Série Detalhes do Amor: A Luz Dos Olhos Teus
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Richard
Assim que abro meus olhos na manhã sinto minha cabeça doer como se fosse estourar. Acabei dormindo no sofá enquanto assistia algo na televisão da sala. Isso era mais freqüente do que eu gostaria. Realmente não lembro a última vez que dormi na minha cama, por sorte o sofá era muito confortável, mas isso não impedia minha coluna de ficar destruída.
Levanto com calma, sentindo meus olhos arderem e meu cérebro se retrair, meus irmãos com certeza diriam que estou sendo exagerado, como sempre faziam na nossa adolescência. Solto um leve sorriso lembrando os velhos tempos. Agora nada mais é leve e bom como naquela época.
Arrasto-me até a cozinha enquanto ligo a cafeteira, não sei viver sem café. Posso passar só com café e coisas com sabor de café: Bolo de café, torta de café, café gelado. Meu lema é: Quanto mais café melhor.
Enquanto o café passa, decido tomar um banho. Faltam 55 minutos para meu horário na empresa e lembro que tenho uma reunião à primeira hora com algum representante da matriz. O velho não me deixará em paz, afinal. Até que a liberdade durou o tempo razoável de quatro anos cuidando da empresa sozinho – Ou fingindo cuidados.
Assim que termino de arrumar a gravata cinza em meu pescoço caminho a passos largos até a cozinha e esvazio a cafeteira, tomando duas xícaras de café e correndo até o carro em seguida. Por mais que a empresa tenha motorista a minha disponibilidade, dirigir é algo de que não abro mão.
Estaciono no subsolo da Golden faltando 15 minutos para o início da reunião, perfeito, se tem um costume inglês que prezo é a pontualidade. Subo pelo elevador privativo até o andar da presidência. Dona Martha, minha secretária desde que cheguei aqui, me da um pequeno sorriso:
—Bom dia, senhor Richard!
—Bom dia, Martha! – Respondo sem parar meu caminho.
—Apenas relembrando, senhor, que dentro de alguns minutos terá reunião com a representante da matriz.
—Estarei pronto! — Aviso, entrando em minha sala.
Uma das coisas que mais amo em ter poder e dinheiro é, sem dúvidas, a minha sala. A vista é maravilhosa, o espaço é amplo, os móveis em tons sóbrios como eu gosto e algumas plantas verdes espalhadas estrategicamente. Por mais que eu passe boa parte do meu tempo em uma “selva de pedra”, amo o campo e a natureza, sempre que possível gosto de ir ao interior.
Assim que termino de ligar o computador e abrir um dos programas de relatório da empresa, para caso se faça necessário tomar notas da reunião, recebo um “s.o.s” na tela do mesmo. Sorrio. Esse é sempre o modo que Martha usa para me avisar que alguém com quem tenho compromisso me aguarda. Assim como eu mando isso para ela quando quero que ela me chame para algum falso compromisso para acabar com alguma reunião entediante.
Olho o relógio e me surpreendo em ver que são 9 horas em ponto, o que significa que o representante é extremamente pontual. Claro que seria, está aqui a mando do velho para me julgar, penso com ironia.
Dou um toque para a recepção e aviso que Martha pode pedir para que entrem, estou pronto. Organizo alguns papeis em cima da mesa de modo que fiquem empilhados e retos, acho que todo mundo tem direito a sofrer de um pouco de TOC nesta vida. Assim que pego meu celular para conferir uma mensagem recebida, Martha abre a porta:
—A senhorita Moreau, senhor, representante da matriz da Golden.
Martha se afasta e dá passagem a uma das mulheres mais bonitas que já vi na vida, e eu nem sei justificar exatamente porque, afinal ela não tem nada de extraordinário. Cabelo castanho meio úmido provavelmente por nossas condições climáticas, lábios cheios, sobrancelha delicada e não muito marcada, ao contrário da maioria das mulheres, e olhos castanhos bem arredondados.
Minha analise da senhorita à minha frente leva menos de 2 segundos e percebo que ela também me analisa. Até que me estende a mão e diz:
—Olá senhor Brown, é um prazer conhecê-lo!
Seria apenas uma frase normal, mas não. Ela da um leve sorriso, sem nem mostrar os dentes, mas que é o suficiente para que seus olhos se fechem de leve e brilhem como nunca vi olhos brilharem. Naquele momento dou para trás, ao perceber que ela tinha sim algo de extraordinário. Aqueles olhos...sinto que poderiam aquecer e iluminar o mais sombrio e nublado dos dias. Nem o clima cinzento de Londres poderia vencê-los.
—Olá, senhorita Moreau! – Saúdo, devolvendo seu aperto de mãos, ainda admirando aquele brilho, que diminui um pouco assim que ela para de sorrir. Sinto-me levemente constrangido comigo mesmo, me sinto um poeta falido. Desde quando fico olhando o brilho dos olhos de uma mulher sem nem ter analisado o corpo? Me repreendo mentalmente ao perceber o quão machista isso soa e decido voltar a me sentar, para poder focar em outra coisa.
—O senhor tem uma bela sala. –Ela fala, me sinto orgulhoso.
—Obrigado! –Agradeço, sem saber o que mais posso falar. Lembro que ela é a babá que meu pai mandou, ou professora, não sei muito bem qual será a função dela para comigo, mas não pretendo me mostrar educado, quero que meu pai receba o relatório de que não ligo a mínima para tudo isso. –Você me parece jovem para ser representante da Golden, ainda mais da matriz.
A minha expectativa era de que ela se ofendesse com o comentário, ao invés disso, ela me dá um sorriso, dessa vez mostrando os dentes que são levemente maiores na frente e que, por mais estranho que pareça, contribuem para seu charme.
—Eu sei, o senhor Brown sempre me incentivou a dar o melhor de mim, acabei aprendendo e hoje sou a melhor no que faço.
A resposta dela não é o esperado. Primeiro porque ela não é uma dessas pessoas dadas a falsa modéstia, o que admiro, segundo porque ela fala de meu pai com admiração, o que me faz fechar a cara. Óbvio que ele mandaria uma boneca dele fazer o trabalho.
—Meus parabéns! – falo contra a vontade. – Mas estamos aqui para tratar de negócios, então suponho que queira começar, já que temos apenas uma hora para tratar de tudo. – Sou objetivo, embora minha manhã esteja livre não pretendo agüentar alguém da matriz por muito tempo, por mais bonita que seja.
—Uma hora? – Ela pergunta, com um sorriso de lado. Não entendo. –O senhor Brown me avisou que o senhor era escorregadio, mas não pensei que fosse tanto.
Dou de ombros, não gosto de opinião alguma que meu pai tenha sobre mim, mesmo que esteja certo. Ele perdeu o direito de opinar há alguns anos.
—Sei que ficaria feliz em se livrar de mim em uma hora, entretanto devo avisar que não tenho data para retorno. O senhor Brown me deixou encarregada de cuidar de tudo por aqui até que o senhor esteja no grau que ele considere como aceitável.
Meus olhos se arregalam levemente. Não creio que o velho chegou a esse ponto. Manipulador. Desgraçado. Tento manter minhas expressões neutras por mais difícil que seja.
—Então meu pai acha que preciso de uma babá? – Pergunto, tentando controlar a voz. Ela revira os olhos.
—Seu pai quer apenas o bem desta empresa. E acredite, gosto de estar aqui tanto quanto você gosta de me ter aqui, este clima acaba com meu bom humor. Por isso aviso que amanhã, às 9 horas, estarei aqui com algumas metas que eu e o senhor Brown elaboramos, e espero ser devidamente recebida. – Ela termina de falar e se levanta.
—Sou eu quem controla esta filial, e não tenho interesse nenhum em suas metas! –Afirmo, um pouco alterado.
—Se o senhor controlasse melhor esta filiar, senhor Brown, não precisaria das minhas metas.
Dito isso, ela sai da minha sala, fechando a porta em seguida. Como se pudesse ser superior a mim. Mas meu pai e sua mandada não perdem por esperar.
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