ser bom para a empresa e tenho de dar o braço a torcer e admitir que é tudo excelente. Das mais de 400 páginas lidas, alterei no máximo 10. E eu me considero uma pessoa exigente. Hoje terei de informar a ela que os encarregados de cada setor estão prontos para ter uma reunião- ou que eu considero ela pronta para eles.
Eu queria complicar mais, sei que quando reconhecer que o material é bom ele será implantado na empresa e isso significa que meu pai terá vencido. Mas vendo os relatórios que ela me trouxe a situação está ficando complicada e deve ser modificada e apesar de tudo não consigo não me sentir constrangido por ter deixado tudo chegar a esse ponto, quando vejo o esforço de Celine sem sequer ser herdeira do império Golden, me sinto diminuído e não quero, de certa forma quero provar a ela que posso ser excelente a frente desta filial.
Ela levou apenas uma semana desde que chegou para me convencer, passei até o fim de semana estudando as apostilas que ela me trouxe, o que foi ótimo até eu acordar na segunda de manhã com as espirais marcadas no meu rosto por ter dormido em cima de tudo.
Ouço duas batidinhas na porta e sei que é ela quem chegou. Todos os dias, pontualmente às 9 horas ela bate a minha porta.
—Entre.
Ela abre uma fresta e põe primeiro o rosto para dentro e depois move o resto do seu corpo. Todos os dias ela faz isso e todos os dias eu admiro o jeito como seus olhos me olham curiosos assim que a porta se abre. Como se esperasse a minha opinião sobre tudo que foi lido. E eu nunca dou minha opinião e vejo uma leve decepção misturada com determinação na hora de ela ir embora. Mas hoje mudarei isso.
—Bom dia, senhor Brown.
—Bom dia, senhorita Moreau, como está se sentindo hoje?
—Satisfeita com a ausência de chuva.
Todos os dias eu pergunto como ela está e a resposta é sempre relacionada ao clima, sorrio com isso e ela sorri de volta, sem saber que por dentro estou com vontade de rir por sua falta de pessoalidade na resposta.
—O senhor leu mais do material? – Ela pergunta e eu decido ignorar, adiar alguns segundos a minha derrota.
—A senhorita deveria perguntar como estou me sentindo hoje. –Falo, em vez de responder. Ela pisca duas vezes com rapidez, como se tentasse entender o porquê disso agora.
—O senhor está carente, senhor Brown? – Ela pergunta com um sorriso de lado, apenas reviro os olhos.
—Apenas pergunte como estou me sentindo. Vai gostar da resposta! – Afirmo e ela hesita um momento, até soltar um suspiro e falar:
—Tudo bem, como o senhor está hoje, senhor Brown?
—Estou irritado hoje, comigo mesmo, pois terei de fazer uma revelação que não me agrada muito.
—Algum problema com empregados?
—Não, bem que eu gostaria. Na verdade, senhorita Moreau, a revelação lhe diz respeito. – Os olhos dela se arregalam um pouco em minha direção e percebo que tenho sua total atenção. – O seu programa é realmente maravilhoso e você conquistou o direito de implantar o mesmo e fazer sua reunião com os chefes de setores.
—Isso é realmente sério? – Ela pergunta, e percebo que realmente possui dúvidas.
—Sim, é sério. Acho que podemos começar a discutir algumas das mudanças que eu gostaria que fossem feitas no projeto, nada de muito grave, e amanhã mesmo teremos a reunião.
Ela me avalia por alguns segundos, como se esperasse que eu fosse dizer que tudo não passava de uma pegadinha. Então, depois de me encarar um pouco, parece convencida de que sou digno desta confiança e então me sorri. Aquele sorriso maravilhoso que faz com que seus olhos fiquem pequenos e brilhantes. Que me faz sorrir de volta.
—Muito obrigada, senhor Brown!
—Apenas sendo sincero com você, senhorita Moreau. Mas creio que possa me retribuir tamanha gentileza. – Falo, aumentando meu sorriso quando vejo o dela diminuir, com certo ar de medo do que vem pela frente.
—Estava bom demais para ser verdade.
—Não deveria ficar tão assustada antes de ouvir minha proposta.
—Está certo. Pode falar.
—Senhor Brown é meu pai. E eu não gosto de ser chamado assim. Já basta Martha que sempre me chama assim na frente dos outros, porque acha que temos de “manter as aparências”. – Falo, fazendo as aspas com meus dedos. – A senhorita deveria me chamar de Richard, afinal fui eu quem aceitou seu projeto.
E então ela solta uma risada. Não poderia ser uma gargalhada, mas muito mais que um pequeno sorriso. Ela realmente ri de mim e tudo que consigo fazer é rir junto, seus olhos se enchem de lágrimas provocadas pelo riso e por um momento penso que gostaria que ela apenas chorasse de rir. Fico levemente mais sério após esse pensamento e tento bloqueá-lo, o que não é uma tarefa fácil.
—Sim, senhor Brown, atenderei seu pedido. – Ela fala, ainda rindo.
—E como se diz?
—É um prazer que tenha aceitado meu projeto, Richard!
Meu nome em seus lábios se torna delicioso. Sua voz me chamando me faz desejar que ela fale meu nome de novo e de novo e para sempre. E só consigo suprimir esses pensamentos quando nós dois começamos a discutir sobre trabalho, animados e trocando idéias, o que faz a manhã correr como nunca acontece quando se está trabalhando.
—Já passa do meio dia. – Ela constata ao olhar seu relógio de pulso. Neste exato momento minha barriga se manifesta em um ronco absurdamente alto e embaraçoso. Celine me olha divertida. –Sua barriga podia ter nos avisado alguns minutos antes.
Sinto meu rosto esquentar e ela rir, se levantando enquanto pega a bolsa.
—Onde vai?
—Almoçar, antes que minha barriga decida competir com a sua.
—Podemos almoçar juntos, tenho mais um ponto que gostaria de discutir com você sobre o projeto.
—Por mim tudo bem, mas já aviso que estou querendo algo nada saudável. Provavelmente comerei algum fast food.
—Aposto que comerei um maior. – Ela ri de novo, me fazendo rir com ela e o som de nossas risadas me faz desejar que ela aceite a minha última exigência do projeto. A única exigência egoísta.
O caminho é curto, no fim da rua onde se localiza o prédio há um fast food. Acabamos pedindo o mesmo lanche, com a promessa de que não queremos reacender os tratamentos formais entre nós por motivo de briga relacionada a nossa competitividade – Havia começado a chamá-la de Celine e ela não reclamara nenhuma vez.
—E o que você tinha mais a tratar comigo? – Ela me pergunta, enquanto bebe o resto de seu refrigerante, fazendo o ronco de que a bebida acabou. Isso me fez ficar mais encantado com ela, nunca saíra com uma mulher que tivesse comido tanta porcaria e não tenha reclamado uma única vez sobre o tempo que gastaria malhando depois. Talvez porque não seja um encontro, penso. Mas afasto tudo da minha mente e foco em sua pergunta.
—Eu tenho uma última exigência para implantar o projeto. – Falo, e seus belos olhos se fixam nos meus. – É uma exigência egoísta, porém necessária.
—Prefiro que me fale logo, Richard. Estou ficando ansiosa.
—Quero que você fique aqui em Londres até o programa dar resultado, você o criou, então você deve ficar e guiá-lo. Eu lhe ajudarei, mas quero que você fique.
—Mas eu ficarei, já havia lhe dito que seu pai me deixou encarregada em ficar aqui até...
—Até que eu esteja em grau aceitável. O que não basta para mim. Convenhamos que eu me mostrei ótimo nos últimos dias, você sabe que sou mais que aceitável. Quero que fique, essa é minha exigência. Caso contrário, não vou executar o programa e você terá de ficar por eu não ser mais aceitável.
Ela mantém nossos olhos presos. Vejo algo diferente dentro daquele tom castanho encantador, mas não tenho tempo de observar o que é. Ela pisca, suspira e me olha de novo.
—Eu fico, mas você terá de agüentar minhas reclamações sobre esse clima terrível, sem rebater e sem achar chato.
Sorrio e me sinto vencedor, como se houvesse ganho um prêmio ou uma guerra. Ela resiste, depois retribui o sorriso e percebo que eu realmente ganhei algo, embora não tenha certeza sobre o que seja.
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