Série Detalhes do Amor: A Luz Dos Olhos Teus
4 Capítulo 3
Celine
Saio da empresa dividida entre um sorriso vitorioso, um olhar rancoroso e uma irritação palpável. A vitória foi ter conseguido deixar o jovem Brown sem palavras. O rancor se dá ao fato de como ele me desafiou com as palavras como se me achasse um nada e a irritação continua sendo motivada pelo clima que, ao chegar à calçada, percebo que piorou e que a chuva se encontra mais intensa.
Para meu desespero não há nenhum táxi por perto e decido caminhar em busca de um. Preciso andar uns bons 100 metros até conseguir um, me sentindo aliviada por estar aquecida em fim. O motorista parece não gostar do fato de eu estar relativamente molhada, mas o problema não é meu se ele decidiu trabalhar em um local tão chuvoso.
Fico em silêncio durante a viagem e agradeço pelo taxista se manter assim também. Benditos ingleses, penso. Não gosto quando taxistas tentar manter uma conversa, não tenho problema em conversar, mas detesto fazê-lo quando estou em algum automóvel, me causa enjôo.
Acabo me distraindo no caminho até o hotel e assim que chego ao mesmo corro até meu quarto. Ainda falta algum tempo até o almoço começar a ser servido e um descanso sempre cai bem quando estou estressa. Me jogo na cama fofa e abraço um travesseiro, costume que tenho desde adolescente, só então começo a recapitular o que foi toda aquela breve reunião.
Lembro que na infância algumas vezes brinquei com Richard e os demais irmãos Brown, ele sempre fora bonito, mas agora estava realmente lindo. Os olhos azuis pareciam mais brilhantes e desafiadores, como se me instigassem a falar alguma besteira só para ele poder me contrair, mas também tinham uma sombra sedutora que nunca os deixava.
Afasto aqueles pensamentos quando percebo que estou indo para o caminho errado. Deveria estar pensando em como relatarei essa primeira reunião ao senhor Brown, que espera relatórios semanais. Bufo frustrada, pela primeira vez na vida não sinto vontade de fazer nenhum relatório, estou de péssimo humor.
Após o almoço que faço em meu quarto mesmo, acabo passando o resto do dia dedicada a quase completa inércia em cima da cama, exceto por meus dedos que digitam linha por linha do relatório apenas para depois apagar tudo, insatisfeita com o resultado. Nessas horas gostaria de ser uma pessoa que não se importa com a qualidade de seu serviço.
Quando finalmente o relógio marca onze horas da noite, estou relativamente satisfeita com meu trabalho e decido dormir, não quero chegar na Golden parecendo um zumbi no dia seguinte, tenho uma reputação a zelar.
Pela manhã me permito respirar aliviada, desta vez o dia não está chuvoso e até alguns poucos raios de sol saem pelas nuvens, me sinto mais feliz com isso, tanto que me permito tomar um café da manhã completo e com calma, algo que raramente faço, comer pela manhã nunca me agrada, geralmente me contento com uma barrinha de cereal.
Faço o mesmo percurso do dia anterior, porém dessa vez vou direto aos elevadores assim que chego ao prédio da empresa, mantive a chave comigo, ser da matriz realmente têm vantagens. Carrego também, além de minha bolsa pequena, uma maleta com meu notebook e algumas apostilas que eu mesma elaborei. Sempre fui boa nisso.
Assim que chego ao último andar do prédio Martha sorri para mim, dessa vez um sorriso de verdade, parecendo estar feliz em me ver. Pergunto-me se isso é algum truque do filho do chefe em tentar me amansar e conseguir pontos positivos em meus relatórios. De qualquer forma correspondo ao sorriso, é bom tentar iniciar uma relação amigável com alguém daqui.
—Bom dia, Martha! Como está hoje? – Pergunto.
—Bom dia, senhorita Moreau, estou muito bem. O clima está agradável o que me permitiu vir caminhando, isso me deixa muito satisfeita! E a senhorita, passou bem desde ontem?
—Passei, ontem não havia muito a ser feito, mas hoje o dia será corrido, exatamente como eu gosto. O clima também está me agradando, sinto falta do sol. – Martha solta uma risadinha junto comigo, parece que podemos nos dar bem.
Ouvimos o barulho do elevador e nós duas nos viramos para o mesmo dando de cara com Richard Brown saindo com um café na mão e um olhar calmo, que se torna levemente irritado assim que me olha. Não perco tempo, decido provocá-lo.
—Ora, ora, senhor Brown, está desrespeitando o costume inglês da pontualidade?
—Não que seja da sua conta, senhorita Moreau, mas agora que são 9 horas, no entanto você quem está desrespeitando. – Ponto para ele, penso, enquanto tento manter a expressão neutra. –Bom dia, Martha, meus jornais já estão em minha sala? – Ele pergunta, sorrindo para a senhora. Ele definitivamente fica mais lindo sorrindo, os olhos azuis faíscam em simpatia pela secretária.
—Bom dia, senhor, estão em sua mesa, como sempre. – Ela responde, enquanto para e pega algumas cartas que se encontram dentro um belo pote de vidro na mesa da Martha.
—A senhorita gostaria de café? – Pergunta-me Martha. – Posso providenciar, nunca deixo a disposição na sala do senhor Brown se não ficará sem, ele e seu vício consomem todo café. – A mulher ri e vejo Richard corar, enquanto a repreende com o olhar, mas não vejo um olhar de chefe e subordinado, é um olhar carinhoso, ele parece mesmo se importar com a senhora, talvez mais do que se importa com o próprio pai.
—Eu apreciaria muito uma xícara, Martha. Mas, por favor, me chame de Celine. – Ela apenas assente sorrindo.
—Ótimo que estão amiguinhas, mas se quiser ter algum tempo comigo, Celine, sugiro que me siga logo. –Fala o senhor Brown, interrompendo minha felicidade momentânea. Fecho a cara e começo a seguir ele pelo espaçoso corredor branco com alguns quadros nas paredes.
—O senhor não deveria ser tão mal educado com quem o está avaliando.
—E você sequer deveria estar me avaliando. – Responde, enquanto fecha a porta de sua sala. Reviro os olhos, o que parece diverti-lo. – Assim demonstra que realmente tem maturidade para ocupar a posição em que se encontra, Celine.
Aperto meus olhos em sua direção, sua boca encontra-se curvada em um pequeno sorriso. Irritantemente lindo é o que deveria constar em meu próximo relatório. Obviamente se não fosse meu chefe e pai do ser a minha frente a ler tal relatório.
—Embora seu cérebro não pareça ser desenvolvido o suficiente para acompanhar a grandeza de minha inteligência, sugiro apenas que o senhor não volte a me insultar. – Ele vira as costas e se encaminha até sua cadeira de aparência séria e aconchegante. – E não vamos confundir as coisas, apenas dei a Martha o direito de me chamar por meu primeiro nome, o senhor deve manter a formalidade, portanto é senhorita Moreau para você!
Ele me olha com a expressão fechada, eu poderia ser mais simpática se ele não insistisse em ser tão mal educado comigo, o que sequer faz sentido, já que não consigo imaginar que ele tenha algum problema particular contra mim, considerando o pouco que nos conhecemos. Espero que ele vá me dar alguma resposta a altura, mas sou surpreendida:
—Como queira, senhorita Moreau! Agora chega de perdermos tempo com futilidades, quero ver o trabalho tão importante que tem a me mostrar.
Fico alguns segundos paralisada, até ele pigarrear, então abro a pasta de meu notebook e decido começar o que vem fazer aqui.
—Vou lhe dar um demonstrativo de programas que podem impulsionar o desenvolvimento da empresa, que vem decaindo desde que o senhor a assumiu. –Falo com ar sério e profissional, repetindo quase as mesmas palavras que meu chefe superior disse quando me pediu que aceitasse essa função. – Depois precisaremos agendar uma reunião com os chefes de departamento, a matriz acredita que os programas devem começar a sem implantados o quanto antes.
—Marcaremos a reunião com os outros se eu julgar o programa adequado, senhorita Moreau.
Respiro fundo para não dar outra resposta a ele e decido ignorar sua falta de interesse para com os planos de melhorias à empresa. O senhor Brown me avisou que seu filho seria resistente por várias vezes, mas não pensei que fosse se manter assim ao saber que o programa só melhoraria seu ambiente de trabalho. Acho que eu estava enganada, porém é uma bela oportunidade para testar meus poderes de persuasão- e paciência.
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